Os livros da EDITORIAL 100
Título: O Segredo e O Mar - Autor: Francisco José Santos
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Parte I do
Audiovisual sobre Francisco José Santos
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Parte II do
Audiovisual sobre Francisco José Santos
Francisco José Santos - O Segredo e o Mar - ISBN: 978-972-8843-85-4 - Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2009. 344 p. Preço com IVA: 15,75 €
O Segredo e o Mar é um romance onde se guardam vários segredos, com muito receio. Pela falta de comunicação sofre-se em silêncio, a imaginar histórias que aumentam a dor. Viajemos pelas peripécias dos personagens num universo intensamente sentimental cheio de suspense e de surpresas. Muita acção e diálogos sucessivos enriquecem o plano psicológico deste romance, fácil de cativar o interesse dos leitores. O prazer de narrar de Francisco Santos torna-se de imediato no prazer de uma boa leitura.
Meus pais deram-me o nome de Francisco José: Francisco do meu avô materno; José do meu avô paterno. Era domingo, dia 3 de Abril de 1960. Cerca das 13 horas desse dia, eu vi a luz do mundo pela primeira vez. Nasci numa casa humilde na freguesia de Pedroso do Concelho de Vila Nova de Gaia. Filho de gente pobre, onde o meu pai teve necessidade de emigrar para França na década dos anos 60 a fim de melhorar a sua vida financeira e familiar. Durante seis anos, eu cresci educado apenas pela minha mãe.
Em criança, fui um miúdo muito reservado, de poucas falas. Costumo dizer que, falava mais com o pensamento do que propriamente com a voz. Certo dia, pus-me a observar duas pessoas que dialogavam entre si, e pensei: «O que tinham elas tanto para dizerem uma à outra, que não se cansavam de falar?!...» Achei que falar assim, seria difícil. Eu gostava mais de falar no meu imaginário e, tudo o que observava em meu redor servia para criar sonhos… Na fase da minha adolescência, comecei a interessar-me por livros, criando assim hábitos de leitura, até este se ter tornado um vício - lia sempre até altas horas da madrugada. Recordo que fiquei fã do escritor Júlio Dinis. Foi no tipo de romance que ele escrevia, que eu mais tarde, apenas com dezassete anos de idade, escrevi o meu primeiro romance que intitulei de «Eiró». Paralelamente à prosa, também a poesia brotou dentro de mim que, associada ao romantismo da juventude jorrava como uma necessidade do sentimento, apoiada numa força «quase divinal». Foi no serviço militar obrigatório que, como membro da Polícia Aérea durante um período de dois anos, essa veia poética mais se manifestou, derivada à ausência diária de familiares e amigos, para além de que sendo um pacifista, as armas nada significavam para mim, daí nascer um sentimento de revolta que explodia em poesia.
Estudei até ao Curso Complementar dos Liceus. Porém em 1979, ingresso na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia como administrativo, uma vez que os recursos familiares eram escassos e não permitia que continuasse os estudos apenas com o parco rendimento familiar. Aos quarenta e oito anos, ingresso no ensino superior, onde presentemente estudo na Universidade Aberta, no curso Estudos Portugueses e Lusófonos. Para além da escrita, a informática sempre me fascinou, foi então que, resolvi tirar um curso técnico na área de informática, possibilitando assim o meu ingresso na carreira profissional de informática. Tendo casado em 1985 com Marina Moreira, nasceu dessa união um único filho Rui Pedro. As responsabilidades profissionais e familiares fizeram-me esquecer por longos anos a escrita e a poesia, embora por diversas vezes surgisse inspiração e vontade de escrever, que depressa se esfumava. Foi através de uma conversa de mensagens na Internet com uma amiga, que depois de lhe ter confessado que gostava de recomeçar a escrever ela me desafiou, dizendo: «A minha vida daria um livro». Peguei nessa pequena frase e construí uma história com diversas personagens que passaram a viver por algum tempo no meu imaginário. Assim nasceu este livro com o apoio incondicional de uma amiga, Sofia Soares.
Os 2 primeiros capítulos de:
O Segredo e o Mar de Francisco José SantosI
Carlos acordou de um sono pesado. Ergueu-se ligeiramente da cama, olhou para o seu lado esquerdo onde dormitava a sua mulher Marta. Como era bonita!
Marta tinha um respirar ofegante. Ela andava doente. Uma depressão bastante acentuada tomava conta da sua saúde.
Carlos e Marta tinham-se casado há apenas dois meses. Ele começava a sentir algo de desagradável, pois sentia que a felicidade aos poucos e poucos lhe fugia.
Foi até à janela da sala de jantar, abriu-a e respirou profundamente o ar fresco. Sentiu que a natureza lhe falava, mas sentiu também duas lágrimas que lhe saltaram dos olhos e lhe escorriam pela face.
- Porque sou tão infeliz?!... – Pensou.
Enquanto se barbeava, sentiu que Marta se levantava. Depois, sentiu que ela o abraçava pelas costas, a soluçar.
- Então que se passa? – Perguntou Carlos virando-se para Marta. Meigamente, limpou-lhe com o polegar o rosto húmido de choro. – Vá lá…então! Coragem…
- Eu tenho medo, muito medo… – Disse Marta soluçando cada vez mais. – Sei que sou infeliz e estou a pôr-te também infeliz. Por favor, desiste de mim. Divorcia-te de mim... És bom e dócil demais. Eu não presto. Vai e sê feliz...
Carlos sentiu um aperto no coração. Não podia ser verdade o que Marta lhe estava a pedir. Casados há tão poucos meses… Como podia tudo isto estar-lhe a acontecer?
Carlos viveu tempos conjugais difíceis. Um dia de casamento muito feliz, mas todos os outros dias que se seguiram, foram de angústia e desilusão.
A partir de certo dia e depois de andar por muitos médicos, a angústia foi-se desvanecendo e o sol da felicidade e da alegria começou a entrar de novo na alma de Marta ao fim de algum tempo de dolência. O seu rosto, já radiava luz de jovialidade e um dia disse com medo, mas de sorriso malandro:
- Sabes uma coisa? Acho que estou grávida.
Carlos sentiu como se um raio o fulminasse de alegria. Ia ser pai. Tinha que ser um rapaz.
- Sou a pessoa mais feliz do universo. – Ergueu os olhos ao céu e murmurou: - Obrigado meu Deus!
- Sabes, fiz o teste de gravidez que comprei na farmácia e deu positivo. Amanhã, vou marcar consulta no médico. – Marta sentia-se radiante. Até parecia que já sentia o bebé dentro de si.
Os dias passaram-se e Marta depois de ter confirmado a gravidez, começou a ver a barriguinha crescer cada vez mais. Sentia-se diferente. Algo a estava a transformar e por todo o seu corpo e alma, brotava jorros de felicidade. Agora sentia-se outra mulher.
Carlos sempre sentiu que ia ser pai de um rapaz.
- Sabes Marta, gostava que o nosso filho se chamasse João. Que achas?
- É bonito. – Disse ela esfregando a barriguita já um pouco volumosa. – Também gosto. Mas, se for rapariga?
- Se for rapariga… – pensou esfregando a mão esquerda na barba do seu queixo – talvez Joana ou Inês.
Assim foram conversando durante a noite enquanto o sono tomava conta deles. Por fim, adormeceram vencidos pelo cansaço.
Carlos pousou a mão na barriguita de Marta e sentiu que João se mexeu.
Os meses foram-se passando. Marta sentia a barriga cada vez mais pesada. Até que um dia de manhã, resolveu ir à consulta do médico e da parteira, pois andava a sentir-se esquisita.
Carlos tinha ido trabalhar. Nesse dia, ele programava numa nova aplicação informática quando o telefone tocou.
- Estou. Sim? …Olá Marta… então? – Perguntou ele.
- Sabes, acho que vou ficar internada para ter o bebé. – Respondeu ela com a voz um pouco embargada de emoção e medo. - Vou precisar que me tragas as malas com as minhas roupas e as do bebé.
- Já?! É hoje que vai nascer?! – Perguntou Carlos admirado e um pouco nervoso. – Ok! Vou já tratar disso.
Saiu a correr do local de trabalho. Pelos corredores os colegas iam-no felicitando com palmadinhas nas costas.
Quando chegou a casa, ficou aterrorizado, pois não sabia onde Marta tinha colocado a roupinha do bebé, mas quando menos esperava viu no quarto do bebé uma mala.
Ufa! … – Desabafou limpando a fronte da face já muito transpirada – Afinal, ela já tinha tudo preparado.
Pegou na mala e foi para a ordem hospitalar. Estava quase na hora de ponta e o trânsito já se avolumava.
Por entre muitas gincanas automobilísticas, lá conseguiu entrar na ordem hospitalar, pois faltava apenas, um quarto para as dezoito horas.
Assim que chegou ao quarto, Marta já estava deitada na maca para ir para sala de operações. O malandreco do João, resolveu encaixar-se no útero da mãe e por isso, teria de ser feita uma cesariana.
Carlos apertou a mão de Marta e dando-lhe um beijo, desejou-lhe muita sorte.
Marta entrou de maca no elevador acompanhada das enfermeiras. Quando as portas se fecharam, Carlos sentiu um nó na garganta, pois estava muito nervoso.
Passavam poucos minutos das dezoito horas e trinta quando a parteira, senhora dos seus sessenta e poucos anos, cabelo encarapinhado e mestiça, muito meiga, trazia ao colo um bebé embrulhado numa mantinha azul claro.
-Pai! – Chamou a parteira em tom de brincadeira. - Venha aqui ver este rapaz bonitão.
Carlos assim que ouviu o apelo da parteira correu na direcção dela.
- Veja lá esta beleza! – Dizia a parteira. – Dê um beijinho que ele gosta.
- Oh! … Que giro! … Estou fascinado! … - Exclama Carlos.
Subiram para o quarto e os três começaram a partir daquele dia a ser uma nova família.
*
Passaram muitos anos e esta família continua ainda unida. João já é jovem universitário. Carlos e Marta já quarentões ainda partilham amor, muito amor. No entanto, algo de inesperado se vai passar na vida deste casal. Costuma-se dizer que Deus põe à prova o Amor. Será que é isso que vai acontecer?
Nada acontece por acaso.
II
Carlos subira às águas furtadas, onde possui a sua sala de biblioteca e estudo. Sentou-se junto à secretária, feita de madeira de cerejeira e de linhas fluidas e modernas. Abriu a primeira gaveta do lado esquerdo e retirou de lá, um maço de cartas já antigas.
- Que saudades! … Bons tempos! … – Murmurou em silêncio.
Abriu a primeira carta. Reconheceu a letra. Era a carta da Marília e leu-a:
«Chaves 17 – 5 – 1982
Querido amigo
Em primeiro lugar desejo que te encontres de boa e perfeita saúde que eu de momento fico normal.
Bom Carlos, desde já te peço desculpa pela estética do papel, mas a razão foi simples, tinha vontade de te escrever e como este foi um dos momentos disponível, aproveitei o fazer, sem ter papel apropriado mas acho que o resultado é o mesmo, não é assim?
Então a tua vida tem corrido bem?
Fiquei muito contente quando te encontrei no Porto. Tenho lá ido muitas vezes e nunca mais te consegui encontrar. Foi pena ser pouco o tempo senão muito teríamos a conversar. Se tu me consideras amiga e achas que o mereço, deixa-me dizer-te que também te considero como um grande amigo. Com toda a franqueza e sinceridade, acho que foi das poucas pessoas daí que me deixaram saudades e era das pessoas que às vezes me lembrava e perguntava para mim mesma, onde estará, que será feito dele? Mas agora foi bom a gente ter-se encontrado para assim continuarmos a ser bons amigos, se assim o desejares.
Logo que tu saias da tropa tenho um convite a fazer-te e tu já sabes qual é. Vê se pensas nisso. Eu espero que vás gostar de dar por aqui umas voltas. Bem por agora despeço-me enviando-te um beijo com muito carinho da grande amiga Marília.
Está na hora de ir trabalhar. Escreve e conta coisas novas. Adeus.»
Carlos encostou-se na cadeira, fixou o olhar no horizonte e ficou a pensar em Marília.
Marília mulher dos seus 23 anos, alta, corpo perfeito, cabelo escuro, transmontana, olhos azuis que pareciam duas enormes safiras, meiga e muito amorosa.
- Que será feito dela?!... Interrogava-se Carlos.
Sentiu vontade de lhe escrever, mas não sabia como a encontrar, por isso, colocou a carta de lado e pegou novamente no maço de cartas e viu muitas cartas da Marlene, aquela brasileira com quem se correspondeu muito tempo. Que bonita ela era! Abriu a primeira carta que vinha vincada de uma forma especial:
«Itabuna 11/01/1979
Caro amigo
Aí vai o meu relatório, chamo-me Marlene, mas prefiro que me chamem de Má. Faço o 2º ano científico, estou prestes a entrar para a Faculdade, tenho 18 anos, sou filha de um industrial, sou gémea, adoro esportes, sou muito comunicativa e adoro ter amigos (as) leais.
Moro aqui em Itabuna, uma cidade do interior, cuja economia é o cacau, o principal produto de toda a região. A minha cidade não é uma simples cidade do interior, é grande e muito desenvolvida onde contribui em massa para o desenvolvimento do Brasil, pois no ano passado o Brasil foi o maior exportador de cacau.
Saindo deste assunto e falando em você fiquei muito surpresa de receber a sua carta, juro que não esperava.
Sabe Carlos, você se aborreceria se eu lhe chamasse de Karl. Pois acho mais bonitinho e se encaixava com o seu corpo físico. Não me pergunte porquê, pois me veio na cabeça agora.
Eu tenho um afilhado chamado de Carlos e eu o chamo de Karl, é mais carinhoso, você não acha? Caso não goste eu posso mudá-lo.
Karl, o Brasil é um país maravilhoso, tem de tudo, o sol aqui no nordeste é lindo, nesta época então é bom de se pegar uma praia e uma piscina. Amanhã mesmo eu vou pegar uma praia para pegar um bronzeado melhor.
Sobre as noites, tem muito o que se fazer principalmente nas capitais.
Eu adoro Salvador, quase todas as minhas férias, eu dou um pulinho lá.
Se um dia, você vinher aqui no Brasil vamos nos divertir bem e garanto que você vai adorar o Brasil.
Dizem que as Baianas são um encanto, acho que é por causa do seu bronzeado e por serem bem simpáticas e alegres.
E as meninas daí, como são? São do modo das antigas? Ou modernas? São preconceituosas ou feministas?
Aqui tem de tudo. Nas capitais do Sul elas são mais feministas, mas aqui do Nordeste são mais ou menos. Eu em particular acho que a mulher já conseguiu muito nessa década de 70, onde teve até o ano internacional da mulher decretado pela ONU.
Você pelo retrato é muito simpático, vamos falar a verdade parece ser bonitinho, espero que não fique convencido. Ás vezes é melhor ser simpático do que bonito. É claro que quando não sabe despertá-lo de beleza ela se torna horrível.
Sabe eu também trabalho, sou secretária do meu pai, pois ele tem uma fábrica de café, então eu trabalho um turno e estudo outro.
Acho a sua futura carreira muito bonita, acho muito importante, pois ela salva muitas pessoas, e às vezes até destrói por um certo erro.
Bom, vou acabando, pois o papel já está no fim. Espero de todo o coração que essa nossa amizade dure para sempre. Desculpe por escrever nessa folha, pois é da fábrica, mas é grande e só assim eu posso escrever.
Karl, eu espero, que não me ache tagarela demais.
Um beijo da sua amiga Má.»
Carlos pousou esta carta e com saudades abriu outra e pôs--se a ler, nela vinha junto um horóscopo que dizia na parte final:.. «O Amor é uma conquista diária que se exige empenho e dedicação». Abriu a carta que dizia:
«Itabuna 5/2/1980
Querido Carlos
Aqui as coisas não estão indo muito boas, pois além de estarmos em pleno Verão a chuva está ameaçando a ter uma enchente, o rio já está rente à ponte, a estrada de Ilhéus – Itabuna está interdita, sem falar nas outras estradas, a coisa está ficando realmente feia. Vai para mais de 10 anos que não temos enchente, o rio só faz prometer, agora a tarde que o sol está no céu, mais mesmo assim promete chuva. Estamos amedrontados porque mesmo no Inverno não há quase chuva, quase não temos Inverno.
Mais saindo deste assunto, Karl, é assim que eu lhe chamarei de hoje em diante, um apelido só para você, mais carinhoso, a não ser que você não goste. Mas não era isso que ia falar.
Sabe Karl eu conto os dias para receber a sua carta, e quando chega quero logo responder a sua carta, mais não faço, com medo de você não gostar ou simplesmente cansar das minhas cartas, mesmo assim sei que aí a carta é muito cara, aqui também é, mas não importo com isso.
Karl, espero que você nunca se canse de responder às minhas cartas, nem de mim, pois eu gosto muito de você, sei quando devo confiar numa pessoa, e espero nunca decepciona-lo.
Sabe Karl, eu adorei seu soneto, amei, é muito lindo, todos os dias leio e releio, já sei até de cor, é o primeiro que eu recebo em toda a minha vida, acho que nem se fosse de algum autor famoso eu gostaria mais, o seu é mais bonito. Ele não me ofendeu, ao contrário, me deu mais alegria e espero que tenha sido escrito com todo o coração e sentimento.
O fim de 1979 foi muito bom, lógico que em algumas coisas, como por exemplo a chegada de minha sobrinha Lilian, a entrada de minhas duas irmans na Faculdade, minha irman se casou, e minha família parece mais unida. E agora a coisa mais importante do início do ano de 1980, vocé.
Você não sabe como eu gostaria de conhecer Portugal, agora é que eu quero conhece-lo mesmo, por você e por Portugal que deve ser um país lindo. Tenho muita ansiedade de conhecê-lo pessoalmente, de falar com você, brincar, sorrir, passear, enfim nos divertirmos muito.
Agora vem uma notícia que é muito importante para mim, e espero que você goste, eu fiz um teste no Banco Real e acho que passei, vou receber a resposta hoje, se eu passar acho que dentro em breve estarei aí com você.
…
… Passei no concurso.
Um grande beijo de Má.»
Abriu outra carta e cada vez mais eram carregadas de romantismo e amor. Carlos começou a ficar entusiasmado e murmurou entre dentes:
- Porque é que só agora dou valor a estas lindas cartas…
Pensou, pensou, mas teve receio do seu pensamento, no fundo, agora estava casado, pai de um filho, uma mulher adorável, mas algo batia dentro do seu peito sempre que lia estas cartas.
Abriu uma carta. Ao lê-la, esta deixou-o mais jovem, com vontade de viver novamente os vinte anos.
- Será que ela ainda se lembra de mim? Estará ainda neste mundo? Será feliz?!... – Murmurou. A vontade de iniciar investigações, foi crescendo no seu pensamento.
Foi lendo mais cartas e foi retendo alguns parágrafos mais interessantes:
«…Estou muito feliz por ter recebido sua carta…
… Fico feliz por você ter sido eleito o filósofo e psicólogo da classe, meus parabéns»
É verdade! Carlos já nem se lembrava que tinha sido o melhor aluno num teste de filosofia em que resolveu contestar Karl Jaspers, na teoria da existência. Sorri de felicidade.
Já era madrugada. Carlos pousou o maço de cartas cuidadosamente na última gaveta da secretária e foi-se deitar.
Assim que chegou ao quarto, olhou para a Marta; esta já dormia profundamente. Apesar de não ser uma jovem, ela ainda continuava bela.
Entrevista a Francisco José Santos a propósito da publicação do seu livro O Segredo e o Mar, pela Editorial 100
1) Construir um romance. Origem, fontes e recursos.
Construir um romance era um desejo que há muito tempo residia no meu pensamento. Esse desejo revelou-se ainda na adolescência quando pela primeira vez escrevi um simples romance chamado de “Eiró” – diria que foi uma espécie de ensaio.
Escrever um romance, é como se estivesse a viver por algum tempo outra vida, ou seja, passa-se a viver um mundo ficcionado, paralelo à vida real: umas vezes como escritor; outras vezes encarnando qualquer uma das personagens.
A relação entre escritor e personagem, por vezes, é conflituosa porque o escritor cria o romance baseando-se em factos que viveu ou conheceu no seu mundo real, ao passo que, a personagem tendo adquirido vida própria no romance, tem tendência a seguir um destino por vezes desconhecido e contraditório. É então que, nesses momentos, o escritor sente que o seu romance tem alma, deixando-se conduzir pela fluidez da escrita.
Este romance, embora baseado na ficção, tem por base pequenas histórias, locais e experiências que um certo dia ouvi de alguém, e que me sensibilizou, a ponto de agrupar essas vivências numa história – como se fosse a construção de um puzzle. As nossas sensibilidades, gostos, desânimos e outros, são projetados nas personagens que vamos criando ao longo da história do romance.
2) O processo de dar por concluído a elaboração/escrita dum romance
Não é fácil dar por concluído a elaboração dum romance. Por vezes surgem conflitos entre escritor e personagens do livro, que poderá dificultar ou condicionar a finalização do romance.
Sempre me deixei conduzir pelo enredo. Eu não sou apenas o escritor que escreve o enredo, mas envolvo-me na história, fazendo parte dela ao sabor do destino que as personagens vão criando. Por isso, sempre que revejo a história do romance, o enredo e o seu final ficam alterados. Eu, muitas das vezes, fico surpreendido com o desempenho de algumas personagens que determinam o final da história. É lógico, que o escritor, como “ser superior,” ou uma espécie de “Deus menor”, tem sempre o dom de determinar o fim do enredo, quando acha que a mensagem que quis transmitir ficou consolidada.
3) Breve biografia. Ressaltar situações que estimularam a escrita.
Nasci no ano de 1960, num domingo primaveril, na freguesia de Pedroso. Até aos meus nove anos fui criado apenas pela minha mãe – meu pai foi emigrante em França até 1970.
Em pequeno, muito antes de ingressar na escola, minha mãe teve a preocupação de me ensinar a ler e a escrever e cedo comecei a ler o jornal que meu avô materno comprava aos domingos.
A experiência escolar foi sucedendo e quando já lia alguns livros, primeiro os de aventuras escritos pela Enid Blyton, depois os grandes romances de grandes escritores portugueses como Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco entre outros. Porém, foi com o escritor Júlio Dinis, e depois de ter participado num trabalho escolar sobre aquele escritor, que senti necessidade de escrever como ele. Daí que, com dezassete anos, ter escrito o meu primeiro romance que o intitulei de “Eiró” – uma história simples, engraçada de peripécias bucólicas.
Depois de uma fase que dediquei a escrever poesia, seguiu-se um longo período de vinte anos de abstenção total de escrita, condicionada por diversos factores pessoais e familiares.
Comecei a minha vida profissional na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia com 19 anos, onde desempenhei funções de administrativo durante alguns anos até que a informática mexeu novamente com a minha carreira profissional e depois de ter tirado um curso técnico nessa área, as funções que até então desempenhava passaram a ser da área de informática, até aos dias de hoje.
Foi numa conversa do Messenger tida com uma determinada pessoa, que a vontade de recomeçar novamente a escrever surgiu. Essa mulher, indirectamente e sem que se tenha apercebido de tal, ao afirmar “A história da minha vida daria um livro”, fez com que eu iniciasse a escrita deste romance.
Foi um longo período de sonhos e vivências que aconteceram durante a escrita deste romance, que jamais esquecerei.
Escrever para mim, tornou-se numa necessidade sentimental; preciso de viver uma segunda vida virtual em paralelo com a vida real; ter a necessidade de transmitir a alguém os meus sonhos – sim, porque escrever um romance é um grito de alerta para a necessidade de tentar tornar reais os meus sonhos.
4) Experiência nas leituras
Gosto de ler bons livros. A literatura portuguesa sempre me fascinou em detrimento de escritores estrangeiros. Ultimamente, o chamado romance histórico, tem sido o preferido e o mais lido.
O gosto pela leitura diria que, quase nasceu comigo. Lembro-me, na fase da minha adolescência e juventude, ter perdido noites inteiras a “devorar” livros. Ainda hoje, não consigo adormecer, sem que nesse dia, tenha lido algumas páginas do livro que repousa na mesinha de cabeceira – é como se fosse uma necessidade vital.
5) Ser e escrever. Tomar em sério a atividade de escrever.
Sempre tive um sonho na minha vida – ser escritor. Mas para o ser, tinha que saber o que deveria escrever. Daí a pergunta: Que vontade nasceu primeiro - a vontade de ser escritor, ou a de escrever?
Primeiro nasceu a ideia, a vontade de querer contar uma história. Mas ter ideias, muitas ideias, sem saber como as transmitir pela escrita, torna-se inútil. Então, é nesse momento, que o pretenso escritor ensaia a arte de escrever e vai aperfeiçoando-a cada vez mais, como se estivesse a esculpir uma obra de arte. Foi assim que me iniciei no mundo de “contador de histórias”.
A princípio, senti que, o que verdadeiramente gostava de transmitir ao leitor, não estava a ser bem elaborado da minha parte. Comecei a ser cada vez mais exigente para comigo mesmo, a ponto de achar que necessitava de uma formação complementar na arte de bem escrever, por isso, resolvi frequentar um curso de licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos na Universidade Aberta como forma de adquirir e cimentar, mais conhecimentos nas áreas da literatura para apoiar a decisão de exercer de uma forma séria, a escrita de novos romances.
6) Ficção e realidade no romance.
Neste romance, por exemplo, o que é realidade é a minha escrita, as minhas ideias, os meus sonhos, os momentos que eu vivi quando encarnava uma das personagens, vivendo e sofrendo ao mesmo tempo como escritor e como personagem, todos os momentos narrados na história, dentro de determinados locais espácio-temporais. A isto, chamo a realidade no romance.
Quanto à ficção, é toda a estrutura narrativa em que o romance nasce, cresce e finda. A existência de paralelismos ou coincidências, com a vida real de alguém, poderá ter servido apenas de base para a criação de um argumento narrativo meramente ficcional, i.e., nunca real.
7) Segredismo e infelicidade
Efectivamente, no romance “O segredo e o mar”, a presença do segredo é constante, tal como na vida real, em que todos nós temos os nossos segredos. E, para que a história parecesse o mais real possível, era inevitável a presença constante dessa figura. Não aceito neste romance, o conceito de segredismo como “mania dos segredos”, aceito sim o uso do secretismo, que efectivamente é presença constante, em quase todo o enredo.
A infelicidade também faz parte da nossa vida, e como tal, nunca poderia deixar de a incluir nesta história.
Geralmente o segredo e a infelicidade coabitam na vida das pessoas e como tal, uma vez que o romance é um conjunto de enredos ficcionados da vida real, a presença destas figuras e não só, tinham que fazer parte da história.
8) Personagens e valores éticos. Protagonismo e antagonismo.
As personagens deste romance foram seleccionadas de forma que entre elas houvesse sempre uma relação; um elo de ligação que permitisse sempre um enredo vivo.
As personagens deste romance, revelam no seu todo, valores éticos muito fortes, tendo em atenção nomeadamente as funções profissionais que desempenham, veja-se o caso da personagem Henrique ou da Margarida, bem como de outros médicos, que tudo fazem para que os problemas que enfrentam no dia-a-dia sejam resolvidos com perfeição e profissionalismo.
Quis eu, ao reforçar esses valores éticos nas personagens, fazer sentir à sociedade a necessidade desses mesmos valores serem relevantes, uma vez que, cada vez mais se assiste a um desaparecimento de valores éticos na nossa sociedade, tão consumista, egoísta e parca em valores.
O protagonismo e o antagonismo como elementos dramáticos básicos de um romance faz com que determinadas personagens protagonistas avancem com a história, ao passo que, as personagens antagonistas (como a Luísa, por exemplo) tentam a todo o custo impedirem a história.
Sem estas duas figuras, o romance tornar-se-ia desinteressante e monótono.
9) Sensualidade e sexualidade.
A palavra Sensualidade refere-se aos sentidos. É algo que desperta, excita, provoca os sentidos como a vista, a audição, o olfacto, o paladar e o tacto.
Neste romance, está bem presente a sensualidade, principalmente quando Henrique tem necessidade constante de estar junto do mar. É o mar que o alivia do stress profissional; é o mar que o inspira nos seus poemas; é o mar que lhe dá “conselhos” aos amores e desamores; é o mar que une “os corações desencontrados”; é a beleza feminina de algumas personagens que excita os corações masculinos, e vice-versa.
A Sexualidade refere-se a sexo,
aos órgãos reprodutivos, à condição de macho e fêmea.
Não é o mesmo que género, que distingue homem e mulher.
Neste romance, a sexualidade não está muito presente. Ela existe, mas está oculta como um direito de privacidade das personagens. É por causa de um problema de opção sexual que uma das personagens vive em conflito com ela própria e com as outras personagens que tem uma relação próxima, sem porém, nunca a demonstrar e revelar, porque a sociedade a iria descriminar. Embora diferentes, as duas coisas completam-se. Geralmente a sensualidade provoca a sexualidade.
10) Lugares e ambientes no romance.
O romance tem como local principal a zona de Gaia e grande Porto. A beira-mar é um dos locais privilegiados. A maior parte das cenas são passadas junto ao mar.
Também locais como o Brasil, a Austrália, fazem parte de diversas cenas do romance.
A escolha propositada dos locais, alguns deles bem distantes uns dos outros, vem ajudar a reforçar o sentimento saudade que os portugueses tanto sofrem. E, por muito que se afastem do seu país, por motivos variados, acabam sempre por regressar às suas origens. Há apenas uma cumplicidade com o Brasil - lá, os portugueses sentem-se em casa, no país irmão.
Também quis, de propósito, focar determinados países como forma de alertar a humanidade, para os problemas sociais que se vivem nesses países, como o Brasil com as suas favelas carregadas de pobreza e miséria humana, bem como Moçambique com as suas aldeias demasiadamente pobres, contrastando com a riqueza dos países ditos desenvolvidos como é o caso da Austrália ou EUA.
11) O amor e o desamor.
O amor e o desamor são presenças constantes neste romance. Efectivamente toda a história roda em volta do factor amor e desamor. Muitas vezes são criadas situações de desamor que levam a emocionantes paixões, e outras, que findam. Neste romance, o factor amor surge em várias situações: no amor paixão; no amor fraterno; no amor solidário. E é à volta deste sentimento que as personagens vão construindo a sua história.
Pessoalmente, acho que os factores amor e desamor, jamais sobreviveriam isolados porque eles se complementam. Muitas das vezes um dos sintomas do desamor é amar de mais o outro. Ter amor demasiado por alguém poderá ser transformado em falta de amor do próprio e isso, poderá transformar-se em desamor para o mesmo, levando a um abaixamento da sua própria auto-estima. Para se dar amor a alguém, é preciso romper com o desamor que existe dentro de cada pessoa - a personagem Luísa ou a personagem Mário nunca conseguiram terminar com o desamor. Em contrapartida, a personagem Ana, só resolveu esse problema quando percebeu que o sucesso do seu amor para com Henrique teria que passar pelo rompimento do desamor para com o Mário.
12) Destino e liberdade
Estes dois temas são contraditórios. Se um ser humano à partida é dotado de liberdade assim que nasce, poderá ver a mesma ser condicionada pelo factor destino. Mas em contrapartida, sem o sabermos e porque temos liberdade, poderemos mudar o nosso destino. Estou a lembrar-me da personagem Mário, que por ter liberdade de escolha no rumo da sua vida, o destino que teve, foi no fundo o resultado dessa escolha, indicada pela própria liberdade.
Não podemos dizer que o destino que Henrique teve no final do romance foi produto desse destino, mas sim produto de uma escolha da liberdade – ele foi livre em ter optado por amar quem amou.
No caso da Margarida, não foi o destino que levou a tomar as decisões que tomou, mas sim a sua própria liberdade. Pelo que, acho que o destino não existe. Ele é fruto de uma criação psicológica do ser humano para poder conseguir dar resposta a muitas das suas decisões que tomou em liberdade, muitas das vezes inconsciente.
13) Projetos futuros
Presentemente, o meu grande projeto futuro passa por terminar o meu curso superior em Estudos Portugueses e Lusófonos, afim de, alicerçar melhor a carreira de escritor.
14) Mensagem para o público no dia da apresentação
Acho que a melhor mensagem para o público e que se enquadra na apresentação deste livro é:
“Grandes realizações são possíveis quando se dá atenção aos pequenos começos” (Lao Tsé)
15) Porque não escrever segundo o novo acordo ortográfico?
Só em finais de 2008 é que a Priberam passou a disponibilizar no novo corretor ortográfico Flip 7 e Flip:Mac 2, a possibilidade de se optar pelo novo acordo ortográfico. Presentemente já o faço, aliás, estas respostas, bem como o novo livro que ando a escrever, foram elaboradas de acordo com a nova ortografia.
16) A cumplicidade e o entusiasmo dos amigos, a família e os colegas do trabalho na elaboração de O Segredo e Mar.
A princípio, mantive durante longos capítulos, o segredo da escrita deste livro. Quando fui descoberto e revelei que andava a escrever um romance, o entusiasmo, quer dos amigos, colegas de trabalho e até da família foi enorme. Todos queriam ler o livro. E assim foi. Logo que terminei, não esta versão, mas uma outra que se chamava apenas “Segredo”, dei a possibilidade de o lerem. Na elaboração e descrição de determinadas cenas deste livro, tive a ajuda da amiga Sofia Soares que me elucidou de determinadas vivências da juventude que eu não dominava.
O porquê e a razão da escolha do título “O Segredo e o mar”?
Eu começo por escrever o livro, baseado num segredo que tento descobrir de uma pessoa amiga que a mesma nunca o chegou a revelar. Sempre que falava com ela, e rodeava o assunto, iam surgindo ideias para novos enredos do livro.
Quando achei que eu próprio poderia dar vida ao enigma que envolvia o segredo dessa tal pessoa, dei a empreitada como adjudicada e jamais parei de o escrever.
A primeira versão deste livro guardo-a como homenagem às pessoas minhas amigas que me apoiaram, criticaram e incentivaram a escrever cada vez mais, daí a minha promessa de editar esta nova versão e de num futuro próximo apresentar nova obra já iniciada.
O mar com toda aquela imensidão de água e guardador de enormes segredos, representa também para mim a força, a bravura e a liberdade. O mar representa o mistério para além do seu infinito horizonte.
Eis a razão porque associei o segredo ao mar.
Índice
Palavras prévias 7
Agradecimentos e dedicatórias 9
I 11
II 14
III 18
IV 23
V 26
VI 30
VII 35
VIII 38
IX 41
X 50
XI 54
XII 60
XIII 65
XIV 70
XV 73
XVI 76
XVII 83
XVIII 90
XIX 96
XX 99
XXI 101
XXII 107
XXIII 113
XXIV 124
XXV 131
XXVI 141
XXVII 147
XXVIII 157
XXIX 171
XXX 186
XXXI 199
XXXII 211
XXXIII 218
XXXIV 240
XXXV 251
XXXVI 257
XXXVII 278
XXXVIII 286
XXXIX 310
XL 322