Os livros da EDITORIAL 100


Título: O rapaz sem roupa  -     Autor: Mário Elias
Narrativa


ISBN: 978-972-8843-99-1  -     Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2010. 100 p.  Preço com IVA: 10,60 €


   
 


Entrevista a Mário Elias (Audio- visual)

 

 

 

Leitura de Comércio

 


Mário Elias Ferreira da Costa nasceu em 1960 em Oliveira de Azeméis.

Licenciado em Gestão Bancária no Instituto Superior de Gestão Bancária.

Actualmente é o responsável pela delegação do Porto do Instituto de Formação Bancária.

Reside em Santa Maria da Feira.

O rapaz sem roupa é o seu primeiro livro


 

Excertos do livro


Medos

 

"- O " Homem " subiu o muro em escada e entrou no barracão, dorme lá! Ontem vi-lhe os olhos, e sabemos que ele se alimenta das couves do quintal! Até o polícia diz que anda para aí um "Homem" que rapta crianças..."

Olhos azuis conta-me, ao jantar, os seus medos da escola, até "fiquei pálida", e a história cresce por frases dos mais velhos, entre a aventura do desconhecido, no entreter da hora do almoço.

Quase o "papão" de outrora, ou as bruxas de vassoura, de sapos e cobras, a imaginação das crianças contrasta com aquilo a que, às vezes, distraídos chamamos realidade.

Tenho vontade de contar os meus medos de hoje; não o medo de ladrões, do papão ou do homem que se alimenta de couves e que vive no barracão, mas o medo da realidade, o medo de que, afinal, tudo o que se passa ou passou no último ano, seja mesmo a realidade!

Sim, às vezes, por entre as palavras que escrevo, deixo-me levar pela fantasia, na esperança de que essas palavras me escondam, me transportem para outro mundo, e que esse mundo seja, ele e só ele, o mundo da verdade, o mundo da realidade...

Tantas vezes me olho numa vontade de negar, se calhar de me negar, nomes e casos, justificações, advogados e tribunais, providências cautelares e indemnizações, tentativas de conciliação e porque não arranjo emprego?

A paisagem continua intacta e uma suave brisa corre lá fora quase sem se dar por ela. Parece levar os minutos, as horas, os dias, os meses, numa fantasia de contos de fadas e de bruxas, de "homens", quase interminável, quase falsa, quase real!

E as pessoas, os nomes e os anúncios do JN, as propostas de emprego que respondo num curriculum detalhado, misturam-se numa azáfama repetitiva onde as respostas são poucas e quase sempre : "Agradecemos o contacto de V.Exa. mas... perfil não adequado...sem mais, cumprimentos...."

Caracóis olha o monte dos anúncios e já não acredita neles, diz que são só para enganar os incautos como eu, só para criar a ilusão de que, de repente como quase sempre acontece, surgirá uma resposta, uma proposta para alimentar a ilusão, perpetuar a aventura, diminuir o desespero, derrotar o "homem que se alimenta de couves"...

E eu, pouco seguro do mundo camoniano, continuo a comprar o JN, continuo, numa dor de estômago de uma pauta de testes do Liceu, a responder e a esperar!

Por entre os chupa-chupa das Spice Girls, fixo as faces dos olhos azuis, levo-a a ver o barracão, ver que o "homem" não existe, misturo-me entre a infância da sua escola, e tento convencê-la que tudo não passa de uma invenção, que tudo não passa de uma fantasia de crianças, de medos e de desconhecidos, de escuro e de imaginação, mas tenho dúvidas, algumas dúvidas...

E se, afinal, dentro daquele barracão velho, onde se misturam alfaias com ratos e teias de aranha meticulosamente construídas, do outro lado da escola, do outro lado da vida, existir mesmo um "homem" que se alimenta de...desempregados?


Ordem ou caos? caos!

 

Põe o chapéu, veste o casaco, não andes descalça, olha a corrente de ar, "Caracóis" continua a debitar conselhos, ou a reviver a protecção do seu passado.

"Olhos azuis" ouve-a cansada, estafadinha, como costuma dizer, e acha que a mãe exagera, que precisa de liberdade, que precisa de apanhar frio, que precisa apanhar sol, que lhe dá prazer andar descalça, enfim, que não terá o trauma da protecção.

Somos o que os nossos pais quiseram que fossemos! Com algumas excepções...

A miúda já sabe o nome de alguns medicamentos, já os toma ela própria, já se alia a um tempo artificial, ditado pelas drogas, pelos médicos, pelas doenças, pelas febres, pelas dores de cabeça, pelo stress, e assim irá continuar pela vida fora.

Um dia, os gestos protectores repetir-se-ão, e as promessas do passado são esquecidas. Um dia, numa ladeira qualquer, num qualquer dia de Verão, correrá atrás da sua filha, de mão dada com o namorado, para lhe levar o guarda-chuva que os protegerá do sol.

Ela protestará, como a sua mãe o terá feito, mostrará o ridículo, tentará convencê-la que não precisa, que a viagem é curta, que está a embaraçá-la, e lembra-lhe as cenas do filme anterior...

Em vão! Somos o que os nossos pais querem que sejamos.

Soam as vozes alteradas, as discussões sem sentido, os rostos crispados, as vinganças mesquinhas, os castigos ditados pela força paternal, as lágrimas da injustiça, e parece que todos se uniram contra mim, numa tentativa, tantas vezes conseguida, de tornar real a outra face da vida.

Quando somos crianças, não nos detemos a pensar na justiça. Não perguntamos aos nossos pais porque não nos deixam em paz, não nos deixam andar descalços, não nos deixam apanhar o sol que queremos, porque temos de estar calados às refeições, porque não podemos comer no sofá da sala a ver um vídeo, porque não podemos ir brincar com os vizinhos até que o sol se ponha...

Por vezes choramos, protestamos porque a vida, afinal, não é tão fácil como julgávamos, porque, afinal, onde quer que estejamos, em casa, na escola, na casa da vizinha, há sempre alguém que parece ter nascido para estragar tudo!

A memória, nessa altura, é fraca, nessa altura depressa esquecemos, e voltamos a tentar. Voltamos a tentar tornar a vida agradável, impedir que um qualquer castigo, um qualquer berro, uma qualquer surra, uma qualquer injustiça, nos estrague o dia, nos estrague a vida.

Muitas, mesmo muitas, vezes conseguimo-lo e voltamos a sorrir, voltamos a beijar a face dos que teimam em estragar o nosso dia, dos que teimam em mostrar que eles é que sabem, que eles é que mandam, que eles é que determinam a nossa vida, a nossa forma de ser, como se nós, pequenos e indefesos, não fossemos capazes de saber o que queremos.

Depois, aos poucos, a nossa memória vai gravando pedaços da nossa vida, e, sem sabermos ao certo quando, rebobinamos a gravação uma, duas, muitas vezes, percebendo que nem sempre é fácil beijar a face da injustiça.

O certo, porém, é que continuam a existir aqueles que acham que sabem tudo, aqueles que acham que podem mandar em nós, aqueles que mandam em nós, aqueles que determinam para onde e quando devemos ir!

E, nós, vamos!


Entrevista de Diego Martínez Lora a Mário Elias a propósito da publicação do seu livro  O rapaz sem roupa, Editorial 100, Junho, 2010.

 

O título


 

O Rapaz sem Roupa, (despido) traduz uma ideia de exposição, que as roupas tendem a esconder, em que a juventude, na maior parte dos casos, não se sente à vontade.

O facto de ser um “rapaz” significa que se trata de um personagem ainda jovem e imaturo que vive e sente a vida de uma forma quase ingénua em que a sua relação com os outros se desenvolve à custa da emoção e sentimento.

 

1. Opção pela escrita


 

Escrever significa um registo e uma partilha daquilo que vamos sentindo e vivendo. Os factos e pensamentos por que vamos passando ocupam a nossa memória de forma salpicada, como se fossem flashs em que o presente se sobrepõe ao passado impelindo-nos a agir sobre uma realidade que, por vezes, preferiríamos esquecer.

Escrever e, naturalmente, depois ler permite-nos reflectir e “viver” o passado com a vantagem de conhecermos o seu futuro – desde esse passado até ao presente.


 

2. Ficção / realidade


 

Não é possível escrever sem o apoio da realidade. É nela que nos movemos, que sentimos e que nos relacionamos com os outros. É a partir da forma como vemos essa realidade que desenvolvemos e expressamos essa vivência.

A realidade é factual : acontece. A ficção depende do que sentimos e da forma como vimos essa realidade, como a percepcionamos e a descrevemos.

 

3. Narrador/protagonista


 

O “Rapaz” vai vivendo ao longo dos anos num ping-pong entre a sua infância e a actualidade podendo o narrador ser crítico e distante, na avaliação formal da sociedade, em relação ao protagonista.

O narrador limita-se a descrever as situações enquanto o protagonista viveu-as deixando uma certa subjectividade relativamente à forma como este as viveu.


 

4. Leitura d’ O rapaz sem roupa com os olhos do presente


 

A história do Rapaz sem roupa é uma história vulgar, e igual a tantas outras, de alguém que foi enfrentando a vida dando a dimensão, por vezes exagerada, dos problemas na exacta medida que hoje os percebe sem que haja a consciência clara de que esses problemas tinham essa dimensão.

Julgo que os problemas e as soluções se desenvolvem de uma forma natural sem, muitas vezes, percebermos as consequências dos nossos actos e pensamentos mas que acabam por ser decisivos na construção da nossa personalidade, do nosso sentir e ser.


 

5. Sorte, destino, liberdade, decisão


 

Porque existimos é uma questão sempre presente a que respondemos com fundamentos religiosos, com indiferença (quase impotência) por nada pudermos fazer para encontrar resposta credível e com sentido, ou com uma constante procura e negação da, eventual, evidência de que existimos porque existimos.

Há quem pense que a nossa sorte, destino, já está definida. Outros que ela se vai construindo, procurando. Outros, ainda, julgam que o/a pudemos mudar e determinar através das nossas decisões do dia a dia mesmo que não consigamos compreender, de imediato, que essas pequenas decisões afectam o nosso percurso, a nossa vida e a dos outros.


 

6. A esperança


 

A vida tem, sempre, momentos difíceis e mesmo alguns que nos parecem inultrapassáveis. Nem sempre somos capazes de encontrar algo de bom em tudo mesmo que o quadro nos pareça completamente negro. No entanto, não basta ter esperança que a seguir à tempestade sempre vem a bonança. É preciso reparar os estragos, é preciso mudar o cenário para receber o “Sol”.


 

7. A música interior, o modo de entender a realidade, os filtros


 

Sempre pensei que estava sozinho no Mundo. Todos, num momento ou noutro, temos esse pensamento que serve para justificar o nosso egoísmo e as nossas atitudes menos solidárias. Esta ideia, no entanto, é uma ideia de “centro do mundo” que nos torna impunes senão nos actos pelo menos nos pensamentos e na forma como encaramos a realidade.


 

8. Os afectos


 

No Rapaz sem Roupa, percebe-se a ligação com os outros, principalmente na interpretação e ligação entre o protagonista e a família. É nesta interpretação que o narrador “lê” a forma como esses elementos mais próximos o vêem e se relacionam com ele. Há momentos em que o “rapaz”, mais uma vez, nos aparece como elemento exterior que, pertencendo ao “clã”, se olha de fora mas com os olhos da família.

A sua proximidade e compreensão dessa realidade aparece mais forte e clara no relato das situações com a sua filha, esposa, irmãos e pais.


 

9. A sensatez


 

Ser capaz de se abrir, em alguns casos, de forma até patética e “naif” pode parecer ingenuidade mas o narrador tem a consciência clara dos riscos que corre e essa exposição é assumida como necessária para concretizar o conhecimento do que pensa e sente/sentiu durante grande parte da sua vida,

Esta atitude e consciência dos riscos é assumida como contrapartida de um registo para a posterioridade!


 

10. Quem era – Quem sou


 

Nós somos, sempre, resultado de uma complexa rede de influências quer elas sejam genéticas, familiares (ambiente e educação), escola ( professores, colegas) e até políticos e económicos ( mais ou menos liberdade, mais ou menos desenvolvimento, mais ou menos emprego, etc.).

Como qualquer outro ( custa-nos assumir que somos como qualquer outro...) também “sofri” todas essas influências que determinaram, umas mais, outras menos, a minha personalidade, a minha forma de estar e, principalmente, a forma como me vejo e vejo os outros.

Julgo que, hoje, é sempre possível encontrar explicação para o que sentimos, uma justificação sobre o modo como agimos e nos relacionamos mesmo que essa justificação não passe de uma mera hipótese ou ensaio.


 

11. o que quero ser - tempo/ a tempo/contemporizar / a contratempo / fora do tempo


 

Às vezes brinco com a ideia de que só comecei a preocupar-me seriamente com o futuro depois de fazer 40 anos. Perfi-los no ano 2000 e alimentei, durante muito tempo, a ilusão infantil de que o mundo iria acabar nesse ano : “De 2000 não passarás!”

O meu futuro, como pessoa, nunca foi uma grande preocupação, limitando-me a gerir as oportunidades e seguir as “ruas” que se abriram, se foram abrindo, à minha frente. Nunca senti verdadeiramente a necessidade de fazer uma escolha reflectida e consciente de qual delas deveria tomar como se essas opções fossem naturais e quase únicas.

Hoje quando penso nisso, de facto, vejo-me a percorrer a minha vida como se fosse um mero observador, alguém que vê um filme e não pode alterar o enredo! Nem o final!


 

12. Criatividade e crise


 

Uma ideia que cultivo e em que acredito é a ideia de que há sempre algo de positivo em tudo! Mesmo nos momentos mais difíceis há oportunidades e “portas” novas que se abrem e que nos alteram o percurso à custa da dor e do sofrimento. O difícil é percebermos e aproveitar esse lado bom. Em momentos de crise, por exemplo, em que tudo nos parece negro e sem solução, podemos sentar-nos à secretária e olhar o mundo e os outros com outros olhos e...porque não? Escrever sobre isso!


 

13. Confissão / denúncia


 

As mulheres, muito mais dos que os homens, dão uma importância determinante nas suas relações sóciais, em especial as amorosas, às palavras! Ao significado de cada palavra e os segundos sentidos que elas possam conter. Para elas, nada é inocente, nada é simples, nada é dito ou escrito por acaso.

Assim, o cuidado que devemos ter para evitar” mal-entendidos” implica uma limitação na nossa liberdade de expressão, sentimentos, que nos leva, por vezes, a uma hipocrisia que nos transforma, em último caso, em actores permanentes. Este papel que desenvolvemos, por necessidade, digo eu, pode confundir-se com a nossa própria personalidade em que o actor e o sujeito se confundem e se fundem na nossa própria personalidade.


 

14.Humor, ironia


 

Há alguns estudos que ligam o riso, sorriso, a uma melhor qualidade de vida e da saúde. Independentemente da consistência desses estudos é, para todos, claro que sorrir nos faz sentir melhor, nos faz encarar os dias e o momentos de outra forma, de uma forma saudável.

No meu dia a dia, tento introduzir algum humor nas minhas intervenções sociais nem que seja fazer e ter uma atitude que não se espera de alguém que parece ter uma imagem muito formal.

As imagens e metáforas que uso na escrita reflectem um pouco essa forma de estar.


 

15. escritor circunstancial – escritor de sempre


 

Neste momento, porventura como em tantos outros, sou um espectador da minha própria vida e não conheço o guião do “filme” que estou a ver. As circunstâncias e a evolução da minha actividade profissional e a minha vida pessoal e familiar se encarregarão de me dar a resposta.


 

16. mensagem para os leitores, para o publico presente no dia da apresentação


 

Os agradecimentos usuais : a todos, à família, à esposa e filha e, claro, ao Diego Lora.

Cada um, de uma forma ou de outra, escreveram este livro!

Cada um, contribuiu com alegrias e tristezas, com dor, amor e amizade, para a realização do sonho, de muitos, também meu, de puder partilhar de uma forma pública e corajosa o que me vai na alma.

Trata-se de uma momento único em que sou o principal protagonista mas consciente de que todos os outros actores também fazem parte do “filme”!

Se correr bem, se gostarem...terei, definitivamente, a certeza que só existo eu no universo e que tudo o que existe à minha volta só existe para me enganar...


 


Índice de O rapaz sem roupa

 

ÍNDICE

Porque não arranjo emprego 9

A loira 11

Há trinta anos 13

Passagem de ano 17

Copinho de leite 21

As ortigas 25

Contrastes 27

Borbulhas 29

Medos 31

Escola Naval 33

Jackpot 35

Autocarros 37

Nome 1 39

Mulher 43

Nome 2 47

Mulheres 49

Há 18 anos 51

Comércio 53

O quarto 57

Ordem ou caos? Caos! 59

Carnaval 61

Pássaros 63

À beira da praia 67

Poemas de amor 71

Namorar na rua 73

O nó 77

Iate árabe I 79

Iate árabe II 83

O Espanta-pardais 87

Regresso 89

Meu querido Pai Natal 93

Outra vez as mulheres 95


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