Os livros da EDITORIAL 100
Título: O Falcão d'el-Rei - Autor: José Pereira da Graça

:
Parte I do
Audiovisual sobre O Falcão d'el-Rei - José
Pereira da Graça
Parte II do audiovisual sobre: O Falcão d'el-Rei - José Pereira da Graça
José Pereira da Graça, nasceu na Beira-Alta, em Gamelas (Pinhel) Os estudos levaram-no a Lisboa, Guarda e Coimbra. A profissão fê-lo percorrer o País. A vida impôs-lhe a busca inexorável da VERDADE. Actualmente é juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça. Mora em Vila nova de Gaia. Publicou: Témis, A Deusa da Justiça - 1987, Labirintos - 1994, Maria do Mar (Viagens & Mitos) - 2004, Os «Cruzados» da Serra - 2006, O urso vermelho - 2006, O Falcão d'el-Rei - 2008.
Romance - ISBN: 978-972-8843-72-4 - Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2008. 208 p. Preço com IVA: 15,75 €
Sobre O Falcão d'El-Rei
A vila de Pinhel do séc. XIV, então grande cruzamento de caminhos e polo defensivo de primeira linha, é o ponto de partida desta poderosa obra literária onde convivem a dureza e a simplicidade da vida do campo e a teia da intriga política da vida dos grandes centros.
O autor conduz-nos numa viagem de acontecimentos históricos dessa época, em que se destaca a luta pelo poder protagonizada pela tão bela quanto maquiavélica Leonor Teles de Menezes, passando pelas obstinadas investidas castelhanas, culminando na batalha de Aljubarrota, onde "vitória" está para além do brilhante triunfo do povo português. A realidade histórica mistura-se com a ficção num desafio ao leitor para distinguir uma da outra.
Um romance cativante, onde a expetativa espreita ao virar de cada página.
Maria Helena
Leitura de Teresa Silva 15/Nov/2008
Excertos do livro O Falcão d'El-Rei
1.
O vento sibilava nas esquinas e nas quebradas das ruelas estreitas
tombando alguns pingentes gelados que se haviam formado nos beirais durante
a noite frígida. Estilhaçavam-se ao cair no chão endurecido. As coberturas de
colmo e as ervas dos recessos branquejavam na sua espessa camada de geada.
A manhã estava fria e o vento fazia bandeiras das roupas acabadas de pendurar
para se tentar a secagem. Esforço inglório, pois não tardavam a ficar rígidas
como tábuas. Os transeuntes, nas ruas da vila de Pinhel, enfiavam gorros até às
orelhas para as livrar da friura dorida, a ponta do nariz arroxeava das ofensas
gélidas. Nuvens escuras corriam céleres vindas do Sudoeste como montanhas
mutantes a rolarem lentamente sobre si próprias. Não obstante não se esperava
chuva. Estava frio demais para isso.
Por volta do meio dia o vento sossegou, o céu pintou-se de cinzento
uniforme, os pássaros calaram-se, os cães, de rabo entre as pernas, amuaram
nos cabanais. As árvores quietas denunciavam completa imobilidade do ar. A
temperatura ficou mais amena. Tamanho sossego prenunciava nevão lá mais
para a tarde.
A senhora Mécia, dona da estalagem do Pica-Pau procurou a filha.
–Rosana, precisamos de couves para a cozinha. Vai à horta da ribeira
com a Dora e tragam dois ou três molhos. Não percam tempo que a neve vem
aí hoje.
Foram ao estábulo buscar uma burra e puseram-se a caminho. Não se
descuidaram a colher couves. Fizeram três molhos, Dora atou-os com nagalhos
de palha e, ambas, colocaram-nos sobre a albarda da burra que ia comendo
avidamente a erva dos cadabulhos. A criada lançou a sobrecarga e apertou-a
com o arrocho apoiando um joelho energicamente sobre a pança do animal. O
gesto mostrou a alvura roliça das pernas jovens.
Três cavaleiros chegaram ao portal da horta. Apearam-se, prenderam
as rédeas das montadas entre as pedras da parede e entraram.
–Menina, repare quem vem ali!
–D. Júlio e os seus inseparáveis lacaios! Vamos ter tempestade pela
certa, mais cedo do que o previsto!
O fidalgo, tendo como ocupação principal, se não exclusiva, a busca
de diversões, vinha evidentemente da caça, o que melhor sabia fazer. Com
um gorro roxo encimado por pena de gaio, gibão azulado revestido de tiras
perpendiculares de raposa, botins de couro amarelado, espada à cinta, aproximou-
-se das raparigas, sorridente e certo de que sua fidalguia seria bem recebida. Até
mais do que isso: as raparigas não haviam de resistir ao seu poder de sedução
e ao deslumbramento honroso dos seus pergaminhos, embora experiências
anteriores não tivessem sido famosas. O sítio isolado propiciava ambiente para
uma aproximação interessante, consentida ou não.
–Ora, ora, aqui temos duas ninfas da ribeira das Cabras, belas e
sequiosas de amor. Ou melhor, uma ninfa e a sua aia –disse o fidalgo.
Pensou na viabilidade de um beijo e, quiçá, de um pouco mais. Seria
um bom começo.
–Eh! Vocês aí, seus paspalhos –disse, dirigindo-se aos companheiros,
–levem daqui convosco quem é da vossa igualha e deixem-me ficar com esta
deusa das fragas e dos salgueiros.
Os rapazes, com risos lorpas, dirigiram-se à serviçal e pegaram-lhe por
um braço procurando levá-la dali.
–Anda, vamos brincar para outro sítio...
Ela libertou-se com um puxão rápido e firme.
–Eh! Zagais inúteis! Tirem as patas de cima de mim, seus
parvalhões!
As duas raparigas, de repente, com igual e simultânea determinação,
surpreendendo até as perdizes, tornaram-se megeras bravas. Insultando em altos
berros os intrometidos, apanharam pedras que arremessaram com a pontaria de
pastor. Um dos lacaios já coxeava praguejando com a dor, outro já lhe escorria
sangue pela testa abaixo com um lanho enorme, e D. Júlio fugia como lebre à
frente de galgo.
As moças levaram algum tempo a serenar mas depois riram com gosto
do ridículo em que os valentões tinham caído.
Tímidos flocos de neve principiaram a traçar o ar. A pouco e pouco,
foram-se tornando mais atrevidos e bastos até pulverizarem os céus. Caíam
agora com fartura grada, persistente. Rapidamente o cobertor branco começou
a formar-se.
Chegaram a casa com pinceladas alvas nas toucas e nos corpetes.
5.
O pátio, logradouro da casa de habitação, era ladeado por vários
anexos úteis: a adega, a «casa-alta», a «casa-dalém», as cortelhas dos porcos,
o galinheiro, o cabanal da lenha.
A «casa-dalém» era a corte das vacas de trabalho, do «carriço» e
também onde o moço da lavoura, o Luís Grilo, tinha a sua tarimba. Ali, numa
plataforma de madeira, guardavam-se também os potes de azeite, que não
estavam em uso diário, disfarçados sob o feno. Lá pernoitava igualmente o
«flecha», um falcão que Rui apanhara quando a parede de uma quinta ruíra.
Os pais haviam construído o ninho no fundo de um buraco existente no muro
acreditando na sua solidez, afinal desmentida. A ave, com algumas semanas
apenas, tivera a sorte de escapar à derrocada e de ser encontrada pelo Rui que a
alimentou e amestrou, instalando-o numa grande gaiola de rede pendurada de
um caibro do telhado, gaiola que tinha a função de o proteger, durante a noite,
de ocasionais predadores, além de estar resguardado das intempéries. Podia sair
da gaiola através de portinhola de Vaivém e alcançar a rua por um buraco feito
no alto da porta de entrada. Fugir, ele não fugia.
Por isso, especialmente durante o dia, a ave tinha a liberdade de voar
para onde quisesse. Rui erguera uma alcândora alta como duas amendoeiras
que cresceram no pátio onde podia permanecer sem nada a incomodar. Partia
para a caça e voltava quando queria, a não ser que o dono o chamasse. Chegava
então com a velocidade da seta.
Rui conseguiu da ave obediência e colaboração cúmplice com a mesma
eficácia que obtivera do «carriço» e da «pintada «, uma cadela branca, muito
ativa, com grandes pintas pretas, como pretas eram as orelhas e a ponta da
cauda.
A mãe Áldara meteu pão, um ovo cozido, carne assada de veado, num
bornal de couro e encheu uma pequena botelha de vinho. Rui pôs tudo a tiracolo,
sobre sólido talabarte onde enfiou o inseparável «tira-teimas» e pendurou a
bainha de punhal que ele próprio forjara na frágua de seu pai. Este, António
Pina, fora oficial de mestre Gaspar, deslocando-se diariamente a Pinhel, durante
toda a infância de Rui que cedo começou a acompanhá-lo. Por isso cresceu a
brincar com Rosana, sempre que era possível. A situação manteve-se até que
o pai conseguiu, obtido o grau de mestre, montar a sua oficina em Gamelas,
atividade que acumulava com agricultura, a grande base da sobrevivência da
família.
Rui atravessou o pátio rumo à «casa-dalém». Durante a noite a
humidade do chão gelara e os passos do rapaz restolhavam no gelo terroso, o
ar expirado formava à sua frente a habitual nuvenzinha. As orelhas e a ponta
do nariz também doíam com o ar cortante. Aparelhou o «carriço», pendurou
um machado na sela, colocou uma tira de couro no ombro onde o «flecha»
costumava poisar, montou o cavalo e partiu a passo célere. Assobiou, emitindo
um silvo agudo e penetrante. Era o chamamento do falcão.
A «pintada» acompanhou-os. Já não havia vestígios de neve campos
fora, a não ser, lá longe, nos cumes da Serra da Estrela. A limpeza do azul do
céu e a frescura do ar eram estímulo à energia do rapaz. Com estalos dados
com a língua, o animal alcançou um galope seguro enquanto o cavaleiro
berrava feliz palavras onomatopaicas. De vez em quando percebia-se o nome
Rooo...saaaaa...naaaaaa, como um eco misturado com o vento, a ultrapassar as
dimensões do Universo. Pelo menos era assim o efeito que ele sentia.
O «flecha» não demorou a aparecer e pousou no ombro amigo como se
quisesse afirmar a sua presença. Logo retomou o voo, perdendo-se de vista nas
alturas, aproveitando o ensejo para caçar pardal, calhandra ou pombo torcaz,
para consumo próprio, na presunção de que ainda o não conseguira.
A trote moderado percorreram uma vereda por entre moitas de carvalhos
e a «pintada», lesta sempre à frente, de repente começou a ladrar furiosamente.
O cavalo avançou a passo, abanando o pescoço em sinal de inquietação. Passou
sob um ramo de gigantesco sobreiro, obrigando o cavaleiro a inclinar-se para
diante deparando com clareira coberta de erva e, a alguns metros, um corpulento
javali era assediado pela cadela, num completo desvairamento. O porcino grunhia
raivosamente tentando atingir, com os seus enormes dentes recurvos, a frágil
atacante. O cavalo parou expectante. Rui levou a mão ao «tira-teimas» mas logo
percebeu que, perante demasiadas presenças indesejáveis, o animal se retirava
sem problemas. A «pintada» ainda seguiu na sua peugada, provavelmente
convencida da eficiência decisiva da sua braveza.
Prosseguiram buscando o seu destino, a horta da Ribeirinha. Cruzou-se
com Francisco Osório e o seu rebanho de ovelhas, acompanhado de três cães de
guarda com as suas impressionantes coleiras de ferro eriçadas de pontas afiadas,
fabricadas na forja do pai, com a ajuda do Rui. Puxou a rédea do «carriço» que
logo parou.
–Ora viva ti Francisco. Bom dia.
–Bons dias, rapaz. Bem aparecido.
–Vou ver se corto um amieiro que o tempo está de feição.
–Pois está e vai continuar.
Olhou para a Serra da Marofa que não tinha nenhuma nuvem pousada
no cume, molhou um dedo na boca e pô-lo no ar.
–Não há burro na serra e o vento está de leste, a humidade do ar é mais
a que o sol faz levantar da terra. Vai voltar a chover daqui por três dias. Mais
neve não haverá tão cedo.
Rui ficou com a certeza de que só daí a três dias voltaria a chover,
que as previsões de ti Francisco Osório nunca falhavam. Enquanto falavam, o
rebanho, sob o olhar autoritário dos cães, ia retouçando nas beiras do caminho.
Um carneiro sentiu o cio de uma ovelha. Pôs as ventas no ar, sorvendo energia,
olho cúpido assente na fêmea e logo a sua cornadura forte se destacou da mancha
lãzuda. Erguido sobre as patas traseiras deixou-se tombar sobre o lombo da
fêmea submissa e colaborante.
–Mais um cordeiro lá para o verão –observou Rui.
–E verdade. A Natureza é sábia e a vida continua. Assim a existência
é eterna, ao menos em termos de raça. Isto tanto de bichos como de gente, que
tirando os miolos pensantes tudo é carne.
–Bem, vamos à vida. Na Penha das Gralhas há boa erva e eu vou até
lá.
Um berro seu e todo o rebanho se pôs em marcha. Rui admirava o
pastor que tinha opiniões formadas sobre tudo e gostava sempre de falar com
ele. Sentiu vontade de confidenciar-lhe o segredo da sua paixão mas não era
o momento.
Continuou o caminho até à horta da Ribeirinha. Ali escolheu, de entre
os choupos que enfileiravam à beira da ribeira, o que lhe pareceu adequado.
Pegou no machado, verificou a direção do vento e começou a golpear o tronco
de modo a evitar que caísse para a água engordada pelo degelo. O corte, em
bisel, aumentava a cada machadada vigorosa e já chegava a meio do tronco.
O suor, apesar do frio, apareceu em bagas grossas na testa. O Sol andava pelo
meio-dia quando resolveu parar para descansar e comer a merenda. Sentou-se
numa pedra e tirou a comida do bornal e estendeu-a sobre o pano de linho que
a embrulhava. Enquanto o «carriço» continuava a abocanhar a erva abundante,
que outra coisa não fizera desde a chegada, Rui atirou um pedaço de carne à
«pintada» e ele próprio foi saboreando a comida calmamente, regada com vinho
produzido no lagar lá de casa. Vindo das alturas apareceu o «flecha», pousando
tranquilamente no ombro do dono. Este cortou um pedaço de carne e pô-lo ao
alcance do bico recurvo mas não se mostrou interessado.
–Ah! Maroto que já almoçaste! E bem! Uma carninha fresca...
O falcão voou para pousar num ramo ali perto e por lá se foi
mantendo.
No caminho passou Maria Angelina a cavalo no burro «russo», que se
dirigia ao nabal vizinho.
–Bom dia Rui –cumprimentou.
–Ora viva, ti Angelina. Então anda por aqui nesse estado?
Ela andava com a barriga à boca, no fim do tempo.
–Olha, precisamos de nabos lá em casa e só eu podia vir buscá-los. Por
acaso nem me sinto muito bem.
–Deixe estar que eu apanho-lhe os nabos.
Acompanhou-a até ao nabal. À entrada tinha sido cortado um freixo
e o que restava do tronco podia servir de assento.
–Sente-se aí e descanse.
–Está bem. És um bom rapaz. Sais ao teu Pai que também sempre foi
um bom homem. Fico-te muito agradecida. Bem hajas.
–Os amigos são para isto mesmo.
Em pouco tempo arrancou nabos sufi cientes para fazer um bom molho,
atou-o com nagalho de palha e logo ficou pronto para ser carregado.
–Ai, valha-me S. Sebastião, que me rebentaram as águas –disse a mulher
pondo-se rapidamente em pé, deixando cair o espesso xaile que mantinha nos
ombros.
A saia comprida ocultou o fenómeno natural e Rui fi cou embasbacado
a olhar para ela.
–Ponha-se a cavalo no «russo» e vá já para casa –propôs, após sair de
estupefação momentânea.
–Ai ai! –foi a resposta.
Era a primeira contração.
–Valha-me Deus! Não vou ter tempo de chegar a casa.
–Tem de tentar.
Pôs o «russo» junto do tronco do freixo.
–Vá, suba para o toco que eu ajudo-a a montar. Vou consigo até
casa.
Ela obedeceu e sentou-se na albarda.
–Tu estás a trabalhar. Eu cá me arranjo... Ai, que não aguento mais!
Nova contração fê-la atirar-se do burro abaixo e sentou-se no chão.
–Ó ti Angelina, o que é que eu hei de fazer? –perguntou bastante
confuso.
–Não te atrapalhes rapaz! Isto de parir já não é novidade nenhuma para
mim. Esta já é a quinta vez... Vai ter que ser aqui mesmo. Olha, tira a manta
que está na albarda e estende-a aqui no chão.
–A manta vai ficar toda molhada! E depois com que vai tapar a criança,
com esta friagem toda? Espere, tenho ali na sela do «carriço» um cobertor. Vou
buscá-lo.
Foi a correr e voltou. Trazia também o pano que, na refeição, lhe
servira de toalha. A mulher estava inclinada para trás apoiada nos braços. Agora
não gritava, parecia que rosnava, ajudando a sua natureza a agir. O lenço que
tinha na cabeça caiu e o cabelo soltou-se, a face quase desapareceu debaixo dele.
Deitou-se de costas e abriu as pernas, continuando a puxar, puxar, parecendo
que a energia do mundo estava concentrada naquele ventre. Era pelo menos a
daquela vida.
–Ajuda-me!
–Como? Olhe! Vou chamar o ti Francisco Osório que foi para a Penha
das Gralhas...
–Ele está habituado a ajudar as ovelhas. Sabe o que é parir, mas eu
também sei e não há tempo para chamamentos.
–E a senhora Maria do Cerro?
–Está longe demais... Tens de ser tu!
Rui pôs o pano de linho no chão, no seguimento da manta.
–Chegue-se um bocadinho à frente –pediu ele, pegando-lhe na mão
para a ajudar a mover-se até ficar sobre o pano.
Ela então num movimento rápido puxou a saia a cima.
–Quando começar o nascimento agarra a criança e ajuda-a a sair –pediu
ofegante, com o suor a inundar-lhe a face.
Ele ajoelhou-se diante dela e começou a ver a pequena cabeça a aparecer
coberta de uma pelugem negra.
–Coragem, ti Angelina. Força que já aí vem.
Mais um puxão reforçado, mais uma arreganhada impação e a cabeça
emergiu de vez. Ele colocou a mão por baixo e logo os ombros se lhe seguiram.
Agarrou a criança e ajudou suavemente a completar a saída.
–Já cá está, ti Angelina. É uma menina! –gritou como se entoasse uma
ode, sentindo uma alegria exuberante e um imenso orgulho por ter participado
no ato.
A criança naturalmente sentiu os efeitos da mudança súbita do
aconchego quente para a friúra do exterior e logo encetou um berreiro de
espantar a pardalada até aí distraída.
–Ena! Que pulmões sadios que ela tem!
–Corta-lhe o cordão, mas deixa um pedaço aí de meio furco.
Com uma navalha apressou-se a proceder à necessária operação.
–Agora dá um nó na ponta.
Ele deu o nó estanque do sangue e depois cuidadosamente embrulhou a
criança no cobertor, como num casulo, ficando bem protegida do frio. O choro
logo findou. A mãe ficou ofegante e prostrada de cansaço. O rapaz reparou nisso.
Segurando o «casulo» só com um braço, pegou no xaile abandonado no chão
e estendeu-o sobre ela aconchegando-o muito bem. Com o lenço que tirou do
bolso limpou-lhe o suor do rosto e do pescoço.
Ela sorriu agradecida. Manteve as pernas abertas sob o xaile, que a
placenta ainda não fora expulsa.
Mais um último esforço, pálido reflexo do que já acontecera.
–Pronto! As «pairas» já cá estão!
Ele atirou-as para um tufo de ervas. Mais tarde uma raposa, um gineto,
mesmo as formigas, os corvos ou as abetardas tratariam delas, num saneamento
ecológico espontâneo e restaurador.
A parturiente limpou-se o melhor possível à toalha, na parte que não
fi cara molhada e pôs-se de pé. Apanhou o lenço do chão e recolocou-o na
cabeça.
–Dá-me cá a minha filha, Rui –disse, como quem pede a entrega de
um tesouro, estendendo os braços.
Pegou na criança. Pela primeira vez olhou bem para a seu rosto
pequenino, de olhos fechados, ainda impregnado da mistura líquida envolvente e
amou o que viu. Encostou a carita da fi lha à sua, prolongadamente, comunicando-
-lhe ternura e calor.
–Já posso ir para casa. Só preciso que me ajudes a montar no
«russo».
O moço assim fez. Certificou-se do bom aperto da cilha, condição
essencial de segurança, e Angelina subiu para a albarda a partir do toco ali ao
lado e sentou-se nela com o à-vontade da habituação. Ele ajeitou o xaile à volta
dos corpos da mãe e da fi lha, enrolou a manta que acabara de servir de leito,
em volta das pernas pendentes.
–Tome lá a rédea. Bom, agora eu vou consigo.
–Nem pensar! Como vês, graças a ti, estou muito bem. Tu vais acabar o
teu trabalho. Só preciso que me faças o favor de me levar o molho dos nabos.
–Claro que levo, mas pode precisar de alguma coisa no caminho.
–Não, meu fi lho, agora está tudo bem. Se não fosses tu, cá tinha de me
arranjar sozinha. Deste-me uma grande, grande ajuda!
–Tem a certeza de que não quer a minha companhia?
–Agora não preciso dela. Fica tranquilo.
Em sinal de admiração, ele pegou-lhe na mão e apertou-a contra a sua
cara com todo o carinho.
–Ti Angelina, vossemecê é uma heroína!
–Eu sou uma mulher como a tua mãe.
–Pois! A partir de hoje eu tenho ainda mais estima, mais consideração
por si, pela minha mãe e por todas as mulheres do mundo!
–Olha, tu hás de ser o padrinho desta menina. Terá o nome que tu
quiseres.
–Se é assim vai chamar-se Áldara.
–Como a tua mãe... Claro! Está bem.
–... ou Rosana... –balbuciou, corando como se tivesse blasfemado.
–?
O «russo» pôs-se a caminho seguindo com andamento firme por entre
as pedras do carreiro, alheio à carga que levava. Rui manteve-se algum tempo a
olhar para o grupo que se afastava e sentiu a admirável harmonia destas coisas
da vida.
–Tem razão ti Francisco Osório –pensou, –«a Natureza é sábia e a vida
continua» eternamente, por esta via...
Podia voltar ao seu trabalho. E fê-lo com um entusiasmo renovado. Um
nome bailava no subconsciente cravado no pensamento incendiário da emoção:
Rosana, Rosana, secretamente Rosana.
Meia dúzia de machadadas vigorosas e o choupo começou a inclinar-
-se muito devagar até que a parte do tronco onde o machado não chegara ainda
começou, por força do próprio peso, a ceder, a estalar fragorosamente. Então
a queda foi rápida e a grande árvore estatelou-se no chão para sempre com um
baque seco e um estrugido de ramagem a vergar toda, retomando depois, a que
ficou livre do peso do tronco, a posição natural.
Faltava limpá-la, cortando-lhe todos os ramos. Depois, futura cumeeira,
era só vir buscá-la no carro de vacas, colocá-la no chedeiro e finalmente no sítio
e o telhado da «casa-alta» ficaria de novo firme por muitos anos.
Missão cumprida.
O Sol de inverno já começava, com pressa, a baixar para a linha do
poente. O cieiro incomodava gradualmente em benefício do gelo que recomeçava
a formar-se nos pequenos regatos.
–«Carriço» vem cá, anda, anda! Vamos embora.
O animal, barriga cheia de boa erva, aproximou-se do dono. Este pôs-lhe
o cabresto, recolocou a sela, atou no sítio próprio o cobertor que tão bom jeito
dera a ti Angelina, num impulso colocou os nabos sobre o animal, meteu o pé
no estribo e montou num movimento ágil, segurando o molho à sua frente.
A «pintada», farta de exercer o seu instinto cinegético sem êxito desta
vez, estava pronta para o regresso. O «flecha» manteve-se pousado num ramo
a observar com os seus grandes olhos negros, os preparativos da partida. O sol
batia-lhe em cheio no corpo, realçando o azul-acinzentado brilhante da sua
plumagem com listas escuras, a coroa preta da cabeça, a cauda com pontas
brancas e a barriga esbranquiçada com pintas escuras. Era um falcão macho,
por isso terçó. Deixou que se adiantassem no caminho, depois seguiria com o
grupo familiar, pois a ele se afeiçoara definitivamente. Tinha-se habituado ao
seu convívio e por nada o dispensaria.
Por nada, não!
Na primavera o impulso reprodutor levava-o para a sua fêmea, bem
maior do que ele. Então desaparecia, pelo menos durante o mês de nidificação
a colaborar no choco dos dois ou três ovos da postura. Ele bem tentava levar a
sua companheira até à «casa-dalém», na certeza de um bom acolhimento, mas
quando era preciso picar em direção aos humanos, a fêmea, o prima, furtava
as voltas e ele, macho terçó, se quisesse que a seguisse. Claro que seguia. Fora
disso os sumiços eram ocasionais e não muito longos.
Já os amigos iam longe quando saiu do seu poiso alto e furou o ar com
a facilidade do raio. Num ápice estava no ombro acolhedor. O grupo seguia
ao ritmo do trote quando uma bando de perdizes se levantou voando baixo,
paralelo à encosta.
–Vamos levar ceia para casa, «flecha».
Um assobio com certo entono e a ave ergueu-se como uma mola,
subiu até altura que achou azada e picou sobre o bando. Os seus olhos redondos
fixaram-se numa das fugitivas e, para a alcançar, nem precisou de utilizar os
cerca de duzentos quilómetros/hora que era capaz de atingir.
A «pintada» logo que ouviu o assobio de ataque, já sabia o que fazer
Correu desaforada na direção do bando, latindo como danada, sem perder de
vista o falcão, ciente do seu papel.
O «terçó» aproximou-se da perdiz, por detrás e por cima, e fincou-lhe
as unhas no lombo. Uma bicada no pescoço junto à cabeça, partiu uma vértebra
e a medula rompeu-se. A vítima deixou pender a cabeça e o atacante largou-a
por pesada. Caída inerte no solo não foi preciso esperar muito para a «pintada»
a abocanhar e a levar à mão do dono. Provavelmente à ceia haveria guisado
de perdiz. O «flecha», cumprida a missão, voltou ao ombro do dono esperando
uma paga. Recebeu-a. Uma mão passou-lhe pelo cabeça e lombo num afago
reconhecido.
–Eh valente! Nunca falhas.
Rui bem sabia que a cetraria era um privilégio dos nobres. O falcoeiro
era um criado ao serviço deles, para sua diversão e algum proveito. O falcão para
isso utilizado era geralmente a fêmea do peregrino, o «prima», mais corpulento
e poderoso, capaz de, em voo picado, atingir cerca de trezentos quilómetros/
hora, o voo mais rápido na terra! Rui daria um excelente falcoeiro, dado o seu
dom natural de domínio sobre os animais. No entanto nunca trocaria nenhum
«prima» por este «terçó» de cumplicidade avonde comprovada, gozando com
a secreta partilha em ações privadas de altanaria.
O Sol já se sumira na distante linha do horizonte. A temperatura
começava a gelar tudo o que tinha água: os charcos, os ribeiros petrificados no seu
percurso, as gotas pingantes dos telhados, até a dos cântaros na cantareira.
As orelhas e a ponta do nariz recomeçavam a doer, as sobrancelhas
branqueavam com a humidade arrefecida.
Em casa, mãe Áldara já tinha a ceia pronta. A perdiz fi caria para o
almoço seguinte.
33.
D. João de Portugal galopou até que o cavalo começou a resfolegar
e o andamento teve que ser refreado. Continuaram a passo durante horas. Em
determinada altura, viram um grupo de cavaleiros que vinha em sentido contrário.
Reconheceram-se mutuamente quando se aproximaram. Pararam frente a frente.
Homens todos fortemente armados.
Uma tensão silenciosa abateu-se sobre ambos os grupos. Por momentos
ninguém disse nada. Apenas as montadas bufavam denunciando o esforço das
cavalgadas apressadas.
Falou D. Lopo.
–Senhor D. João de Portugal: não passastes por Tomar como havíeis
prometido e não vejo a nossa Mãe a acompanhar-vos.
D. João agitava-se em cima do corcel como se estivesse a ser torturado
por uma multidão de pulgas.
–A vossa Mãe encontra-se em Coimbra em casa de D. Álvaro de
Carvalho. Demandai-a pois que lá a achareis.
Surpresando todos esporeou o cavalo que se ergueu nas patas traseiras
com um relincho de dor, os olhos redondos arregalados, a boca a escumar, e
atirou-se para diante forçando a passagem. Alguns dos seus, após momentos de
indecisão, seguiram-no. A outros foi barrada a retirada e foram questionados
sobre o que se estava a passar.
–Sinceramente nós não sabemos o que aconteceu em Coimbra. Algo
de grave foi com certeza, pois ouvimos gritos de aflição em casa de D. Álvaro
de Carvalho.
–Mas vocês não estavam no local?
–Nós chegámos todos ao pátio do solar. D. João apeou-se, deu ordens
para nos mantermos montados. Sua Alteza entrou no paço com Diogo e Garcia
Afonso, daí a pouco ouvimos gritos de várias pessoas, depois grande algazarra
e logo D. João saiu, galgou as escadas a correr, montou de um salto e retirámos
à desfilada.
O jovem D. Lopo Dias de Sousa ficou hesitante entre perseguir o que
parecia um fugitivo e correr até Coimbra para saber o que se passava. Optou
por Coimbra. Deliberou-se que o grupo vindo de Lisboa, chefiado por Álvaro
Vasques de Gois, poderia regressar à capital seguindo na peugada de D. João
de Portugal e procurando saber algo de útil.
A trote regular seguiram até Coimbra com a certeza de tragédia e
depararam com o seu recente resultado. A mãe já tinha sido colocada em câmara
ardente. Parecia dormir o que era desmentido apenas pela palidez de cera e pelo
decúbito dorsal com as mãos cruzadas sobre o ventre. O rosto, emoldurado
pela farteza de cabelos ruivos, refletia uma serenidade angélica e a beleza não
a tinha abandonado.
sois, Senhora!
–Bem sabeis, meu querido Rei e Senhor, como são árduos os negócios
do Reino!
–Os do Reino e... os vossos, Senhora!
O rei tossia doridamente. Florência quis ministrar-lhe uma dose do
xarope que o aliviava sempre um pouco. Ele fez um gesto de recusa e a velha
ama recolheu-se ao seu canto. A rainha fez-se desentendida das palavras do
monarca e continuou:
–Hoje quisemos pessoalmente verifi car a vossa saúde e também tratar
de um assunto de extrema importância.
–E precisais de nós para isso, Senhora?
–Sem dúvida, precisamos, Senhor nosso marido e nosso rei.
–Então dizei.
–É imperioso tomar uma decisão acerca do futuro de D. João de
Portugal. O assassinato despropositado de nossa irmã, D. Maria, não pode
deixar de ter consequências. A indignidade revelada não se coaduna com a
presença na Corte.
–Pois decidi e deixai-me morrer em paz.
A rainha mandou chamar o chanceler-mor a fi m de registar em ata o
consentimento do rei. Saíram.
Florência tentou novamente dar-lhe o remédio que sempre lhe aliviava
um pouco o sofrimento.
Entrevista a José Pereira da Graça a propósito da publicação de O Falcão d'El-Rei pela Editorial 100
Como e quando surge a ideia de escrever O Falcão d'El-Rei?
Desde há muito que dei atenção aos elementos constitutivos do brasão municipal da cidade de Pinhel. Nele se observa uma ave voante disposta em chefe. Porquê o pássaro? Dizia-se que era um falcão. Já em versões antigas do brasão aparece a ave no topo de um pinheiro e um coelho junto da raiz. Verifiquei então que a lenda preenche os hiatos históricos. Pensei, por isso, em pegar literariamente no assunto e propor a minha versão, ideia que me cativou, pois me permitia regressar às minhas origens, o que faço sempre com paixão.
Quais foram as principais fontes de investigação utilizadas para construir o suporte histórico do romance?
Nesse regresso misturou-se a verdade histórica com a ficção mas a ficção lógica em termos tais que, se não pode provar-se a ocorrência dos acontecimentos, também não se consegue provar o contrário, ou seja: se não foi assim podia ter sido. Aqui o leitor é desafiado a alcançar a fronteira entre a utopia e a realidade. Paralelamente os factos de natureza histórica são rigorosamente respeitados, servindo de suporte fundamental a obra de Fernão Lopes, a Crónica de D. João I, mas não só. Também foram relevantes os trabalhos de Irene Avilez Teixeira, in Trancoso e de Arlindo Magalhães Ribeiro da Cunha in Santiago em Portugal, para além do meu trabalho Témis, a Deusa da Justiça, e a sua abundante bibliografia.
Qual é o heroísmo que se destaca no romance?
A trama do romance nasce pois da imaginação do autor supondo o que teria acontecido ao redor de alguns factos reais o que integrará o conceito de romance histórico. Para além do heroísmo militar destaca-se o heroísmo do caráter quer se revela no campo de batalha, naturalmente circunstancial e nem sempre assente em motivações eticamente válidas, mas sobretudo o heroísmo espontâneo e sustentado que emerge de atos de abnegação altruística praticados com inabalável determinação.
Que histórias se contam neste romance?
Assim se vão contando várias histórias personalizadas umas, integradas outras num contexto mais vasto. Nesta perspetiva desenvolvem-se duas vivências fundamentais, refletindo uma a forma de assumir a vida conjuntural pela Nobreza e a outra pelo Povo.
Porque insiste sempre em Pinhel como cenário dos seus romances?
Curiosamente o cenário da generalidade do meus escritos têm por cenário o concelho de Pinhel. O Falcão d’el Rei começa na vila medieval pinhelense. Penso que há aqui um fenómeno ou um ato e consciência de identidade original ou congénita. Nasci e cresci em Gamelas. Alimentei-me com os produtos locais. É sabido que cada um de nós é fisicamente aquilo que come. Nessa primeira fase da vida eu fui aquilo que aquela terra me deu. Por outro lado foi, para além da família, a moldura humana dos meus conterrâneos que me influenciou na formação do caráter, na dimensão que este tem para além de imutáveis componentes genéticos. Esta moldura era constituída por gente com a 4ª classe e até analfabeta mas com os ingredientes humanos típicos da respetiva natureza. Na sua simplicidade deram-me lições de vida válidas para sempre. Por exemplo: o facto de viverem totalmente mergulhadas na penumbra dos mitos mamados com o leite materno, com algumas fantásticas emergências, chamou-me a atenção para o facto de tais mitos serem velhos e relhos. Aprendi com eles a valorizar a racionalidade como forma de controlo da emotividade, como mais tarde havia de ensinar António Damásio. Depois, a experiência pessoal e profissional haviam de carrear uma soma de conhecimentos proporcionadora de uma sageza, no sentido cartesiano, que em breve havia de levar à consciência de uma perfeita integração na Natureza, sem necessidade sequer de ingredientes panteístas.
Esta consciência integrativa do ser humano, embora com as dimensões físicas do átomo ou do protão, distingue-o dos demais seres e pode harmonizá-lo com tudo e com todos. Essa harmonia percebida é potencialmente geradora de uma tranquilidade de consciência, base da tranquilidade absoluta, capaz de debelar dicotomias ou contradições existenciais. Imperativo é que não haja exceções, nem sequer uma: quando se atira uma pedra perturbadora da superfície do lago, o tempo encarrega-se de restaurar a planura interrompida mas a pedra continua lá, embora no fundo.
Assim, a situação do enredo dos meus romances podia situar-se em qualquer parte. Porque não, então, nos locais que me formaram, na minha aldeia, na minha freguesia, no meu concelho? É uma forma apaixonada de reviver o passado, tão grato quanto feliz.
Há algum paralelismo entre o Miguel Pedrosa de Os «Cruzados» da Serra e o Rui Pina de O Falcão d'El-Rei?
Entre Rui Pina, uma das personagens principais deste Falcão d’el Rei de que estamos a falar, e Miguel Pedrosa, herói principal de outro romance meu, Os “Cruzados” da Serra, há uma paralelismo de base: ambos privilegiam o amor, ambos são motivados pelas suas amadas, nas suas opções decisivas, razão das suas existências, cientes de que nelas assenta o seu entusiasmo criativo, no sentido mais amplo do termo. Para lá disso, separa-os não só a barreira do tempo, como o facto de Rui viver integrado na família, no seu meio social, na própria Natureza. Miguel, cedo embrulhado num casulo espartilhante, teve que despedaçá-lo dolorosamente. Só depois a harmonia existencial ganhou horizontes.
Como era Pinhel nos tempos em que decorre o romance O falcão d'El-Rei?
Imaginemos Pinhel no século XIV, tempo em que decorre a ação do Falcão: as muralhas robustas com as suas seis portas, três delas reforçados por maciços torreões, os seus adarves defendidos por sólidas bragas com as estratégicas ameias e merlões, as duas torres, o alcaide, o juiz da terra, os edis, os priores, os burgueses exercendo os seus mesteres, os peregrinos a caminho de Santiago de Compostela entrando pela porta de Santiago, os cavalos ferrados pisando as pedras das ruelas estreitas, a bela Rosana da estalagem do Pica-Pau a deslumbrar com os seus olhos verdes, os castelhanos rondando como ameaça permanente.
O que se pretende transmitir como mensagem neste romance?
Neste contexto podemos reviver um pouco o período escaldante e conflituoso subsequente à morte de D. Fernando, em companhia de vultos poderosos e fascinantes, sempre surpreendentes. De gente do Povo emergem personagens que reverenciam a poesia e o amor, livre de convenções. A cidade capital e os burgos do interior, mormente beirões, ligam-se por laços indefetíveis de solidariedade coletiva em que a intenção de sobrevivência como povo livre, na relatividade dos conceitos, emerge com força magnífica. A mensagem do romance é um pouco essa.
Qual é a imagem que se transmite da monarquia e da nobreza neste romance. O povo está cheio de virtudes.
A imagem da monarquia e da nobreza é a que historicamente lhe cabe. A par do clero, trata-se da classe dirigente, simultaneamente protetora de um povo enquadrado na pirâmide feudal. No enredo romanesco, o heroísmo existencial assenta melhor neste, na arraia miúda, do que naquelas, por uma questão de sobrevivência diária.
Qual é o papel da mulher neste romance?
No romance, como na vida, a mulher surge como elemento motivador, a base da vida, o seu perfume, por vezes, a determinante voluntariosa dos acontecimentos decisivos, como é o caso de Leonor Teles, maquiavélica no sentido que Nicolau Maquiavel havia de teorizar, duzentos anos mais tarde. A história, contada pelos vencedores, chama-lhe, depreciativamente, entre outras coisas, aleivosa, comborça, barregã. Se fosse homem, acentuar-se-ia a sua determinada força de ânimo. Teria sido uma espécie de D. João II.
Personagens
As personagens do romance são arrancadas da imaginação do autor, integradoras de vivências possíveis, nascidas de necessidades narrativas. Outras são retiradas das prateleiras poeirentas da História revivendo as suas vidas na lógica comportamental dos acontecimentos que protagonizaram.
Animais
Das suas vidas fazem parte os animais domésticos que compartilham a vivência humana e os selvagens que os ameaçam ou os alimentam. Dos primeiros destaca-se o cavalo, animal nobre, poderoso e ágil. Sem o cavalo seria bem diferente o devir da vida humana. Para além de meio de transporte, o mais rápido que havia, os esquadrões de cavalaria eram os tanques de guerra da altura, praticamente invencíveis pela infantaria, até que a célebre técnica do quadrado, inventada pelos ingleses, aplicada em Aljubarrota, e antes nos Atoleiros, acabou com tal invencibilidade.
Lobos e ursos são poderosos conviventes que não aterrorizam mas incutem respeito. Nas casas nobres são presenças constantes, a par do bobo da corte, os gatos morigerando a população de ratos, os cães, os falcões caçadores.
Que parte do romance gostou mais de escrever?
O Falcão d’el Rei, como romance é um todo numa sequência apaixonante para o autor. É um corpo inteiro em que cada parte é essencial pelo que não se podem eleger elementos mais gostosos.
Ficção e realidade - Ficção e historia
Como já se disse, a ficção e a realidade casam-se em termos de criação de vivências, se não historicamente comprovadas, pelo menos bem possíveis e até prováveis. A distinção entre o real e o ficto emergirá do lastro cultural do leitor numa plataforma, por vezes, não facilitada, supomos.
Qual foi a importância da Batalha de Aljubarrota para Pinhel?
Pinhel, vila de fronteira, de facto e de direito, até ao Tratado de Alcanizes, de facto depois daquele Tratado e até à pacificação após a crise de 1383/85, proclamou sempre o seu pendor anticastelhano, celebrando claramente a nomeação de mestre de Avis como regedor e defensor do Reino e depois a sua eleição nas cortes de Coimbra. Tais atos, numa época de indefinição e de aparente superioridade castelhana, revestem-se de admirável coragem. Se a batalha de Aljubarrota tivesse sido perdida, a vila de Pinhel teria sido particularmente humilhada.
De onde surgem as inimizades entre Portugal, Galiza e Castela-Leão se os monarcas eram família? O sentido de independência era mais antigo que Afonso Henriques? E que o Conde Henrique?
As inimizades entre Portugal, Galiza e Castela-Leão são, por vezes, da mesma natureza das que frequentemente surgem entre os membros da mesma família, refletidas na máxima “piores do que inimigos, são irmãos”. Os direitos sucessórios, reais ou pretensos, alimentam a ambição sem limites precisamente no seio das famílias.
O sentido independentista de Portugal alimentava-se até das suas raízes históricas. Na sequência da Reconquista cristã, os reis, na impossibilidade material, de aguentarem os territórios livres de mouros, compensavam os reconquistadores investindo-os no regimento dos respetivos territórios, constituindo presúrias. Vímara Peres, presor do território que haveria de ser a base do futuro Condado Portucalense, logo lhe concedeu um certo sentido de unidade, acentuado pelo conde D. Henrique, posto em perigo pela sua viúva, e salvaguardado e alargado pelo primeiro rei, D. Afonso Henriques.
Quais são os razões de se sentir orgulhoso de Pinhel como pinhelense?
O corajoso passado de Pinhel, abnegado e afirmativo, quantas vezes sofredor das consequências da clareza das suas posições, alimenta o orgulho da sua condição passada de qualquer pinhelense.
Alimentos, armas, medicina e vestimenta na altura do romance.
Na conceção do romance houve que ter em conta, como fator importante de recriação da época, os alimentos então consumidos. Assim houve que averiguar a proveniência autóctone, do Norte de África ou do Oriente. Arredou-se a proveniência do continente americano, só disponíveis a partir do século XVI, como, por exemplo, a batata. As armas medievais, a medicina incipiente e intuitiva, a vestimenta talar sobretudo das mulheres influenciada pelo sentido pecaminoso do dogmatismo imperante, tiveram que ser respeitados. O desenrolar dos episódios essenciais foram intencionalmente aliviados desta característica dogmática dominante na Idade Média, por uma questão de frescura narrativa.
Porque decidiu publicar O Falcão d'EI-Rei segundo o novo acordo ortográfico da língua portuguesa?
Pratica-se, desde já, não obstante os enredos obstaculizantes, surpreendentemente ativos, a grafia segundo o Acordo Ortográfico, por uma razão muito simples: logo aquando da sua publicação no Diário da República, em 1990, o seu conteúdo conquistou-me. O seu aspeto mais espetacular, a eliminação das letras mudas, reputei-o uma evolução natural da língua, no sentido da adaptação da escrita ao serviço da oralidade. Tudo isto no seguimento de atos evolutivos passados que levaram à substituição do PH por F, do Y por I ou da fixação da grafia da palavra mãe, em vez de mãi, ou de ontem, em vez de hontem. Atualmente escrevemos de maneira bem diferente de Camilo Castelo Branco ou de Eça de Queirós. E a evolução continua. Não há nenhuma subordinação ao português do Brasil. Este também cedeu, eliminando o trema, que o português agora chamado de luso-africano, há muito tinha eliminado, e suprimindo certos acentos agudos, como, nós, através do DL n.º 32 de 1973, tínhamos eliminado o acento grave nos vocábulos com os sufixos “mente” e “zinho” ou “zito”.
A especificidade de cada versão é inteiramente respeitada e são de monta as vantagens de o mesmo dicionário servir tanto entre os luso-africanos, como entre os brasileiros. O problema é apenas gráfico! Para além do mais, afasta-se o risco sério de a versão luso-africana se tornar uma espécie de dialeto secundário cujo estudo por estrangeiros ficaria secundarizado ou desprezado perante a versão brasileira que já predomina, por exemplo, nas legendagens de filmes ou no texto de documentos colhidos via internet. O emprego da nova grafia é, para mim, afirmação de patriotismo, sem exageros chauvinistas.
Palavras para o público presente no dia da apresentação do livro.
Vós que estais aqui connosco, motivados pela curiosidade cultural, se quiserdes acompanhar-nos na digressão que fizemos através do tempo, até ao séc. XIV, sentir-nos-hemos honrados em guiarmos a visita. Se tiverdes tanto gosto nela como nós tivemos, garanto-vos que será muito.