Os livros da EDITORIAL 100


Título: Os textos que não eram meus    -     Autora: Maria F. Morgado


       

 


 

Maria Filipa Pereira Machado Ramos Morgado. (1984) Porto.


Poemas - ISBN: 978-972-8843-16-8  -     Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2004. 72 p.  Preço com IVA: 5,25 €


Excertos do livro


Próteses


E agora, se a publicidade e heterogeneidade de palavreado e calúnias fosse banal eu diria “foda-se a cleromania” e “foda-se a minha clerofobia” que findou por ser um chué exacerbado de emoções inestéticas e duvidosas, todas elas sem rumo certo e prontas para embarcar num navio de velas azuis... supostamente esverdeadas. Digo verde símbolo de esperança...mas este vocábulo é só uma herança da minha infantilidade. Para mim o verde simbólico não existe porque existe só a ataraxia elevada a um supremo desejo de não sentir dor. E se a esperança é a vontade (lá no fundo) de acontecer determinado acontecimento então proponho cortar o mal pela raiz e diminuir o significado insignificante à morte do seu símbolo inventado. (Agora só para ti Esperança: não fiques macerada pelas minhas orações a ti, porque elas são só fruto de uma anestésica intelectualização da minha mente, e são assim hipocrisias da tua sorte porque para mim és nada. O nada é a nulidade da chulice insana do acto de fingir a poetização de um Factum inalterável).

“Merda para as simulações benévolas da personalização de cada um de vocês Deuses para mim politeísta ou Nosso senhor Jesus Cristo para mim monoteísta porque não sabem restringir a fé a um puro e simples arsenal de crenças “...é poder! É riqueza material! São aporemas de poemas à apoucada prótese da validade Humana! E vivam os aplausos à infâmia...! E vivam as apostolizações às presidências aparelhadas! Urra à universalidade de conceitos preconceituosos instrumentos cronicamente manufacturados!

“ Porra para as lutas elaboradas de narcisismo naifista e suicida. Masoquistas! ”Olho para as indigências vossas e faço das minhas iguarias críticas as vossas lições de vida! Liquidem-se! Derretam a fúria calorosamente fumegante e galopante por entre os relvados de caprichos!



 

Entrevista a Maria F. Morgado(*)


1) Porquê escrever?

Escrever é como uma tarefa quotidiana, tal como acordo, lavo a cara, como e à noite durmo, escrevo para sobreviver com a mais valia de me socorrer de uma tarefa quotidiana que não é obrigatória mas sim espontâneamente prazenteira.

2) Porquê publicar?

Publicar um livro é o princípio da realização de um sonho. É um auto-desafio e uma questão de mérito pessoal. É ver nas mãos de outros os meus sentidos e pensamentos, e ajudá-los de alguma forma ou fazê-los ver que todos temos certos pontos de contacto sensorial. É, finalmente, um prazer duplicado, fazer poesia e receber críticas que são todas sorrisos exteriores a mim.

3)Escolhes as palavras ou as palavras te escolheram a ti?

As palavras vêem ter comigo no momento em que escrevo a última letra da palavra antecedente à futura palavra que lhe sucede. Quando escrevo não procuro nada, deixo que os sintomas da minha inspiração fluam entre imagens e palavras simultâneas que pingam na imaginação, escorrem até aos meus dedos e surgem no meu papel.

4)A poesia surge para compensar o amor ausente ou para recuperar o amor perdido?

A poesia não surge por amor algum exterior a nós as duas. A poesia surge porque se apaixonou por mim e eu por ela. Visitamo-nos uma à outra e soltamo-nos do nosso corpo aglutinando os nossos espíritos. Somos duas almas simbióticas, eu vivo dela e ela vive de mim, por mim e dentro mim.

5)A tua poesia é  lúdicamente séria, espontànea, as imagens se sucedem umas às outras, uma constante procura do ser e do não ser, um modo de existir nas palavras, um modo de agarrar-te nas palavras para não fugir de ti própria?

Talvez agarre as palavras com medo que o momento me fuja e eu não as saiba escrever mais. Talvez aproveite exaustivamente os momentos de expressão que a poesia me oferece para descobrir o que incomoda esse tempo fugidio. Penso que sim, que é uma maneira de não fugir de mim própria para me refugiar exclusivamente no meu mundo proibido. Separar-me do universo social e colectivo explícitamente cansativo e contemplar a minha individualidade implícita que funciona como um corpo-celeste intermitente.

6) A poesia como um fluído quando começa?, quando para?

A poesia é como um  fluído, abranda quando se condensa e acelera quando se evapora. Começa depois da condensação e acaba depois da evaporação, em extremos, ou intermédios demasiado indefinidos.

7) Quê é o que mais temes quando escreves?

Que o vocabulário não me  satifaça. Que as palavras me surjam sempre iguais.

8) Que evitas quando escreves? que procuras? gostas de corrigir os teus textos?

Não gosto especialmente de corrigir os meus textos. Se não os quisesse publicar penso que nunca os corrigiria. Quando escrevo evito que me invadam, procuro detreza, paz e libertação.

9) Gostas de ler os teus textos? te habitam sempre ou depois de acabados já são como fantasmas passados, como amores pre-históricos?

Há textos que leio quase como que orações, leio muitas vezes ao dia, depois fico saturada e já não sou capaz de ler nenhum durante uns tempos. Há outros textos que leio só depois de escrever e passam por mim como amores pré-históricos, restando apenas frases ou palavras que me marcaram quando as escrevi.

10) A tua poesia é proceso e resultado, como que não quer ocultar nada?

A poesia não me dá vontade de ocultar factos ou fenómenos, sentimentos ou pensamentos. Dá vontade de os libertar, dizê-los em fusão com a fantasia.

11) Quais foram os poetas que mais liste e te impresionaram mais?

Fernando Pessoa, Walt Whitman.

12) Qual é o melhor ambiente para o acto de escrever?

Porta fechada. Só eu dentro de uma sala, em frente ao computador ou à luz de uma lâmpada que me ilumine só a mim, o resto tem de estar tudo escuro. À frente do fogo,  uma fogueira ou uma lareira ou num dia ventoso ao pé de árvores e ervas daninhas. Sozinha. O silêncio e a música dependem do meu estado de espírito, são as duas únicas companhias que nesses momentos  gosto de ter.

13) Normalmente com quem compartilhas o que escreves?

Com a minha Mãe

14 ) Projectos literários para o futuro? 

A evolução da minha poesia como evolução de mim própria.

15) Que pergunta gostarias de responder que não te fizeram?

Não há.

16) Pipa, se tivesses que escolher um par de poemas teus, com quais ficarias e porquê?

Vaivém Invalidado e Se te pudesse dizer tanto. O primeiro porque me senti diferente quando o escrevi. O segundo porque foi o primeiro poema que fiz com mais de quatro folhas.

17) Qual é o texto mais antigo do teu livro, lembraste das circunstâncias e das motivações que tiveste para o fazer?

O texto mais antigo é "Vida de Duelo". Lembro-me de estar numa euforia perturbada.

18) O motivo visual do teu primeiro livro é uma tatuagem que tu levas no corpo, quê significa?

Significa "ansiedade e medo".  

19) Que comentários gostarias de ouvir acerca do teu primeiro livro?

Os comentários de cariz positivo são sempre elogios... O que não quer dizer que os de cariz negativo sejam insultos. Ambos acabam por me ajudar de diferentes maneiras... Gostaria, contudo, de sentir que o livro tem algum valor significativo, seja ele qual for.

20) Gostaria de saber os teus gostos ou preferências musicais (compositores, intérpretes, tipo de música, bandas, etc), assim como os pintores ou tipo de pintura?

Desde música Clássica a Transe. Gosto muito também de Jazz, Músicas étnicas (árabes, indianas, africanas...), Electro... Desde Wagner, Bach e C.Debussy a Ravi Shankar, Cesária Évora, Yann Tiersen, David Hudson, Emir kusturica, Jill Scott, FC Kahuna, Kraftwerk, Badmarsh & Shri...  Pintura: Noronha da Costa, J.Guimarães, Cargaleiro, W.Kandinsky, J.Miró, F.Léger, P.Gauguin, H.Matisse, P.Picasso...

21) Que opinião tens sobre os políticos e o sistema político do teu país?

Não acredito em nenhum dos políticos e respectivos partidos porque tudo me leva a crer que acima dos ideais que cada um assume está o poder económico pelo qual cada um combate. 

22) Para acabar gostaria de saber o que pensas acerca dos programas de televisão e rádio?

Penso que a publicidade ocupa o espaço que a música e os programas televisivos deveriam ocupar. Rádio quase que deixei de ouvir, televisão também vejo pouca precisamente porque o conteúdo cultural da televisão portuguesa está de mal a pior e de pior a péssimo.

        


Conteúdo de Os textos que não eram meus

 

As mãos que não eram minhas   7

 

Sem cair   11

 

Vaivém invalidado   13

 

O impulso   16

 

Vislumbres   18

 

Se te pudesse dizer tanto   19

 

Sucessivamente   28

 

A verdade é que a humanidade me afecta   29

 

Tem chovido   30

 

Contrariada   31

 

Individual   34

 

Durmo quando o sol se põe   35

 

Pronto   37

 

Quem disse que o mar ultrapassa o fogo na beleza   39

 

Sereno, sossegado   42

 

Juros pagos   46

 

Poema do costume   48

 

Malformação   49

 

Tudo porque eles não sabem que são deveras diferentes ainda que sejam íntimos desde crianças   50

 

Foi de manhã num oásis seco   52

 

Começa e acaba   54

 

O tempo não espera por ninguém   57

 

Vida de duelo   59

 

Um pouco de maldade   61

 

Estribeiras   64

 

Fácil dizer   66

 

Próteses   69

 

O anzol   70

 


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