Os livros da EDITORIAL 100
Título: Balcânica - Autora:
Gabriela de Sousa
Narrativa e poemas
Narrativa - ISBN: 978-989-8387-01-1 - Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2010. 144 p. Preço com IVA: 10,60 €
Entrevista a Gabriela de Sousa (Audio- visual- 1ra parte)
Entrevista a Gabriela de Sousa (Audio- visual- 2da parte)
Leitura de O menino que gostava de escrever
Gabriela de Sousa
(Gabriela Maria Caldeira Trigo Barbosa)
Nasceu no Porto, em Cedofeita, a 7 de Junho de 1992. Estudou no Colégio de Nossa Senhora da Bonança. Concluiu o Curso de Piano da Academia de Música de Vilar do Paraíso. Vive em Vila Nova de Gaia. Publicou O Boneco de papel e outros textos... (2007)
Gabriela de Sousa (Vila Nova de Gaia) é uma jovem autora de 18 anos que acaba de publicar o seu segundo livro: Balcânica, Editorial 100, 2010. Nesta obra ela desenvolve a sua criatividade ao propor uma série de heterónimos e ao expressar-se utilizando a poética e mitologia grega como recursos literários. Há 3 anos surpreendeu-nos com O boneco de papel e outros textos, livro de contos e poemas que nos provocou o sentimento de ver nela uma promessa da Literatura Portuguesa. Em Balcânica, apreciamos a seriedade e a consistência com que assume os seus projectos, consolidando a sua vocação literária.
Gostamos particularmente da Gabriela por nos oferecer uma alternativa diferente de pensar o nosso mundo, tão esquecido da cultura clássica e da tradicional.
Esperamos sinceramente que receba os apoios pertinentes para os jovens valores da cultura portuguesa.
Diego Martínez Lora
Excertos do livro
Introdução
Um dia alguém me disse que, de todos os livros que um sujeito publique, o mais difícil de o fazer foi, certamente, o segundo. Passo este mote para a minha situação; não que eu tivesse mais dificuldade em escrever alguma coisa, ou carecesse de imaginação. Simplesmente porque cria-se a noção de que, numa lógica evolutiva, terá que ser melhor que o primeiro. Gera-se a dúvida, que compreende essencialmente duas questões: a primeira é se acaso terá havido uma evolução do primeiro para o segundo (ou uma regressão) e a segunda é se eu terei sido fiel a mim própria, ou seja, se o produto final deste segundo livro terá sido influenciado por alguma crítica feita ao primeiro e, portanto, procurei agradar o mais possível ao público. Não tenho resposta à primeira questão, até porque é muito subjectiva; no entanto, posso dizer que a resposta à segunda é não, não procurei agradar a um público ou seguir uma corrente específica. Simplesmente segui a minha maneira de pensar (mais concretamente, as minhas maneiras de pensar) e o meu sentido estético.
No livro anterior não me ocorreu uma organização semelhante à deste livro, pelo que me limitei a uma simples ordenação cronológica. No entanto um dos comentários que ouvi foi que parecia que eu mudava de sentir e pensar rapidamente e que alguns textos não tinham nada em comum com outros, quase como se eu não tivesse um estilo próprio. A pensar nisso (e para esclarecer o porquê dessa realidade) organizei este livro segundo as minhas personagens literárias, pelo que transcrevi alguns textos do livro anterior, com vista a um a organização da minha parte e para justificar a minha mudança. Esses textos transcritos são os anteriores ao dia catorze de Junho de dois mil e sete. Apesar de tudo, neste livro só estão presentes quatro de um total de oito personagens, três das quais escrevem num idioma estrangeiro, daí a impossibilidade de os contemplar.
Para terminar, gostaria de voltar a salientar a ideia de fidelidade a mim própria: não segui gostos ou preferências, nem me baseei em modelos na procura de uma identidade; esta já a criei a partir do momento em que ousei revelar as minhas pequenas criações há três anos atrás. Felizmente ultrapassei a dificuldade do segundo livro e posso dizer com certeza que é no segundo que o trabalho começa, que o segundo é que é o marco de um início e não o primeiro, como seria de esperar.
24 de Dezembro de 2008
O boneco de corda
(Saraiva Baptista)
C
aía a neve lá fora. Nas ruas, ouviam-se os cânticos de famílias agasalhadas por causa do frio cortante. E as pessoas passavam e paravam para ouvir, esboçando um sorriso; outras, simplesmente, continuavam o seu caminho...A rua estava apinhada de táxis atarefados a transportar pessoas de um lado para o outro, às vezes até desconhecidos compartilham o mesmo automóvel, com o intento de chegar cedo para a Consoada. Duas crianças puxam as saias da mãe para que esta lhes compre um doce. Um senhor fuma cachimbo no parque A senhora solitária dá de comer aos pombos. Um jovem passa rápido de bicicleta com um ramo de flores. Ouvem-se sons de buzinas para todos os gostos e feitios. E a árvore de Natal, no centro da praça, tão grande ou maior que qualquer outro edifício circundante, é a delícia dos mais pequenos, que a olham, extasiados. Senhores de barba branca e vestidos de vermelho distribuem pequenas prendas. O casal de namorados escorrega no gelo. E a neve caía silenciosa, morosa, conferindo um toque especial ao dia de Natal...
Na casa de tijolo e de quintal ornado com os mais diversos objectos alusivos à quadra, uma criança entra, espavorida, na sala. Estendeu uma caixa em cima da mesa e, após muito custo a tentar convencer os pais, a menina lá conseguiu abrir uma prenda mais cedo. E de lá tirou um boneco de corda, feito em madeira; vestia roupa preta e gravata. Numa mão segurava um violino e, na outra, o arco. Deu-lhe um bocado de corda... e o boneco começou a dançar em cima da mesa, enquanto tocava violino. Contente, a menina bate palmas. E, quando o boneco volta a ficar inerte, saiu da sala e foi ajudar os pais a decorar o quintal.
Não está ninguém em casa... ninguém a que vulgarmente se chame de ser animado... porque os inanimados vão fazendo a festa! Nesse momento, a vassoura encontrava-se, na cozinha, a queixar-se das bolachas ao forno, conversa coloquial, de passagem e de vassoura, que "ai, que as bolachas fazem muitas migalhas" e depois lá andava a moira, coitada, a limpar o chão que os outros pisam, que isto não podia ser e que devia tostá-las menos, que já nem a pá aguentava tanto trabalho. Nas traseiras do jardim, os abetos regalam-se com o frio, pois já era chegado o tempo e comentam o quanto sentem falta dos passarinhos, que se haviam ido embora no mês passado e que cedo voltariam e contariam as novidades. Na sala, o piano tem mais uma discussão acesa com o órgão do sótão, que responde, zangado, nos seus tons mais graves; enquanto isso, as três marionetas do sótão tapam os ouvidos sem paciência, pois há já muito tempo que o velho órgão só fazia uso da sua pedaleira para iniciar discussões... presumiam ser da idade...
No quarto, os bonecos de pano fazem rodas à volta do boneco de corda, pois este sempre era um amigo novo. Levam-no em braços e este, agora no pódio e centro das atenções, toca violino contente, dirigindo-se para a sala, enquanto um sem número de bonecos dançantes o segue quase em cortejo.
Ao pé da lareira está a árvore de Natal e, debaixo dela, o presépio. Nele, dois reis magos ajoelham-se perante o Menino-Deus, acabado de nascer, enquanto que outro de pele mais escura se mantém em pé. Aparece um pastor mais as suas ovelhas que olha, espantado, o acontecido. Ao lado, estão uma vaca e um burro normalmente tão menosprezados pelos humanos e, no entanto, ocupado uma função tão importante! Ao lado do Menino Jesus encontram-se Maria e José. E, no meio deles, um anjo de louça com vestes azuis, asas brancas e longos cabelos de ouro permanece como quem canta hinos de louvor.
Nesse momento, entra o cortejo carnavalesco pela sala. Todos os bonecos cantam e dançam. E o boneco de corda ia na frente, tocando violino.
Mas, com todo o ruído, o menino acorda e começa a chorar! Maria, então, pega-lhe ao colo e canta-lhe, baixinho. José manda calar o boneco de corda, que estava a ser inconveniente e que se mostra levemente incomodado quando vê o anjo de louça a olhar na sua direcção com um ar grave, severo e quase zangado. O cortejo, respeitosamente por quem acabara de nascer, dispersa-se. O menino volta a dormir. E o boneco de corda baixa a cabeça, embaraçado.
Nesse momento entra a menina. Pega nos bonecos de pano e leva-os para o quarto, de volta para a arca dos brinquedos. Quanto ao boneco de corda, sentou-o em cima do piano da sala.
Começa a nevar. Apesar disse, a mãe pega na menina pela mão. Veste-lhe um casaco, cachecol e luvas e, juntas, vão deslizar no gelo. E, guardando as risadas, os tombos e os sorrisos nalgo mais que a memória, está o pai a tirar fotografias.
Sentado no piano da sala, o boneco de corda olha a neve que cai de mansinho... queria estar lá fora também, a ver a árvore de Natal, andar de bicicleta e a comprar doces, pois se confessava muito guloso! E, apesar do frio, por dentro sentia um calorzinho no coração...
O boneco de corda olha para o presépio e, secretamente, desejava encontrar-se naquele momento a deslizar no gelo. E, depois de uma exibição surpreendente, daria a mão... ao anjo de louça, que permanecia com ar ausente ao pé da lareira e embrenhado nas suas canções, o que era uma ocupação muito digna, pensava o boneco de corda...
E assim chega a noite. A família prepara-se para sair e festejar a noite de Natal com os avós. A menina leva um bolo de chocolate, o preferido da avó. Comê-lo-iam no fim do jantar e depois todos se sentariam à lareira com o avô que, fumando no seu velho cachimbo, lhes contaria histórias de Natal da sua infância... sobretudo aquela do lobo, que a menina já conhecia mas não se cansava de ouvir...
Com as pessoas fora, a casa ganha nova vida. Bonecos, pá, luzes e até o próprio presépio dirigem-se para a cozinha para comer as bolachas preparadas pelo forno para grande chatice da senhora dona vassoura! É certo que a nobreza obriga, mas até o próprio órgão do sótão pretende chegar à cozinha por entre resmungos, pois não consegue descer as escadas, enquanto dois soldadinhos de chumbo arranjam um engenho que o possa ajudar a descer. E o órgão lamuria-se que não havia de descer assim, afirmando que "burro velho não aprende idiomas" e que ele, que havia tocado nas igrejas e que tinha sido o instrumento de um grande kappelmeister, não haveria de descer tão baixo... e as marionetas dançam, perdidas de riso.
Mas o anjo de louça permaneceu mudo e quedo, sempre concentrado nas suas músicas. E o boneco de corda também não queria sair do seu lugar em cima do piano... para quê, se estava lá tão bem! Para ele bastava-lhe olhar o anjo de louça, absorto nos seus pensamentos. E como ficava lindo o anjo, concentrado nas suas músicas e ignorando o boneco de corda, que achava que o amava em segredo!
Naquele momento, o boneco de corda só desejava saber tocar no piano alguma música que o anjo soubesse cantar!... E que bonito dueto ficaria, o anjo com a sua voz e o boneco de corda no piano!...
O boneco de corda voltou a olhar a janela e a ver a neve a cair. Na sala, perdurava o silêncio. Só se ouvia o crepitar da lenha na lareira e, muito suave e ao de leve, como que no fundo de um túnel, a voz do anjo de louça.
Então o boneco de corda levantou-se. Desceu do seu lugar e ficou de pé em cima do teclado preto e branco. E depois foi colocando os pés em cima das teclas, primeiro uma a uma, depois duas a duas, pois que as suas mãos nunca dariam conta de um teclado tão grande. E, do melhor jeito que pôde, começou a improvisar...
Lá fora ruge o vento. A neve cai com mais força e a rua é ameaçadas por um temporal. No entanto, dentro da casa de tijolo, está um boneco de corda ao piano que já não improvisa: canta com os pés... e fá-lo de um modo tão natural que é como se já o tivesse feito há anos... de certo modo já o fazia, mas limitava-se aos pensamentos... E o boneco de corda sente-se como se estivesse a deslizar numa pista de gelo. E, como quem acaba de acordar de um sonho, sorri e tira uma grande e vistosa flor vermelha dos enfeites de Natal e estende-a ao anjo de louça...
A janela da sala abre-se com um estrondo. A neve entra pela sala com o seu vento forte. E, ao pé da lareira, o solitário anjo de louça deixa de cantar. E, para sua felicidade e pela primeira vez, o boneco de corda sentiu um estremecer no coração quando o anjo de louça se voltou para trás e abriu um grande sorriso!...
Mas eis que acontece o impensável! Fugindo do temporal, um gato vadio entrou pela janela aberta e refugiou-se na sala. E, sem tomar consciência do que fazia e porque não pensava nas conseqüências, atirou-se ao anjo de louça que estava ao pé da lareira: com os dentes arrancou-lhe as asas brancas, com as unhas rasgou as suas vestes e, finalmente, arrancou os seus cabelos de ouro...
O boneco de corda desceu do piano o mais depressa que pôde mas, nesse momento, a família tinha acabado de entrar. Os vários objectos voltaram rapidamente aos seus lugares, As marionetas caíram no chão. A vassoura varreu os bocados de bolachas do forno, sem se queixar e com ar fúnebre. O órgão voltou para o seu lugar no sótão soltando um grave suspiro e as cordas do piano vibraram ao de leve, gemendo...
A mulher viu a janela escancarada e o gato na sala. Com a vassoura, que já estava farta deste género de trabalhos, correu-o de casa.
Mas pobre anjo de louça! Na sua luta pela vida, havia ficado sem asas, vestes, cabelo e desfeito em cacos! E, algures atrás de um pinheiro, havia um boneco de corda que chorava baixinho... e que são as lágrimas, senão a dor da alma que transborda
A mulher saiu da sala para reaparecer, pouco depois, com um saco; com a mão, pegou nos cacos que restavam do anjo de louça e os cabelos espalhados. E varreu-o para o saco.
Num ápice de desespero, o boneco de corda saiu detrás do pinheiro, atirou o violino para o chão e, num último esforço, atirou-se para dentro do saco que a mulher levava para a rua. Lá dentro, a cabeça separada do corpo do anjo de louça, sem cabelos e rachada ao meio, voltou-se para o boneco de corda e verteu lágrimas de vidro, que o boneco lhe enxugava com as mãos.
De repente ficou tudo escuro; a mulher metera o saco no contentor. Largou-o. Ao cair, ouviram-se estalar os cacos do anjo de louça e saltar as molas do boneco de corda...
...A mãe voltou para casa, para varrer a sala que tinha ficado coberta de neve. Gira o disco de vinil, soando uma ária de Bach. O pai assobia o baixo de uma tocatta. Eno final, já sentada no sofá, a mãe reparou numa flor vermelha grande e vistosa que se encontrava no chão. Colocou-a numa jarra. Na volta, sentiu estalar algo debaixo dos seus pés; era um pequeno violino, abandonado no chão. Pegou nele e atirou-o ao fogo. À frente da lareira acesa, ficara um cabelo de ouro...
II - Thalatta
(Aurélio de Souza)
Lá, onde a morna brisa aquece
A minha terra, à beira-mar,
Alheado e sem pensar
Vejo o Sol que adormece...
Lá, onde a morna brisa aquece
Barcos vejo a navegar...
Ondulando as ondas de ontem
No amanhã que virá
Sonha hoje (quem saberá?)
Pelas amarras que se soltem
Ondeando as ondas de ontem
(há quanto tempo estará?)...
Vejo dormir os veleiros
Lentos, pondo-se a sonhar
Por quem os vá navegar,
Do seu sono prisioneiros;
Vejo dormir os veleiros
Na minha terra, à beira-mar...
E uma onda vai, uma onda vem vem
Vai o pensar, vem a lembrança
Vai a saudade, vem a esperança
Vão os meus olhos por ninguém
E uma onda vai, uma onda vem
E a longa praia não descansa...
(Na proa do meu navio,
Usando o mar como estrada
E levando em riste a espada
Olho o areal vazio
Na proa do meu navio
Ao raiar a madrugada...
Com um rápido movimento
De minha espada, arma mortal,
Espero o dar do sinal
E com a força do vento
Com um rápido movimento
Parto a barreira de cristal...
Mas o céu esmoreceu
Com o feito que eu fiz
E, não podendo de feliz,
Canto para o areal que é meu
Mas o céu esmoreceu
E o vento ouve e nada diz:
"Abram portas, sou chegado!
Abri-vos de par em par
Depois de muito lutar
O cristal está quebrado!
Abram portas, sou chegado!
Cheguei e venci o Mar!"
As portas fecham; foi em vão:
Não me querem receber
Vejo o Sol se esconder:
Deixam-me na solidão
As portas fecham; foi em vão
O que eu estive a combater.)
Estas e outras coisas sonho
Vendo o que o mar revela
Sonho a minha caravela
Navegante me suponho
Estas e outras coisas sonho
Quando estou à janela...
São minhas as ondas que teço
No meu reino de fim do mundo
Quando eu, por um segundo
Outra vida não conheço
São minhas as ondas que teço
E é minh’alma um mar profundo...
(Sei que algures, na alvorada
Está a rainha saudosa,
Está Anfitrite, portentosa,
Nas suas ondas deitada
Sei que algures na alvorada
Está terra mais formosa;
Sei que já fui rei um dia!
Sei que já dancei com fadas
Tive tristezas fadadas
Que por algo eu morria
Sei que já fui rei um dia
Numas terras encantadas...)
...Lá, onde a morna brisa aquece...
...Ondulando as ondas de ontem...
...Vejo dormir os veleiros...
...E uma onda vai, uma onda vem...
...Mas o céu esmoreceu...
...As portas fecham; foi em vão...
...Vejo o Sol se esconder...
...Estas e outras coisas sonho...
...São minhas as ondas que teço...
...Sei que já fui rei um dia!...
´
Lá, onde a morna brisa aquece
Em meu país sossegado
O Sol se encontra deitado
Quando, no fim, anoitece
Lá, onde a morna brisa aquece
E, ouvindo o vento cantar
Abrem-se portas de par em par
A minh’alma adormece
É um veleiro a navegar
Num mundo que desconhece
A própria terra se esquece
E nada existe...
- só o Mar...
Entrevista de Diego Martínez Lora a Gabriela de Sousa a propósito da publicação do seu livro Balcânica, Editorial 100, Junho, 2010.
Título: Balcânica? Comparação entre o Boneco e papel e outros textos… e Balcânica
Antes de mais vejo-me na obrigação de esclarecer o título deste livro. “Balcânica” refere-se à península mediterrânica na qual se encontram países como a Albânia, Bulgária, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Sérvia e a Grécia. Devido a confusões com o termo “balcãs” acho bem esclarecer que o título alude apenas a uma referência geográfica da qual a Grécia Continental faz parte. É, portanto, uma forma de introduzir o leitor no espaço geográfico principal e que já aparecia no encerramento do livro anterior. No entanto, apesar de relativamente próximos e de possuírem pontos em comum, os dois livros revelam-se distintos. Enquanto que em “O Boneco de Papel e outros Textos” a forma predominante é a narração e os textos se encontram organizados por ordem cronológica, em “Balcânica” nota-se uma maior persistência na utilização das formas poéticas, misturando a organização cronológica com a divisão em personagens, conferindo a cada uma o direito a uma identidade que não lhe fora reconhecida mais cedo (algo que explicarei mais adiante). Isto na estrutura formal. A nível de conteúdo noto que não há tanto a mudança de temáticas mas sim o seu desenvolvimento (de notar as semelhanças entre o último poema de “O Boneco de Papel e outros Textos” e o primeiro soneto da “Balcânica”, que dão uma certa unidade a duas obras diferentes, quase como que uma ponte). Os temas essenciais continuam a cingir-se ao Mar, a acentuação do papel da mitologia grega e um certo egocentrismo poético, ainda que possam surgir outros, como o sonho ou o popular.
Heterónimos:
Como disse anteriormente explicarei a questão das personagens a que vulgarmente se dá o nome de heterónimos. Optei por dividir o livro desta forma devido a incompreensões por parte do público do livro anterior, que entendeu os poemas como sendo da autoria de uma mesma pessoa mas só após mo perguntarem. Devido a este mal-entendido decidi também transcrever para o livro actual alguns poemas, nunca textos, que fazem parte do livro anterior e atribuí-los a quem pertencem a fim de esclarecer possíveis interpretações erradas. Mas entendo que isto das personagens soe um pouco confuso; na verdade nem eu sei dizer como surgiram, se é que isso alguma vez aconteceu. Não surgem, são, simplesmente. É difícil precisar com exactidão quando e porquê aconteceu cada um. Com efeito desde pequena que, em qualquer actividade que eu realizasse ou situação em que me encontrasse, me habituei a imaginar um conjunto de entidades que assistiam ao que eu fazia e que me davam ideias, chegando mesmo a repreender-me e, imagine-se só, a ensinar-me coisas... à primeira vista pode ser confundido com o “amigo imaginário” mas era algo mais que isso: o amigo imaginário é idealizado por nós consoante a pessoa que gostaríamos de ter ao nosso lado. No meu caso não era um ideal, era algo diferente e exterior a mim sem deixar de ser um espelho meu, quase como se eu me fragmentasse em várias parcelas mais pequenas, quem sabe se não seria uma busca inconsciente pela razão, as origens que me permitissem compreender-me, quase como dividir um objecto em átomos. Acaba, portanto, por ser um exercício de auto-conhecimento sem que eu me dê conta, senão também de equilíbrio emocional, ao permitir-me expressar numa alegada identidade diferente (alegada, digo bem) certos desejos ou emoções que, sem o saber, teria retidos no meu inconsciente. Após tomar consciência dos seus traços de carácter iniciei um processo de reflexão a fim de perceber os seus “porquês”, “como” e “para quês” aos quais dei forma como meio de exercício intelectual de auto-compreensão; concluindo, são exteriores e com traços muito próprios sem deixar de ter semelhanças comigo, uma vez que eu sou a árvore-mãe e eles os ramos. Note-se também que não gosto de chamar-lhes heterónimos, simplesmente personagens, porque é isso que elas são: mais que um termo técnico que define algo que penso ser indefinível estão vivas na medida em que são diferentes de mim mas acabam por ser eu. Posso dizer também que surgiram todas em simultâneo mas aconteceram em alturas diferentes; de certa forma sempre foram parte de mim mas iam tendo mais relevância à medida que eu me ia apercebendo da sua existência, pelo que comecei a aprofundá-la. Claro está que tudo isto se resume ao aspecto psicológico, do qual eu me ia apercebendo quanto mais tentava perceber-me. O aspecto físico e a biografia vieram por acréscimo, para tentar mais realidade e justificar os aspectos psicológicos, bem como os nomes, que pretendem revelar a personalidade da personagem. Por muito romântico que possa parecer, nada que se escreva é fruto do acaso...
A primeira personagem chama-se António Carvalho. Ainda que não se manifeste com frequência persiste em afirmar a sua existência nas mais pequenas coisas do dia-a-dia. É uma criança morena, de olhos escuros e cabelos revoltos. É alegre, dinâmico e espontâneo, naturalmente infantil mas com um pensar adulto.
Segue-se aquele que dá pelo nome de Saraiva Baptista. Já tem alguma idade, cerca dos seus sessenta anos. Tem sempre a barba mal aparada e apresenta-se de forma desleixada; não é muito alto, tem cerca de um metro e sessenta e cinco centímetros. Aparentemente frio, não é muito sociável e é hábito seu transmitir sempre alguma mensagem.
A seguir apresenta-se-nos Francisco de Sá. É a personagem mais agradável, de vinte e poucos anos, louro, de estatura mediana, olhos azuis, pele tostada pelo Sol e é a única que não tem barba. Vive num meio rural com a avó e é reservado e sonhador. Gosta particularmente de tocar na flauta de madeira que ele próprio construiu. Ama a Natureza como sua irmã e é gentil e bondoso.
Outra personagem é Aurélio de Souza. Convém salientar que o nome em nada tem que ver com a pintora Aurélia de Souza, aliás, nem associei os dois nomes; escolhi-o para dar mostras da sua personalidade egocêntrica. Tem cerca de um metro e setenta, tez pálida e um rosto fino que não sabe esboçar um sorriso. Usa uma barba escura como os seus cabelos e tem cerca de trinta e cinco anos. Médico e músico toca piano, órgão e viola da gamba. É uma personagem inteligente e calculista, vaidosa e culta. Fiel aos moldes clássicos, considera os seus companheiros inferiores por se terem deixado corromper pelo que ele chama de “poesia fácil”, sem preocupações formais ou temáticas. Os seus poemas centram-se exclusivamente no seu “eu” e no seu Mundo. O sentimento predominante é a saudade.
O primo de Aurélio de Souza é Roberto Calderón, português de nascimento mas que escolheu a nacionalidade espanhola após passar a infância num orfanato em Espanha. É muito alto, mais que o primo, moreno e cabelos ruivos. É autodidacta de violino. No seu rosto brilham uns grandes olhos verdes. É uma personagem inteligente, agressiva, revolucionária e insensível. Age segundo impulsos e esteve preso diversas vezes. A nível de expressão é muito semelhante a Aurélio de Souza no que trata às formas. O sentimento predominante é a ira.
Segue-se o Pedro Monteiro. Confesso que esta personagem ainda não estava muito explorada aquando da elaboração do livro, só comecei a descobri-la recentemente e a reconhecer-lhe uma forma própria. É alto, de cabelo liso e claro e barba curta. Usa óculos e tem um rosto magro, um pouco ossudo. É um inconsciente e muito fiel a si próprio, alcoólico sem dar mostras de recuperação futura. Nunca teve nenhuma conquista na vida pois prefere viver de acordo com o prazer do momento ou com as suas vontades imediatas. Não se preocupa com o futuro; no entanto, deixa-se dominar freqüentemente pela melancolia do passado sem nunca perder o seu carácter irônico.
Tenho ainda mais duas personagens, que dão pelos nomes de John Byrd e Marcel Dubois. No entanto destas só tenho o carácter e ainda não consegui transpor essas características psicológicas para uma imagem. Tanto o António Carvalho, como o Saraiva Baptista, o Francisco de Sá e o Aurélio de Souza tomaram uma forma na mesma noite do ano dois mil e quatro, apesar de em consciência o António Carvalho e o Saraiva Baptista terem aparecido no ano de mil novecentos e noventa e oito. Seguiu-se-lhes Roberto Calderón, Marcel Dubois e John Byrd em dois mil e sete e os primeiros ensaios de Pedro Monteiro em dois mil e oito.
Resta esclarecer outra questão que poderá surgir no público leitor: por que é que todas as personagens são sujeitos do sexo masculino? Também não sei exactamente; como disse é algo que já vem de há muito tempo e que aconteceu sem que eu desse conta do processo, logo dificilmente responderei a essa questão. Em parte poderá ter sido por uma questão de complementaridade, mas não creio que seja uma questão relevante: que importa se sou mulher cujas personagens são homens? Afirmar que isso não tem sentido é cair no estereótipo e, mais que um gênero, sou uma pessoa que cria “pessoas”. A persistência de um rótulo de gênero, imediatamente separatista, é a causa de muitas injustiças, tanto para uma parte como para a outra, ditando comportamentos e gostos sem que nos demos imediatamente conta.
Função da Literatura
Para mim a Literatura é, antes de mais, um produto intelectual; no processo literário o autor é obrigado a reflectir e a pôr à prova os seus conhecimentos lingüísticos e, mais importante que isso, o quanto conhece de si próprio. “Pela palavra se conhece o homem”, lá diz muito bem o Livro dos Provérbios e eu entendo esta “palavra” como tendo duas direcções: a primeira e mais óbvia é a de que o homem se dá a conhecer aos demais pelo seu discurso, seja a nível de intelecto ou mesmo de personalidade; a outra direcção refere-se mais ao auto-conhecimento, quando aquele que conhece o homem não é alguém exterior, mas o próprio sujeito que se conhece. Não digo que a Literatura seja ou tenha que ser espontânea; com efeito tudo deve ser tratado, lá está, intelectualizado, ganhar uma forma. Apesar de tudo é possível aquele que escreve desenvolver o seu auto-conhecimento mesmo com esse limite à espontaneidade, na medida em que esse tratamento que ele dá ao que escreve obriga-o a aceder ao seu íntimo, pois não se pode transformar um material sem que se tenha acesso a ele primeiro; e, mesmo depois disso, há que compreender as suas propriedades para o poder trabalhar. Assim sendo, o exercício literário é uma forma de introspecção e que apela também ao nosso sentido estético, sendo portanto algo pessoal. Para mim a boa Literatura é aquela que, sem deixar de ser pessoal, tem a capacidade de passar a sê-lo também para o público, caso contrário caímos na literatura comercial (note-se utilização de letra minúscula em literatura neste caso) quando pretende ter origem na pessoa do público ou torna-se uma literatura sem asas para voar, sem conseguir extravasar-se do autor, como uma planta que não conseguiu abrir flores.
A poesia
Dentro da Literatura a forma que mais exploro é a poesia, ou seja, a música que se faz em palavras. É através do acto poético que o escritor se aproxima de um músico, precisamente porque a poesia tem características muito próprias que a tornam diferente de qualquer outro texto em prosa, tais como ritmo, acentos, compassos, formas, a musicalidade obtida com a rima e com as próprias palavras escolhidas... É tão difícil escrever poesia como fazer música, sobretudo se o objectivo desta for que o leitor ouça música no que lê, algo que eu procuro incessantemente sem saber se me vou aproximando desse objectivo.
Camões - Pessoa
Para mim Camões e Pessoa são dois marcos a reter na literatura portuguesa, cada qual com o seu estilo contrastante mas com o seu valor semelhante. A meu ver Camões e Pessoa são modelos a seguir mas nunca moldes a imitar. Podemos eventualmente seguir o mesmo caminho, mas nunca calcando as suas pegadas, caso contrário perderíamos toda a originalidade e, pior ainda, tudo o que nos permite afirmar que os outros se encontram perante a nossa identidade. Camões e Pessoa são, para mim, os poetas por excelência e que leio mais para aprender (como leria Bocage ou Sophia de Mello Breyner, por exemplo) do que propriamente por lazer. No entanto faço questão de me distanciar dos seus modelos; sou fiel a mim própria e ao meu sentido estético.
Saramago
Outro marco importante da nossa literatura é Saramago; no entanto não posso opinar muito acerca deste autor, até porque não creio ter o direito de fazer um juízo de valor de algo com o qual pouco contactei e que eu reconheço como tendo mais experiência. Os poucos livros que li foram “As intermitências da morte”, “Memorial do Convento” e “A viagem do Elefante”, sendo que este último recomendo vivamente para aqueles que apreciaram o “Memorial do Convento”. No entanto, do pouco que li, posso dizer que aprecio muito a escrita de Saramago enquanto criador de histórias na História e consciência da sociedade contemporânea que nunca deixa de satirizar inteligentemente com ecos passados. É, a meu ver, um contador de histórias ficcionais verdadeiras, se é que me faço entender com este oxímoro. Creio que as principais causas que levam o público, pelo menos grande parte do que conheço, a afirmar não gostar de Saramago são, em grande parte, de carácter pessoal e ideológico que se esconde por trás de objectivos como maçudo ou incompreensível. Basicamente julgam o autor enquanto homem em vez de o fazerem enquanto criador e não há nada mais perigoso na sociedade em que vivemos do que uma mente cerrada, responsável tantas vezes pelos problemas sociais ou impedimento do progresso...
E a Literatura do quotidiano?
Perguntaram-me recentemente por que é que a literatura do quotidiano não aparecia na minha escrita. Acho que a palavra-chave a essa pergunta é mesmo “quotidiano”. Muito sinceramente não sei em que é que eu beneficiaria se decidisse manter-me pelo que é de todos os dias. O quotidiano é, por assim dizer, o banal, comum, que, numa sociedade que valoriza a celeridade e o automático, nos absorve e faz de nós seus servos. Ao menos (espero) a Literatura enquanto forma de Arte ainda não foi escravizada pela sociedade contemporânea e a extravasão do quotidiano é prova evidente da sua liberdade, no meu caso manifesta na utilização da mitologia. É sempre preciso utilizar a mitologia grega (que aparece neste livro) ou qualquer outra temática como recurso expressivo enquanto o autor entender que é o que mais se aproxima do seu objectivo. A meu ver as temáticas não têm moda, ainda que a sociedade teime em impor-lhes fases e estilos cíclicos, ainda para mais sendo a Antiga Grécia um dos berços da cultura ocidental e da própria Literatura, cuja estrutura eu procurei seguir.
consciente de escrever para ser incompreendida?
Boa pergunta. Nunca me tinha debruçado sobre o assunto. Sinceramente não sei dar uma resposta, necessitaria de mais tempo de reflexão; no entanto reconheço a importância da incompreensão na medida em que denuncia uma falha comunicativa, que poderá ser da parte de quem escreve e que não quer comunicar (que não vejo como sendo o meu caso) ou da parte de quem lê ou ouve e que poderá não querer compreender porque choca com algo que se supunha razoável ou correcto. Às vezes não compreender pode ser a chave para o problema.
Mensagem para os leitores
Posto isto a mensagem que deixo para o meu público leitor é a seguinte: mais que membros de uma sociedade ou indivíduos dotados de direitos e obrigações somos filhos de nós próprios. Nunca poderemos ser fiéis a causas ou a idéias se não formos fiéis a nós próprios, da mesma forma que um edifício não se pode erguer se não tiver bons alicerces. A História e a Vida só se fazem por aqueles fiéis aos seus propósitos porque seguir uma sociedade é seguir a inércia. Devemos trabalhar para uma sociedade melhor e reconhecer a sua boa herança mas sem ser seus escravos ou indivíduos em série. Na Arte não há modas e há tudo menos inércia. Na Arte há evolução, que acompanha a evolução da sociedade mas que também tem a função de a evoluir, conclusão a que já havia chegado Fernando Pessoa na personagem de Ricardo Reis quando afirmou " Nunca a alheia vontade, inda que grata | Cumpras por própria. Manda no que fazes | Nem de ti mesmo servo. | Ninguém te dá quem és. Nada te mude. | Teu íntimo destino involuntário | Cumpre alto. Sê teu filho. "
Índice de Balcânica
ÍNDICE
Introdução 5
Saraiva Baptista
A menina dos caracóis louros 9
O pardal 11
Pequena historia de Natal 13
O menino que gostava de escrever 17
O avião 19
Primeiro sonho 21
Págna de diário ficcional 22
A estrela 23
Segundo sonho 26
Imagem 28
O boneco de corda 29
Gabriela de Sousa
Sem título I 37
Acróstico I 38
Acróstico II 39
Folha 40
Neve 41
Sem título II 42
A palavra 43
O cisne 44
Cavaleiro andante 45
Hoje 46
O pássaro morto 47
És 48
Carta possível 49
A boneca 50
... 52
Pedro Monteiro
Palavra vs Silêncio 57
A palavra 58
Sem título 59
Francisco de Sá
Einsame blumen 63
Gaivota 66
Quem sou eu? 67
O gato 68
Trezentos e quarenta e três mil seiscentos e vinte e um 70
O fadista 72
Quadras ao gosto popular 74
O tocador de guitarra 76
Aurélio de Souza
O coração 81
Acróstico 83
Sem título 84
História Trágico-Marítima 85
Mar 86
Marítima 88
Soneto I 95
Soneto II 96
Soneto III 97
Soneto IV 98
Soneto V 99
Soneto VI 100
Soneto VII 101
Soneto VIII 102
Soneto IX 103
Soneto X 104
Soneto XI 105
A chave d’ouro 106
Soneto XII 109
A janela 130
Soneto XIII 112
Soneto XIV 114
Soneto XV 115
Soneto XVI 116
Balcânica (ou Elegia em Doze Epigramas)
I- Soneto inicial 117
II- Thalatta 118
III- Delphos 122
IV- Oráculo 123
V- Enigma 125
VI- Eco 126
VII- Prometeu 127
VIII- Édipo 128
IX- Europa 130
X- Aganipe e Hipocrene 131
XI- Creta 132
XII- No fim, um soneto...! 134
Glossário 135