Os livros da EDITORIAL 100
Título: Para sempre e mais um dia - Autora: Laura Costas
Laura Costa - Para sempre e mais um dia - ISBN: 978-972-8843-91-5 - Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2009. 204 p. Preço com IVA: 15,75 €
Laura Costa (1962) nasceu em Valongo, onde reside actualmente. Frequenta o curso de Engenharia Electrotécnica, no ISEP.
Trabalha desde 1982 numa instituição bancária como técnica de informática. Publicou o romance “
Cabo do Mundo” (2006).“Para sempre e mais um dia” significa uma nova etapa no percurso literário de Laura Costa. A autora desenvolve ainda mais a sua criatividade neste caso policial que nos abre as portas do real-fantástico através de Gil, uma criança especial e com estranhos poderes, para delícia dos seus leitores.
Para sempre e mais um dia
(parte do)
Capítulo 1
"A notícia do desaparecimento de Tomé M. e do seu enteado de oito anos de idade, na tarde de ontem, está a causar grande consternação em Vale do Tempo (…). O mistério em torno deste acontecimento, tem levado muitas pessoas a percorrer grandes áreas em volta do povoado na tentativa de descobrir qualquer tipo de pista que ajude à resolução deste caso (…). Uma notícia insólita, para acompanhar ao longo (….) "
Rodrigo leu, releu e ficou francamente perturbado.
Tratava-se de Tomé. Sem dúvida que se tratava do seu velho amigo Tomé.
Havia anos que não o via, desde os tempos da universidade. Soube no entanto do seu sucesso, como jornalista, num jornal nova-iorquino e teve, inclusive, oportunidade de ler alguns dos seus artigos.
Empurrou calmamente a cadeira e olhou-se ao espelho.
Como se assim fosse mais fácil de adivinhar o que deveria fazer.
A imagem devolvida foi de um rosto vincado pelas marcas do tempo, com uma expressão idónea e firme.
Tinha o cabelo e a barba aparada, quase grisalha e um corpo atlético em notável forma física.
Era assim Rodrigo Faria e…numa certa falsa modéstia a que não estava habituado, reconheceu ser a pessoa mais indicada para tratar do caso.
Mas como?
Não sabia pormenores de nada e nem sequer sabia se Veiga, o inspector-chefe o dispensaria naquela altura.
Talvez seja possível, pensou.
Vale do Tempo ficava dentro da sua área de investigação.
Dobrou de novo o jornal e talvez uma nova página da sua vida.
- Estou? Veiga? – A voz saiu-lhe demasiado alto, tal a excitação.
- Sim. Diz Rodrigo. Passa-se alguma coisa?
- Nada de especial. Se não estiveres muito ocupado, passo aí para te dar uma palavrinha.
- No problem.
O dia estava frio e o céu limpo e azul.
Era Março, o seu mês preferido, em que tudo nascia e renascia.
Por momentos hesitou e pensou na conversa com Veiga. O chefe além de o ter dispensado, tinha-o incentivado na resolução daquele processo, dando-lhe mesmo carta-branca na coordenação de todos os trabalhos. Pensou também no teor da notícia e nos passos que iria dar, talvez ao encontro duma combinação estranha de amizade e profissão, mas logo ganhou alento e antes que sufocasse de ansiedade meteu pés ao caminho.
A viagem pareceu-lhe interminável, tal era a vontade de chegar a Vale do Tempo.
Era como se escutasse uma espécie de apelo que o impelia nessa direcção à descoberta, simplesmente à descoberta.
Quando chegou à vila, quase todos os estabelecimentos comerciais estavam fechados e não se via vivalma.
Subitamente o céu escureceu e parte da povoação ficou coberta por uma sombra sinistra, o que lhe provocou uma onda de arrepio pelo corpo.
Estacionou perto dum café, onde lhe pareceu haver algum movimento no interior, subiu as golas do casaco, esfregou as mãos e entrou.
Ao canto da sala, dois jovens fumavam e conversavam em surdina.
O homem por detrás do balcão, olhou-o de forma distraída. Subitamente, desculpou-se e pronunciou apenas uma palavra.
- Café?
- Descafeinado, por favor.
Rodrigo sentiu o clima tenso.
Sentou-se sozinho numa mesa junto ao vidro.
As ruas continuavam despovoadas e havia no ar um cheiro a perigo e a mistério.
Bebericou o café e tentou meter conversa com o empregado.
- O que se passa de estranho por aqui? – Perguntou, disfarçando um certo nervosismo.
- O senhor não leu os jornais da manhã?
- Confesso que não. Não faço ideia a que se refere. Estou só de passagem.
- Ontem à tarde desapareceram duas pessoas daqui da vila. Eram como pai e filho. Nada nem ninguém consegue explicar o que aconteceu. Anda muita gente a tentar encontrá-los.
Rodrigo fingiu espanto.
- Como assim? Desapareceram sem deixar rasto?
O empregado assentiu com a cabeça, visivelmente perturbado.
- É o que parece. O miúdo é muito especial, o que nos deixa ainda mais preocupados – Disse tristemente.
- Gil é autista… – acrescentou.
Não era fácil ouvir o rapaz, de voz embargada, a tentar contar o que nem ele sabia.
Rodrigo mostrava interesse pela história, sem se mostrar demasiado envolvido.
Mas o facto de ter deparado com uma criança diferente, pôs por terra todas as suas defesas. Já não poderia usar a mesma forma de abordagem, a mesma maneira de agir.
Teria preferido ouvir de que se tratava de alguém com algumas capacidades de defesa.
- Aqui tem o meu cartão. Como pode ver, sou da Judiciária e resolvi ficar por cá mais uns dias. Não hesite em me ligar, caso ache necessário.
O empregado, timidamente, segurou o cartão e agradeceu.
- Obrigado. Espero que eles estejam bem, onde quer que seja.
- Vamos ter fé.
E deixando umas moedas na mesa, saiu.
O fim da tarde esfriara. Voltou a aconchegar o agasalho, escondendo um calafrio e apressou-se a entrar no carro. Seguiu na direcção da ponte e atravessou-a a pé. Olhar o rio e o seu ágil caudal, fazia-o sentir mais vivo, com as idéias mais claras.
Vale do Tempo era uma vila pequena, simpática e bem estimada pelos seus habitantes. Rodeada por muralhas, tinha um centro histórico, como qualquer localidade que preserva o seu passado.
Protegida pela serra do Paraíso, em pleno vale do rio Tempo, daí o seu nome.
Passada a ponte, via-se a fachada duma igreja. Um significativo exemplar da época medieval, porém, reconstruída recentemente e digna de muito interesse.
Em frente, uma pracinha ladeada de laranjeiras com um lago no meio. Um óptimo convite ao descanso. Sentia-se no ar um cheiro forte e doce, algo inebriante que fazia Rodrigo louvar ainda mais aquela época do ano.
Subiu a ladeira que o levava à outra parte da vila e momentos depois, passou pelo Mercado e encontrou-se em frente ao edifício da Câmara e do Tribunal.
As ruas continuavam desertas, sentou-se num degrau e intrigou-se:
Mas que raio terá acontecido aqui?
Só havia uma coisa a fazer, dirigir-se às autoridades da zona e falar abertamente com o agente de serviço.
Quem o recebeu informou-o da ausência do Sargento Mota, que era a pessoa mais indicada para o elucidar.
- A que horas posso falar com ele? – Perguntou, já impaciente com a conversa do guarda.
- Não tenho a certeza, mas se for falar com o padre Júlio, talvez tenha mais sorte.
- E onde o posso encontrar?
- Hum… – e olhando para o relógio – a esta hora deve estar no café da praça, a beber um fino.
Rodrigo agradeceu e voltou à pracinha das laranjeiras.
Não foi difícil perceber quem era o padre Júlio.
Ao balcão, só e pensativo, um homem bebia uma cerveja. Tinha uma postura cansada e solitária, como se carregasse o mundo às costas.
- Boa tarde. Disseram-me no posto que o poderia encontrar aqui.
O padre não respondeu. Dir-se-ia surdo, cego e mudo.
- Peço desculpa. É o senhor padre Júlio, não é?
- Difícil passar despercebido – ironizou.
- Eu não lhe quero roubar muito tempo, mas… – resolveu identificar-se. – Como pode ver, faz parte das minhas funções pesquisar, seja o que for, para perceber o que aconteceu a Tomé M. e ao garoto.
Júlio, era assim que gostava que lhe chamassem, manteve-se reservado.
O polícia insistiu.
- Pois, como ia dizendo…Sr. Padre…
Houve um curto silêncio, enquanto Júlio franzia as sobrancelhas e Rodrigo continuava cuidadosamente à procura das palavras.
- Sim...mas afinal ao que vem? À procura de matéria para algum jornal? Sim, porque você parece-me tudo menos da polícia.
Rodrigo olhou-o sem vontade para grandes explicações.
- Eu só quero fazer o meu trabalho. E pelo que parece, não vai ser fácil…
Dito isto, fechou levemente a porta atrás de si e saiu.
Acendeu um cigarro e olhando em volta, sentiu uma atmosfera densa e abafada, como se o céu fosse ribombar de trovões.
De repente deu conta duma mão firme e pesada no seu ombro.
- Desculpe o meu mau humor…eu nem sempre sou assim.
- Não se preocupe. A minha presença aqui é apenas no sentido de ajudar a perceber os detalhes desta história, aparentemente sem explicação.
Percebeu uma expressão de dor no rosto do padre…
- Se o senhor quiser, podemos ir até ao centro paroquial. – E acrescentou, pensativo – Quem sabe não o ajudo nesse seu trabalho…
- Quem sabe… – anuiu, com alguma esperança.
Caminharam lado a lado até à igreja.
Chegados à casa, muro com muro com o cemitério, foram recebidos pela velha Arminda, serviçal afável a quem Júlio pediu, educadamente, que se retirasse.
E dirigindo-se para Rodrigo.
-
Fique à vontade, vou fazer um café. Preciso manter-
-me acordado.
- Traga dois, por favor. Acho que vamos ter umas longas horas pela frente.
Júlio regressou com duas chávenas de café e um prato de biscoitos numa bandeja e sentou-se.
- Bom, não sei por onde começar….
- Sou todo ouvidos.
- A vila é pacata. Toda a gente se conhece desde sempre…e se respeita, excepto…
Rodrigo apanhou-lhe a deixa.
- Excepto?
Notava-se um certo arrastamento na voz de Júlio. Como se empurrado para uma história penosa.
A custo, continuou.
- Gil, o menino desaparecido, é filho de Álvaro e enteado de Tomé. Estes dois irmãos vivem em contenda permanente há vários anos. Mas as coisas ficaram verdadeiramente feias, desde que saiu uma certa notícia no jornal do Tomé, o Contratempo…
Entrevista a Laura Costa a propósito da publicação do seu livro Para sempre e mais um dia, pela Editorial 100
1.
Infância
Lembro que comecei a ler muito cedo, mesmo antes de entrar para a escola primária. Hoje penso que deve ter sido por ser a mais nova de sete filhos. Ler era para mim tão importante como comer, dormir ou brincar. E isso eu trouxe comigo até aos dias de hoje. Em tempos escrevi uns textos sobre a minha infância, que passo a transcrever aqui:
*
Naquela
altura, vivia paredes meias com essa coisa do medo.
Mas era como se fosse proibido assumir esse tipo de sentimentos.
Era algo que só os fracos podiam sentir e reprimia-se e recalcava-se assim, sem
direito a expansão, os pensamentos, as imagens, os receios e obrigavam-nos a
engolir os tais monstros (até simpáticos) de antigamente, sem lhes conhecermos o
rosto.
O fotógrafo da minha terra era o homem que eu mais temia.
Por diversas vezes me enfeitaram de laços e laçarotes, de caracóis e sorrisos
ensaiados...na tentativa (sempre infrutífera) que o sujeito me conseguisse sacar
um simples retrato.
Mas os meus pontapés e gritos estridentes faziam desistir o mais persistente.
E mais uma vez saía vitoriosa.
Mas magoada...porque ainda ninguém tinha entendido que o que o homem queria era
mesmo roubar-me a cara...a cara toda para a enfiar naquele bocado de papel.
*
Do outro lado da rua, numa casa em ruínas...
vivia um velho...
a filha do velho...
a neta do velho...
um cão...
um gato...
uma árvore que se carregava de ameixas vermelhas uma vez por ano e...
uma porta enorme e pesada que se fechava com estrondo, sempre que eu me
conseguia escapulir-me para lá.
Ninguém entendia o que me atraía ali.
Um dia o velho, a quem eu chamava avô por empréstimo, morreu.
Mas tudo o resto ficou igual, excepto a vontade de me refugiar lá que era cada
vez maior.
A mãe era muito alegre e o cão e o gato conversavam com a dona.
A filha, sempre rodeada de presentes (oferecidos por um pai ausente), era uma
menina triste...a quem faltava tudo e nada e a quem eu oferecia gratuitamente
todos os sorrisos do dia.
De vez em quando a menina não me deixava brincar e eu fugia.
Só voltava com a promessa de finalmente ir ver o saco de brinquedos que existia
por detrás duma porta velha de fechadura ferrugenta, por debaixo da escada.
Mas era apenas uma promessa.
Ainda me lembro da tristeza que senti quando a menina mudou de casa e abriram
finalmente aquela porta mágica.
Eu já gostava tanto daquele saco!
Tinha imaginado, durante tanto o tempo, o sabor de tocar naqueles brinquedos, um
por um...
Nesse dia chorei...
E hoje ainda não sei...
Se pela partida da menina...
Se por me terem roubado um saco de sonhos, que nunca tinha existido...
*
Lembro-me bem do meu primeiro
ferimento a sério, aliás ele ainda reside na minha face direita, apesar de quase
imperceptível, devido ao passar dos anos.
Era o dia de matricular o meu irmão "acima", na escola primária.
Naquele tempo, a minha vila parecia uma aldeia e os lugares onde hoje crescem
torres de cimento bem alinhadas (como as couves e as alfaces), estavam livres e
separados por cercas de arame farpado.
Quando voltávamos para casa, a minha mãe permitiu que eu corresse atrás dos meus
irmãos. Eles saltaram o arame e eu, como me achava ainda uma miniatura, pensei
que estaria liberta desse exercício físico suplementar e resolvi aventurar-me
nessa corrida, sem medos nem cuidados.
Mas o arame não teve contemplações com esse meu primeiro devaneio.
No hospital, aguentei firme e engoli todas as lágrimas que consegui.
"Afinal essa coisa de se ser corajoso, com tão pouca idade, nem sempre corre
bem..."
No regresso, vinha feliz.
Trazia uma história para contar.
E tinha vencido um medo.
*
O meu pai
era um homem puro,
nas palavras, nos sentimentos e em tudo o que fazia.
Mas eu não sabia.
Ao Domingo, levava-me pelo pulso, à missa das 11H.
Achava ele, que assim eu nunca fugiria.
Mas eu não sabia.
De regresso a casa, comprava-me sempre um "estica" na loja da D. Mimi e eu fazia
com que ele durasse o caminho todo, para me adoçar a dor da sua mão forte e
segura.
O meu pai tinha um cheiro neutro a banho fresco e isso marcava a sua ausência de
vícios e definia o seu carácter.
Era firme como uma rocha.
E muito fiel às suas convicções.
A nossa referência de vida.
Muitas noites...
sonhava que ele me pegava no colo e me deixava sentir aquele odor, tão
exclusivo, a "barba-sempre-feita".
Mas ele não sabia.
Nem nunca vai poder saber.
Pintar, o que representa pintar para ti?
Eu não sei muito bem explicar o que sinto, quando pinto. Só sei que enquanto a tela se vai “vestindo” de traços, luzes e cores … eu sinto vários tipos de felicidade. Pelo que crio, pelo que vejo, pelo que faço ver e sentir e essencialmente por ter concretizado mais uma vontade. Eu sou assim, vivo mais ou menos de vontades e do gozo que me dá passá-las a verdades. Pinto por desejo, pelo transmitir dum estado de alma e para poder apreciar a minha obra, com vaidade. Sim, é verdade … eu também vivo dessas vaidades, que vão alimentando o meu lado criativo.
Cidade e Campo. Mundo Urbano e Mundo Rural.
Se falarmos de forma diferenciada dos dois mundos onde estamos inseridos: rural e urbano e das influências que ambos sofrem entre si, teremos obrigatoriamente de referir os aspectos em que mais se notam essas influências. Ora viver no campo ou na cidade, por muito que não queiramos admitir, é o que determina, basicamente, o nosso comportamento do dia-a-dia, a nossa serenidade, a nossa forma de ver e viver as coisas ou até a nossa pressa em correr contra o tempo. É claro que a fronteira que une estes dois mundos é ténue e há coisas que se misturam e se difundem entre eles. Actualmente, a minha vida profissional obriga-me a viver na cidade, bem no meio desta urbe a que dificilmente se pode fugir, mas ao final do dia regresso com “pressa” ao outro lado do mundo, onde acordo todas as manhãs com o chilrear dos pássaros, numa rua calma duma vila tranquila. A escrita do “Cabo do Mundo” não poderia ter acontecido no meio de toda a agitação inerente à cidade. Este livro, como o seu nome indica, foi elaborado passo a passo junto ao mar, para onde eu teimo em fugir sempre que posso. Toda a paz que ele me transmite fez com que eu me sentisse liberta de pressões e me desnudasse de sentimentos e preconceitos na minha escrita. Quanto ao livro que agora publico já não posso dizer o mesmo. Não houve uma necessidade premente em escolher um ambiente ajustado para o escrever, porque era um projecto antigo, com contornos delineados e o objectivo principal era homenagear o Lourenço. Poderia ter sido escrito em qualquer lugar do mundo, porque eu sabia exactamente a mensagem que queria transmitir. Considero-me uma citadina com alma de aldeã e uma aldeã com alma de citadina. Pertenço a estes dois mundos e é lá que quero ficar.
Rio e Mar.
Sou do signo Peixes, daí a minha paixão pela água. Falar do rio e do mar é a mesma coisa que falar de calmaria e agitação. Vejo e revejo-me nas águas dum rio, que calmas e tranquilas correm para um único destino, sem pressas nem conflitos. Dentro de mim também correm essas águas tranquilas e eu faço questão de não interferir nessa corrente. As águas do mar, onde nascem, crescem e morrem ondas refrescantes, são dotadas de agitação e rebeldia. Pois dentro de mim também corre essa rebeldia e esse desassossego e aí eu também faço questão de não interferir nesse vaivém, porque a vida é feita destes dois pólos antagónicos: serenidade e agitação.
Só assim me entendo. Só assim me aceito e sei
que só assim a vida faz sentido.
No livro “Cabo do Mundo” está destacada essa irreverência, essa inquietação e
esse mar que me fez exorcizar os meus mais secretos sentimentos.
No livro “Para sempre e mais um dia” revelo-me de forma diferente, como autora e como mulher. Com mais maturidade na escrita, a qual manifesta traços mais definidos e conceitos mais sólidos. Uma escrita que me fez "aterrar” para outras realidades.
Entre um livro e outro há rio e mar...há a tal mistura de serenidade e agitação com a qual pauto os meus dias.
Realidade e Sonho. Mundo Real e Mundo Onírico. Mundo fantástico, real-maravilhoso. Mundo surreal.
E se nós não formos apenas aquilo
que vemos e tocamos?
E se a nossa realidade não passar dum grande sonho que se vai concretizando,
paulatinamente?
E se os nossos sonhos não passarem de realidades que ainda não se conseguiram
concretizar?
Onde acabará o nosso mundo onírico e começará o real?
Todas estas perguntas me assolam a mente, repetidamente, porque me recuso a
aceitar que não existe mais nada, para além do que vejo e do que toco.
Como todos os extremos, o fantástico e o real também se tocam e para mim sonhar é fundamental. Constitui a ferramenta principal para que tudo o resto dê certo. Já dizia António Gedeão: “O sonho comanda a vida”. Quando falo em sonho não me refiro apenas ao que acontece no nosso subconsciente quando dormimos. Falo em sonho duma forma abrangente, dum estado de maravilha e por vezes de deslumbre que nos faz bem, que nos dá um lado mágico (que só a nós pertence) para encararmos a realidade, tantas vezes dura e cruel. O nosso estado de alma influencia sempre algo que estejamos a vislumbrar no momento. Se estamos felizes e em paz, tudo o que nos rodeia nos parece com mais vida e com mais cor. Se por outro lado, a nossa alma está triste e deprimida, nada do que vejamos nos desperta interesse. É essa ligação forte e dependente que gere o nosso mundo real e alimenta também os nossos sonhos, porque somos um misto do que somos, do que sonhamos, do que vemos e também de tudo aquilo que não vemos mas que, fervorosamente, acreditamos.
Eu sonho porque vivo na ilusão do que ainda não
sou.
Eu existo porque me sinto em cada pedacinho do que já sonhei.
Vida e Morte
O binómio vida morte pode acarretar definições e pontos de vista diversos. Se pensarmos apenas em termos físicos, a morte é o fim da vida e a vida é o nascer dum novo corpo. Mas, se pensarmos em termos religiosos, surge a ideia de que nunca morremos e sim ganhamos a vida eterna onde a alma e o espírito viverão eternamente.Este tipo de pensamentos varia de cultura para cultura, pois enquanto no ocidente a morte é chorada e lamentada, em outras partes do mundo ela é festejada como se de um grande acontecimento se tratasse. A morte é a maior certeza para quem vive e por isso, segundo o meu ponto de vista, deveria ser encarada com naturalidade e resignação, apesar da dor terrível que se sofre ao ver partir um ente mais querido.A vida é o bem mais precioso que um ser pode ter e por isso mesmo deverá ser encarada como tal e respeitada de igual forma. Haverá vida para além da morte? Esta é talvez a pergunta mais vezes formulada pelos mortais.A morte será apenas uma passagem para algo etéreo onde a nossa alma se vai perpetuar? Todas estas dúvidas nos obrigam a ir bem fundo nestas questões o que faz com que usemos as nossas sensações na máxima plenitude. E isso é bom. É um exercício espiritual ao qual me obrigo de vez em quando e onde vou encontrando algumas das respostas que necessito.
Liberdade
Liberdade pode ser e servir para muitas coisas.
Para nos podermos exprimir de que forma quisermos e nos aprouver.
Para a podermos relacionar com a palavra responsabilidade.
Para adquirir os direitos fundamentais do ser humano.
Para mostrar ao mundo a nossa determinação.
Para a podermos contrastar com o laicismo, o qual não respeita os diferentes
modos de vida dos cidadãos.
Para reafirmarmos os nossos valores fundamentais.
Para apoiarmos os nossos direitos e defendermos os nossos interesses.
Para fazer coisas que nos permitam voar, ir para além da vontade sem ter medo de
errar.
Para respeitar a opinião dos outros e não permitir que interfiram na nossa.
Ser livre é saber que a nossa liberdade termina quando começa a dos outros.
….
Sempre que eu supero as minhas limitações…
Sempre que eu falo alto sobre as minhas convicções…
Sempre que assumo as minhas paixões…
Sempre que adormeço e acordo, pensando nas minhas razões…
Eu sou e sinto-me livre e liberta de todas e quaisquer pressões.
Passado / Presente /Futuro
Pensar e falar sobre o passado é uma forma de nos mantermos presos a recordações, que quer tenham sido boas ou más não passam disso mesmo, recordações. Acho que a vida é para se seguir em frente, tirando do passado os ensinamentos adquiridos para tentar não cometer os mesmos erros. Mesmo pensando desta forma, há momentos em que dou por mim a pensar em muitas coisas que me aconteceram no passado. Às vezes isso acontece-me em alturas de mais nostalgia ou saudade, mas não uso essas lembranças para me martirizar ou até penalizar. Uso-as com intenção de estabelecer um certo paralelismo com o meu presente. “E se eu fizer isto ou aquilo como já fiz em tempos, será que me vai acontecer a mesma coisa?”…pergunto várias vezes a mim própria. Apenas duma forma instintiva porque de outra forma essas dúvidas não fariam sentido. Apesar dos comportamentos poderem ser similares, o mais importante é o contexto onde eles acontecem e por isso mesmo não vale a pena perdermos tempo em buscar e rebuscar essas coisas do antigamente. Cada vez me concentro mais no presente, porque aprendi ao longo destes anos a importância de viver um pedacinho de cada vez. Sobre o futuro já não me debruço muito. Claro que tenho planos e projectos a realizar e esses pertencem ao futuro. Claro que gosto de preparar cuidadosamente esses projectos, mas tudo isso terá de acontecer num futuro próximo. Não sou adepta de coisas a longo prazo, porque conheço a minha instabilidade emocional e essa não é, decididamente, uma boa rampa de lançamento para qualquer plano futuro.
Tradição e Modernidade (mudança, cambio)
Falar em tradição é falar num percurso histórico e cultural e duma permanência dos costumes inerentes. Mas a tradição só permanece viva se a renovarmos e a vestirmos duma certa modernidade. É-nos passada como um legado a usar em tudo o que vivemos, revelando verdade e beleza e fazendo de nós uma parte integrante de algo que consideramos puro e muito nosso. É algo que vem do passado revestido duma luz que nos faz bem. Não possuir qualquer tipo de tradição faz de nós pessoas desenraizadas e desligadas dum passado, que ao fim e ao cabo nos caracteriza e nos liga à nossa origem. A modernidade é algo que nos acompanha no nosso dia a dia e da qual não podemos fugir pois só assim nos mantemos actualizados e inseridos na sociedade em que vivemos. Não deveremos viver da tradição, devemos sim viver com a tradição e procurar mantê-la como uma chama viva. Da tradição e da modernidade, devemos guardar o que é bom e usar isso como referência na nossa vida.
Lucidez e Loucura
Todos temos um pouco de loucos no meio da nossa lucidez.
A loucura é o que nos leva a sair da nossa concha certinha e racional e a fazer
o que nos der vontade, sem qualquer tipo de preocupação acrescida. Quem nunca
viveu momentos de verdadeira loucura e depois se sentiu bem e liberto de todo e
qualquer preconceito ou tabu? Quem não disse imensas vezes: “ Que se lixe…vamos
ser loucos uma vez na vida!”? Porque viver a sério a vida é mesmo assim.
Arriscar, jogar, gritar, fugir, arrebatar, amar, saltar, sonhar, delirar e
esquecer tudo o resto. Depois, a lucidez acaba por chegar e nos chamar à razão.
Na maioria das vezes, quando faço o meu balanço diário e a lucidez se instala e
me puxa as orelhas eu rio-me e delicio-me por já ter vivido o tempo suficiente
para poder fazer todas as loucuras que me apetece. E não quero saber se o ideal
é haver um equilíbrio saudável entre este par de conceitos, que afinal não é tão
antagônico quanto parece.
Vivo bem com a loucura no meio da lucidez e
vice-versa.
Faz de mim uma pessoa melhor.
A Literatura dos outros?
Aprendi a ler nos célebres livros "Pequenu" de Dick Lane e durante os meus primeiros anos de escolaridade, foram estes os meus livros preferidos. Na fase da adolescência, li todos os livros de Enid Blyton e mais tarde, porque eram também livros de leitura obrigatória, li Júlio Dinis, Eça de Queiróz, Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa e mais alguns clássicos da literatura portuguesa. Já numa fase mais adulta, apaixonei-me por Isabel Allende com o livro "Casa dos Espíritos" e dela me tornei uma leitora assídua, também por achar fantástico o facto de ela ter editado o seu primeiro romance aos quarenta anos. Grande parte da sua obra é marcada pela ditadura do Chile, o que provocou em mim um crescendo de curiosidade e admiração pelo povo chileno e pela sua dura luta pela democracia. Na poesia portuguesa, gosto de Ary dos Santos pela sua irreverência e por ter escolhido a escrita como forma de falar ao povo. Na ficção portuguesa, aprecio a obra de Alçada Baptista, José Cardoso Pires, Mia Couto, José Eduardo Agualusa e indubitavelmente Manuel Tiago, por quem nutro uma admiração profunda. Há ainda dois escritores britânicos que aparecem em vários pontos da minha estante, David Lodge e Sue Townsend. Esta última, proporcionou-me verdadeiros momentos hilariantes com os "Diários de Adrian Mole". Pedro Juan Gutierrez, reconhecido internacionalmente como um dos escritores mais talentosos da nova narrativa cubana, é um escritor que me fascina, principalmente pela forma como retrata a vida na miséria de Havana. É incisivo, duro, erótico, grotesco e chega até a ser cruel. Não teve um percurso de vida fácil, o que faz com que o seu espírito crítico se avive, daí ter escolhido mais tarde a profissão de jornalista. Para finalizar, destaco Sepúlveda, Gabriel Garcia Marques e Mário Vargas Llosa. Este último, presenteou-me há pouco tempo, com a leitura deliciosa de "Travessuras da Menina Má". Apesar de ter nomeado vários autores e várias obras lidas e apreciadas, confesso que duma forma geral, leio tudo o que me vem parar às mãos. Seja que tipo de literatura for. Eu leio e pronto.
O que significa viver com sentido para ti?
Só há uma maneira de viver.
Com sentido.
E isso…quer dizer:
• Pensar que existem coisas boas na vida, à nossa espera.
• Abraçar ideias e projectos novos, com confiança.
• Amar e fazer questão de o dizer, a quem nos preenche o coração.
• Pensar positivo, As más energias atraem más energias.
• Ser sincero e verdadeiro, sempre que possível, principalmente para
nós próprios.
Mas isto são lugares comuns.
No que toca a mim, viver com sentido, é:
- Comer chocolate…passear de mão dada à beira-mar numa noite quente de Verão…reatar uma amizade antiga que já julgava perdida…beber Coca-Cola com gelo e limão…dormir uma sesta numa tarde de chuva…chorar a ver um filme romântico…ouvir música dos anos 80…adormecer com a sensação boa que tudo está bem…passar um fim-de-semana longe da cidade e não querer voltar…dizer o quanto amo a quem amo…esperar pelo nascer do sol na praia…dormir abraçado…sonhar abraçado…querer ficar toda a vida rodeada dum abraço gigante, para nunca me sentir só. E depois de tudo isto, voltar a comer chocolate.
Escrever.
Para quem escreve pelo vício de escrever é um pouco difícil explicar porque escreve. Assim como, para quem lê pelo vício de ler, torna-se estranho justificar porque é a leitura tão importante na sua vida. Os vícios são assim: hábitos, manias ou práticas frequentes. E como todos os vícios, o de escrever também implica prazer. No que me diz respeito, sinto um enorme gozo poder pegar em palavras soltas e combiná-las de forma a criar uma história, inventando pessoas, relações entre elas, ambientes diversos onde elas se enquadram, falar por elas, sentir por elas, viver e morrer por elas. Para mim, escrever nunca poderia ser um acto que implicasse sacrifício, porque é algo com o qual eu convivo desde sempre, uma necessidade permanente em explanar as minha idéias, as minhas convicções e duma certa forma, a minha forma de estar na vida.
Para
mim, escrever significa manter-me viva. Livre. Despida de qualquer
preconceito ou tabu. Há um sentimento estranho de poder e dum certo controlo
sobre as personagens que se criam, que me permite ter uma ascendência mental
sobre elas e o gozo de as manipular. Não pela intenção dum controle
absoluto, mas sim pelo prazer de criar, apenas pelo prazer de as criar, de
lhes dar continuidade, de lhes decidir o futuro. Tudo isto faz com que eu me
sinta mais rica no final de cada livro, porque fiz com que essas mesmas
personagens interferissem na minha vida e me abrissem, de certa forma, novos
horizontes.
Não
escrevo todos os dias, porque a minha vida não o permite. Sempre que alguma
idéia mais interessante me assola a mente, tento registá-la de imediato, sem
que isso implique abrir novo projecto de escrita. São apenas pequenos
apontamentos, que mais tarde me poderão servir de apoio, noutros trabalhos.
Mas quando estou empenhada na escrita dum livro, torna-se complicado passar
um dia sem escrever, até porque há histórias que não reagem bem ao abandono
do autor, porque têm a sua própria exigência e por isso mesmo pedem uma
atenção regrada e continuada. Nessas histórias, há personagens a precisarem
de ser "alimentadas" para se manterem activas na obra e isso implica
trabalho, empenho e muita dedicação.
Para
falar sinceramente e contrariamente à minha maneira de ser, eu não sou muito
metódica em termos de escrita. As ideias nem sempre se organizam nesse
sentido e quando surge a oportunidade e a vontade de escrever algo que tenha
de ter um início, um meio e um fim, confesso que me sinto um tanto ou quanto
perdida. E é por isso que faço um esforço acrescido para manter a ordem
nesse desenrolar da história, porque ao longo da obra eu vou pensando em
mais e mais situações novas a aproveitar. O livro começa quase sempre sem um
esquisso, o que faz com que eu desespere, batalhe e quase desista, em
muitas das etapas em que a história se desenvolve.
Motivações e temática: Para sempre e mais um dia
Na verdade, este livro já estava mais ou menos pensado antes da escrita do meu primeiro romance. Por vezes acontece não conseguirmos concretizar algo num determinado momento porque nos faltam dados ou até mais alguma experiência de vida, por isso resolvi escrever primeiro o Cabo do Mundo pela necessidade imperiosa que sentia em exorcizar certos sentimentos e emoções que viviam agrilhoados dentro de mim. Liberta desse tipo de compromisso pessoal achei que deveria contar uma história que homenageasse alguém muito especial como o Lourenço e que através desse menino eu pudesse dar asas às minhas crenças mais sagradas. Contar a história de Gil fez-me ver a vida sob um ângulo diferente, de uma certa forma mais oculto, mais místico. Ao longo da escrita, a motivação foi sendo mais forte porque foi muito fácil apaixonar-me por essa personagem tão rica em afectos e em sabedoria. Por muito que não queiramos, há uma parte de nós em cada página que construímos e neste caso concreto, eu consigo identificar-me com Lara em todos os momentos de ternura, de angústia, de luta e persistência por aquele filho único e diferente dos demais.
Começar um livro como este não foi tarefa fácil. A minha vivência e convivência com o Lourenço ao longo dos últimos anos, fez com que eu visse o mundo com os olhos dele, ouvisse a música pelos ouvidos dele e sentisse o carinho pelos abraços dele, mas mesmo assim eu não me sentia à altura de falar sobre um assunto tão delicado como é o autismo. Confesso que procurei alguma informação sem exagerar nessa pesquisa, porque o objectivo do livro passava apenas pela passagem duma única mensagem:
"Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a"
E para transmitir esta frase de amor incondicional, eu não precisava de grandes definições técnicas para o autismo. Bastava apenas inserir o Gil numa família que fosse capaz de lhe dar toda a atenção, todos os cuidados e que conseguisse depositar nele toda a fé do mundo.
Acreditar. A família de Gil tinha de acreditar e é com essa fé que eu escrevo grande parte da história.
Porque é que esta história é contada como um caso policial…
A história de Gil é toda ela envolta em mistério e o facto de ser contada em forma de retrospectiva impôs que algo grave tivesse acontecido previamente e que provocasse um desenrolar de intriga e um crescendo na vontade de saber mais e mais.
O inspector Rodrigo, apesar de não ser uma figura muito marcante no enredo, é uma personagem importante porque é através das suas exigências que o romance se vai desenrolando. Ele pergunta e quer saber pormenores e é dessa forma que as diversas figuras se vão mostrando e revelando.
Apesar de não ter sido usada a vertente policial como prioridade, ela serve para fomentar a descoberta durante todo o percurso da história.
Serve também para fortalecer laços familiares e transmitir uma sensação de esperança e dever cumprido.
Rodrigo é o polícia da nossa história. Prestável, eficiente e afectuoso, cria uma relação de cumplicidade com Lara e é nessa ligação, um misto de profissão com amizade, que nós nos transportamos com ansiedade pelo fim, através das páginas deste livro.
Personagens
Na vida real, cada um de nós representa, de certa forma, uma personagem com características bem definidas e distintas. Existem boas e más pessoas. Pessoas "mais ou menos" são puro engano, para elas próprias e para quem tem de privar com elas. Neste livro, também existem personagens boas e outras más e outras ainda que, apesar de más, acabam por revelar uma faceta meia escondida de alguma sensibilidade, que é o caso de Álvaro no que respeita aos sentimentos que nutre por Gil.
Falar, esmiuçadamente, sobre o carácter de cada uma das figuras desta história, é de alguma maneira, viciar o leitor na sua própria apreciação e numa possivel identificação com cada uma delas. Assim sendo, que "desfilem" as personagens boas, que se revelem as personagens más e que o leitor perceba, que o essencial é a mensagem que está escondida em cada palavra, em cada frase, em cada capítulo deste livro, que passa apenas por pôr à prova a capacidade de cada um de resolver ou não, os seus próprios medos e fantasmas. Então, que assim seja.
Índice
Capítulo 1 9
Capítulo 2 43
Capítulo 3 59
Capítulo 4 65
Capítulo 5 79
Capítulo 6 173