Os livros da EDITORIAL 100


Título: O Boneco de Papel e outros textos   -     Autora: Gabriela de Sousa
Narrativa e poemas


Narrativa  - ISBN: 978-972-8843-53-3  -     Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2007. 124 p.  Preço com IVA: 12,60 €


   
 


Audiovisual de Diego Martínez Lora dedicado a Gabriela de Sousa


Gabriela de Sousa, (Gabriela Maria Caldeira Trigo Barbosa) nasceu no Porto, em Cedofeita, a 7 de Junho de 1992. Estuda no Colégio de Nossa Senhora da Bonança e é aluna de

violino e piano na Academia de Música de Vilar do Paraíso. Vive em Vila Nova de Gaia.


 

«Textos com encanto, uma caixinha de sonhos. Contos e poemas escritos pela Gabriela, que nos leva com o seu singular talento por um mundo de fantasia e de saudade.»

Diego Martínez Lora


 

Excertos do livro


Preâmbulo

«Os sons estão para além das palavras» – Robert Schumann. É a minha divisa. Não que isso tenha algo a ver com o que está em causa neste momento, mas gosto de a enunciar. Além do mais, eu não podia fazer isto com sons. Bem, na verdade até podia, mas, nesse caso, nem toda a gente poderia perceber o que está escrito e não é isso que eu quero. É assim a vida: cada um luta com as armas de que dispõe...

Não quero considerar este trabalho como uma meta, mas antes como um pequeno passo para lá chegar.

 

«Na terra negra da vida

pousio de desespero

é que o poeta semeia

poemas de confiança

o poeta é uma criança

que devaneia

mas todo o semeador

semeia contra o presente

semeia como vidente

sem saber se o chão é duro

e lhe recebe a semente.»

 

Miguel Torga

 

Não sei se os meus textos vão dizer algo de especial ou, se o objectivo for esse, se alguém os vai ouvir. Fica envolto em mistério. Mas, se não disserem nada a ninguém, pelo menos a mim dizem-me alguma coisa. Todos os textos e poemas são baseados em vivências minhas... isso explica o porquê de eles serem especiais para mim...

Tantas coisas que eu gostava de Ter dito! Tantas coisas que eu gostava que as pessoas soubessem! E que nunca disse, por medo...

Não é suposto este trabalho ser considerado uma meta. Mas, se alguém conseguir ouvir o que eu tenho para dizer, o que eu nunca disse, posso dizer que já a alcancei...


O sonho do cavaleiro

Encontrava-se numa costa, praia, ao pé do mar, que cada vez mais subia para terra, com ondas escuras onde nada se reflectia através delas. O céu, cinzento, nuvens que passavam e o atravessavam expulsas pela altura das ondas que tomavam o seu lugar, quando Veneza se erguia lentamente do fundo do mar qual velocidade com que amanhece. Florença, também, por seu turno, tinha lá deixado as suas marcas. Marcas essas anteriormente admiradas, agora temidas... Estátuas frias, imóveis, escuras como o breu, de pose altiva, superior, tamanho irreal, enfileiradas desde a ponta da esquerda da praia até à ponta da direita... Pareciam vivas no meio daquela imensidão de tons de cinzento, olhando para a direita ou esquerda da praia, o enfileiramento de estátuas, qual batalhão a postos para um «ajuste de contas», perdia-se de vista. Quem olhasse para as estátuas podia jurar que estavam vivas, tal como Veneza. A areia da praia... não a havia. Tomou o seu lugar um chão de granito quase tão escuro como as ondas. No céu não existia, nem Sol, nem Lua, nem estrelas... Não se sabia quando era dia ou noite... No meio de todo aquele panorama, o Cavaleiro sentia-se só... Parecia que tudo o que era belo se tornara feio; tudo o que ele admirara outrora se tinha unido para lhe destruir o sentido da sua viagem... Parecia que tudo o que era bonito, avançava agora para ele com intenções vis, cruéis...


Avó Dolores

Houve tempos em que eu falava com a avó Dolores. E a avó contava histórias tão lindas!...

A avó Dolores nascera numa aldeia; nunca me disse o seu nome, apenas se referia a ela como a Aldeia dos Girassóis. E falava do tempo em que participava nas procissões, das festas, dos conhecidos... As histórias eram sempre as mesmas mas, cada dia, pareciam diferentes, sempre novas, talvez devido à forma e entoação com que as contava.

A avó Dolores costumava dizer que o seu nome, Dolores, significa «Dor» e que a sua mãe lho havia posto por ter sofrido muito. Quando eu perguntava a razão do sofrimento da bisavó, a avó limitava-se a olhar pela janela, com olhar ausente. De quando em quando pousava, no parapeito da janela, um rouxinol. A avó sorria para o rouxinol e eu perguntava de mim para mim o que é que o rouxinol tinha a ver com a avó Dolores.

Não demorei muito a perceber a resposta que a avó Dolores se recusava em dar. Soube-a pela minha mãe. Pelos vistos, a mãe da avó Dolores tinha morrido de parto. Perdera muito sangue e, vendo- -a desfalecer, alguém perguntara o que é que ela sentia. E ela respondeu «Dor». A minha bisavó não dera nenhuma indicação ou proposta de nome para a criança e vendo que esta morria e também devido à exclamação da mãe, os presentes optaram por dar à bebé o nome de «Dor». E assim a minha avó passou a chamar-se Dolores.

E a minha avó nasceu em Março, quando chegam os rouxinóis.

A avó Dolores tinha sempre muitas saudades da sua terra.

Senão, por que razão contava as suas memórias? É tão triste esquecermos aquilo que mais gostamos!...

Os tempos foram passando...

Aproximava-se o Natal. Em casa, todos estávamos felizes. Mas a avó Dolores estava triste... Tinha saudades da sua terra... Saíra de lá em menina e... nunca mais lá voltara... E como desejava voltar, pelo menos, uma última vez!...

A avó Dolores já tinha alguma idade. Estava cada vez mais velha. Mas a velhice parecia nunca haver passado por ela, sempre tão alegre mas, ao mesmo tempo, tão triste!...

A minha mãe sempre soubera que a avó Dolores queria voltar para a Aldeia dos Girassóis... Mas nunca a levara, pois não tinha conhecimento de alguma aldeia dos girassóis, ou seja, com esse nome... Mas a avó dizia – «Ainda hei-de lá ir passar o Natal!...».

Pobre avó Dolores! Como eu gostava de ter podido levá-la à Aldeia dos Girassóis!...

Era chegado o dia 23 de Dezembro. Tanto eu como a minha mãe estávamos atarefadas com a ceia da Natal... Mas como iria eu dizer à avó Dolores que ainda não ia ser daquela vez que ia passar o Natal à Aldeia dos Girassóis?

Não tive coragem. Nem passei pela porta...

E chega a noite. Eu ia para me deitar quando me lembrei que a avó Dolores não tinha saído do quarto toda a tarde.

Entrei no quarto e chamei – «Avó Dolores!».

A avó parecia continuar a olhar a neve. Aproximei-me e coloqueilhe a mão no ombro.

-Avó Dolores...

Não demorei muito a perceber que a avó Dolores nunca mais me ia contar histórias...

No dia seguinte, 24 de Dezembro, o corpo da avó Dolores foi levado para a Aldeia dos Girassóis. Eu estava triste, pois nunca mais ia ouvir as suas histórias...

Mas, deixá-lo! O maior sonho da avó Dolores era voltar para a sua terra.

«Ainda hei-de lá ir passar o Natal!...». E foi.

Alguns dias mais tarde foi a minha vez de visitar a Aldeia dos Girassóis. A avó tinha razão! A aldeia justifica mesmo o seu nome!

Às vezes penso como poderia ter deixado a avó se lhe tivesse dito, no dia 23 de Dezembro, que não ia voltar à sua terra. Mas ainda bem que voltou!

Fui ver a nova morada da avó Dolores: tinha vista para campos cheios de flores!...

Por quantas flores eu passei no regresso a casa!...

Já se passou muito tempo...

Agora encontro-me eu, vencida pela idade, no dia 23 de Dezembro, na velha cadeira de baloiço da avó Dolores.

Estava a acabar o bordado que a avó havia deixado incompleto.

Ficou tão bonito!... Já viste, avó? Um trabalho feito pelas duas, não estás orgulhoso?

Já é tarde. Passa das dez da noite: que dirias, se aqui estivesses?

Estou tão cansada! Hoje vou dormir na cadeirinha de baloiço...

...Boa noite, avó Dolores!... Deixo-te na Aldeia dos Girassóis...


 

Entrevista a Gabriela de Sousa (a propósito da publicação do livro O boneco de papel e outros textos)


Escrever porquê?

Escrever é a forma de expressão que eu escolhi, ela permite-me ser livre mesmo estando entre quatro paredes.

 

Quem te estimulou mais para a escrita?

Essa é uma boa pergunta. Talvez quem me tenha estimulado mais para a escrita tenha sido a minha professora do Ensino Básico, a professora Mónica Lopes.

 

Lês muito? Que leitura influenciou a tua imaginação e o teu  modo de escrever?

Sim, leio muito. E falando de leituras, as que mais influenciaram o meu modo de escrever foram os textos de Sophia de Mello Breyner Andresen, “ El ingenioso hidalgo D. Quijote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes, poemas de Fernando Pessoa, os contos de Hans Christian Andersen e “ Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões.

 

É importante para ti transmitir uma mensagem nos teus textos ou preferes escrever livremente sem pensar na moral da história?

É muito importante para mim, nas minhas histórias, transmitir uma moral ou, no caso de essa não existir, um pensamento ou opinião.

 

Entre escrever, pintar/desenhar ou interpretar/fazer música, onde é que te sentes mais a vontade?

Sinto-me mais à vontade a interpretar música.

 

Gostas de estar mais na aldeia ou na cidade? Porque?

Sinto-me à vontade em ambos os sítios: se no campo me sinto livre e feliz, acabo sempre por estar presa e triste por algumas coisas que deixo na cidade e vice-versa.

 

Que critérios levam-te a escolher entre escrever um poema ou um relato?

Os critérios que me levam a escolher entre escrever um poema ou um texto narrativo são, não só o tema em si, como o meu humor, o estado de espírito do momento.

 

Qué músico ou músicos admiras mais? Porquê?

Um músico que eu admiro é o compositor alemão Robert Schumann. Mesmo não sendo ser um músico contemporâneo, admiro a sua tenacidade, pelo facto de  persistir em tocar piano, apesar de ter dois dedos da mão direita paralisados.

 

Quando eras pequenina que gostavas de ser de grande? E agora com 14 anos o que é gostavas de ser de grande?

Quando eu era pequena pensava ser paleontóloga. Hoje, não faço ideia…

 

Descreve o teu espaço ideal para viver?

O meu espaço ideal para viver não tem vizinhos e é bastante isolado… Eu não sou uma pessoa propriamente silenciosa depois das dez da noite…

 

Gostas do teu colégio e da tua academia de Música? e porque?

Gosto muito do meu colégio Nossa Senhora da Bonança e da Academia de Música de Vilar do Paraíso, sinto que ambos os estabelecimentos são a minha segunda casa…

 

Que mensagem gostavas de dar às crianças que gostam de escrever e de pintar?

Eu gostaria de dizer, não só a essas crianças mas também às outras, que não se entendem com a pintura, a música ou a escrita, que todos nós nascemos com uma capacidade, e essa capacidade não tem que ser  necessariamente jeito para  escrever, pintar ou para a música. Até pode ser a fazer qualquer outra coisa, como trabalhar a madeira, moldar o barro, mas seja lá o que for, o principal é descobrir esse talento dento de nós. Para isso há que experimentar e seguir a nossa intuição.

 

Qual pensas que seja o público do teu primeiro livro?

Quando comecei a elaborar o livro não pensei num público alvo específico. No entanto, avaliando o resultado final, poderia dizer que se destina a jovens com idades compreendidas entre os 10 e os 16 anos.

 

O que significa para ti este livro chamado: O boneco de papel e outros textos?

Este projecto foi muito importante para mim, aliás, todos os meus textos são ordenados cronologicamente, o que pode descrever este trabalho como um companheiro de alguns anos.

E gostaria de deixar necessariamente esta pergunta no ar: será que todos nós não somos, ocasionalmente, bonecos de papel? 


Índice de O Boneco de Papel e outros textos

 

Preámbulo 5

O Inverno (Descrição I) 7

Porque e como (Acróstico I) 8

Mar I 9

Aurora 10

Agonia 11

Floresta Negra 12

Resignação 13

Triunfo 14

Só 15

Descrição II 16

Descrição III 17

O sonho do cavaleiro 18

Opiniões 19

Uma história de galinhas 20

História de uma flauta 21

O Rio 23

Boneca de madeira 24

Natureza 26

Acróstico II 27

Acróstico III 27

Acróstico IV 29

Sem título I 30

Era uma vez cinco malmequeres 31

Dedo indicador 33

O velho carvalho 34

O pavão de porcelana 37

O usurário 40

Descrição IV 43

Descrição V 44

Sob a luz pálida da Lua 45

O pintor 46

Página de diário ficcional 51

Sem título II 53

Na Estrela Polar 58

Neve 61

Folha 62

A sonata de Mozart 63

Nocturno, nº2, op.9 64

O boneco de papel

Porque é que sou diferente? 65

A aranha 69

A história da Princesa 74

O homem louco 78

O reencontro: A borboleta 83

A papoila 86

Conclusão 92

Descrição VI 94

Avó Dolores 95

Einsame blümen 98

Sem título III 101

Romance de um gato preto e de uma pena branca 102

Sem título IV 104

A palavra 105

O coração 106

Sem título V 108

Sem título VI 109

Mar 110

História Trágico-Marítima 112

Marítima 113


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