Os livros da EDITORIAL 100


Título: Poentropia   -     Autor: Alves Bento Belisário


       

 


Alves Bento Belisário é pseudónimo de Manuel Joaquim Moreira Bento. Nascido 18 de Janeiro de 1969, na Freguesia de Medas, Concelho de Gondomar, Manuel Joaquim Moreira Bento é Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2005 publicou, em Edição de Autor, o seu primeiro livro de poesia, Inquietudes. Em 2007 participou na Antologia Poética Amante das Leituras (Edium Editores). Tem publicação de Poesia on-line nas seguintes páginas de Literatura digitais: Revista Inefável, Lista Encontro de Escritas, Lista Amante das Leituras, Gaveta dos Poetas (Elefante-Editores). É também autor dos Blogues Correntes de Poentropia, Outros (A)Correntares, Farpas de Terras de Gondomar.


Poemas - ISBN: 978-972-8843-63-2  -     Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2008 68 p.  Preço com IVA: 12.60 €


Excertos do livro Poentropia


Prefácio - Henrique Dória


A ENTROPIA POÉTICA DE ALVES BENTO BELISÁRIO

 

No princípio era o caos e no fim será o caos. É o caos final que nos assegura a segunda lei da termodinâmica no enunciado de Clausius/Carnot: o universo tende para estados cada vez mais caóticos pois em cada movimento há uma perda de calor. E, mesmo que nada seja feito, a desordem instala-se em cada lugar. Porque até o quarto fechado depois da morte de quem amámos se desorganiza a ponto de se tornar inabitável.

O judeu Jeremias disse isto mesmo em palavras poéticas e proféticas: “Olhei para a terra e tudo estava informe e deserto. Olhei para os céus, e tudo eram trevas.” (Jeremias, 4,23).

É este princípio simultaneamente físico e filosófico que está presente neste livro de Alves Bento Belisário, poeta para quem a formação filosófica é a raiz da poesia.

Para a psicanálise moderna, o caos significa a derrota do espírito humano perante o mistério da existência.

Na filosofia de Martin Heidegger, um nazi conscientemente influenciado pela ciência obscura do judeu Sigmund Freud, a morte é o destino de tudo. E o homem é um ser para a morte. Porque ser é tempo.

Também assim é para o filósofo e poeta Alves Bento Belisário (a propósito, teria ele pensado na proximidade da sua poesia ao filósofo que o seu nome sugere, o judeu português Bento de Espinosa?). No poema final do seu livro POENTROPIA escreve Alves Bento Belisário:

“…

Mas ser é ser tempo

E perder-se a cada momento

E o tempo é contínuo morrer.

Grãos de areia em contínuo discorrer

Gastando-se na ampulheta fria e demais

Feia que a perpétua sepultura

Do tempo perde e descura

No frágil movimento pla estrada escura:

Nada perdura se a ampulheta nada segura.”

Mas Alves Bento Belisário não é apenas filho do tempo. Ele é também filho deste tempo amaldiçoado que corrói o homem, que o torna exilado num mundo em que tudo gira à volta do nada, isto é, tudo gira à volta do dinheiro e do poder, onde a pele se transforma em papel moeda. Um tempo que torna o poeta em exilado dentro da própria casa, ao ponto de escrever:

“Doem-me os mil lares sonhados…O sangue de todos é meu passo…”

Sim, o sangue está sob os nossos passos em volta, como disse Herberto Hélder como está sob os passos dos prisioneiros desesperados de Vincent Van Gogh. E nem ao menos nos é dado morrer depressa. Morremos demoradamente, como as estrelas de que falava Thomas Hardy, ou como “…os pulsares que não usam palavras ou voz…”

            A poesia de Alves Bento Belisário é a poesia da solidão e do sofrimento. De alguém que chegou demasiado cedo e demasiado tarde a este mundo estranho e absurdo. Houve alguém (o filomarxista Marcuse) que disse que a sociedade humana era a antientropia. Mas o optimismo de Marcuse está no pólo oposto da poesia de Alves Bento Belisário: não é só o homem que morre, não são só as estrelas que morrem. Para Alves Bento Belisário esta humanidade está a morrer.

            A poesia de Alves Bento Belisário é tributária da filosofia. Mas também o é da poesia de alma portuguesa que vai de António Nobre a Gomes Leal, até Manuel de Castro e António Gancho, tão pouco conhecidos.

            Para quem ler estes poemas de Alves Bento Belisário, os seus passos sobre o sangue estão a desembocar numa poesia que deve ser lida com muita atenção. Porque esse sangue é feito de saber e sofrimento, como o é o sangue profundamente português.


2 poemas de Poentropia


 

Tenho-me cobardemente esquecido…

Toda a afectividade começa e acaba

Nos muros da nossa própria pele;

A ponte que vai de mim até ao outro

Tem a medida desmedida do infinito.

O outro é tão só e sempre um outro não eu…

Circuncisão e pretérito mais que imperfeito…

Se vivo vivo todo e sempre cada dia

Que passa à sombra de janela fechada

Agrilhoado ao sangue que carrego dentro

Das minhas próprias e solitárias veias.

Antinomia… corda de ligação… máscara de toque de mão…

Embarque num sol de asa em cadente balancé

Entre esta inexorável condição de só

E estes ossos encharcados de solidão própria.

Cobardemente me tenho esquecido…

 

2006 Maio


 

 

A partitura do tempo é composta

De figuras de liberdade estreita.

Ser-se é ter-se da placenta ao último respirar que deita

A solidão como única verdade e resposta.

 

É trazer nas veias o mais solitário dos ingredientes

E percorrer os dias com pés descalços sobre um anoitecer

Que é a luz que nos deixa olhar e ver

A frágil disposição das coisas e das gentes.

Julho 2005


Conteúdo de Poentropia

A ENTROPIA POÉTICA DE ALVES BENTO BELISÁRIO 5

Por detrás 13

O sol 15

Trago um enxame 17

As lágrimas 19

Hálito ressequido 21

Doem-me os mil lares sonhados 23

Tenho-me cobardemente esquecido 25

Nada menos que coisa alguma 27

As labaredas de um beijo 29

Nasci só… bolorento 31

Se calhar poeta não sou 33

Estou e sei-me só e longe 35

No portal do viver 37

Passo descarnado e desnudo 39

Morre-se demoradamente 41

Os minutos em linha 43

Qual a vantagem de ser artesão das letras 45

Aquém e além do mar sem fundo 47

A vida 49

A partitura do tempo é composta 51

Quero hoje querer sonhar 53

Olho-me e sei-me rio e fonte 55

Segue o dia pintado em tons de Agosto 57

Amo as formas despidas de uns seios em flor 59

Esqueci lugares no mundo 61

De que vale o sonhar 63

Um sonho de ser 65

 


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