Os livros da EDITORIAL 100


Título: Maria do Mar     -     Autor: José Pereira da Graça


   

José Pereira da Graça, nasceu na Beira-Alta, em Gamelas (Pinhel) Os estudos levaram-no a Lisboa, Guarda e Coimbra. A profissão fê-lo percorrer o País. A vida impôs-lhe a busca inexorável da VERDADE. Actualmente é juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça. Mora em Vila nova de Gaia. Publicou também: Témis, A Deusa da Justiça - 1987; Os «Cruzados» da Serra - 1991, 2006, Labirintos - 1994, O urso vermelho - 2006.


Livro de crónicas - ISBN: 978-972-8843-24-3  -     Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2004. 104 p.  Preço com IVA: 10,50 €


Maria do Mar (Viagens & Mitos)

Uma viagem intemporal, sem fim, sobrevoando mitos monumentais, em busca da harmonia possível e desejada, eflúvio da liberdade intelectiva em lenta construção. Trajecto suposto necessário e urgente, na linha implantável de um "SER novo, divinamente humano". No percurso, com emergências esporádicas do antigo humor académico coimbrão, faz-se escala em portos, os mais díspares, como pornografia, homossexualismo, génese liberal sobretudo lusa, confronto de religiões, como factor gerador de violência, transitoriedade dos impérios, papel dos Templários no Mundo particularmente em Portugal, mensagens codificadas de Da Vinci, a magia do Amor sadio fonte da vida.


Excertos do livro


I

“Todos os homens consideram como bárbaro aquilo a que não estão habituados” (Montaigne)

“Tu és de todas as raças. Embora só te reconheças numa, por um incidente da História e da Geografia” (Jorge Chichorro Rodrigues)

 

POR FRANÇAS E ARAGANÇAS

 

 

Os componentes da Associação dos Antigos Tunos da Universidade de Coimbra, de parceria com os estudantes que, então, frequentavam as Faculdades e integravam a Tuna Académica daquela Universidade (TAUC), aprestaram-se para uma jornada até França, impregnados do espírito de eterna juventude, caldeado naquele ambiente académico, quais cavaleiros andantes dispostos a terçar armas por suas damas (as deles, francos...) eventualmente carecentes de desafronta.

Chegados à fronteira de Vilar Formoso, um pequeno problema aduaneiro provocou inesperada demora. Enquanto se esperava, veio à lembrança uma outra passagem nesta alfândega, em Dezembro de 1960, quando os antigos ainda eram novos e integravam, nessa época, a TAUC. Esta centenária instituição fora convidada, pelo Clube Rotário Internacional, a visitar o Sudoeste francês.

Antes de se transpor a fronteira, o representante do reitor da Universidade, companheiro oficial, mandou o presidente da direcção fazer uma clara advertência: era expressamente proibido falar sobre política e sobre religião enquanto se permanecesse no território espanhol ou francês.

 Isto dito a universitários, quase todos finalistas! Claro, no íntimo de cada um, esconjurou-se o respectivo fantasma e formulou-se, logo ali, o propósito firme de falar mesmo...

Aliás, como se havia de verificar, eram os franceses e as francesas quem, com a maior naturalidade, falavam frontalmente na ditadura que se vivia em Portugal e no torcionário cristalizado a comandá-la, o que para os ouvidos lusos era inquietante, mesmo quando a confidente era uma encantadora parceira de dança e esta afirmava, com a cara encostada ao portuguezinho inabituado a tais franquezas e liberalidades, o sabido por demais verdadeiro, mas ... indizível.

Esta maneira perturbadoramente chegada de dançar, então impensável em Portugal, levou um dos tunos, depois de bebido espirituoso bordeaux branco, com repetições significativas, a aproximar-se do microfone da orquestra. Pediu licença para uma curta intervenção. Tudo parou a olhar para ele. Então, declamou solenemente, pausadamente, olhos fitos nas raparigas, no meio de um silêncio completo, em bom e claro português:

 

- Roçai, meninas, roçai,

   Como Jean-Jacques Rousseau!

 

Claro que as meninas apenas entenderam a invocação do nome do célebre filósofo, por isso pediram explicações perante a risada geral de quem dominava o português. Feita a explicitação, segunda vaga de hilaridade ressoou na sala.

Mas continuemos a viagem. Ultrapassada a dificuldade alfandegária, chegou-se a Arad, antes de Salamanca, onde se almoçou. Retomada a marcha, no sentido de Tordesilhas, o ambiente morno e baloiçante do veículo tornou pesada a vigília. O João Miguel deixou pender a cabeça ao sabor dos movimentos do autocarro até encontrar o ombro quente e macio de Maria do Mar. Abandonou-se à sensação de conforto.

Na passagem por aquela cidade, naturalmente aflorou à memória  a figura de D. João II e o célebre tratado, entre portugueses e castelhanos, divisório das áreas de influência no Atlântico e na América. Foi um momento propício à evocação, na intimidade de ambos, da figura notável daquela personagem real.

- Numa época - disse João Miguel - em que a falta de conhecimentos lançava imagens alucinadas sobre a concepção do mundo e dos mares, fruto de devaneios sem limites, algo muito forte motivou aquele Rei a assinar um tratado de grandes consequências futuras, inimaginadas para a generalidade dos contemporâneos.

- Com efeito - acrescentou Maria do Mar - houve uma motivação tão importante como enigmática, pois parece haver um curioso pré-conhecimento de que, assim, se  assegurava algo já antes alcançado através do Tratado de Alcáçovas, celebrado com a mesma motivação.

Na verdade, segundo este Tratado, ficaria para Portugal tudo o existente a sul das ilhas Canárias, isto é, “qualisquier otras islas, costas, tierras, descobiertas e por descobrir, falladas e por fallar, islas de la Madera, Puerto Santo e desiertas, e todas las islas de los Açores, e islas de las Flores, e asi las islas de Cabo Verde (...), e todas las islas que se fallarem o conquirierem de las islas de Canarias para baxo (...) finca a los dichos Rey (D. Afonso V) e Príncipe (futuro D. João II) de Portugal e sus reinos, tirando solamente las islas de Canaria (...)”.

Quando Colombo descobriu as Antilhas, emergiram problemas só ultrapassados em Tordesilhas, em documento constante de seis folhas de papel de prego, assinado pelos procuradores régios respectivos em 1494. Cumpriram-se rigorosamente as instruções de D. João II para que “se faça e assine polo dito mar oceano uma raia ou linha direita de pólo a pólo, a saber do pólo árctico ao pólo antárctico, que é de norte a sul. A qual raia ou linha se haja de dar e dê direita, como dito é, a trezentas e setenta léguas das ilhas do Cabo Verde pera a parte do ponente (...)”.

            - Certamente - asseverou João Miguel - o Príncipe Perfeito dispunha de conhecimentos especiais que o levaram a alimentar uma natural vocação atlântica, numa época em que os castelhanos, através de Fernando e Isabel, se voltavam mais para os problemas europeus e mediterrânicos, como a lenta expulsão dos mouros.

            - E assim se criaram as necessárias condições políticas para  o surgimento da imensa área territorial que havia de ser o Brasil.

            - Sem dúvida. Surpreendentemente, na época de dominação dos Filipes, porque era tudo castelhano, avançou-se mais para Ocidente, bem para lá da linha estabelecida em Tordesilhas. Esse avanço foi, depois da retoma da independência, reconhecido pelos espanhóis, por via do Tratado de Madrid, em 1750.

            - Donde se conclui que o Brasil, territorialmente, acabou por beneficiar do domínio filipino.

- É verdade. Mas, voltando ao fio da meada, que conhecimentos seriam os do nosso Rei, propiciadores do exercício da referida vocação, velha do tempo do Infante D. Henrique? - interrogou-se Maria do Mar. Este já obtivera uma carta de privilégio reconhecido pelo papa, relativamente à exploração das terras e dos mares a sul do cabo Bojador. Algo colocava Portugal em condições favoráveis ao avanço dos descobrimentos e não era certamente apenas a sua situação geográfica à beira do mar aberto.

- Penso - disse João Miguel -  que a fímbria deste mistério pode estar ligada à Ordem dos Templários, aos seus conhecimentos náuticos, às suas especiais ligações aos portugueses e a possíveis experiências de navegação, secretas algumas, esquecidas ou ignoradas pela História, outras.

- Deves ter razão. Por que terá D. Dinis, na sequência da extinção papal daquela Ordem de Cavalaria, mantido intacta a sua estrutura e bens, limitando-se, diplomaticamente, a rotulá-la com a designação de Ordem de Cristo? - interrogou-se Maria do Mar. E acaba por ser o símbolo desta Ordem, a Cruz de Cristo, a acompanhar, depois, as caravelas e naus, decorando o bojo das velas ...

- A verdadeira razão da extinção que mencionaste, não se relaciona com eventual simpatia da Ordem por Portugal?

- A verdadeira razão? Não foi a prática de homossexualidade?

- Não. Tal prática não era novidade nenhuma também noutras Ordens e instituições congéneres.

- Divergências pontuais com a hierarquia eclesiástica?

- Não. Os Hospitalários também as tiveram e não sofreram declarações de extinção.

- A fantástica riqueza da Ordem?

- Não, directamente. Por que haveria a Igreja de reagir contra essa situação, se fosse a suprema beneficiária dela? Indirectamente, sim.

- Então?

- Então o assunto é interessante e complexo. Havemos de voltar a ele. Agora apetece-me dormir.

 

(...)

 

NA TERRA DOS FARAÓS

 

 

 

Em Abril, novamente o aeroporto da Portela foi ponto de encontro para um grupo, agora com características diferentes. Pouco tinha já a ver com a envolvência académica, irreverente e jocosa. Era, pois, na gíria coimbrã, um grupo inteiramente futrica. Nem por isso, porém, estava ausente a boa disposição solidária.

Cedo se constituiu uma família ligada por certo espírito de aventura e, sobretudo, por um interesse insaciável de alargamento cultural. Estabeleceu-se, assim, utilizando linguagem informática, uma espécie de ilimitado input na ânsia de, humilde e permanentemente, se melhorar o output.

Na pista, aguardava o grupo um enorme Jumbo de uma Companhia de bandeira egípcia. O deus Hórus pintado atrás, no leme de direcção, era o primeiro indício da grande civilização antiga do país a visitar.

Os hercúleos motores lançaram o colosso voador, com os seus dois andares, em corrida desabrida ao longo da pista, enquanto alguns passageiros davam sinais da tal “miúfa aguda” ou “síndroma do cagaço”. Em breve, porém, qual açor descomunal, já o gigante dos ares estabilizava em direcção ao Oriente. A velocidade, insaciável devoradora de espaço, poupava avaramente tempo.

- Maria do Mar, acabamos de deixar a terra espanhola para trás e, mais uma vez, sobrevoamos o elemento integrante do teu nome.

Fingiu-se, subitamente, apreensivo:

- A propósito do teu nome, nunca to disse, mas, na verdade, há um pormenor importante...

- Que pormenor?

- Falei em pormenor, mas, na realidade, trata-se de uma questão, para mim, essencial.

- Estou cheia de curiosidade!

- Eu pensava que eras minha, mas, afinal, és... do mar!

            Ela riu-se, chegou-se bem a ele, deu-lhe ligeira mordida no lóbulo da orelha e segredou-lhe:

- O nome Maria pode ser do mar, mas tudo o mais da Maria é teu!

João Miguel encostou a sua cabeça à dela e assim permaneceram por um largo tempo, sentindo o prazer da troca de calores, a misturarem-se saborosamente.

Em baixo, as ondas corriam em linhas brancas paralelas, umas atrás das outras, sinal de brisa forte.

- Lá está - observou ela - a vastidão do Mare Nostrum (deles... Romanos). Mare Nostrum, curiosamente transmudado em epitáfio de uma grandeza julgada inabalável, como todas as grandezas imperiais.

- É verdade! Todos os grandes impérios tiveram a sua ascensão e queda: os orientais, o egípcio, o grego, o romano, mais recentemente o soviético. E sempre caem por dentro, autodesmoronando-se por via de insanáveis contradições internas. Está na calha o próximo, bem lá para os lados do sol-poente.

- Obviamente. É uma questão de tempo...

Enquanto se sobrevoava, sucessivamente, a Sardenha, a Cecília, Malta, Creta, para trás, à direita, foram ficando a Argélia, a Tunísia, a Líbia; à esquerda, a França, a Itália, a Grécia, a Turquia. Quantas sugestões, quantas vivências de uma humanidade passada, elos de ligação e de sustentação da actual...

Em breve surge o famoso delta do imenso rio Nilo com Alexandria não muito longe da mais ocidental da sua meia dúzia de fozes.

- Alexandria! - exclamou Maria do Mar, enquanto remexia nos arcanos da memória. É impossível, neste momento, não pensar no jovem Alexandre.

-E não só pela sua cultura pessoal, ou não tivesse ele sido aluno de Aristóteles, com quem aprendeu ciências naturais, medicina e eloquência; nem só pelo seu génio guerreiro que o lançou para a conquista sem limites, como se quisesse dominar o mundo, como um Napoleão Bonaparte dos tempos antigos.

- Qual o aspecto mais interessante desse endiabrado rapaz que só tinha trinta e três anos quando morreu, por doença?

- Olha, Maria do Mar, penso poder considerar-se o facto de ter apreendido o essencial da extraordinária cultura grega e de a alargar aos países sucessivamente conquistados, sem deixar de respeitar as formas locais de vivência.

- Aliás, é dessa mistura que nasce o helenismo, a cultura de Hélen que os gregos consideravam seu primitivo ascendente.

- É isso. O principal centro dessa nova cultura foi precisamente esta cidade de Alexandre: Alexandria.

- Aqui, o culto do saber e da inteligência honrou a ascendência intelectual grega, sem perda, como ficou dito, do respeito pelo essencial da maneira de viver egípcia. Por isso, o povo aceitou, de boa mente, aquele estrangeiro como seu imperador.

- E assim, Maria do Mar, se fundou, naturalmente, uma biblioteca das maiores e mais ricas do mundo. Sabes que havia emissários deambulando por diversos países em busca de livros, num permanente enriquecimento do seu espólio?

- Espantoso!

- Mais: quem passasse pela cidade com livros era obrigado a entregá-lo para se fazer uma cópia! Entretanto, Alexandre desapareceu e vieram os conquistadores romanos. Também eles respeitaram alguns aspectos da cultura egípcia, deixando intactos os templos tradicionais. No de Fhilæ, perto de Assuão, há uma parte construída pelos romanos!

- Mas essa situação não durou para sempre e, provavelmente, muitos romanos influentes não saberiam lá muito bem para que servia tanta livralhada...

- Se sabiam, não a apreciaram devidamente. Na época de Júlio César, houve quem descobrisse serem os rolos de papiro, os livros de então, um excelente combustível para aquecer água nas termas...

- Espantosa insensatez e crassa ignorância!

- Decerto! Entretanto, surgiu no mundo romano uma nova religião com origem aqui bem perto, na Jordânia, em Israel e até nestas terras: lembremo-nos da fuga da Sagrada Família para cá. Ora, rapidamente e com força indomável, tendeu a espalhar-se por aquele mundo.

- Inclusivamente por todo o  Egipto.

- Exacto, também por cá. Essa nova religião tinha e tem um livro sagrado.

- A Bíblia.

- Sim, a Bíblia. Conforme já o referimos, ela continha, segundo se acreditava, ou se dizia acreditar, mas se obrigava implacavelmente a aceitar, toda a verdadeira sabedoria, pois fôra ditada por Deus para conhecimento e uso dos homens.

- Portanto, João Miguel, tudo o mais, antes pensado e escrito, era supérfluo ou mesmo nocivo.

- Naturalmente. Não se estranha, assim, que quase toda aquela riqueza, património da humanidade, sem protecção de quem quer que fosse, votada a um hostil e completo abandono, tivesse sido consumida pela labareda do incêndio intencional da insensatez, num fantástico luzeiro de trevas ateado pelo zelo apostólico do bispo Teófilo, cerca do ano 390!

- Luzeiro de... trevas? É isso mesmo! Mas ainda muita coisa escapou, nessa altura.

- Só que, mais tarde, a onda islâmica varreu o mesmo território. Sob o signo de Omar, reacendeu-se o brasido nos restos da grande biblioteca e o respectivo luzeiro, provavelmente potenciador da estagnação filosófica medieval. Salvou-se o que muitos homens sábios, por iniciativa pessoal, conseguiram pôr a bom recato.

- E seriam esses salvados a ajudar a redescoberta de Aristóteles e de outros clássicos, através de traduções de Averróis e de Avincena, germe do desencadear do Renascimento.

- É verdade. Não obstante as acendradas tentativas de entraves, como claramente resulta das leitura do conhecido livro de Umberto Ecco, “Em Nome da Rosa”. Entraves só atenuados quando S. Tomás de Aquino ginasticou doutrinalmente para conciliar o aristotelismo com a doutrina vigente.

Por uns momentos mantiveram-se pensativos, impressionados pela evocação dos acontecimentos.

João Miguel, emergindo da meditação, referiu com solenidade:

- Por vezes, com poderosa ironia, a razão acaba por se impor, deixando para trás a força conjuntural da irracionalidade: o Egipto e o Mundo garantem o renascimento glorioso de nova biblioteca, no mesmo local!

- E com a conversa quase chegávamos ao Cairo sem dar por isso - disse Maria do Mar, espreitando pela janela.

Efectivamente, a grande Capital, a maior do continente africano, estava ali a nossos pés e o avião mergulhou suavemente em busca da pista de aterragem.

- Finalmente estamos no seio do Islão.

- Não há dúvida, Maria do Mar. A prová-lo aí estão as cúpulas das mesquitas e os típicos crescentes. Repara na quantidade de minaretes! Ou não fosse a cidade dos mil minaretes! Vamos, com certeza, ouvir os recitadores apelarem à oração, cinco vezes por dia.

Não se enganou. Em breve, aos seus ouvidos chegou o som forte de uma das preces entoada por voz bem treinada, ou não acontecesse nas universidades do Cairo a melhor preparação de recitadores corânicos. As palavras tombaram solenemente a encher a Cidade, impressionando a imaginável reacção pavloviana dos milhares de ouvintes crentes. Um pouco como o toque das trindades nas aldeias portuguesas, à tardinha, e das ave-marias, ao alvorecer, ainda em meados do Séc. XX.

- Agora - ponderou João Miguel - já não precisam de subir ao topo das escadas para invocar Alá, pois a sua voz gravada alcança o mesmo efeito, até com mais eficácia, por mais audível: colocar os devotos em posição suplicante, virados para Meca.

- No entanto, falta-lhe a poesia da intervenção pessoal, sem altifalantes agressivos, modalidade que tanto encantava Frederico II, imperador da Alemanha e rei da Sicília, no tempo das cruzadas - comentou Maria do Mar. Segundo ele, valia a pena ir à Terra Santa só para, nas noites cálidas, escutar a voz dos muezins, anunciando, do alto das almenaras, a hora da oração.

- Esse foi, obviamente, um cruzado especial.

- Tinha de ser, João Miguel! Com o seu espírito de poeta, necessariamente alcançava uma percepção diferente no relacionamento com esta gente de cultura marcada pelo islamismo.

- Aliás, ele conhecia profundamente esta cultura e respeitava-a, procurando fomentar amizades.

- Claro, desse modo fugia à filosofia guerreira das cruzadas, segundo a qual, o islamita, o mouro, o infiel tinha de ser fisicamente eliminado como intolerável impedimento ou concorrente afrontamento às omnipresentes intenções ecuménicas e hegemónicas de Roma. Bons eram aqueles que passavam tudo a fio de espada, mulheres, crianças, velhos, como o batalhador Ricardo Coração de Leão.

- A política negocial, de compreensão e de compromisso, Maria do Mar, não poderia ser benquista a um papa atento e, na verdade, Gregório IX apressou-se a excomungar Frederico, acabando por ser deposto por Inocêncio IV, no Concílio de Lyon de 1245!

- Não obstante, ironicamente, ele conseguiu, pelo Tratado de Jafa, no Séc. XIII, a entrega, pelo sultão Malek-Kamel, não só de Jerusalém, como de Belém, Nazaré e de outras localidades. Tudo isto sem derramar uma gota de sangue!

- Efectivamente, de novo a ironia da situação chega a produzir certa risibilidade.

A caminho do hotel deparou-se com trânsito intenso de carros, na maioria velhos de mais de vinte anos, numa confusão incompreensível para quem está habituado a obedecer aos sinais de trânsito. Com efeito, estes existem, mas todos os ignoram ostensivamente, mesmo à vista da polícia que, placidamente, assiste e admite. Os peões serpenteiam por entre os carros, fugindo pelos breves intervalos que se vão formando. A desordem, no entanto, autodisciplina-se e tudo vai funcionando.

- Maria do Mar, aí temos o Sonesta Hotel, de cinco estrelas!

A entrada, devidamente controlada, até com detectores de metais, incutiu uma confortável sensação de segurança, o que não era irrelevante num Médio Oriente em ebulição permanente. Soube bem descansar um pouco numa suite luxuosamente equipada.

- Todo este conforto moderno não é, com certeza, para uso do vulgar cidadão de um país do terceiro mundo!

O egípcio comum cairota, de feições regulares, tez escura, magro, veste geralmente à ocidental. Ali, raramente se vê o turbante e a espécie de túnica talar, larga e cinzenta, sem botões, vestida pela cabeça, a cobrir completamente o corpo, comuns nos campos. Obviamente, não é este tipo de cidadão que frequenta tal hotel.

- Repara, João Miguel, no tamanho da nossa cama! E com três travesseiras!

- Facilmente cabe mais uma! E estou eu aqui apenas com uma mulher...

- O quê?! - observou Maria do Mar, fingindo-se agastada.

João Miguel tivera o cuidado de obter um exemplar do Corão, que foi lendo numa tentativa de melhor compreensão daquela gente. Ficou surpreendido com os pontos de contacto e de similitude com a Bíblia, havendo passagens que com ela se confundem. É assim, quando se fala de Nabi Iça (Cristo), filho de Maria e de um espírito precedente dele. Só que, segundo o Corão, foi um profeta falhado, ao contrário de Maomé em quem se deve crer; assim também, quando se refere a criação do homem e da mulher; igualmente, quando se menciona a parusia (fim do mundo) etc., etc.

Continuou, em tom divertido:

- Mas é evidente, minha Cara, eu ter a lei pelo meu lado. Repara nos dizeres do capítulo IV n.º 3 do Corão: “... casai-vos com as que vos agradarem, duas, três, ou até quatro. Se temeis não ser equitativos, casai-vos só com uma, de acordo com o que está ao vosso alcance.”

Enlaçou a companheira pela cintura, apertou-a, com enorme ternura, contra si, enquanto da sua boca saía o contrário do sentimento a querer exprimir:

- Como vês, posso tomar mais três mulheres... Mas consola-te: serás sempre a primeira esposa.

- Oh, shocram, shocram (obrigada, obrigada)! Estou muito sensibilizada... Ah, meu grande maroto!

Ele riu-se, enquanto no seu íntimo, sabia estar ali, naquela pessoa inalienável a sua razão de ser, sobretudo a força e a dignidade da coerência humana sempre buscada.

(...)


Entrevista a José Pereira da Graça(*)

(A propósito da publicação do seu livro Maria do Mar - Viagens & Mitos pela Editorial 100)


DML: Quando é mais justo, quando actua como juiz ou como escritor?

JPdG: O sentido de justiça é sempre o mesmo.

DML: Quando se sente mais confortável como cronista-historiador ou como ficcionista?

JPdG: O meu ideal é a ficção a partir de elementos históricos, tipo "Os 'Cruzados' da Serra".

DML: De que forma a escrita compensa a actividade nos tribunais?

JPdG: A actividade nos tribunais é absorvente e especializada. Por isso, por um lado, é susceptível de criar saturação e cansaço; por outro, pode ser humanamente redutora. Assim, a escrita, a arte em geral, permite a fuga ao cansaço e a limitações.

DML: Se tiver que ser julgado como escritor como gostaria de ser condenado?

JPdG: Injustamente.

DML: Que autores portugueses admira? De que forma influem na sua escrita?

JPdG: Aprecio os autores por épocas, procurando adivinhar as condicionantes e os estímulos seus contemporâneos. Desde os trovadores, passando por Gil Vicente, António Ferreira, Camões, pelos setecentistas, aos românticos e realistas, abundam exemplos de boa escrita. Marcaram-me muito Júlio Dinis e Camilo com as suas ligações à ruralidade. Também Aquilino onde bebi alguns termos interessantes como "avonde".

DML: Entre o violino e a “pena” com qual consegue um voo mais prazenteiro?

JPdG: O violino talvez seja mais prazenteiro, porque mais amadorista ainda do que a escrita. Esta, provavelmente, mais empenhada, por mais interventiva.

DML: As duas personalidades que se manifestam uma na escrita e outra na oralidade, extroversão e introversão pesam igual no balanço da sua vida?

JPdG: Uma é complementar da outra. Note-se que a introversão da oralidade não é absoluta: depende bastante do interlocutor. Aliás, a prudência profissional acentuou a oportunidade do "calar".

DML: Que significou Labirintos no seu percurso literário?

JPdG: Os "Labirintos" foram uma incursão, uma forma de abordagem dos labirintos da personalidade humana.

DML: Os “Cruzados” da Serra foi a sua cruzada autobiográfica? Como desligar a realidade da ficção?

JPdG: Os "Cruzados" contêm um facto rigorosamente histórico (um homicídio político). O resto é ficção subordinada ao propósito de recriação social na época (1925) e no local (Beira-Alta). Nesta perspectiva, realidade e ficção confundem-se. Há um ligeiro toque autobiográfico no comportamento de um miúdo.

DML: Em Maria do Mar você junta as duas tendências, a de cronista e a de narrador de ficção.

JPdG: Efectivamente, a ficção surge no romancismo intercalar das crónicas.

DML: O rigor formal que teve com a Maria do Mar lhe mudou a forma de conceber a literatura?

JPdG: Não. Apenas mais cuidado em evitar o desnecessário ou redundante.

DML: O seu vocabulário é muito rico, e há que amar muito a língua portuguesa para lhe dedicar os cuidados que você tem. Pensa que escrever como você é cair no arcaísmo ou ressuscitar uma língua que morre mais rapidamente do que pensávamos na simplificação e na inovação violenta dos termos vindos da tecnologia?

JPdG: Escrever como escrevo é uma forma de procurar evitar ambiguidades e, portanto, reduzir a possibilidade de erros na transmissão de pensamento. Há, depois, a musicalidade de algumas palavras e o rigor do seu significado. O modernismo tecnológico tem força para se impor, mas, mesmo aí, a qualidade chegará um dia. Até lá delicio-me com o português que temos.

DML: No livro que está a escrever nestes momentos, o narrador está mais libertado de considerações para com um público leitor? Será sempre um relato controlado como um Deus criador? Ou será uma consciência libre de escrúpulos y de luz renascentista? Apareceram os verdadeiros monstros que  dizem todos os escritores possuir..

JPdG: O trabalho que preparo, como outros já existentes, lutam com fantasmas e monstros psicológicos externos. Claro, na criação, há sempre a noção da presença de limitações humanas que são, isso sim, um monstro interno. Apenas se espera que a mensagem literária alcance o leitor num espírito renascentista em permanente evolução, caldeado pelo iluminismo oitocentista e pelas luzes contemporâneas.

DML: Para quê público escreve?

JPdG: Creio que escrevo, sobretudo, para aqueles que procuram medir "correctamente a realidade das ilusões".

DML: Porquê a 6ª Sinfonia de Beethoven é a sua música preferida?

JPdG: A 6ª é um cântico à ruralidade e à Natureza, de que todos somos átomos integrantes. Daí a consonância, a identificação, mas não necessariamente a definitiva preferência.

DML: Como bom leitor qual considera o seu grande defeito como escritor?

JPdG: Gostaria de um pouco mais de ousadia ficcional. Talvez respeito em demasia pela realidade seja um pouco redutor ou obstativo. 

DML: Entre o trabalho diário, disciplinado e constante ou a inspiração súbita e irregular, a sua escrita é cada vez mais como um ofício ou como uma arte de momentos?

 JPdG: A necessidade de escrever é imanente na minha natureza. A sua expressão é que precisa de um momento inicial endoginamente propício. Um ofício nunca foi nem será.

DML: Na realidade esse título: Os “cruzados”  ...., é polivalente, porque cruzados também podiam ser os que lutavam para poder sobreviver no campo e os que defendiam a laicidade na política e nas relações sociais.  Que há de autobiográfico em concreto nesse romance para além do ambiente rural e aldeão?

JPdG: As observações que faz, as perguntas que formula já não me surpreendem porque já o vou conhecendo bem. Sempre direi que é preciso argúcia para descobrir dois sentidos na palavra "Cruzados". De facto assim é, e a sugestão está expressa nas aspas que destacam a palavra, mas nem todos captam tal sugestão. Que eu saiba é mesmo o primeiro a fazê-lo!

    O que há de autobiográfico, em concreto?

    Na personagem Zé Gomes, na sua vivência juvenil, feliz e desabrochante, transportada para trás, no tempo, de forma a adequar-se à época do enredo romanesco. Tão só.

DML: Se se tivesse que analisar temáticamente surgiriam tantos temas, o amor, a morte, a violência, a sexualidade, o erotismo, a ruralidade, a religião, a política, geografia animal e vegetal, relações sócio-económicas, costumes, tradição – modernismo, etc. Que temas ou aspectos pensa que lhe faltou tratar para ser um romance totalista? Se o tivesse que escrever novamente o que eliminava? E o que mudava ou aumentava?

JPdG: Os "Cruzados" procuram recriar a forma de viver no período imediatamente precedente ao crime (histórico) que ocorre quase no final do livro. A vida é abrangente, neste sentido totalista. Tudo o que pareceu relevante veio naturalmente à colação. Se tivesse que fazer uma rescrita, não vejo que tivesse de acrescentar o que quer que fosse.

    Eliminaria, talvez, algumas notas que, sendo informativas, não se encaixam, no entanto, facilmente na fluência da linha narratória; transformaria certos diálogos que soam algo artificiosos ou ingénuos, em narração; tornaria o discurso mais ágil num ponto ou noutro; talvez alterasse o destino da Deolinda (que acabou louca num convento) e do Miguel Pedrosa (morto emigrado em Angola). Tramaria um rapto libertador de modo a que a capacidade de iniciativa e a vontade de viver vencessem a desgraça.

DML: Como foi acolhido este romance pela crítica ou pelos seus leitores? Que resposta obteve?

JPdG: A edição foi minha. Fiz apenas uma proposta de edição a uma editora do Porto que considerou o texto interessante, mas que pela sua dimensão não se antevia comercialmente viável.

    O romance apareceu discretamente, na medida em que nada fiz para o publicitar. Alguma publicidade que alcançou foi através de amigos. Teve entusiasmado acolhimento na minha terra. Houve algumas críticas em jornais (positivas), considerando-se o texto de interesse actual, não obstante a acção decorrer em 1925. Conservo as que chegaram ao meu conhecimento. Houve referências muito interessantes por parte de leitores. Um deles, agora já falecido, tinha acabado de ler o "Evangelho..." de Saramago e achou o meu romance mais interessante, afirmando que o autor "era um Júlio Dinis erudito". Um senhora brasileira, Valdelice Alves Leite, escritora que conheci no Porto, confessadamente católica, escreveu-me afirmando, entre outras coisas:

    ..."É objectivo e transparente, indo diretamente ao essencial. Suas expressões são profundas e ardentes, sumamente reais, às vezes o sangue nos flui à pele, sem entretanto melindrar, ferir susceptibilidades, pois os atos são explicitados com uma subtileza encantadora".

DML: Como influi o influiu a Igreja Católica na vida do escritor Pereira da Graça?

  JPdG:  Cresci, até aos doze anos, na ambiência tradicional e normal, para a época, de religiosidade provinciana católica, plena de missas, confissões, terços, ladainhas, procissões.

    A tendência para procurar a razão de ser de tudo (cedo aprendi a questionar o próprio dogma) levou-me a ensaiar a perspectiva história da instituição Igreja Católica e a sua influência social determinante. A busta alargou-se a outras religiões (judaica, islâmica, protestante, xintoísta) ou filosofias de vida (budismo, taoísmo, confucionismo, etc).

    A especificidade em relação à Igreja Católica resultou do seu imediatismo cultural e envolvência sufocante.

    Influência na escrita? Tentativas de libertação.

DML: A natureza aparece sempre como uma presença meticulosamente descrita, nunca quadros mortos, detalhes de vida natural que faz as paisagens  tridimensionais e em processo, em movimento, como fotos vivas. A sensibilidade do autor frente à paisagem rural invade grande parte do seu trabalho como escritor. Pensa que o homem urbano ou as camadas novas de jovens perderam essa capacidade para perceber o mundo que nos rodeia.?

  JPdG: O homem urbano e os jovens não terão perdido a capacidade para perceber o mundo (natural) que nos rodeia.

    O que lhes faltará é a oportunidade de o perceber. 

    Podem até ficar extasiados perante a beleza de um poente ou o rumorejar de um ribeiro, mas falta-lhes a identificação com a Natureza que lhes permita percebê-la e fruí-la devidamente. Perante um tufo fresco de verdura são capazes de passar a mão ou de se deitarem sobre ele, sem saber que se trata de urtigas. O que resta são os consequentes desconforto e insuportável comichão. Ou, então, sentam-se sob a sombra acolhedora de um sobreiro para ingerir apetitosa merenda, quando descobrem que as formigas se apossaram dos acepipes e até sobem por eles acima. Fica o desagrado dessa sensação. Ou sofrem a picado de um lacrau ou, pior, de uma víbora.

    Tudo isto por não se viver na ou com a Natureza e os seus segredos.

DML: Você dá muito valor ao corpo humano, a anatomia da mulher. Os seios ocupam um lugar insistente na descrição da sensualidade nas diversas cenas da sua escrita. Gostaria que falasse um bocado do seu diálogo com o corpo humano y de que forma esse espírito tinge a sua escrita?

JPdG: Admito que seja notório, além do mais, o sentido estético do corpo humano, mormente da mulher. O que me surpreende é a prevalência de referências aos seios. Não me tinha dado conta.


Pedidos      Editorial 100       Catálogo