Os livros da EDITORIAL 100
Título: Sistema Solar - Autora: Paula Margarida Pinho
Paula Margarida Coutinho Bastos de Pinho, 1965 (Vale de Cambra), Portugal. Professora do Ensino Secundário do grupo 8º B (Português / Francês) Professora do Quadro de Nomeação Definitiva na Escola Secundária de Vale de Cambra.
Desde a juventude que se dedica à escrita, nomeadamente à poesia. Produziu, até ao momento – embora sem publicação –, cinco colectâneas de poemas: Poemas da Juventude (1987), Fios Soltos (1996), No Limiar da Presença (1998), Entre Dois Mundos (2000) e Sistema Solar (2002).
Alguns dos seus trabalhos foram premiados. Em Junho de 1998, ganhou o primeiro prémio do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”, grupo B, destinado a professores do Distrito de Aveiro, com o poema “Procurei-te incessante”. Em 1998, foi premiada com o primeiro lugar na modalidade de quadra nos “Jogos Florais de Santo António 1998” do concelho de Vale de Cambra.
Em Abril de 1999, viu publicados alguns dos seus trabalhos, numa antologia em que participaram diversos poetas da sua freguesia, intitulada “Poesia da Nossa Terra” (páginas 209 a 221). Em Junho do mesmo ano ganhou novamente o primeiro prémio do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”, com o poema “Teu Nome”. Ainda em 1999, foi premiada com o primeiro lugar na modalidade de quadra nos “Jogos Florais de Santo António 1999”, organizados pela Paróquia de Vila-Chã.
Em Junho de 2000, obteve pela terceira vez consecutiva o primeiro prémio do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”, no escalão destinado a professores do Distrito de Aveiro e organizado pela Escola Secundária Júlio Dinis, de Ovar, com o poema “Transparência”. Ainda neste ano, foi premiada com o primeiro lugar na modalidade de quadra nos “Jogos Florais de Santo António 2000” do Concelho de Vale de Cambra. Recebeu uma menção honrosa pela sua participação no “Concurso de Poesia Popular do Marvão”. Alguns dos seus poemas foram publicados na colectânea “Dar Voz à Poesia” (edição da Câmara Municipal de Ovar, em Junho de 2000). Na revista literária “Filling Station” (nº 19, 2000, Canadá) e respectivo site na Internet foi publicado o seu poema “Teu Nome”, numa apresentação bilingue (o original português e a respectiva tradução em inglês).
Em Maio de 2002, a convite do Círculo de Estudos de Ferreira de Castro, participou nas tertúlias literárias “Murmurando Maio”, tendo apresentado oralmente alguns dos seus poemas, na sessão “Vozes do Caima: enquadramentos e manifestações”.
Continua a escrever, possuindo neste momento várias dezenas de poemas dispersos e dois projectos em curso.
ISBN: 978-972-98870-4-8 - Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2003. 64 p. Preço com IVA: 5,25 €
Excertos do livro
O presente trabalho inclui poemas escritos entre 2000 e 2003. O que os aproxima é o facto de todos eles – de forma mais ou menos explícita – falarem em sol ou sombra, em dia ou noite, em luz ou escuridão.
Gostaria que todos eles falassem de luz. Aliás, era essa a ideia inicial, expressa pelo título primeiro escolhido e posteriormente abandonado: Poemas com sol lá dentro. A ideia era criar uma obrazinha clara, optimista, ingénua e simples – com um título a roçar o naif. Mas as coisas nem sempre saem exactamente como queríamos. E os textos têm esta capacidade irritante de, a certa altura, seguirem o seu próprio caminho, insubmissos, e recusarem a orientação que pretendíamos dar-lhes.
Resigno-me, portanto. Sistema Solar inclui sol e sombra; optimismo e desânimo; alegria e sofrimento. Como a vida.
Espero, porém, que prevaleça a luz.
Vale de Cambra, 12 de Junho de 2003
Quando à noite me debruço na janela
e sorvo a melodia do silêncio
há retalhos de sombras e sussurros
que se prendem aos meus olhos e aos ouvidos.
E uma magia íntima e secreta
vai crescendo e palpitando nos espaços;
embala nostalgias e desejos,
extrai brilhos e cores dos sonhos baços.
É então que eu sinto agudamente
que a noite é o meu lar, o meu refúgio -
e toda me recolho nos seus braços.
Procurei uma ave dentro de mim –
ou talvez uma flor,
talvez uma brisa.
Procurei um silêncio
redondo como o sol,
acre como a maresia.
Procurei seixos transparentes
e brilhos de água clara.
Mas apenas senti um adejar ligeiro,
uma promessa de voos
ou de encontros.
Apenas senti
a sede desses sonhos.
Fechada, isolada,
vou construindo um universo meu
– como se nada mais me afectasse;
como se a mim mesma eu me bastasse.
Encerrada num dia claro e lento
faço crescer as palavras que há em mim:
sol, mar, flor e luar;
vida, tempo, azul, lamento;
breve, leve, espaço, ausente...
Crescem em mim lentamente,
numa mágoa antecipada.
Porque esse mundo que eu crio
e que queria que fosse
um abrigo ou uma estrada
é um fragmento de nada,
a réstia de um ideal,
a sombra de um sonho errante.
Mesmo assim insisto.
E, aberta ao vazio
de uma inspiração,
acolho os ecos subtis
das palavras que há em mim
e se enraízam e crescem
nas dobras do coração.
Entrevista a Paula Margarida Pinho, com motivo da publicação do seu livro "Sistema Solar" pela Editorial 100
1) Qual é o sol em Sistema Solar?
O sol é a própria vida ou, melhor dizendo, o essencial da vida. Está no centro de um sistema – uma estrutura – cujos elementos se movimentam e giram, mas mantêm sempre o equilíbrio. É esta harmonia, este equilíbrio precário que se estabelece entre realidades diversas e mesmo antitéticas que me fascina. Na vida, coexistem sol e sombra, alegria e tristeza, encontros e desencontros, sonhos e realidades. Tentei congregar um bocadinho de tudo isso.
2) A poesia é um modo de desabafar ou um modo de reordenar ou arrumar o mundo do poeta?
O que tem de melhor a poesia é que ela é ou pode ser muitas coisas – eu quase diria todas as coisas.
Um modo de desabafar? Esta parece-me uma visão bastante reducionista da criação poética. Claro que quase todas as pessoas que conheço escreveram, na adolescência, poemas que eram puro desabafo. Eu também o fiz. Mas, atingida a idade adulta, penso que é preciso transpor essa etapa: a poesia é um mundo extraordinariamente rico; não pode limitar-se a ser um reflexo do estado de espírito de quem a escreve. Não quer isto dizer que perfilhe a teoria pessoana da poesia como fingimento. Mas, quando escrevo, está lá presente o que sinto mas também o que imagino que poderia virtualmente sentir (sou propositadamente redundante). E por vezes nem há sentimentos, nem emoções: só uma visão, ou uma ideia, ou uma sugestão narrativa. Tudo isto se entrelaça. E eu não gostaria que as pessoas lessem o livro com o objectivo de procurar nos textos vestígios de mim ou ecos de circunstâncias da minha vida. Preferiria que procurassem, antes, reflexos de si próprias. Porque todos, de uma forma ou de outra, fazemos parte do mesmo sistema solar.
Um modo de reordenar o mundo? Embora a palavra “Sistema”, no título, pareça remeter para uma organização estrita, eu não tenho pretensões a reordenar ou arrumar o mundo – nem sequer o meu mundo, porque há sempre muitas coisas que me escapam. Porém, é verdade que um poema é a cristalização de algo importante: um pensamento, um imponderável, um breve fragmento de vida. É a corporização de momentos que passaram mas ficaram guardados nas palavras. Depois de os sentir autónomos, e consistentes, posso deixá-los para trás, e evoluir no sentido de algo de novo e diferente. Um poema é algo que faz sentido por si só. E, especialmente na nossa era, precisamos muito de coisas que façam sentido...
Para mim, escrever poesia é, sobretudo, uma forma de estar, uma necessidade quase irreprimível que acontece de vez em quando. Poderia citar Alberto Caeiro, o Mestre heterónimo de Fernando Pessoa: “Ser poeta não é uma ambição minha / É a minha maneira de estar sozinho”. O que não quer dizer que o processo de escrita se desenrole com naturalidade e fluidez; pelo contrário. Mas é algo que preciso de fazer, para não me descentrar de mim, para não me esquecer de viver. E reconduzir tudo ao essencial.
Para mim, a poesia é uma busca constante e quase obsessiva da essência das coisas e da vida.
3) Porquê titular os poemas?
Ultimamente, tenho dado título aos poemas – mas nem sempre o fiz, e não garanto que continue a fazê-lo.
É difícil titular os poemas: trata-se muitas vezes de um esforço suplementar de síntese. Acontece-me ficar indecisa entre dois ou mais títulos; acontece-me não ficar plenamente satisfeita com o título que escolhi. Nesse aspecto, lembro-me por vezes de Miguel Torga, que se queixava de ser péssimo em títulos... mas continuava a titular os poemas.
De qualquer forma, neste momento, penso que o título traz algumas vantagens: confere ao poema maior autonomia; complementa o sentido do corpo do texto; torna-se uma chave essencial para a compreensão das ideias veiculadas; remete para aquilo que considero essencial.
4) Qual a importância do EU na tua poesia?
Não sei avaliar a importância do EU na minha poesia. Talvez possa fazer apenas algumas aproximações à questão.
Já Sá de Miranda se lamentava porque, apesar de zangado consigo mesmo, não conseguia viver sem si próprio – e encarava esta situação como uma espécie de condenação. Eu não estou zangada comigo, mas também tenho aguda consciência desta obrigatoriedade de viver sempre comigo: tudo o que vejo, sou eu quem vê; tudo o que sinto, sou eu quem sente; tudo o que imagino, sou eu quem imagina; tudo o que sou, sou eu quem é; tudo o que vivo, sou eu quem vive. E, como qualquer pessoa, empresto a minha subjectividade à realidade.
Tenho consciência da presença linguística muito frequente dos pronomes de primeira pessoa, nos meus poemas. Mas não quer dizer que essa primeira pessoa gramatical corresponda à minha pessoa real. E há textos em que falo de um “nós”, ou me dirijo a um “tu”, ou descrevo uma realidade alheia de mim, que não são por isso menos subjectivos.
Dito isto, quero salientar que, mesmo correndo o risco de ser tradicionalista, encaro o texto poético como intimista por natureza. Mesmo que esse intimismo seja recriado.
5) Que dizer sobre a presença da natureza para reflectir os sentimentos?
A natureza é uma das coisas realmente boas que nos resta. E, porque temos consciência de que está ameaçada e de que vivemos cada vez mais afastados dela, reveste-se de uma aura quase mítica. A natureza é equilíbrio, harmonia, liberdade, apaziguamento. Mas pode ser também o contrário de tudo isso, nas suas forças mais selvagens.
Penso que precisamos de lembrar constantemente o facto de nós, seres humanos, fazermos parte do mundo natural. Só assim a nossa vida faz sentido, porque percebemos que comungamos de um todo, juntamente com as aves, as flores, as ondas do mar, as estrelas...
6) Se as palavras quebram o encantamento, porquê a poesia?
“A linguagem é fonte de mal-entendidos” – dizia a raposa ao Principezinho, de Saint‑Éxupéry. O ideal talvez fosse a ausência de linguagem. Ou, se quisermos, segundo a terminologia de Roland Barthes, o grau zero da escrita. Ou ainda, como em Sophia de Mello Breyner, as palavras concretas, que passariam a ser o real, em vez de o nomearem. Nos momentos breves de maior comunhão, dispensamos as palavras. E, mesmo correndo o risco de contraditória ou incoerente, assumo que, para mim, esse seria o ideal. Mas tudo isto é uma utopia: a comunicação serve-se de palavras frágeis e por isso é frágil também.
Porém, a poesia não é feita só de palavras: é feita de silêncios; de intervalos entre palavras; de páginas parcialmente brancas, que deixam o poema respirar. A poesia é feita de palavras muito mais leves que as da prosa – esta última compacta e densa. Por isso a palavra poética se aproxima da ausência de palavras. Às vezes, é mais música que linguagem. É mais imagem pictórica que referente. E gera encantamento, em vez de o quebrar – como acontece com a larga maioria de palavras que nos impõem no dia a dia.
7) A vida não é "vida" sem poesia?
Podemos viver sem poesia, podemos viver sem literatura, e sem música, e sem qualquer forma de arte. Podemos viver sem beleza. Mas, para mim, talvez isso seja mais sobreviver que viver. A arte – qualquer forma de arte – alarga os nossos horizontes limitados de seres finitos, projecta-nos para fora do nosso circulozinho fechado e rotineiro. Dá luz e cor à vida, porque gera beleza. E a beleza é uma necessidade e um valor em si mesma, num mundo em que há tanta fealdade tão valorizada.
...E pronto! Já me obrigaram a fazer aquilo que eu não queria: analisar a minha própria escrita. Como professora de Português, analiso os textos dos outros e tento ajudar os jovens a compreenderem-nos e a apreciarem-nos. Em relação aos meus, preferia não ter que arcar com esta duplicidade. Preferia escrevê-los espontaneamente, sem pensar nos processos que inconscientemente desenvolvo. Escrever e reflectir sobre a escrita gera uma duplicidade muito desgastante...
Índice de Sistema Solar
Preâmbulo 5
ECLIPSE
Aquela luz 9
Espero 10
No lodaçal 11
Duplicidade 12
Temporal 13
Chovem cordas de água 14
A cidade 15
Enovelo-me 16
Pequena elegia do Outono 17
Poema triste do medo 18
Despedida 19
Desejo 20
SOL NOCTURNO
Elogio da noite 23
Fica comigo 24
Adiando a vida 25
Quase uma cantiga de amigo 26
Uma lágrima pelo passado 27
A hora do encontro 28
Valeu a pena 29
Poema inacabado do crepúsculo 30
Pesadelo 31
Percurso 32
A vinda do profeta 33
Páscoa 34
MADRUGADA
O que somos 37
Oração sobre um novo dia 38
Demanda 39
Bailia 40
Ser 41
Exercício cromático 42
Coração aberto 43
A infância 44
Surpresa 45
Uma forma de vida 46
Navegação 47
Matinal 48
DIA CLARO
Poema do desencanto 51
Sol de viés 52
Março 53
A forma de expressão 54
Quanto vale? 55
Uma lágrima 56
Que te daréi? 57
Impressionismo 58
Um mundo só meu 59
Sonho banal 60
A queda dos pássaros 61
Palimpsesto 62