Os livros da EDITORIAL 100
Título: dicotomia - Autor:
jota esse
Poemas
Narrativa - ISBN: 978-972-8843-69-4 - Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2008. 68 p. Preço com IVA: 12,60 €
Audiovisual de Diego Martínez Lora dedicado a jota esse por dicotomia
fotografias de José Sousa: o lado de fora interior
jota esse, José Sousa de seu nome, nasce a 5 de Abril de 1983 na Guarda, tendo sido naturalizado no Pereiro (Pinhel). Fazendo o 1º e 2º ciclos de escolaridade em Pinhel, vai estudar para o Seminário Menor do Fundão, onde conclui a escolaridade obrigatória. Repartindo o ensino secundário entre o Seminário Maior da Guarda e a Escola Secundária de Pinhel, ingressa então no curso de Jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde exerceu, entre outras, actividades jornalísticas como a rádio e o jornal, tendo sido repórter fotográfico do Jornal Universitário A Cabra depois de ter completado um curso técnico-profissional de Fotojornalismo creditado pelo Cenjor. Foi no 3º ano do curso universitário que escreveu esta obra, em 2004. Reside actualmente em Pinhel.
Publicou sobre o Amor e outras cousas em 2007.
Excertos do livro
Conspiração
Julgava~me numa conspiração inscrita e fabricada por mim próprio, que me apercebi que apenas existia na minha cabeça… consegui chegar a um estado em que tudo que me rodeava me dava sinais de algo e me levava sempre a algum lado onde encontrava respostas urgentes e vitalícias para as minhas questões enlouquecedoras. Uma altura em que me sentia uma marioneta projectada num espaço desenhado e concebido para mim, em que todas as pessoas que me rodeavam eram figurantes activos e permanentes, em situações pontuais e certeiras, predestinadas se calhar… uma altura em que me senti observado por todos e me julguei alvo de inúmeras câmaras
de um deus que acompanhava todos os meus passos/movimentos e que conheciam até pormenores da minha vida íntima.Julgo normal ter-me sentido incomodado por tais circunstâncias vivenciais/existenciais, e entrei numa espiral conspiradora sobre mim próprio que me estava a levar para um sítio de onde penso que não voltava
assim tão rápido… mas não foi o que aconteceu. Racionalmente, é praticamente inconcebível uma conspiração deste género, podendo mesmo classificá-la de narcisista. Se bem que, nesta altura, e no mundo em que vivemos, me parece que já nada lhes é impossível…
não há
nada que não se resolva!Bastou~me sair de mim próprio, ou melhor, tomar consciência de que tinha saído de mim próprio. Afinal tinha tomado a forma de um pássaro morto! E quão doce que é esta sensação…
Um pássaro de fogo irradiante de Amor.
REQUIEM
Quero aqui expressar
Esta dor imensa e imersa
Que já se tornou
Submersa a partir do
Momento em que espalharam
As minhas cinzas em
Casas de loucos,
Em átrios de frouxos,
Aeroportos virtuais que
Levam a universos paralelos.
Riem-se entretanto da
Escrita que é minha mas
Calam-se de súbito
Quando surge o som que
Brota deste coração negro,
Cor de breu, deste corpo
Fraco, em farda caqui,
Porque deixámos mesmo
O Brio decair totalmente.
As palavras que surgem não
São de alegria nem euforia
Sequer, mas sim de
Desespero e uma ânsia
Que me faz estar preso a
Este papel, a única
Entidade que me respeita.
Posfácio (
por Rafael Monteiro)
Quando vemos uma triste figura
Provocamos um surdo riso, falso sorriso
Numa esperança que troveja
E não mais quer desperdiçar.
Esta chuva clemente que me beija
Chora porque me ama e me guia à Luz.
Com ela sinto-me grande e leve,
Tudo brilha ao meu redor,
Como reflexo do meu interior,
Porque respiro suspirando…
Colocaram-me numa prisão violenta
Mas o meu espelho de Luz
Faz-me acreditar no Sol
Mesmo que me visite a chuva.
Esta vida é um palco
E é aí que sinto a minha liberdade,
Contemplo o meu ser
A cantar, a chorar ou a voar.
A minha VERDADE é esta:
Quanto mais vivo e sonho
Mais alto me
te
vos consigo CONTEMPLAR!
Rafael Monteiro
(dedicado a M.P.)
Entrevista a jota esse (a propósito da publicação do livro dicotomia)
A poesia em dicotomia é uma poesia ao mesmo tempo reflexiva, interventiva e transcendental. Como em tudo que escrevo, é reflexiva na medida em que cada palavra é fruto de uma reflexão pessoal sobre determinado tema, determinada situação ou determinada vivência. È interventiva uma vez que chama à atenção sobre determinados aspectos do quotidiano, certas atitudes de outrem, sendo intervencionista na tentativa de correcção dessas mesmas atitudes. E é transcendental por eu me reportar às estrelas, ao universo exterior e ao infinito, assim como se pode dizer que é também uma tentativa minha de integração na Natureza ao me fazer parte de elementos naturais como sejam o Sol, a Lua e o vento.
O tema e a origem de dicotomia surgem numa altura em que eu vivia a vida muito intensamente e em que cada pequena coisa me falava e me levava a passar para o papel a minha visão empírica das coisas simples.
dicotomia surge como um manto de retalhos de três abordagens diferentes da minha vida. O primeiro capítulo, em que me refiro à agagók (sendo que, segundo a cultura indígena, este é um pássaro que nos acompanha durante o dia e nos guarda à noite), surge numa altura revolucionária da minha vida que vestia predominantemente a minha farda caqui (não a da tropa, mas indumentária dessa cor), altura em que fazia teatro e muito mais actividades como sejam a fotografia e a sonoplastia; o segundo capítulo foi registado durante o meu internamento, contendo uma visão tanto derrotista como optimista da vida que para mim se revelava cessante (daí o Leaving Life – deixando a vida); e um último capítulo que encerra com duas mini-peças de teatro escritas durante a minha passagem pelo CITAC (Ciclo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra).
Este livro não é uma tentativa ontológica de salvação (julgo-me são, mas não ainda salvo), mas sim de libertação através da pena e do papel, uma libertação das correntes do dia-a-dia por prisioneiros que somos do tempo, dos outros e daquilo que precisamos para sobreviver.
Em dicotomia, a transcendência da palavra poética faz-se notar na constante referência às estrelas, ao Sol, ao vento e à Lua, como já referi atrás. Isto explica-se pelo facto de na altura eu estar constantemente em transe espiritual, sendo a verdade e o discurso poético uma realidade transcendental mas talvez ilusória, uma comunhão com tudo o que me rodeava. No que diz respeito aos limites da poesia, isso revela-se um facto consumado, tal como em qualquer registo escrito, pois por mais rica que seja a nossa fluência verbal, jamais seremos capazes de ser totalmente fidedignos e esgotáveis em relação ao que sentimos.
A poesia, em detrimento de sermos mais, permite-nos antes deixar de ser, na medida em que saímos de nós próprios no acto da escrita e deixamo-nos simplesmente levar pela inconsciência momentânea.
Critico dicotomia como um livro em que as palavras nos fazem sair de nós próprios para voar, para ir longe sem sairmos donde estamos, em que partimos para ficar e ficamos ao partir, em que a transcendência toma lugar e a reflexão do que lemos se revela pronta e em que podemos ou não identificar-nos com o que lemos.
Pode dizer-se que o registo escrito e em particular a poesia nos permite ordenar a própria existência, sendo que ordenamos ideias, estabelecemos prioridades vitais, psicológicas e espirituais (transcendentais se quisermos), e o mesmo tempo permite que haja mais luz dentro de nós, que sejamos iluminados e génios à nossa maneira.
A poesia é como uma fuga tocada por uma orquestra, cuja intensidade é tão maior quanto maior for a dedicação com que nos entregamos às palavras inconscientes mas vividas, sentidas como uma queimadura na nossa pele. E é precisamente no acto da escrita que, ao sairmos de nós, é como se tudo estivesse anestesiado menos o cérebro, que tudo comanda; é como se estivéssemos possuídos pelo espírito benévolo e benigno da poesia… e que, por fim, esta mesma anestesia é diagnosticada como uma filosofia terapêutica que nos cura de todas as maleitas mentais que se revelam.
Permitam-me ainda que me refira à poesia como o templo da palavra, em que tem lugar a contemplação desse deus poético que há em nós… até que seja crucificado!
Por fim, vou referir-me a uma outra forma de expressão minha que é a fotografia. Posso dizer que a experiência fotográfica tem similitudes com a expressão poética, na medida em que trata de captar e aproveitar aquele momento único e irrepetível, como é o caso das fotografias patentes na minha primeira exposição de fotografia, intitulada O lado de fora interior, interior esse que é representado por coisas exteriores com que nos identificamos no acto de olhar, olhar para ver… com os olhos da alma, está claro! O que me motivou a expor esta série de 33 fotografias foi a vontade de partilhar com o público a minha maneira de ver o mundo e a importância e perspectiva que lhe dou.
E para acabar, deixo-vos com um texto a publicar no próximo livro:
Fotografias vegetais incessantes, por incontáveis que são,
me reportam para um futuro improvável. Lugares estranhos
à primeira vista, mas facilmente reconhecíveis depois de
um profundo olhar. Lugares comuns a tantas outras vidas
passadas, e prováveis em tantas outras futuras, próximas.
Índice
Parte I
- al zihad µ agagókVida (A receita que precisas…) 9
inConsciência 10
Conspiração 12
Branco 13
SO_L_UZ 14
Vento 15
Estrelas 16
Lobis Homem 17
Desfasamento 18
Manhã 19
Noctis 20
Claro 21
Um 22
Hora 23
S & M’s 24
Tabula Rasa 25
Caminhada 26
Sem Resposta 27
altura 28
céu 29
Silêncio 30
primeiro passo 31
Terapia 32
A~QÍ 33
In(Transe)Gente 34
Dante’s Peek 35
Peace 36
Surdez 37
Requiem 38
Mezcla 39
Nada 40
Sinopse 41
Parte II -
kÂQÀ z Leaving Lifeinglórias esperanças 45
Chuva clemente 46
Transparentes 47
Prisão 48
Psi
fe 49Palco 50
Piadas caucasianas 51
Dormir 52
negro gato 53
Sebastião 54
Posfácio 55
Parte III
- apêndice teatralA(m)ar 59
Sorriso mudo 61
Índice 65