Os livros da EDITORIAL 100


Título: Os «Cruzados» da Serra    -     Autor: José Pereira da Graça


   

 

audiovisual dedicado a José Pereira da Graça, pelo Os «Cruzados» da Serra
1 parte  2 parte  3 parte

 

 

José Pereira da Graça, nasceu na Beira-Alta, em Gamelas (Pinhel) Os estudos levaram-no a Lisboa, Guarda e Coimbra. A profissão fê-lo percorrer o País. A vida impôs-lhe a busca inexorável da VERDADE. Actualmente é juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça. Mora em Vila nova de Gaia. Publicou também: Témis, A Deusa da Justiça - 1987, Labirintos - 1994, Maria do Mar (Viagens & Mitos) - 1995, O urso vermelho - 2006.


Romance - ISBN: 978-972-8843-39-7  -     Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2006. 416 p.  Preço com IVA: 21,00 €


«Nesta minha destemperada análise de Os «Cruzados» da Serra deixem ainda que lhes diga o seguinte: hoje há quem venda livros como quem vende pastas dentífricas ou electrodomésticos; há autores que escrevem a metro e até há editores que os contratam para escreveram sobre determinados temas. Há escritores tão famosos, com uma tal máquina promocional atrás de si, que as editoras até as desengraçadinhas redacções da escola primária lhes editam, certas de que, com uma boa campanha publicitária, até isso se vende. Mas eu venho falar-lhes de coisas sérias, tão sérias como a generosa liberdade de dar aos outros as estrelas que cintilam no espírito de quem escreveu esta novela beirã. E com estes meus desajeitados comentários de homem de estudo de vestígios materiais, desconfiado de literaturas e habituado a olhar de través os literatos, apenas lhes pretendo recomendar a leitura deste livro para se interrogarem porque razão ainda trazemos dentro de nós tantas neves, tantos gelos, de invernos que teimam em não passar.»

J. A. Gonçalves Guimarães


Excertos do livro


I

1

O Sol de brilho já cansado aproxima-se visivelmente da linha talâmica do

horizonte como o camponês esbraseado tomba na enxerga acolhedora após um

longo dia de trabalho. Metamorfósicas nuvens assumem formas caprichosas tantas

quantas a imaginação quer lobrigar nos seus contornos fantásticos: enormes

barcos à vela castelos dragões mutantes, gigantes, bruxas voadoras.

Cores laranjo-avermelhadas pintam o fundo azul celeste donde emerge o

perfil cinzento ou amarelo ou esbranquiçado de nebulosidades tranquilas e

diáfanas. O tom arroxeado das colinas variando conforme a distância projecta-se difusamente no ar.

Lá bem no fundo do caminho pedregoso do Estourão passada a Eira dos

Cardos corre a Ribeira por entre rochedos ciclópicos e furnas sinistras. As águas

aos trambolhões espraiam-se e sossegam no areal fronteiro às Cercas do Ribeirol.

Ali o espelho de água reflecte a encosta salpicada de sobreiros até à igreja de Damálias.

Zé Gomes lança mão de um pequeno banco e dirige-se ao campanário lá

no alto junto à igreja branca destacada entre o castanho da cortiça dos sobros

centenários e do verde manchado de amarelo dos sumagres enraizados nos

socalcos. Sobe as escadas inteiriças e sem resguardo até à plataforma guarnecida

de ameias. As duas sineiras rasgam-se à sua frente encimadas por uma cruz

central e duas pirâmides laterais. Coloca o banco entre as sineiras e sobe para

ele de modo a poder alcançar o badalo dos sinos, já que as pernas jovens ainda

não cresceram o suficiente para sem artifícios chegar até eles.

O Sol já atingiu a linha do horizonte e a sua descida é ainda mais perceptível.

É a hora do toque das trindades: uma badalada no sino da direita, mais grave,

seguida de uma série de três ou quatro cortada por badalada no sino da esquerda

mais agudo tudo se repetindo durante dois ou três minutos.

Na aldeia e ao redor dela onde chega o apelo sonoro os homens descobrem

a cabeça e com as mulheres e crianças rezam em surdina:

«Ave Maria, cheia de graça,

O Senhor é convosco

...............................................»

Benzem-se maquinalmente num gesto repetido quase desde o berço.

Em breve cairá a noite.

As galinhas apressam-se a buscar os seus poisos nos poleiros os carros de

vacas pesados e vagarosos demandam o resguardo dos cabanais no seu chiar

infindável e lamuriento as burras e as mulas carregam resfolegantes os seus três

molhos ou sacos sobre a albarda apertados com a sobrecarga tensa pelo volteio do arrocho.

O fumo cinzento-azulado das cozinhas começa a escapar-se em novelos

pelas coberturas de telha-vã aqui e ali em coluna expelida por raras chaminés e

evola-se mansamente no ar.

Zé desce do campanário edificação granítica singularmente destacada do

corpo do templo e vai pôr o banco no seu lugar na cozinha e acompanha o criado

Paulo que vai colocar o carro no cabanal com os seus estadulhos já libertos da

carga. Desamarra o jugo da pírtiga retirando a chavelha e o Zé com entusiasmo

ajuda a tirar as correias que sobre as melenas atam o jugo à cabeça das vacas

logo atrás dos cornos. Os animais finalmente libertos da posição rígida a que

foram sujeitos durante longas horas com enorme alívio coçam gostosamente o

lombo usando as hastes fortes e lambem sofregamente as zonas do corpo

martirizadas pelo mosquedo sugador de sangue quente. As duas vacas a

«castanha» e a «loira» vão beber à fonte da aldeia para finalmente recolherem

à corte onde as espera a apetecida «facha» de feno ou o fresco molho de canas

se não um saboroso cesto de cuanhos.

Os morcegos em voos silenciosos iniciam a caça aos insectos noctívagos

enquanto a noite agora se derrama apressadamente sobre as casas os vales as

colinas absorvendo tudo no seu denso negrume em contraste com o brilho distante

e anódino de miríades de fulgurantes estrelas. Os mochos e as corujas piam já

monotonamente em presságios agoirentos que os grilados nervosos não

neutralizam e as noitibós gritam os seus «cá-vai cá-vai» lendariamente traiçoeiros.

Misteriosas sugestões instilam-se nos espíritos débeis gerando pontadas de

angústia gelada que se procura derreter no aconchego da lareira à volta da

panela do caldo.


3

Os músicos começaram a formar preparando-se para se integrarem na

procissão do Santíssimo que começara a sair. Três enormes estandartes iam à

frente levados por rapazes possantes, pois a sua meia dúzia de metros de altura

e a extensa envergadura das sedas pressupunham forte musculatura e assinalável

resistência. Era porém um gosto vê-las a enfunarem-se ao sopro do vento cada

uma na sua cor: amarela vermelha e branca.

Seguiam depois pequenas bandeiras e a cruz ladeada por lanternas. Duas

filas de homens estendiam-se ao longo da rua até ao pálio de damasco rubro por

cima e dourado por baixo. Era sustido por seis varas empunhadas com ar solene

pelos ilustres da terra. Sob o pálio o reverendo João André paramentado a rigor

transportava a custódia acolitado por três colegas de sobrepeliz impecavelmente

branca e estola colorida sobre o negrume da batina.

Atrás do pálio a banda tocava uma marcha lenta austeramente cadenciada

ao ritmo dos passos firmes dos músicos. Por fim as mulheres em magote fechavam

o cortejo véu ou lenço na cabeça as casadas com xaile sobre os ombros. Em tom

monocórdico davam réplica às rezas repetitivas iniciadas pelo prior ou seguimento

aos cânticos religiosos introduzidos por ele quando a banda emudecia. O vermelho

das opas ressaía do pardaço envolvente.

Maria Quitéria logo atrás dos padres quase invadindo a zona do sobrecéu

esganiçava-se toda a rezar e a cantar alardeando a superioridade da sua fé do seu zelo místico.

Numa das filas dos homens quebrando a compostura do alinhamento ti

António Natércio em manifesto desequilíbrio cambaleava sob o peso do conteúdo

etílico já emborcado desde manhãzinha em honra de S. Sebastião. Ele bem tentava

manter a compostura um pouco curvado os olhos postos nas costas do homem

precedente mas era como se ondas alterosas passassem debaixo dos pés

estorvando o rumo. Um lenço vermelho pendia-lhe do bolso do casaco como asa

derreada desestabilizadora.

Padre João André espreitando por detrás da custódia via-o avançar

subitamente para o meio da rua até voltar a pender para o lado oposto

reaproximando-se do ponto de partida num movimento pendular destrambelhado.

Agastado com os destemperos do ébrio o prior transmitiu o seu desagrado ao

ouvido de um dos acólitos que por seu turno chamou a atenção do mordomo que

se apressou a tentar resolver o problema. Nesse momento rezava-se uma ave-maria.

— Ó António! Vê a figura que estás a fazer, homem... — Observou Bernardino

da Rosa pai da Gracinda que nesse ano era um dos mordomos.

— «Santa Maria mãe»... — ia o Natércio papagueando na rotina embaladora da oração.

ut

mi

sol

Continuou:

— A sétima nota o si levou muitos anos a fixar-se, pois poderia ter dois

tons e só veio a estabelecer-se já no século XVI por intermédio de um flamengo

chamado Waelrant que lhe chamou, não sá mas si nome formado com o s de sacte e o «i» de Ioannes.

— Mas ainda fica para aí um ut que não existe — observou Manuel Gomes.

— Existe sim senhor mas em França onde o dó continua a chamar-se dessa

maneira: ut. Na Itália o ut era de pronúncia difícil (oût) pelo que o musicógrafo

Giovanni Battista Doni substituiu o ut pela primeira sílaba do seu apelido ou seja dó

de Doni e assim passou a designar-se também em Portugal

— É interessante isso — observou um dos circunstantes.

— Note-se que nem em todos os países as notas se designam desta maneira.

Na Inglaterra e na Alemanha, de influência protestante não se aceitou a referida

designação e ali deu-se às notas os nomes das letras: A B C D E F e G. O A

corresponde ao lá o B ao si e assim sucessivamente.

— Ó Miguel: no seminário aprende-se muita coisa! Tu sabes muito...—

Observou Manuel Gomes que muitas vezes era surpreendido pela cultura geral do rapaz.

— Lá aprende-se muito mas não tudo. Eu li e estudei muita coisa que não

se ensina lá, muitas vezes às escondidas. Li muitos livros expressamente proibidos

fazendo prodígios para ludibriar os prefeitos. Por essas e por outras eu estou

agora aqui... De qualquer modo esta história das notas musicais não foi lá que a aprendi.

 

 


J.A. Gonçalves Guimarães:

A propósito de Os «Cruzados» da Serra

Os «Cruzados» da Serra foram para mim uma obra verdadeiramente

surpreendente. Com uma técnica narrativa exemplar, o autor agarra o

leitor sem este se dar conta de que está, tal como as diversos personagens

da novela, a ser envolvido numa trama irracional de que dificilmente se

libertará até ao fim, até à consumação do crime de morte que é o clímax

desta estória, embora no fim amanheça a esperança.

Num crescendo contínuo, mesmo distraído com a musicalidade da

paisagem descrita, o leitor vai temendo pelo resultado da acção preparada

por quem sabia que «a doutrinação das mulheres era de suma importância,

pois serviriam de aríete junto dos maridos, filhos ou namorados

recalcitrantes ou transviados». Em meados dos anos vinte do século

passado a cruzada contra os republicanos, os maçons, os hereges, os

incréus, etc., era «inevitável» após a derrota nas urnas do partido católico.

Sendo tal sabido, nem por isso a corda da narrativa fica menos tensa no

arco deste microcosmos, cuja ambiência se vai estender então muito em

breve a todo o país. Por isso outros méritos tem este livro: não há na

nossa literatura muitas interpretações dos tristes anos que se sucederam

à tentativa musculada sidonista ou ao «reino da traulitânia» da monarquia

do Norte, quando já eram notórias «… as emanações vigorosas de cérebros

predestinados florindo, lá pela Lusa Atenas, em ambições ainda

assolapadas…e o som cavo, mas firme, das botas marciais que, na cidade

dos Arcebispos, já marchavam na parada do quartel…». Com esta novela

somos transportados para o ambiente rural português após a Iª Grande

Guerra onde, para além de alguns fenómenos de histeria colectiva

devidamente orquestrada, começam a preponderar organizações com

persecutórios conceitos de Deus, da Pátria e de Família, que durante meio

século vão fazer de Portugal uma espécie de Albânia do ocidente, onde o

Indivíduo não existe, o País é um mítico mapa-mundo e a república apenas

um esfíngico busto.

Este livro vem serenamente lembrar-nos polémicas adormecidas:

os arqueólogos têm pacientemente demonstrado a um público cada vez

mais vasto como os deuses e os templos se sucedem ao longo dos milénios

e como as verdades eternas mudam com as civilizações. Mas também

que há valores singelamente humanos que nasceram quando este bicho

olhou pela primeira vez para dentro de si e se quedou no espanto, os

quais, desde então, têm permanecido. Os «Cruzados» da Serra são

precisamente a luta entre o épocal e o efémero, mascarados com uma

falta de roupagem eterna e universal, e o humano de todos os tempos,

singelamente nu, apenas cuidando em ser isso mesmo, mesmo entre

aqueles que nada mais possuem senão «…as lembranças de uma infância

pobre, mas com a liberdade dos gaios».

A uma obra literária é costume colar um rótulo – ou alguns rótulos

– na obra e no seu autor. A tarefa não se nos afigura fácil no que a esta diz

respeito: podemos dizer que se trata de uma novela de costumes «…que

pertence a um género híbrido entre o ensaio, a novela e o memorialismo»

(SARAIVA, António José; LOPES, Óscar [1974] - História da Literatura

portuguesa, 7ª edição Porto/Lisboa: Porto Editora/Empresa Literária

Fluminense, ( História…), p. 796), na melhor tradição de uma certa corrente

de temática rural, ou melhor, naturalista, com grandes cultores no romance

português contemporâneo, começando por Alexandre Herculano com O

Pároco da Aldeia, tema retomado depois por Júlio Dinis em As Pupilas do

Senhor Reitor. Mas, ao contrário dos párocos de Herculano e de Júlio

Dinis, o desta aldeia da Serra é um homem facinoroso, com mente de

caceteiro político, à mingua de fogueiras inquisitoriais. Nas evocações

das aldeias de infância destes autores, como aliás acontece em Os

«Cruzados» da Serra, percebe-se de imediato que o autor está a falar-nos

da sua aldeia de menino. Mas não interessa aqui procurar possíveis pistas

de identificação autobiográfica entre o autor e algum ou alguns dos seus

personagens: é um passatempo demasiado fácil, pois é sabido que todo

aquele que escreve ficção se revê nesta ou naquela personalidade que retrata.

Mas outras circunstâncias factuais da novela levam o nosso autor

a ter de irmanar-se com alguns outros escritores. Certas passagens

lembram-nos algumas novelas camilianas, não tanto pelo fatalismo e pelo

moralismo que lhes está subjacente, de todo arredado desta obra que

acaba por nos dizer que «a esperança afirmava-se esplendorosamente».

Não havendo pois aqui decadentismos do fim de século dezanove, também

não podemos dizer que Pereira da Graça seja apenas um cultor de

«recordações da infância… como que paraíso perdido para o citadino

fatigado» ( História… 993), na esteira de Os Meus Amores de Trindade

Coelho. Se queremos continuar a buscar paralelos temos de os procurar

em autores mais perto de nós, como os saídos do grupo da Seara Nova.

Muitas das passagens mais sensuais desta obra lembram-nos alguns

quadros das Novelas Eróticas de Teixeira Gomes, que «…exprimem uma

saboreada e patrícia fruição sensual da paisagem… e do corpo humano

em livre nudez pagã» ( idem 1069), ou ainda o aguilhão da carne de Andam

faunos pelos bosques, de Aquilino Ribeiro, onde tão bem se exprime «o

amor pagão das coisas naturais, a alegria de abrir os sentidos humanos à

vida sobre a terra, dentro dos limites da nossa experiência carnal…» ( idem

1070) . Mas também aqui desconfiamos do aquilinismo de Pereira da

Graça, por nos parecer demasiado óbvio, e nele sermos induzidos pelas

paisagens preferidas comuns, pelos personagens pícaros, pelos

almocreves. À bonomia céptica daquele contrapõe um certo olimpismo

rousseauniano que confia na certeza da inevitável queda dos mitos, se

bem que em ambos os autores haja uma enorme capacidade descritiva da

luta pela sobrevivência que ocupa os dias e as noites dos «…tipos

esmagados na base da pirâmide social», para além da luta «…contra todas

as opressões que lhes tolhem os impulsos vitais; a sátira de todos os

preconceitos opostos ao amor carnal…» ( idem 1071).

Ao contrário de Aquilino Ribeiro, para quem o drama humano se

integra no conceito das forças naturais, Pereira da Graça demonstra-nos

que os dramas e as desgraças que atingem o individuo ou o grupo são

também fruto da acção anestesiante pregada por instituições que controlam

a alma dos cidadãos através de medos ancestrais e cujo braço armado,

traiçoeiro e cobarde, se acantona nas diversas noites e ao virar da mais

inocente esquina. São assim Os «Cruzado» da Serra, de ontem e de hoje.

Estas preocupações, ou melhor, a desinibida abordagem desta

temática, levariam esta obra para uma fácil arrumação neo-realista,

apostada na desmistificação bíblica de temas torguianos como «a semente,

a selva, a colheita, a água, a terra, o vento, o pão, o parto, o pastoreio,

Adão e Eva…( idem 1094) mas sem a inimitável demagogia junqueiriana.

Pode mesmo ombrear com a alegria panteísta das novelas de Tomás da

Fonseca, aliás aqui citado como exemplo de coragem intelectual a propósito

da repressão mental perpetrada nos seminários, tema bem conhecido da

Manhã Submersa de Virgílio Ferreira e que Pereira da Graça glosa sem

precisar de fazer concessões àquela famosa obra, tirando-o das angustias

intimistas, tão caras aos presencistas, para o enquadrar num contexto

mais geral: o controlo ideológico das mentes e da sociedade através do

confessionário, o que não é culpa exclusiva da Igreja mas também da

sociedade tacanha que se revê institucionalmente nos seus piores mentores

e facilmente esquece Cristo, e os seus mais utópicos seguidores, que ao

longo dos séculos clamaram pelo alívio das dores humanas. Não se trata

já de discutir opções pessoais de vida ou de morte (que a negação da vida

é a morte a prazo certo); trata-se de revelar os efeitos sociais de

determinadas práticas religiosas.

Mas esta obra também não é, de modo algum, um epitome neo-

-realista, pois ostenta da primeira à ultima página uma certa alegria, um

certo colorido, uma certa complacência pelos simples prazeres da vida,

que não existem no cinzentismo das obras que costumam referenciar

aquela escola. Os tempos são outros, convenhamos: os missionários da

revolução são quase sempre tão aborrecidos como os de qualquer outra

ideia profética, ainda que momentaneamente mais generosos. Depois ficam iguais.

Com todas as referencias atrás descritas acabamos por considerá-

-la uma obra capaz de ser incluída no realismo pós modernista. Agora

que a literatura está a morrer, com a idade da escrita a dar lugar à da

imagem, o exercício da literatura vai abandonando as fantasias ao descobrir

que a realidade é muito mais fantástica; basta olhar à volta ou nos

escaninhos da memória vivida. A arte da escrita abandonou a mensagem,

a ideologia, para deixar a vida falar. Ganhou nesta obra um pouco de

erudição desnecessária, preocupado que está o autor com a

documentação científica das várias certezas que regulam o nosso

quotidiano, não vão elas ser contrariadas pelos mitos ainda remanescentes

e que bóiam por aí na maré morta do comodismo intelectual ou das

angustias das íntimas orfandades.

Voltemos ao principio desta análise: trata-se pois de uma obra a

par das mais recentes correntes literárias, o tal «…género híbrido entre o

ensaio, a novela e o memorialismo», de que se socorrem outros autores

de hoje, como José Saramago, Mário Cláudio ou Rentes de Carvalho, através

de uma fórmula que, não sendo nova, ainda está aí para durar: a uma

época histórica bem definida, junte-se um facto singular e agite-se a

narrativa com um conjunto de explicações especializadas, que podem ir

da astronomia à medicina, do golf à jurisprudência, da arqueologia à

botânica, conforme os conhecimentos que o autor possa exibir. É certo

que os escritores sensoriais, epidérmicos ou distraídos, ainda vendem

toneladas de livros nos supermercados. Mas o público, às vezes, também

pede solidez e não impressões, sobretudo quando se trata da possibilidade

de reviver uma certa realidade que efectivamente aconteceu. Foi esse

verismo que trouxe de novo até aos dias de hoje o romance histórico, não

na defunta concepção romântica ou positivista do século XIX, mas dando

ao passado a possibilidade de nos deixar vivê-lo, nós cidadãos comuns

que queremos saber de onde vimos para sabermos para onde vamos. A

literatura passou assim a ser a história possível das gentes anónimas. É

esse o seu mérito maior.

Nesta minha destemperada análise de Os «Cruzados» da Serra

deixem ainda que lhes diga o seguinte: hoje há quem venda livros como

quem vende pastas dentífricas ou electrodomésticos; há autores que

escrevem a metro e até há editores que os contratam para escreveram

sobre determinados temas. Há escritores tão famosos, com uma tal

máquina promocional atrás de si, que as editoras até as desengraçadinhas

redacções da escola primária lhes editam, certas de que, com uma boa

campanha publicitária, até isso se vende. Mas eu venho falar-lhes de

coisas sérias, tão sérias como a generosa liberdade de dar aos outros as

estrelas que cintilam no espírito de quem escreveu esta novela beirã.

E com estes meus desajeitados comentários de homem de estudo

de vestígios materiais, desconfiado de literaturas e habituado a olhar de

través os literatos, apenas lhes pretendo recomendar a leitura deste livro

para se interrogarem porque razão ainda trazemos dentro de nós tantas

neves, tantos gelos, de invernos que teimam em não passar.

 

J. A. Gonçalves Guimarães

 

 


Entrevista a José Pereira da Graça a propósito da publicação de “Os «Cruzados» da Serra pela Editorial 100


1) Comparar o Pinhel - Portugal de aquela altura com o Pinhel – Portugal (actual)

O enredo d´Os "Cruzados" da Serra desenvolve-se nos fins do primeiro quartel e princípios do segundo, do Séc. XX, ou seja, nos fins da 1.ª República e no limiar do Estado Novo. A vivência social é a específica da Beira Alta com epicentro no concelho de Pinhel. Portugal mantinha a sua ruralidade baseada na economia essencialmente agrícola com meios de produção oriundos, com poucas alterações, das profundezas da Idade Média.

Claro que essa ambiência foi profundamente afectada no início dos anos 60, com o fenómeno emigratório e, mais tarde, com a Revolução de Abril e, depois, com adesão de Portugal à Comunidade Europeia.

2) De que bando está o mal?

 Na trama do romance, como na vida, é inevitável o confronto do bem e do mal. De que lado está o mal? De uma maneira geral e dentro da relatividade dos conceitos, normalmente o mal vem do lado dos que defendem privilégios alicerçados em mitos. Assim foi  sempre.

3) Igreja e Poder naquela altura?

A Igreja tinha sido seriamente atingida no seu prestígio e influência com a instauração da República em 1910, embora a sua hegemonia tivesse começado a ser afectada no tempo do Marquês de Pombal e, depois, pela emergência inelutável do liberalismo. Ao longo de mais de 15 anos de incapacidade dos políticos para encontrarem um rumo praticável e seguro, foram-se criando condições para ressurgimento ditatorial a que a instituição eclesiástica deu a sua bênção a caminho da velha aliança Trono/Altar, não obstante o Trono enfiar o barrete frígio.

4) Literatura e Realidade

A Literatura tem o privilégio de trabalhar a realidade numa perspectiva de Verdade independentemente do factualismo concreto. N´Os “Cruzados” da Serra há alguns, poucos, factos históricos, sendo tudo o mais fruto da fantasia, halo ficcional da verdade da substância subjacente. No dizer da jovem Ana Dinger Moreira Duarte, nome que provavelmente voltaremos a topar no mundo da cultura, “paradoxalmente, também pode acontecer que, ao afastarmo-nos da verdade, nos aproximemos dela. Entenda-se aqui verdade como algo essencial e já extrínseco à realidade factual”.  

5) Envelhecer com a escrita ou rejuvenescer com ela?

A escrita nunca é um envelhecimento. Só se o autor assim o determinar. Na sua omnipotência criativa, se ele quiser renasce quantas vezes o desejar ou revive a maturidade a seu bel prazer por via das personagens que nascem vivem e morrem ao sabor das inventivas circunstanciais. Nada, na trama romanesca, é alheio ao autor, seu único comandante. O envelhecimento saudável apenas aguça experimentalmente o engenho.

6) Livros inéditos?

         Livros inéditos apenas um: a História do Urso Vermelho produto da ternura personalizada de avô.

7)  Projectos de livros?

No campo dos projectos há um já em começo de execução e que constitui a meta a alcançar a médio prazo: O Falcão D’El Rei. Assim a saúde a permita.

8) Recriar a história para que? Porque ficou tão sensibilizado com o caso do assassinato acontecido no se romance?

         Os poucos factos verdadeiros, no sentido do real, contidos no romance, e sendo certo que o principal sempre martelou os ouvidos do autor por tradição oral, foram um pretexto para a prática de um acto de justiça através da recriação do heroísmo vivencial de personagens fictícias, mas verdadeiras no sentido que há bocado referimos: “perspectiva de verdade independentemente do factualismo concreto”. E tal recreação floresce no seio da Natureza invocada com paixão, que o autor teve o privilégio de experimentar e viver na sua juventude: o crescimento dos freixos nos lameiros limados pela água pura dos ribeiros, o cheiro dos pinheiros bravos, a sombra fresca dos sobreiros, a leveza do ar livre de poluição, os limos de verdura imaculada na correnteza sadia dos rios prenhes de peixe, a frescura das manhãs de Verão, o colorido dos poentes no Outono, a beleza das ceifeiras, a pujança dos malhadores de mangual em punho nas eiras.

         A recreação é também uma homenagem à gente do meu concelho, Pinhel, à gente da minha freguesia, Pereiro, e, sobretudo, à gente simples da minha terra, Gamelas. Os meus contemporâneos, em muitos aspectos, viveram a mesma gesta das personagens da narrativa.

9)    Nas suas próprias palavras e de forma breve como resumiria o romance?

Os “Cruzados” da Serra contam a história de amores vividos por gente que luta corajosamente pela sobrevivência e, sorte de alguns, pela emancipação intelectual.

10)  Porque sentiu a necessidade de o rescrever e sobretudo de mudar o final?

Esta segunda edição constituiu uma preciosa oportunidade para apuro literário e, na sequência da já referida omnipotência ficcional inerente à qualidade de autor, para alteração do destino de algumas personagens e criação de  outras. Além disso, esboça-se um ensaio quanto ao emprego de vírgulas, reagindo-se contra o emprego excessivo. Tudo isto graças à disponibilidade quase total de tempo de que agora o autor beneficia.

11) Como foi a experiência de ter publicado pela primeira vez o romance?

 A publicação do romance na sua primeira edição foi, como já resulta do que atrás dissemos, a satisfação de uma necessidade: desabafo com o leitor, além da prática de um acto de justiça, outro de amor pela Natureza, além de uma homenagem pessoal sentida.

12)   De que modo pode ter interesse este romance rescrito nas pessoas que já o leram na primeira versão?

 As pessoas que já leram a primeira edição, de algum modo deparam com um fluir diferente e um desenlace completamente novo.

13)  Você faz questão de lutar pela verdade. A verdade é absoluta? A verdade é justa?

         A verdade é algo que profissional e pessoalmente sempre se procurou alcançar. Há verdades absolutas? Talvez na matemática. Fora disso temos que contentar-nos com a verdade lógica. A ontológica, inalcansável, poderá servir de referência, de mera motivação.

14) Ser juiz na altura de Salazar e ser juiz hoje. Comparar

         Ser juiz no tempo de Salazar era seguramente mais fácil do que agora. Mais fácil porque o sistema legislativo era estável, mais fácil porque se distinguia entre os chamados crimes políticos e os comuns. Para os políticos havia os tribunais especiais, os Plenários, pelo que os juizes comuns não tinham que se preocupar com esta tipicidade criminológica. Mais fácil ainda porque o juiz era uma personalidade profundamente respeitada. Outra coisa era a pessoa do juiz, o cidadão, esse obviamente cultural e ideologicamente castrado, como, aliás, a generalidade dos “súbditos”.

15)  Cada realidade, cada tempo e espaço históricos tem as suas próprias palavras. Você continua a utilizar as palavras de aquela Beira-Alta rural na vida diária ou propositadamente as incorporou no seu romance?

         Cada época, cada realidade, tem o seu vocabulário próprio. O que foi empregue no romance é o vocabulário do autor? De algum modo é, desde que o expressante refira a realidade em causa. O que, entretanto, se perdeu foi o expressado, isto é, a realidade da época por via da evolução. Por exemplo: agora não se fala em chavelha, melena, rabiça, aveca, porque tais objectos desapareceram, por substituição. A verdade social, em muitos aspectos, essa mantém-se na actualidade.

16)  Porque se atreveu a escrever um romance e não a compor alguma música?

         Literatura e música, como actividades criativas, não são fáceis de conciliar. Mozart que não conseguia fazer poesia por palavras nem pintura em tela, afirmava que facilmente fazia tudo isso por música.

Na juventude do autor apareceram alguns temas musicais que passaram para as pautas, mas com o nível e o conteúdo dos poemas de amor que toda a gente faz na idade própria. Ficou sempre o gosto da audição e da execução resultante do deslumbramento pelo violino e pelas grandes composições. A fruição da música tornou-se um tónico essencial de equilíbrio psicológico.

17) O que é o que sente quando volta a subir sobre esse campanário localizado em Pereiro?

         A subida hoje ao velho campanário de Gamelas activa a memória recreativa de verdes paixões e de sentimentos ingénuos propiciadores de sensações marcantes para toda a vida.

18)  Porque escolheu “Os «Cruzados» da Serra como título para o romance. Porque Cruzados está entre «  »?

         O título Os “Cruzados” da Serra inspirou-se na narrativa da gesta do português rural, sobretudo do beirão da Beira-Serra. A palavra “Cruzados” aparece entre aspas porque obviamente não se refere ao monges guerreiros medievais, mas sim a defensores dogmáticos de ideologias solipsistas. Num sentido abrangente inclui também os que lutam quotidiana e incansavelmente pela sobrevivência.

19)  Qual foi o modelo de romance no qual inspirou-se para escrever Os «Cruzados»...?

         Os “Cruzados” não se reportam a qualquer modelo preestabelecido. Houve somente a pretensão de recrear uma maneira de viver em certa época com capacidade de projecção no futuro, na medida em que, como diria Gil Vicente pela boca da sua Inês Pereira, “sobre quantos mestres são/experiência dá lição”.

20)  Que outro caso judicial o motivaria para ser romanceado?

         A profissão de magistrado judicial foi rica em experiências potencialmente romanceáveis. Usámo-la em um conto do livro Labirintos. Contudo, prefere-se agora mudar de fonte em nome da liberdade ficcional.

21) Entre a realidade e a ficção: que porcentagem é ficcão no romance e que porcentagem é realidade? Porque você entra como personagem sendo a história de outros tempos?

         Como já dissemos, poucos factos no romance são reais e tudo o resto é ficção, sem prejuízo de se considerar a tal “verdade como algo essencial e já extrínseco à realidade factual”.

O autor nunca disse que é uma das personagens do romance. Mesmo que o seja, a verdade sobrepõe-se a dualidades temporais por similitude de vivências.

22) Ignorância e religiosidade

         A religiosidade e ignorância estão historicamente numa relação directa na medida em que, hoje, já ninguém acredita que o trovão é produto da intervenção de um deus. Contudo, obviamente, a religiosidade não depende apenas do conhecimento, persistindo apesar dele.

23)  Ciência e Fé.

         Religiosidade, ignorância, ciência e fé correlacionam-se até certo ponto. Note-se que a Bíblia define a fé como “o firme fundamento das coisas que se esperam e uma demonstração das que se não vêem”. As pessoas acreditam por um acto de vontade, porque querem acreditar. Nesta medida, como diria Schopenhauer, o mundo é vontade e representação. A ciência vai, no entanto, roubando espaço de manobra. Atente-se no exemplo do trovão: agora já se sabe que ele resulta do salto de uma carga eléctrica entre um polo positivo e outro negativo.

24) Espiritualidade no Agnosticismo?

         Existe espiritualidade no agnosticismo? Claro que sim e muita e pura se por espiritualidade considerarmos o que melhor define e caracteriza o ser humano, limpo de mitos. António Damásio tem, de certeza, muito a dizer sobre o tema.

25)  As mulheres do romance

         As mulheres no romance são, tal como na vida, o que há de melhor, podendo também ser o pior. Importa realçar o melhor porque, nessa perspectiva, só elas são capazes de proporcionar uma experiência efectiva do divino.

26) O amor (no romance)

         O amor no romance procura ser um espelho do real e, portanto, a motivação para o alcance do essencial.

27)  Sensualidade e sexualidade (no romance)

         A sexualidade e a sensualidade no romance são realisticamente condicionados na sua expressividade e concretização. Isto porque, muito concretamente, a civilização ocidental cedo fez depender o sua realização de uma licença ou alvará, traduzido, na prática, numa forma de controlo do indivíduo, portanto numa forma de eficaz contributo para o exercício do poder.

28)  A justiça (no romance)

No romance a justiça foi até onde as conveniências conjunturais e os preconceitos da época permitiram que fosse.

29)  Técnica literária – qual foi o plano inicial? Como foi-se construindo o romance? Quanto tempo demorou desde a primeira ideia até o culminar como romance?

         Os “Cruzados” da Serra, como já foi dito, foram concebidos para recrear a vivência económica e sócio-política de uma certa época. As personagens e circunstâncias foram sendo mentalmente trabalhadas com base em alguma investigação. Tudo isto à mistura com os absorventes afazeres profissionais. O acto de escrita foi relativamente rápido, praticado embora só quando outras coisas não havia para escrever. Digamos que a concepção, gestação e parto levaram três anos a processar-se.

30)    Os livros que escreveu antes. Breve sinopse de cada um e um comentário sobre cada livro como experiência.

         Antes dos “Cruzados” escreveu-se Témis a Deusa da Justiça com uma estrutura monográfica em redor do recheio artístico do Palácio da Justiça do Porto, mas em que o conteúdo excedeu aquela estrutura por paixão resultante das sugestões dos temas tratados. Recentemente, uma conhecida instituição cultural do Porto tomou a iniciativa de publicar um livro fotográfico com base no texto da Témis. Depois, vieram alguns contos, os Labirintos, inspirados nos labirintos da vida real. Tudo resultou num sentimento de contribuição para realização pessoal. Antes de tudo publicou-se um trabalho relativo ao Estatuto dos Objectores de Consciência, portanto de carácter técnico, mas que, para o efeito, não conta, nem deu ao autor qualquer prazer.

31)   Ler, saber mais, para saber menos, esse “saber menos” nos faz mais ligeira e leve a alma?

         Sócrates só sabia que não sabia nada. Salvo o carácter simbólico da afirmação é certo que o avanço no conhecimento vai mostrando também a extensão do que se não sabe. Quanto mais se sobe na montanha maior é a percepção da área inexplorada.

32)   Qual é a rotina de um juiz jubilado, escritor realizado, violinista esforçado e avó profissional?

         A rotina de um juiz jubilado, escritor nunca realizado, esforçado no violino, mas incapaz de ser violinista, e avô, isso sim, qualitativamente realizado, é a busca incessante de ultrapassagem dos limites alcançados qual Fernão Capelo Gaivota.

33)   Qual  é a mensagem para os seus leitores com motivo de esta nova edição de Os «Cruzados» da Serra? Também aproveitar para se dirigir ao público presente no auditório.

         Os leitores desta segunda edição, tendo já lido a primeira, se buscarem nela novidades hão-de encontrá-las como o autor as encontrou. Os que não leram a primeira edição passarão, com a leitura da segunda, a entrar numa boa parte do mundo do autor.

A insatisfação de apetite cultural é algo de endémico em quem procura assistir a actos como o que, aqui e agora, neste momento, estamos a viver, com a apresentação de mais um livro. É com gente como vós que dá gosto estar, esperando-se também aprender algo convosco.            


Índice de Os «Cruzados» da Serra

Primeira parte:

Raízes

1 ...9

2 ...11

3 ...13

4 ...15

5 ...17

6 ...19

7 ...23

8 ...27

9 ...29

10 ...33

11 ...35

12 ...39

13 ...45

14 ...47

15 ...51

 

Segunda parte:

Remanso Formativo

1 ...57

2 ...61

3 ...63

4 ...67

5 ...71

6 ...77

7 ...81

8 ...85

9 ...87

10 ...91

11 ...95

12 ...99

13 ...103

14 ...109

15 ...111

16 ...115

17 ...119

 

Terceira Parte:

Gesta Quotidiana

1 ...127

2 ...131

3 ...137

4 ...141

5 ...147

6 ...151

7 ...157

8 ...163

9 ...169

10 ...175

11 ...179

12 ...183

13 ...187

14 ...193

15 ...197

16 ...201

17 ...207

18 ...213

19 ...219

 

Quarta Parte:

Germinação

1 ...223

2 ...227

3 ...231

4 ...233

5 ...239

6 ...243

7 ...249

8 ...253

9 ...257

10 ...263

11 ...271

12 ...275

13 ...279

14 ...285

15 ...293

16 ...301

 

Quinta Parte:

Colheira

1 ...309

2 ...313

3 ...319

4 ...323

5 ...331

6 ...335

7 ...337

8 ...341

9 ...347

10 ...349

11 ...351

12 ...353

13 ...357

14 ...359

15 ...363

16 ...367

17 ...369

18 ...371

19 ...373

20 ...375

21 ...377

22 ...379

23 ...381

24 ...383

25 ...387

26 ...391

27 ...393

28 ...395

29 ...399

30 ...401

 

A propósito de Os «Cruzados» da Serra - J. A.Gonçalves Guimarães...405


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