Os livros da EDITORIAL 100
Título: Caminhos de
Outono - Autores:
Francisco Rodrigues - Olímpia Barbosa
Romance
Narrativa - ISBN: 978-972-8843-44-1 - Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2007. 176 p. Preço com IVA: 15,75 €
Audiovisuais de Diego Martínez Lora dedicados a Olímpia Barbosa e Francisco Rodrigues
Olímpia Barbosa - Francisco Rodrigues
Olímpia Barbosa
Nasci em Vila Nova de Gaia. Quando paramos para pensar o que escrever, pintar, ou fotografar, estamos de uma forma inconsciente, à procura, no espaço cósmico, de energias já existentes, para as encaminharmos na nossa direcção. Por isso, a criação é transformação, adaptação, modelação, um prémio ao trabalho e à vontade de procurar. Assim, quantos artistas se transcendem na sua obra e a admiram como espectadores e não como criadores.
Manter o estilo, mostrar que se é parecido, ou igual a si próprio, é estacionar na mesma plataforma; é não voar noutras direcções; é não deixar captar outras energias; é não servir de veículo à imensidão de sabedoria que está à nossa disposição; é sujeitar-se aos ditames sociais; é não dar aos pensamentos a capacidade de serem livres.
Na escrita de
Caminhos de Outono encontrei o semelhante, na fotografia encontrei a Natureza, na pintura encontrei a beleza, e em toda essa procura encontrei Deus.Francisco José Rodrigues
Natural de Moimenta – Vinhais, nasceu em 1937. Estudioso interessado dos Lusíadas, especial apreciador a mordacidade intemporal de Eça de Queiroz, da ruralidade sentida de Miguel Torga, da modernidade de Fernando Pessoa, admirador do pensamento singular do Prof. Agostinho da Silva. Colaborou no «PJ» e no «JN», como cronista, nos anos noventa.
Actualmente dedica-se à ficção, tendo optado por um estilo simples, acessível a todos.
Em 2004, publica o seu primeiro livro, Olhar Sobre Monumenta. Lança agora o segundo, Caminhos de Outono (este, escrito em parceria com a pintora Olímpia Barbosa). A sua terceira obra encontra-se em fase adiantada de preparação, Na Casa Grande dos Templários
APRECIAÇÃO
Gostei. Muito.
Porquê?
Quanto à forma:
A escrita é linear, clara como a água do córrego que desce a encosta antes de chegar à primeira povoação. É simples, sendo certo que todos sabemos como é difícil atingir a simplicidade.
É bem concebida a ideia de partir de um convívio no salão do hotel «muito bem frequentado por gente variada, motivada e bem disposta, pronta a participar com espírito positivo, na primeira reunião da Primavera», duma
Primavera implantada, agora no Outono.
Dessa reunião e subsequentes surgem os alicerces dos casos que, depois, se desenvolvem, de algum modo corolários motivados altruisticamente por Marília.
Quanto ao Conteúdo:
Os temas tratados constituem um filão de riqueza inesgotável. Logo o título, «Caminhos de Outono», configura a fase etária propícia ao desenvolvimento dos «casos». Eles ocorrem em idade madura, época de grandes colheitas, em que o viço primaveril é substituído pela doçura dos frutos e pela poesia dos tons dos poentes e do cromatismo da folhagem. A experiência introduz um sabor requintado, tornando a vivência dos sentimentos mais lúcida, mais profunda, mais tranquila e saborosa.
É nessa fase que se pode atingir a plenitude da vivência que é a base de tudo: o sadio relacionamento homem/mulher.
Os Autores dos «Caminhos» têm a clara percepção dessa realidade e procuram evidenciar a necessidade imperiosa de ultrapassar as situações em que algo vai bulir ou impedir aquele relacionamento. A busca sensata e atinada de novos equilíbrios é apontada como remédio.
O percurso destes «Caminhos de Outono» potencia mudanças de atitudes espartilhadas no enredo da solidão, que pode emergir no reencontro do gosto pela vida.
Consideração final:
«Caminhos de Outono» surge como uma epopeia a esconjurar ou exorcizar a solidão. Esta é o inimigo a abater.
Para tal, é por vezes, necessário o impulso fracturante da rotina, bastando a instigação de uma amiga como Marília. Depois, basta juntar uma gota gorda de coragem e a cor e o sabor voltam à vida. Mais difícil é a sustentação. Difícil, mas possível, como o demonstra Firmina.
Até um Augusto se recupera!
Marília, que constitui o fio condutor, o anjo taumatúrgico detentor do antídoto da solidão, essa parece viver ainda a primeira fase da Firmina, buscando com os riscos inerentes, o seu alter-ego. Afinal só não encontra aquele que quer ser encontrado: Eduardo.
Má sorte a dele, que o tempo está a fugir!
Pereira da Graça*
Dezembro/2005
*Juiz Conselheiro - Escritor.
PREFÁCIO
Parafraseando Miguel Torga, também aqui poderemos dizer: «Escrevo-te da meia-idade, do ponto onde medram as raízes deste livro apontado contra a solidão». Este livro contém uma mensagem de esperança, talvez útil para ti, mas importante, sem dúvida, para alguém que estimas ou simplesmente conheces, em dificuldade para reconstruir e viver a sua felicidade, face a uma sociedade como a nossa, de certo modo torpe, eivada de incompreensão e maledicência. Vamos percorrer três histórias reais, ensombradas por desencontros que empurraram vidas comuns, para encruzilhadas difíceis e acabaram, mais tarde, iluminadas por encontros que foram solução feliz para outros tantos infortúnios. Vidas marcadas por ansiedades, procuras, esperas e partilhas de pessoas, na meia-idade, aquela idade em que a vida já presenteou com filhos e netos, e deu a sensação inteira do ciclo completo; até aquele conforto do «deixar raízes», do «depois de nós» com o mesmo sangue e características nossas e aquele sentimento de ternura próprio do «ser avós». São histórias positivas de amor intenso, mas incompletas, de quem foi capaz de vencer preconceitos, porque acreditou na força do amor tardio, para resolver um dos problemas mais prementes da existência humana, a solidão, recuperando por essa via a alegria de viver. Depois de encontros tão felizes, nenhuma destas vidas será mais a mesma, nem certamente a de quantos tiverem a coragem de escolher, com sabedoria, novos Caminhos de Outono.
Os Autores
Excertos do livro
1.1
«O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem;
por isso, existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis, pessoas incomparáveis».
(Fernando Pessoa)
Sentada na primeira fila, Marília Varela parecia encantada com a actuação brilhante de Eduardo. Para além da sua figura agradável, gostou muito dos poemas seleccionados, apreciou a sua magnífica colocação de voz e principalmente a emoção que punha nas palavras e na vivacidade contida dos seus gestos. Só que ele, como animador do convívio, estava fora da competição e, com grande pena sua, não poderia convidá-lo para a sua mesa, senão tê-lo-ia feito de bom grado. E depois, a aliança que ele usava não deixava margem para dúvidas: aquele interesse à primeira vista, ficava arredado, à partida.
Da fila de trás, junto a si, uma voz masculina que não lhe era propriamente estranha, quase lhe segredou:
– Pela sua atenção, vejo que é apreciadora de poesia romântica...
Marília voltou-se, para lhe responder, com um sorriso discreto:
– Estou a adorar, meu amigo, estou a adorar tudo isto e nada arrependida de ter vindo!...
Era Jacinto Mesquita, com quem já tinha trocado algumas impressões, à chegada, depois de se terem observado com muito agrado, no hall do hotel, daí resultando um interesse mútuo que ambos guardaram, sem o denunciarem.
Marília sempre fora uma mulher muito bonita e continuava a sê-lo, sobressaindo naquele salão, pelo porte distinto, de grande simplicidade - um encanto de pessoa. Parecia que o tempo não tinha conseguido prejudicá-la em nada, antes ao contrário: o seu rosto, iluminado pela luz da sabedoria, era o espelho de quem passou atenta, pelos caminhos da vida, a recolher ensinamentos que informavam agora a sua impressionante força mental; daí o fascínio que exercia sobre os homens mais sensíveis e atentos às subtilezas, no feminino, impondo-lhes também contenção, pela sua postura que nunca descurava. Adivinhava-se nela uma mulher diferente, inacessível a qualquer abordagem menos própria, e esquiva ao desafio inábil. Do seu olhar sereno e profundo, tocado por uma ponta de tristeza, transparecia a sua grandeza de alma. O seu sorriso, quase inocente, deixava no entanto adivinhar uma sensualidade invulgar que inspirava qualquer um para sonhos imediatos.
Ela fora uma executiva brilhante, na área dos Seguros. A prolongada doença do marido, que cedo lho roubou, tinha-a empurrado para uma reforma prematura que implicou o abandono daquele mundo atraente dos relacionamentos profissionais (com as tentativas constantes de assédio, que tanto a divertiam!), forçando-a a abdicar de alguns projectos aliciantes e a perder proximidade das muitas amizades que fizera — o abandono duma carreira, ainda promissora.
Viúva há três anos, ela vinha dum casamento intensamente vivido, marcado pela compreensão e pela entrega, selado por uma fidelidade absoluta, com plena realização amorosa e grande desafogo económico. A viuvez, aos cinquenta anos fora o desabar do mundo, e a solidão que se lhe seguiu estava a tornar-se doentia, quase sufocante: sentia-se prisioneira daquele que, em vida, nunca quisera aprisioná-la daquela forma e sempre tinha respeitado a sua autonomia; daí aquela força de atracção entre eles, ao longo duma vida.
Agora os seus dois filhos construíam as suas vidas, longe dela, e totalmente alheados da sua solidão, descurando entre si as responsabilidades duma maior proximidade e atenção, confiados na força anímica que lhe reconheciam e na sua grande capacidade de resistência à adversidade. Mãe é sempre uma fortaleza, mesmo que esvaziada de motivações para continuar a inventar, todos os dias, a alegria de viver.
Num impulso decidido de mulher de armas, que era, lançou mão dos meios que tinha ao seu alcance. A Escola de Pintura foi o primeiro passo, a abrir caminho à sua capacidade criativa. Senhora das técnicas que antes lhe faltavam, começou a espelhar nas telas a sua alma expansiva, com rara sensibilidade, numa visão surpreendente do mundo e da vida. Retomou a escrita, interrompida há muito, quando mergulhou inteira na azáfama do primeiro emprego e se fez à vida que, a seu tempo, lhe trouxe um marido excelente, merecedor da sua total dedicação. Cedo apareceram os filhos e, com eles, o acelerar da correria diária, o desgaste das preocupações e desvelos que nenhuma criança precisa de pedir a uma mãe zelosa, como ela era. Mesmo sem juntar a esta roda-viva toda a exigência duma profissão absorvente, não lhe faltaria nada para ter que interromper o seu Diário, até então pensado e escrito a cor-de-rosa. A partir daí, apenas retivera na memória os momentos mais marcantes, picos intensos de felicidade, que davam agora corpo à sua saudade.
Sentindo nesta altura que dispunha de tempo a mais, pareceu-lhe bem abrir um novo diário a que chamou «Apontamentos de Fim-de-Semana». Aí passou a descrever semanalmente os seus estados de alma e a registar, sem data, as suas reflexões e os acontecimentos mais salientes do seu dia-a-dia. Depois duma breve introdução, abriu com o ponto da situação:
«Vendi hoje um trabalho de pintura e, no abraço que dei à compradora que levou um pedaço de mim para sua casa (onde a minha mensagem vai fazê-la viajar nalguma direcção), recebi o tributo à minha tenacidade, o incentivo que, em termos emocionais, já tinha recebido de outras formas. Recolho sempre agradecida cada flor de contentamento que cai na minha estrada e não deixo passar, sem me deter para usufruir, dos contornos que desenho, pedaços de bem-estar.
Meus pais tinham alma de artistas e deles herdei o gosto pelas artes plásticas; só não me realizei profissionalmente, nessa área, porque o contexto social da época não tinha os horizontes de hoje: ir para as Belas Artes era só para ricos, para aqueles que não esperavam viver da profissão; além disso, eram mal vistas as meninas cujos horizontes se esticavam demais (como agora se diz) e fugiam da camisa-de-forças que a educação e a moral da época lhes impunham.
No sexto ano de escolaridade, em desenho era a melhor aluna, e quando a professora chamou meu pai para o aconselhar a levar-me para as Artes, ele respondeu que a minha auto-suficiência económica estava em primeiro lugar. E esteve. Pois a área comercial administrativa foi o meu rumo.
Mas, antes de chegar à idade em que só as contemplações comandam, aquela idade em que o tempo ainda deu tempo para fabricar recordações, eu encontrei-me com as telas e os pincéis, e dei todas as cores ao meu Outono.
Passei a ser tela de muitas telas, pincel das mais variadas viagens, mistura de muitos tons, nascente de muitas ansiedades, feitas de pressa e receio de que o tempo me não chegue, porque cheguei tarde; demasiada entrega para quem não precisa da parte económica da sua produção; demasiado entusiasmo sem objectivo à vista, apenas pelo prazer da chegada a um mundo
que quase me fugia; e, como qualquer longo caminhante, deito-me hoje cansada, nas areias para onde este mar me levou.
Preciso de parar, para recomeçar mais lentamente, virar as telas do avesso, deixar me dormir neste cansaço, de olhos fechados ou abertos, absortos apenas na atenção aos sinais que espero não sejam da idade, mas do tempo, e encontrar um pedacinho de céu que é o lugar onde os sonhos se realizam». Marília, com a sua energia natural aliada à urgência que tinha de recuperar tempo, depressa conseguiu impressionar, pelo seu talento invulgar.
Não tardaram as exposições colectivas e as individuais, os elogios dos amigos, a admiração geral, cada vez mais alargada, e também algumas invejas tolas; mais tarde, vieram as entrevistas e o reconhecimento da crítica, triunfos que lhe deixavam a alma a transbordar e a faziam sentir-se plena de vida.
Foi desta forma dinâmica que ela conseguiu iludir, por alguns meses, o fantasma do isolamento. Porém a natureza não se acomoda assim tão facilmente, nem por muito tempo; ela acaba por reclamar o que lhe é devido, surpreendendo-nos com novas exigências. Foi isso que aconteceu com ela:
após a fase inicial da sua libertação que lhe pareceu definitiva, deu-lhe forte a recaída. Parecia que nunca a solidão lhe tinha pesado tanto!...
Os êxitos nunca têm o mesmo sabor, se não forem selados por aquele abraço indispensável, e ela, ao chegar a casa, adornada com os seus louros, não tinha com quem os repartir, ninguém que erguesse com ela uma taça de champanhe e a conduzisse feliz ao repouso do guerreiro, um companheiro à sua altura, culto, disponível e disposto a partilhar a vida com ela, um homem livre e fiel que a amasse e a quem pudesse retribuir com a alegria da sua imensa capacidade de amar.
Marília não era mulher de procura e sim de encontro e partilha. Os seus horizontes tinham-se alargado, muito para além da normalidade em que a maioria das pessoas vive, (ou finge viver, movendo-se). O que ela precisava era de sair do seu casulo, provocar o convívio e aprender a usar criteriosamente a liberdade que tinha e a gerir, com sabedoria e prudência, a sua atracção natural. A memória do seu passado feliz servir-lhe-ia de referência para as opções futuras. Ia então, sem pressa, frequentar encontros sociais, aonde poderia aportar o homem certo que precisava, para desfrutar, bem acompanhada, a vida aliciante que lhe sorria. Havia sentimentos demasiado fortes e emoções desmedidas que não conseguia gerir sozinha. Essa a razão que a levaria àquele primeiro Convívio da Primavera (ainda que pouco confiante na sua eficácia), onde se viu rodeada de possíveis candidatos, dispostos como ela, a dar o passo seguinte, rumo a outra etapa do futuro, novamente a dois.
Na segunda fila, sentada ao lado de Jacinto, insinuante e oportunista, estava Sara Coutinho, mulher fogosa e astuta, muito dada a conquistas de ocasião. Tinha ido àquele encontro na mira de pôr fim ao sufoco de vida que levava: divorciada, geria mal uma situação económica difícil que a sua vida fútil tendia a agravar. Esta, ao ver a troca de palavras e sorrisos entre Marília e Jacinto, temeu uma aproximação perigosa entre ambos e, para contrariá-la, tomou a dianteira, convidando-os para a sua mesa, na esperança de poder controlá-los. Ela gostara tanto do bom aspecto de Jacinto!... Ficara encantada com a sua bonomia e principalmente com o aspecto do carro (topo de gama!), uma bomba que lhe enchia as medidas!...
Que raio!... – Pensava eufórica, a apurar o seu faro de raposa ladina –
Ele só pode ser um tipo bem na vida, a minha salvação evidente!... É crime deixá-lo escapar!... Numa situação destas, vale tudo!...
Na sua boa fé, os dois aceitaram o convite, com naturalidade e integraram o grupo, sem a mais leve desconfiança, tanto mais que nem provocava a sua separação.
Entretanto, a plateia fraccionava-se, os entendimentos surgiam tímidos e, pouco depois, todas as mesas estavam ocupadas, pairando no ar um clima de natural expectativa.
Na manhã desse Sábado, Marília acordara melancólica, como tantas vezes lhe acontecia e, levada pela sua carência afectiva, escreveu, ao correr da pena e sem destinatário, o que lhe ia na alma, seguindo apenas o impulso
interior, em momento de inspiração, como gostava de fazer sempre que escrevia.
Aquele momento fora providencial. Ao aceitar o duplo repto para uma participação efectiva na animação dos convívios, dispôs-se a contribuir com algo de seu, a pensar já na reunião da semana seguinte. Por sorte, trazia na carteira o poema que havia escrito de manhã e, ao felicitar Eduardo pela sua brilhante actuação, não resistiu a entregar-lhe o seu manuscrito. Faltava-lhe o título que ela se prontificou a escrever ali mesmo, a pensar em cada um dos participantes no encontro: «Para Ti...», foi o que lhe ocorreu no momento.
– Aqui tem o meu modesto contributo. – Disse ela, entregando-lhe a folha que trazia, dobrada em quatro. - Não passa duma prova simples de boa vontade; peço é desculpa pela informalidade da entrega.
Eduardo tinha já reparado em Marília, cuja figura sobressaía no salão.
Ficou muito agradado por ela se lhe ter dirigido e encantado com a sua gentileza. Guardou aquela dádiva inesperada, com certa emoção, logo reagindo atraído por aqueles lindos olhos sonhadores.
– Posso garantir-lhe que vou fazer tudo para estar à altura do seu texto que acredito seja o espelho fiel da sua bela autora. Assim estaremos todos de parabéns.
Sorridentes despediram-se e ele saiu do salão, enquanto ela vinha juntar-se ao grupo dos seus comensais.
Como as aparências iludem!... Parecia que aquele episódio, tão simples, tinha terminado ali, sem deixar sequelas. Longe disso!... Seria o despontar duma paixão ardente que ia desenvolver-se de forma inesperada.
Naquele momento, ninguém sabia, nem o próprio Eduardo podia adivinhar, que caminho difícil, cruzado de equívocos e desilusões, o futuro próximo lhe reservava.
Entretanto o convívio prosseguiu com o jantar, alongando-se depois a noite dançante, até de madrugada, sem que houvesse sinais de relacionamentos bem definidos. Para além do entusiasmo de Sara por Jacinto, apenas se notavam algumas aproximações comedidas, com continuidade prometida para o Sábado seguinte. Contudo, a contrariar as aparências, algumas sementes de confiança tinham já caído em canteiros bem preparados, para a seu tempo frutificarem.
Marília dançava lindamente e qualquer um dos presentes gostaria de acompanhá-la a noite inteira. Passaria até pela cabeça dos mais ousados, vir a adormecer, em breve, no seu aconchego. Vários tiveram a sorte de uns momentos agradáveis de proximidade com ela. Jacinto é que não. Por mais que tentasse, não conseguira esquivar-se ao monopólio possessivo de Sara que, com astúcia invulgar e muita experiência, conseguiu dominá-lo, levando-o facilmente a um completo descontrolo emocional, tanto que já iriam passar o resto da noite enrolados na cama de um motel.
Jacinto depressa reconheceu que tinha cometido um erro crasso, um escorregão humilhante que destoava da sua conduta habitual. Disso a informou de manhã. Também ela, irritada, constatava que o seu plano de «caça ao homem» tinha sido um falhanço incrível que envergonhava o seu currículo.
Para ele, fora uma péssima noitada em que nada correra bem e para ela, um desaire completo e pura perda de tempo.
Ao regressar a casa, de madrugada, Marília viu-se de novo só, mais vazia que antes e morta de cansaço. Sentiu certa frustração, por não ter descoberto ninguém que verdadeiramente lhe interessasse, ao menos com vista a uma amizade especial, em que valesse a pena arriscar. Gostava, é certo, de ter conhecido melhor Jacinto, subtraído por aquela desmiolada a qualquer possibilidade de contacto sério. Ao espelho, enquanto removia a maquilhagem, procurava disciplinar a sua mente contra o desânimo e espevitava o seu optimismo, escudando-se nas convicções que sustentavam a sua estrutura mental de defesa, que tão bem sabia usar, quando confrontada com encruzilhadas menos claras da sua existência, agora tão sofrida.
Não resultou, paciência!... Nada acontece por acaso... E a vida não acaba aqui… Vou esperar com serenidade que o futuro me aconteça.
Passado aquele fim-de-semana, vieram monótonos os dias seguintes; ela porém prosseguiu a sua cruzada contra a rotina, inventando motivações novas para manter acesa a chama da esperança em melhores dias. Pelo menos havia agora uma perspectiva diferente no seu horizonte próximo. No Sábado seguinte iam certamente surgir outras oportunidades. Até a simples possibilidade de ouvir Eduardo de novo e a expectativa de como ele iria interpretar o seu texto, já lhe desanuviava bastante o calendário dos dias que faltavam, sem contudo lhe trazer ansiedade.
Enquanto isso, o estado de alma de Eduardo era bem diferente. Quando chegou a casa, naquela mesma noite, foi apanhado completamente desprevenido, quando leu o manuscrito de Marília. Ficou perturbado e sem
saber o que pensar, ao reconhecer no poema uma mensagem clara e intencional, que lhe era dirigida. Foi essa a leitura imediata que erradamente fez. Segundo ele, era o que ressaltava, tanto do título como do conteúdo da composição, e foi assim que o interpretou, gostosamente convencido.
PARA TI
A vida, em sua viagem
Dá vida a qualquer miragem...
E ela está a despontar no horizonte,
Confundida com a realidade
Do nascer de um novo dia.
A delícia do dia esperado que chega,
Inesperado no seu conteúdo,
Envolto na suavidade das cores dum Outono
Que se confunde com Abril em Primavera...
E nos abraça...
Há magia nesta fronteira que divide o vazio
E este hálito quente
Que chega das profundezas da terra,
E das profundezas de nós:
O despertar de reciprocidades, sem medo;
O espreguiçar de corpos que se encolheram,
O espraiar de olhares que unem todas as estações...
E a eternidade passa a ter o tempo que lhe damos.
Nas bermas destas estradas que somos,
Esperamos sentados,
No cheiro a fruta madura
E a terra molhada,
O desatar das asas, presas em Invernos passados.
Vem!...
Vamos escrever este livro que somos!...
Estamos a dois passos de nós!...
Este chamamento inesperado veio sacudir a sua estrutura mental de homem íntegro, formatado por uma moral rigorosa, pela qual tentava aferir os passos importantes da sua vida. Ao grito daquela mensagem, os seus sentimentos adormecidos despertaram à uma, os silêncios que mantinha controlados gritaram em uníssono e a sua calma resignada virou tumulto, dentro de si.
– Céus! O que vem a ser isto?!... – Reagiu perplexo, quase apavorado.
Aquele desafio intempestivo vinha arrancá-lo à teia dos seus desgostos, ciosamente guardados para os períodos de solidão, cada vez mais pesados, que lhe traziam já anestesiado o gosto pela vida. Soou-lhe aquilo a um grito de libertação, para o qual não estava preparado. Por isso, toda aquela comoção interior. É que, de repente, Marília surge perante ele com todo o seu poder de sedução natural. Primeiro, na figura cativante, depois, na palavra ousada, com aquele convite secreto, finalmente grita-lhe, através do impulso ardente que vem despertar. Sem querer ou sequer suspeitar, ela acaba de desencadear uma verdadeira revolução, no seu interior acomodado: (continua…)
Entrevista a Olímpia Barbosa(*)
(A propósito da publicação do romance que escreveu em parceria com Francisco Rodrigues: Caminhos de Outono, pela Editorial 100. Março 2007) Diego Martínez Lora
Leitura
Olímpia Barbosa: O amor pela leitura começou na adolescência e o filósofo americano Mader marcou positivamente esse percurso. Naquela sociedade fechada e cheia de tabus a leitura era a possibilidade de conhecer a diversidade, as vivências e a imaginação do ser humano. Ajudava pelo confronto e avaliação dos outros. Era o panorama e os horizontes onde as nossas memórias buscam o encontro com as verdades colectivas.
Escrita
Olímpia Barbosa: Depois da leitura surge a necessidade de transmitir, pela escrita, as nossas próprias experiências e observações. O papel permite a busca e o encontro com a nossa verdade.
Motivações para escrever caminhos de Outono
Olímpia Barbosa: As motivações para escrever “Caminhos de Outono” nasceram do conhecimento crescente de muitas histórias de vida. A solidão que acabei por sentir (viuvez) e o desejo de consolar quem necessitava do meu diálogo eram auto-cura e compreensão para outros. A necessidade de partilhar e libertar sentimentos surge naturalmente, sem projecto prévio. Escreve-se sempre para alguém. Pode ser para uma pessoa como pode ser para um grupo mas, é sempre um impulso dirigido.
Realidade e Ficção
Olímpia Barbosa: Há neste romance mais realidade que ficção e, como acontece a qualquer escritor, tem muito de mim. É um caminho feito de verdades, abandonos, conformismos, solidões, amor à vida e acima de tudo o enfrentar desafios vencendo medos. É o aceitar o amor sem promessa de paz. Haverá algo na vida mais importante que o amor? O meu próximo livro será com certeza sobre aquela espécie de amor sem prazo de validade a que chamamos amizade.
Mensagem
Olímpia Barbosa: Somos um punhado de consequências e são as mesmas consequências trabalhadas que nos encaminham para o bem-estar e para o sentir liberdade.
Este livro tem a perspectiva de ajudar a que muitos se encontrem com os seus próprios caminhos e se compatibilizem com os seus controversos sentimentos. É um incentivo à criatividade e à coragem de dirigir pensamentos em alguma direcção. É dar ao subconsciente força para a procura, tendo como objectivo a satisfação de necessidades, desejos e sonhos.
Para se conseguir viver é preciso esperar alguma coisa da vida e de nós.
Entrevista a Francisco Rodrigues(*)
(A propósito da publicação do romance que escreveu em parceria com Olímpia Barbosa: Caminhos de Outono, pela Editorial 100. Março 2007) Diego Martínez Lora
1 - Experiência de Leitura:
F. Rodrigues: Desde cedo fui um bom “praticante” dos nossos clássicos, incluindo os irreverentes como Gil Vicente, e os mais ousados como Bocage.
Bons mestres que tive incentivaram-me, desde pequeno, a educar o ouvido para a linguagem, decorando poesia e textos apropriados.
— Como na música — diziam-me — também se educa o ouvido, para a harmonia da linguagem.
No secundário, tive um grande professor (hoje, chamar-lhe-iam louco) que desafiou a classe a decorar os Lusíadas! E conseguiu-o facilmente, através dum método simples e eficaz, que naturalmente não vou aqui explicar. Nessas idades tem-se uma memória prodigiosa; por vezes falta é o estímulo.
2 – Início na escrita
F. Rodrigues: Um dia o mesmo professor aconselhou-nos a «escrever e esquecer»: uma ideia, uma frase, um pensamento, uma referência, uma observação com interesse, escreve-se num papelinho e esquece-se numa gaveta. Uma rotina simples, de extrema utilidade. É que, por muito que a nossa memória armazene, não dispensamos um suporte que, metodicamente, nos ajude a recordar e a seleccionar, como um índice.
Segui aquele conselho. Foi assim que, mais tarde, construí uma base de dados, com milhares de anotações, catalogadas por temas. Como num palco de teatro, está ali o «ponto» a sugerir-me assuntos que poderei, em qualquer altura, desenvolver no meu diálogo com a vida.
3 – Experiência na publicação do 1º livro
F. Rodrigues: O primeiro livro publicado é sempre o primogénito. Constitui um marco, como ponto de partida para a meta da perfeição que, livro a livro, em vão se tenta atingir. A partir dele ganha-se o vício da escrita, tão benéfico como o sagrado vício da leitura.
Escrever um livro proporciona-nos, durante longo tempo, o prazer do jogo e da criatividade; já editá-lo, lembra-nos mais as dores do parto. Se o leitor gosta da «criança», o progenitor agradece esse carinho, porque ele revê-se na sua criação, apesar dos defeitos que naturalmente lhe reconhece.
4 – Metodologia para a escrita a dois
F. Rodrigues: Escrever um livro, a dois, exige uma constante harmonização de dois estilos para que resulte numa peça homogénea, como um vestido feito com dois tecidos diferentes que se complementam.
Este livro tinha que ser verdadeiro, assentar em factos reais e não em devaneios; portanto, iríamos relatar comportamentos de pessoas vivas, colocadas perante situações concretas, dos nossos dias, o que o tornaria verdadeiramente actual.
Diversos casos surgiram, merecedores de atenção e desenvolvimento. Escolhemos três; mas alguém teria que assumir a sua veracidade, entrando necessariamente, na intimidade de tais vidas, respeitosamente, sem as expor, acedendo a documentos pessoais (diários), com consentimento dos próprios. Só assim foi possível traçar o perfil psicológico dos protagonistas mais salientes.
Trata-se de retratos de pessoas que, curiosamente, a convite nosso aceitaram acompanhar-nos, neste lançamento, incógnitas naturalmente.
Acontece que só os «actores» conseguem reconhecer-se nos seus «duplos».
5 – Escrita, criatividade e mensagem do romance Caminhos de Outono.
F. Rodrigues: Segundo diz deste livro, o ilustre escritor Pereira da Graça, (que o apreciou, em 1ª leitura), «a escrita é linear, clara como a água do córrego, antes de chegar à primeira povoação».
Na escrita, a inspiração resulta do confronto da sensibilidade, com a memória de certas realidades, umas vividas, outras apenas conhecidas ou simplesmente sonhadas. As realizações, os prazeres, os conflitos, as vitórias e as desilusões deixam marcas; a sensibilidade de quem escreve tenta induzir o leitor a examinar essas impressões da alma, olhando-as pelo mesmo prisma do autor.
Quem viveu muito e aprendeu a olhar atentamente a vida, consegue descobrir nela o sentido positivo da existência, Quem for observador atento das pessoas e contemplativo da natureza, acaba por escrever com a simplicidade própria da vida, antes de ser adulterada por artificialismos complicados.
É por isso que a mensagem deste livro resulta transparente e directa: «Comunica, divorcia-te da solidão e vive!...».
6 – Vida/Morte
F. Rodrigues: Todos sabemos que se não houvesse morte, a vida na terra seria insuportável; nem de pé caberíamos já na superfície do planeta. Se a morte fosse evitável, a vida seria uma verdadeira loucura, vivida apenas em função de cada um assegurar a sua imortalidade. Nesse caso, morrer seria o fracasso total da vida.
Mas não. A vida é o caminho de sentido único para a morte, e esta deve ser encarada como a meta onde tanto se chega de mãos vazias, como pleno de realização; chega-se com o que se sabe, nunca com o que se possui; o «ser» conta, o «ter» não conta nada.
Mas, já que o tema é mesmo este, vou aqui lembrar como Vieira, na sua simplicidade de estilo, nos descreve a morte:
«… A morte tem duas portas: uma, por onde se sai da vida, a outra, por onde se entra na eternidade. Entre estas duas portas se encontra a alma, no momento da morte, sem poder voltar atrás, nem esperar, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre».
Acreditando que um dia voltaremos à vida, o mesmo Vieira é sublime ao dizer-nos com a mesma simplicidade de estilo.
«… E aparecerão no mundo os mortos, vivos!».
Seja como for, o simples facto de termos existido, antes da morte, impõe-nos a diferença absoluta que há entre o «ser» e o «não ser».
7 – Indivíduo / Sociedad
F. Rodrigues: Na sociedade, que é um imenso puzzle inacabado, todo o indivíduo é peça indispensável. Tem uma forma de encaixe própria perfeita; pode no entanto encaixar de muitas outras formas imperfeitas, o que torna a sociedade mais ou menos defeituosa, sofrível nuns casos, e noutros completamente inaceitável. Os que detêm o poder e procuram moldar este puzzle têm normalmente uma ideia acanhada, parcial e demasiado restrita de Humanidade, dispensando a maioria das peças, na sua construção. Esses excedentes são acomodados de qualquer maneira, porque o painel, incompleto, é constituído pelas elites preferidas, consentidas ou dificilmente suportadas.
Assim, continuará a haver, no mundo, guerras e convulsões constantes, enquanto as combinações, impostas por uns, continuarem a ser inaceitáveis para os outros.
8 – Juventude / Velhice
F. Rodrigues: Na vida, a juventude é a fase de projecto, que pode prolongar-se tanto mais quanto o espírito consiga sonhar futuros para viver, para criar, não somente para procriar. Ela é essencialmente mental: aquela capacidade de esbater a fronteira da velhice, não consentindo que esta seja apenas a recolha dos frutos outonais, às vezes já mirrados, mas sim a replantação dos jardins que hão-de florir em futuras primaveras, para usufruto dos vindouros.
É para isso que escrevemos, para alimentar primaveras. E, mesmo que o não consigamos, ao menos a nossa terá sido prolongada pelo sonho e pelo entusiasmo com que o tentámos.
Idealmente, a velhice deve ser, acima de tudo, o saborear gostoso duma constante primavera da alma.
9 – Amor
F. Rodrigues: Amor é a cor determinante das vidas felizes. Não tem idade específica. É por isso que, por analogia, se diz: «Quem de novo baila bem, de velho seu jeito tem».
Amor é um espelho que olhamos todos os dias, para vermos quanta felicidade provocamos em quem nos olha com amor.
10 – O Romance ideal
F. Rodrigues: Terá que ter princípio, meio e fim, coerentes: um princípio misterioso e incendiário; um meio de grande confronto de sentimentos e um sem número de contrariedades a serem ultrapassadas, onde a força do amor vença a desumanidade perversa do egoísmo; um fim não reduzido ao usufruto mesquinho e à vaidade dos louros conquistados, mas sim alargado ao gozo duma paz merecida, onde haja espaço para a grandeza do perdão.
É, no fundo, o romance que eu ambiciono escrever, com personagens de alma grande que vençam a velhacaria e a mesquinhez que envenenam e desumanizam as sociedades.
11 – Liberdade / Terceira idade
F. Rodrigues: Este livro foi pensado e escrito sob o signo da libertação, em defesa da terceira idade, asfixiada, entre nós, por uma sociedade incompetente que despreza ou esquece os seus mais velhos, os que detêm o «saber de experiência feito», lembrando-se deles apenas para lhes impor regras, para os controlar, através de costumes e tradições (eu diria medievais), recorrendo, não raro, ao esbulho legal dos bens, para os submeter completamente à condição de incapazes.
Tais pessoas são, assim, privadas da sua iniciativa, do seu direito de opção e até da liberdade de movimentos, castigados por essa sociedade que, no mínimo, lhes inferniza a vida, pela maledicência, apontando-os a dedo se abandonarem os padrões de conduta que cruamente lhes são impostos.
12 – Expectativa relativamente à publicação de Caminhos de Outono.
F. Rodrigues: Espero que, com a publicação deste livro, a gente jovem e os mais vividos tomem consciência do problema grave de que a nossa sociedade enferma: a solidão imposta aos veteranos, pelo esquecimento fingido, como quem varre para debaixo do tapete.
Para as gerações mais novas fica a mensagem: jovens, preparai o vosso futuro de forma a poderdes vivê-lo todo com liberdade de escolha; aplicai a todos, desde já, este princípio tão comezinho, de que tanto gostais, para vós, e que é fundamental para a escolha do caminho certo:
« Vive e deixa viver! »
13 - Escrever um romance para viver, ou viver no romance
F. Rodrigues: Escrever um romance é viver mais tempo na memória dos leitores, produzindo efeitos de mudança nas mentalidades; é um bom processo de intervenção que deve pesar (pouco que seja), na evolução positiva de quem o ler. E, se cá voltarmos de novo, conforme alguns sustentam, poderemos, mercê deste contributo, ter um mundo melhor à nossa espera. Pelo menos, que ele aproveite às gerações futuras.
É inquestionável que o escritor vive no seu romance, os romances que, no mínimo, foi capaz de sonhar.
ÍNDICE de Caminhos de Outono
Prefácio 5
Apreciação 7
Apresentação 11
1º Caso: Marília . Jacinto . Eduardo
1.1 23
1.2 39
1.3 49
1.4 59
1.5 73
1.6 79
1.7 89
1.8 97
1.9 103
1.10 111
2º Caso: Oriana e Filipe
2.1 119
2.2 123
2.3 129
2.4 139
3º Caso: Firmina - Ademar
3.1 145
3.2 151
3.3 159
3.4 167
Apontamento final 171