Os livros da EDITORIAL 100


Título: Etnia cigana: Relação homem - mulher     -     Autora: Filomena Morais Moreno


   

 


Estudo  - ISBN: 978-972-8843-09-9  -     Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2004. 120 p.  Preço com IVA: 10,50 €


Índice de Etnia Cigana - Relação Homem - Mulher

 

AGRADECIMENTOS                                                                                               11

INTRODUÇÃO                                                                                                         13

PARTE I - CONTEXTUALIZAÇÃO DA CULTURA CIGANA                                 

CAPÍTULO 1 - ORIGEM E HISTÓRIA DO POVO CIGANO                                   17

CAPÍTULO 2 - A ETNIA CIGANA EM DIFERENTES ABORDAGENS                  23

2.1      DADOS ESTATÍSTICOS                                                                             23

2.2      ASPECTOS GENÉRICOS DA CULTURA CIGANA                                    24

2.3      CASAMENTO                                                                                             31

2.4      FAMÍLIA                                                                                                     33

2.5      LÍNGUA                                                                                                     36

2.6      RELIGIÃO                                                                                                 38

2.7      ESCOLARIZAÇÃO DAS CRIANÇAS                                                          39

2.7.1      CAMINHOS POSSÍVEIS                                                                     44

2.7.2      EXEMPLO DE UM PROJECTO DE ESCOLA QUE APOSTA

                  NA INTEGRAÇÃO                                                                                                   50

 

CAPÍTULO 3 - A RELAÇÃO HOMEM-MULHER NA ETNIA CIGANA                  57

 

PARTE II - ESTUDO EMPÍRICO SOBRE O CONHECIMENTO DOS ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO EM CRIANÇAS DE ETNIA CIGANA

CAPÍTULO 4 - OS ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO NA ESCOLA                           67

4.1      O CONCEITO DOS ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO                                   69

4.1.1      A NATUREZA DOS ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO                            70

4.1.2      VARIAÇÕES NOS ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO                               73

4.2      ESCOLA COMO AGENTE DE SOCIALIZAÇÃO DOS

          ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO EM CRIANÇAS                                       76

 

CAPÍTULO 5 - O CONHECIMENTO DOS ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO EM CRIANÇAS DE ETNIA CIGANA                                                     79

5.1      PROBLEMÁTICA                                                                                        79

5.2      METODOLOGIA                                                                                        80

5.2.1      OS SUJEITOS DA AMOSTRA                                                             81

5.2.2      INSTRUMENTO                                                                                 81

5.2.3      PROCEDIMENTO DE RECOLHA DE INFORMAÇÃO                      84

5.3      Resultados                                                                                                 85

5.4      DISCUSSÃO                                                                                              95

 

CONCLUSÃO                                                                                                         101  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS                                                                      107

Anexo 1                                                                                                                117
Anexo II                                                                                                               118
Anexo III                                                                                                              119
Anexo 1V                                                                                                             120


Excertos do livro


INTRODUÇÃO

 

O interesse e a vontade de conhecer melhor o povo cigano surgiram com o convívio junto das crianças ciganas ao longo da minha vida profissional.

Durante estes anos tenho observado certas situações em que é evidente o choque de culturas. Não encontro respostas objectivas e perceptíveis para as diferentes atitudes das crianças face ao seu professor ser homem ou mulher, uma vez que obedecem mais facilmente ao homem. As crianças ciganas, particularmente os rapazes têm dificuldade em aceitar ordens das professoras e os mais velhos assumem, através da linguagem, uma posição de autoridade perante as meninas de etnia cigana que, de uma forma geral, permitem esta postura, obedecendo às suas ordens.

Por outro lado, o absentismo e abandono escolar precoce por parte das meninas ciganas, embora elas declarem que não é esse o seu desejo, levantam muitas interrogações para as quais gostava de ter respostas e, assim, poder entender e ajudar muitas delas que demonstram grandes capacidades de aprendizagem e que abandonam, de repente, sonhos alimentados durante anos.

Os comportamentos diferenciados, as crenças e convicções que emergiam no dia a dia, provocaram em mim uma profunda reflexão e "despertaram" a minha curiosidade em conhecer o povo cigano, com costumes, cultura e vivências próprias.

O presente trabalho tem como objectivo estudar o conhecimento dos estereótipos de género em crianças de etnia cigana. Procura-se conhecer um pouco mais esta etnia, tendo em conta a sua cultura e a relação entre o homem e a mulher na comunidade, a fim de tentar clarificar algumas percepções da realidade deste grupo humano.

Para a realização desta pesquisa segue-se a metodologia quantitativa, sendo o instrumento utilizado uma versão em português da Sex Stereotype Measure II (SSM II).

Williams e Best (1985) implementaram um projecto de investigação intercultural, em relação aos estereótipos de género em diversos países, que em Portugal foi desenvolvido por Félix Neto (1993).

Propomo-nos alargar este estudo intercultural às crianças de etnia cigana, uma vez que ainda não houve pesquisa neste grupo cultural.

Ao tentarmos conhecer melhor o povo cigano implica, antes de tudo, deixar de lado ideias feitas e receios perante o diferente.

Devemos recordar que a cultura portuguesa é «marcada por um universalismo procurado e consciente e pelos múltiplos encontros civilizacionais que, ao longo dos séculos, têm permitido o acolhimento do diverso, a compreensão do outro diferente, o universal abraço do particular, é uma cultura mestiçada, enriquecida pela deambulação de um povo empenhado na procura além fronteiras da sua dimensão integral. Cumprida uma fascinante peregrinação de séculos, Portugal retoma ao seio do continente Europeu e integra-se no seu espaço cultural de origem, contribuindo, com a mundivivência que o caracteriza para a efectiva construção de uma Europa aberta, solidária e ecuménica» (Secretariado Coordenador dos Programas de Educação Multicultural, Despacho Normativo nº 63/91).

A etnia cigana diz-se portadora de uma identidade étnica e de uma cultura específica, diferente da cultura dominante, com a qual convivem diariamente.

Em todos os países da Europa vivem ciganos há mais de 500 anos (Liégeois, 1994). Estes «formam uma sociedade» com uma estrutura interna que funciona como elemento de coesão do grupo e que está em permanente mutação. Em face das suas múltiplas facetas, a imagem que chega até nós é dificilmente compreendida, surgindo, assim, os estereótipos e os preconceitos (Marques et al., 1996, p. 11).

Na primeira parte - Contextualização da cultura cigana, no capítulo um, faz-se uma abordagem à origem e história do povo cigano. No capítulo dois, apresenta-se a etnia cigana em diferentes abordagens: dados estatísticos, aspectos genéricos da cultura cigana, casamento, família, língua, religião, escolarização das crianças, apresentando caminhos possíveis para melhorar o relacionamento destas com a escola e tentar acabar com o analfabetismo, comprovado pelos dados fornecidos pelo Secretariado Entreculturas. Expõe-se ainda um projecto de escola que aposta na integração das crianças. No capítulo três, apresenta-se uma breve incursão pelo masculino e feminino, isto é, o papel da mulher e do homem na família, na comunidade cigana e na relação entre o homem e a mulher.

Na Segunda parte - Estudo empírico sobre o conhecimento dos estereótipos de género em crianças ciganas, no capítulo quatro, desenvolve-se o quadro teórico no qual se integra o estudo, expõe-se o conceito e natureza dos estereótipos de género, as suas variações e alguns trabalhos desenvolvidos por alguns investigadores. Ainda neste capítulo, apresenta-se a escola, como agente de socialização dos estereótipos de género em crianças. No capítulo cinco, expõe-se a metodologia utilizada, apresentam-se e discutem-se os resultados, de acordo com a problemática do conhecimento dos estereótipos de género em crianças de etnia cigana que serviu de ponto de partida para a realização deste trabalho.


CAPÍTULO 5
O CONHECIMENTO DOS ESTEREÓTIPOS DE GÉNERO EM CRIANÇAS DE ETNIA CIGANA

 

 

 

Neste capítulo aborda-se a problemática que serviu de base ao estudo desenvolvido e a metodologia usada para atingir o objectivo proposto. Apresenta-se também, os resultados e a discussão da actual pesquisa.

5.1 PROBLEMÁTICA

 

Ao longo de décadas, na escola como em casa, a política da igualdade de oportunidades foi um sonho e um dos objectivos do sistema de educação europeu. Hoje, a igualdade de oportunidades no ensino, no mercado de trabalho e no seio da vida familiar é garantida pela legislação dos Estados - Membros da União Europeia. O princípio da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres foi reconhecido no artigo 119º do Tratado de Roma. A igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, faz parte das quatro prioridades da construção europeia (Lenarduzzi, 1998).

Nas últimas décadas, a sociedade portuguesa tem vindo a ser caracterizada por uma crescente diversidade étnica. Isto deve-se ao processo de globalização nas sociedades tecnologicamente desenvolvidas e em particular ao resultado das relações ao longo dos tempos de Portugal com os outros povos do mundo.

Uma vez que a crescente diversidade étnica da sociedade portuguesa coloca novos desafios aos diversos níveis e agentes do sistema educativo, os professores devem ter uma atitude reflexiva. É imprescindível dar um sentido real à igualdade de oportunidades educativas das minorias. Para que isto aconteça, a escola tem de respeitar e acolher as diferenças culturais e linguísticas, promover a auto-estima e a auto-confiança das crianças, promover interacções livres de preconceitos e discriminações, criar oportunidades para que todas as crianças adquiram a preparação necessária (os conhecimentos, as competências e as atitudes) para terem acesso aos bens sociais (emprego, níveis académicos, etc.) em condições que se aproximam das dos seus colegas da maioria. Se entendermos que a educação consiste em desenvolver capacidades humanas fundamentais e prepara crianças e jovens para a sua entrada na vida profissional e social, então ela tem um papel importante a desempenhar.

Na minha experiência profissional com crianças e jovens de etnia cigana, pude observar que têm uma cultura própria, além de determinadas atitudes que me despertaram curiosidade e interesse.

Os pais das crianças ciganas não sentem a necessidade da educação escolar, pois não lhe atribuem um papel de poder resolver o futuro sócio-económico dos seus filhos. Assim, não valorizam a escola. No caso das raparigas ciganas a desvalorização da escola é mais frequentemente sentida pelos pais, o que pode constituir uma explicação para o absentismo maior nas raparigas que nos rapazes.

De acordo com o que referi, o centro da nossa problematização localiza-se no conhecimento dos estereótipos de género em crianças de etnia cigana. Este estudo mostra-se de extrema importância, uma vez que, os estereótipos podem influenciar as futuras oportunidades de trabalho, entre outros aspectos, dos adultos ciganos.

As nossas interrogações têm em conta a etnia cigana. Neste contexto, surgem as seguintes questões:

ø As crianças ciganas com 6/7 anos e 10/11 anos, que frequentam as escolas públicas portuguesas, têm conhecimentos sobre os estereótipos de género?

ø Este conhecimento variará segundo a idade e o sexo?

ø Conhecer-se-á melhor o estereótipo masculino ou feminino?

 

 

São, as seguintes, as hipóteses de investigação:

1ª Hipótese

As crianças de etnia cigana (6/7 anos e 10/11 anos) conhecem os estereótipos de género.

2ª Hipótese

A idade afecta significativamente o conhecimento dos estereótipos.

3ª Hipótese

O sexo não afecta significativamente o conhecimento dos estereótipos.

4ª Hipótese

O conhecimento dos estereótipos é diferente consoante se tratem de estereótipos masculinos ou femininos.

 

5.2 METODOLOGIA

 

As metodologias usadas estão de acordo com o objectivo que se pretende alcançar: o inquérito por questionário e o uso da estatística no seu tratamento.

Face ao objectivo proposto, o método adequado ao tipo de investigação foi o método quantitativo, uma vez que me propus fazer uma medição rigorosa e controlada do conhecimento dos estereótipos de género em crianças de etnia cigana.

Como afirmam Reichardt e Cook, «o paradigma quantitativo postula uma concepção global positivista, hipotético - dedutiva, particularista, orientada para os resultados» (cit. Carmo e Ferreira, 1998, p. 177).

Seguindo o pensamento de Quivy e Campenhoudt, «Os métodos não são mais do que formalizações particulares do procedimento, percursos diferentes concebidos para estarem mais adaptados aos fenómenos ou domínios estudados» (Quivy e Campenhoudt, 1992, p. 23).

Optamos por inquéritos por questionário, um método formal e estruturado, devido ao nível de precisão necessário, o que nos remete necessariamente para um tratamento quantitativo dos resultados, usando a técnica estatística. Como refere Ferreira (1986, p. 165), «Toda a acção de pesquisa se traduz no acto de perguntar».

Como refere Ferreira (1986, p. 165), «Toda a acção de pesquisa se traduz no acto de perguntar».

A prática do inquérito tem-se mostrado muito eficiente na «obtenção de informação de um número reduzido de pessoas que, através das técnicas de amostragem, se torna estatisticamente representativo de um conjunto mais vasto. (...) A sua natureza quantitativa e a sua capacidade de "objectivar" informação conferem-lhe o estatuto máximo de excelência e autoridade científica no quadro de uma sociedade e de uma ciência dominadas pela lógica formal e burocrático-racional, mais apropriada à captação dos aspectos contabilizáveis dos fenómenos» (Ferreira, 1986, p. 167-168).

Para a testagem de hipóteses, utilizámos a análise de variância (ANOVA).

 

5.2.1 OS SUJEITOS DA AMOSTRA

 

A amostra deste estudo é constituída por crianças de etnia cigana que frequentam as escolas públicas do distrito do Porto e Aveiro.

Os sujeitos foram escolhidos, entre as diversas entrevistas realizadas, tendo como base, critérios sexuais e etários. Com efeito, o nosso público é constituído por 152 crianças ciganas, repartidas do seguinte modo: O grupo dos 6/7 anos constituído por 66 crianças (34 meninos, 32 meninas) e o grupo dos 10/11 anos constituído por 86 crianças (45 meninos, 41 meninas).

 

5.2.2 INSTRUMENTO

 

Para avaliar os conhecimentos dos estereótipos de género usou-se o instrumento que foi uma versão em português da SSM II com base na versão original em língua inglesa da SSM II (Neto, 1997).

A SSM II é uma técnica de história-imagem que consiste em ler à criança uma história com algumas frases, com um atributo de estereótipo de género masculino ou feminino e pedir-lhes que escolham, para cada história, uma silhueta masculina ou feminina.

A SSM II é constituída por silhuetas masculinas e femininas com o objectivo de estimular as crianças. As silhuetas apresentam-se em pé. As figuras femininas distinguem-se pelo cabelo mais comprido e pelos vestidos, por outro lado, as figuras masculinas usam calças. A SSM II é constituída por 32 itens em que uma silhueta masculina e uma feminina com a altura aproximada de 2,5 cm, se encontram à direita de cada história. As silhuetas são negras. Os rapazes e as raparigas alternam da direita para a esquerda.   (continúa)  -


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