Os livros da EDITORIAL 100
Título: Quando um tudo-nada chega - Autora: Rosa Maria Ribeiro
audiovisual dedicado a Rosa Maria Ribeiro 12/4/2008 Algumas fotogtafias de Rosa Maria Ribeiro
Nascida em Março de 1959 sob o signo de Carneiro, em Vila Meã, uma aldeia no distrito de Viseu, deixou aí a alma e foi alimentar o coração ao litoral, noutra Beira começando a amar o mar, não perdendo o amor pelas serras e penedias.
Faz os estudos em Cantanhede e Coimbra e é em Montemor que inicia a vida profissional dedicando-se á Educação de Infância, sempre ligada ao Ensino Especial.
Participa e anima alguns projectos de índole cultural ligados á escrita, fotografia, rádio e teatro.
Faz parte da Assembleia Municipal de Montemor-o-Velho durante um mandato.
Muda-se para a Figueira da Foz onde vive e trabalha desde 1994 na freguesia de Tavarede.
Mantém dois blogues activos. Dedica-se á fotografia ocupando nela os seus tempos livres.
Participa em cooperação numa exposição de texto e imagem subordinada ao tema "Cumplicidades" em que colabora com a sua escrita.
Poemas - ISBN: 978-972-8843-65-6 Editorial 100, Vila Nova de Gaia, 2007, 94 p. Preço com IVA: 12,60 €
Excertos do livro
Estar... Não estar
C
onhecia-o porque não podia ser doutra forma.Como se fosse ela própria. Porque se continuava para além de si sem interrupções. Duma forma contínua, num fluir sem esperas. Como num reflexo de si em suaves variações.
Encontrava-se nele a cada instante num espanto que há muito procurava. Tinha tudo sem pedir. Naturalmente. Como se tivesse de ser assim. Sempre e só assim.
E no entanto, fugia dele. Pelo medo de não ser capaz, de não o merecer. Pela responsabilidade que tinha agora. De ser para ele como ele era para ela. Sempre.
E porque nela habitava outro. Ainda. Não sabia por quanto tempo. Nem por que razões.
Não podia ser inteira. E queria sê-lo! Como ele o merecia.
Não podia acreditar no que lhe ouvia. Queria-lhe tanto! Como podia ela dizer-lhe para continuar em frente, para a esquecer? Quem era o homem que sem a amar lha tirava?
Sentia-se morrer. Uma dor sem fim a instalar-se no corpo, a paralisar-lhe os membros. A loucura!
Não a podia perder. Era dele. Tinha de a recuperar. Ou a dor quebrá-lo-ia. Ali, naquele momento. E cada pedaço de si a reclamaria.
Não pensou. Não tinha espaço. Sabia que a amava. Muito! E só a ela.
Olharam-se na ânsia de respostas. Nos olhos as marcas da dor. No corpo o desânimo e o cansaço. Um abraço forte uniu-os na dor que ambos sentiam.
Não sabiam o que fazer do que tinham. As respostas que encontravam sentiam-nas fisicamente. No bater desordenado do coração, nas lágrimas que corriam soltas e em tanta dor que permanecia difusa e incontrolável dentro de peitos pequenos para tanta coisa. As outras, escondiam-se por mais que as procurassem.
Ela veste-lhe agora as memórias e chora-o de tanto o amar!
Ele espera-lhe as respostas até um dia...
Já não me doem as palavras
Do que sou, já não me perco. Do que quero, não me afastarei.
Já não me doem as palavras que dizem de mim. Como não me aliviam.
Não pesam mais. Ocas, doutros, sem eco aqui.
Porque sei que não posso ser luz e deixar de ser sombra.
E que nalgumas tardes me alongo nos outros, desfeita de mim.
E que sentem de mim o que já perdi. Em pedaços que não sou eu.
Porque vazios. Da luz que dou e em que me esgoto.
E já não sou nem uma coisa nem outra. E só o que de mim fizerem.
Para lá de todas as palavras, eu, serei sempre o que sou.
Em luz ou sombra.
Coisas pequenas
C
oisas pequenas do tamanho imenso da alma de quem as pressente.Gestos perdidos, ocasionais, simples, espontâneos.
Um «não» agora, para muitos «sins»que nunca se ansiaram e surpreendem.
E o caminho feito de pequenos passos, a cumprir-se. Nunca como se sonha, mas como deve ser.
Num remoinho de pequenas coisas a fazerem-se grandes.
Um sorriso que ilumina o dia. Uma palavra que conforta. Uma mão que ampara. Um ouvido que escuta. Uma voz que serena. Um olhar que nos lê e entende.
E a vida cheia de coisas pequenas, que a fazem maior e mais completa.
Como se em cada pequena coisa se encontrasse a verdadeira essência de todas as coisas.
E a razão de todas elas fosse afinal tão pequena assim. E simples, como o são as coisas que julgamos pequenas.
Coisas pequenas com o tamanho que lhes queremos dar.
Entrevista a Rosa Maria Ribeiro
A propósito da publicação do seu livro: Quando um tudo-nada chega, Editorial 100, 2008.
Dados biográficos
Era Páscoa, na altura em que nasci. A 27 de Março de 1959 pouco passava da meia-noite. Foi numa aldeia que ainda hoje conserva os traços de antigamente e a memória de eu aí ter nascido, apesar de ter passado lá pouco tempo: Vila Meã no distrito de Viseu.
Aos 3 anos deixei a minha mãe, pai e irmãos para viver com uma tia, no propósito duma vida melhor.
Deixei as serranias e vim para os vinhedos da Bairrada, passando a ser filha única tendo mais 5 irmãos que mal conhecia e via de vez em quando.
Aí estudei até ser preciso ir para a grande cidade, Coimbra.
Um pouco por curiosidade fiz o curso de Educadora de Infância. Tive a sorte de começar a trabalhar na integração de crianças com deficiências. Desde aí, adoro cada dia em que posso trabalhar e ver sorrisos nas caras das pessoas com quem colaboro.
Acabei por isso por me especializar em Educação Especial.
Desde quando escrevo
Desde que descobri como se lia. Desce que percebi como juntar letras era nada mais que um código que eu conseguira desbravar. Devorava tudo o que encontrava. E queria ser capaz de escrever assim. Lembro-me de passar pelas quadras que fazia a metro. Pelos diários em que ás vezes inventava para tornar as coisas mais empolgantes.
De me acusarem na Escola de ter demasiada imaginação e andar a ler coisas impróprias para a minha idade. De começar a ter medo de escrever e apagar ou riscar vezes sem conta o que me vinha á cabeça. Até que comecei a escrever para mim. Ou para alguém que mesmo estando próximo me pudesse ler, porque escrevendo desenhava melhor o que pensava.
A Net e Eu
Temos uma relação recente e envergonhada, mas que curiosamente me empurrou para mostrar publicamente o que escrevo. Alguém que me conhecia através das fotografias, da forma de escrever lançou o desafio que eu achava não conseguir cumprir. Viciei-me.
Foram muitos os que me incentivaram durante todo o percurso. Neste momento quase nos tratamos por Tu, com o devido respeito.
Experiências na leitura
Li sempre de tudo. Lia o que encontrava á mão. Ficava horas na biblioteca a rondar as prateleiras dos livros que não podia trazer para casa. Ia-os lendo ás escondidas. O boletim da Biblioteca, trouxe-o sempre comigo. Trazia de tudo. Em casa não havia livro que escapasse. Não havia muitos. Lia-os 2 e 3 vezes. Quando ia a casa de minha mãe enfiava-me no sótão a ler todas as bandas desenhadas de meus irmãos. O importante era ler. Saber, descobrir coisas. Partilhar o jornal, o que houvesse. Quando não lia, inventava.
E quando arranjava dinheiro, comprava um livro. Sabia-me bem.
Não me perguntem quem gosto de ler. Digo só que gosto de o fazer.
Os meus espaços geográficos
Não me sinto a pertencer a lado nenhum. Mudaria com facilidade para um sítio qualquer. Mas a serra e o mar têm a chave do meu coração. São sítios onde encontro paz e me fazem sentir em casa.
Quando por vezes me ausento, sabe-me bem regressar, como se desse ânimo á alma que transporto em mim, me sentisse mais viva e tudo ganhasse mais sentido. E só precisa de ser uma qualquer serra ou um mar qualquer.
Sobre o livro . Título do livro. Porquê?
Quando um tudo-nada chega tem a ver com a ideia das coisas simples que bastam para dizer e fazer tudo o que é importante em cada momento da vida de cada um. Tem a ver com sintonia e partilha. Com um gesto. Um sorriso. Uma lágrima. E não ser preciso mais nada. Pela cumplicidade que se gera em seres que se encontram raras vezes na vida, mas quando o fazem conseguem esta magia.
Existência e transcendência nos textos do livro
Todos podemos ser personagens nestas histórias, viajantes nestas formas de sentir, pelo menos alguma vez na vida. Ou podemos ter-nos cruzado com gente e sentimentos assim. Pode ser um retrato dum tempo num espaço qualquer no nosso trajecto ou não ser coisa nenhuma. Talvez só uma forma de pensar o outro e os outros na sua forma de estar na vida, com as suas questões e interrogações sempre latentes. Alguém terá vivido assim.
Amor e liberdade
Não se debatem nem defendem posições acerca de qualquer conceito. As ideias ficam no ar. As conclusões para quem as quiser tomar. E só me questiono: Haverá verdadeiro amor sem que haja verdadeira liberdade?
Limites e fronteiras nos conceitos e nos sentimentos
Não gosto de estabelecer limites ou fronteiras em nenhuma situação, desde que tal não implique falta de respeito pela minha pessoa e integridade física. Todas as pessoas têm direito a opinião, a sentirem coisas diferentes perante as mesmas situações. Tudo depende das suas vivências. Da forma como se construíram. Através do diálogo construtivo poderemos dar pequenos passos para metas consensuais.
Ou talvez não. Nem todos podemos pensar da mesma forma.
Não há dilemas, a certeza da incerteza, o motor poético
A certeza está na dúvida constante, na pergunta nunca satisfeita, na constante interrogação perante os factos que momento a momento se alteram e transfiguram em novas e renovadas questões ou dilemas. Daí o desequilíbrio permanente na busca do que parece sempre inatingível mas sempre tão desejado. A verdade que nunca é absoluta a não ser por breves instantes, destronada por outras verdades, por outras evidências.
A poesia permite o sonho, a miragem. Outras realidades e formas de estar. Viajar de formas impossíveis e alcançar mundos metafóricos. A vida num mundo paralelo.
Prazer-dor
Coisas inevitáveis. Sem uma não se tem a noção da outra. Coisas que nos fazem crescer emocionalmente. Fosse a vida feita só de prazeres e seríamos caracóis sem casa. Animais indefesos. Lesmas. Seriamos coisa por fazer. Incompletos.
Vida – morte
O principio e o fim. Ou o recomeço para quem acredita noutras vidas. Ou então, como se fossemos estações de ano. E em cada etapa da vida morrêssemos e renascêssemos de outra forma. Nem melhor, nem pior. Diferentes. Renovados, prontos para novas viagens, até que acabem… E se façam, ou não, outras.
Solidariedade e indiferença
A escolha não deixa dúvidas. Sempre a solidariedade. Nunca a indiferença. Mas não confondamos solidariedade com um abandono total de si mesmo em prol dos outros. Porque sem “nós”, não podemos ser para os outros.
Ser e estar no texto poético
É não saber estar doutra forma. É uma forma natural de estar e ser. Escrevo como falo e sinto. Não elaboro nem construo ou adultero o pensamento ao escrever.
Comunicar para existir ou existir para comunicar?
Curiosamente podia dizer que são ambas as coisas. Comunicar é quase terapêutico, na medida em que expresso através da escrita os sentimentos que capto e re-elaboro ao escrever sobre eles. Quase como se a escrita fosse só mais interlocutor. Mais um elemento no diálogo que me permite aprofundar e resolver questões. Também posso dizer o oposto porque gosto de partilhar as minhas ideias, debate-las, confrontá-las, crescendo através desse encontro.
A importância da água na poesia
A Água para mim é magia. Sempre a fluir. Serena mas também feroz. Sempre diferente Espelho. Empatia. Ouvido atento. Voz que acalma. Seja num riacho, numa nascente, num rio poderoso ou no mar. Não pode nunca deixar de ser poesia
Solidão, mar, rio, céu. Noite
A solidão ajuda a ver-nos por dentro. O mar ouve-nos e guarda os nossos segredos. O rio relaxa. O céu tem cores lindas, uma lua fantástica e estrelas em que acredito ver quem amo e já partiu. A noite é reconfortante
Publicar para quê?
Publicar para deixar. É uma prenda, um legado aos meus filhos. A memória escrita do que era a alma da mãe. Só isso.
Mensagem para o dia da apresentação
Quando um tudo-nada chega…
Como quem sacia a sede
No livro, o conjunto de textos que escolhi não pretende ter principio nem fim. Não tem continuidade, nem um fio de ligação, propositado.
Dá ao leitor a possibilidade de saltar de texto em texto de acordo com a vontade, como quem tem vontade de beber um copo de água… E sacia a sede.
No fundo são pequenos fragmentos de vida. Momentos sentidos, vividos por gente vulgar que cada um pode projectar dentro de si. Na reflexão que pode fazer, depois da leitura ou do copo vazio.
Foram escritos ao longo do tempo e ao correr das emoções sentidas nos outros ou em mim, no confronto das coisas. Foram Guerra e foram Paz. Poesia e Prosa. Aconteceram. Estão aí.
São palavras que o coração dita, sem voz e a razão regista, sem alma. É o abraço cúmplice dos dois que lhes dá vida e os faz ser o que são. A memória de quem sente.
São só água. E é quanto chega a quem tem sede. E um gole mesmo pequeno, sacia.
A nascente, está lá.
Índice
O músico 7
Alma enorme 8
As nossas conversas 9
Os sonhos 10
Contrabando 11
Pedras 12
Se fosse chão… 13
Ás vezes mando no tempo! 14
Quando... 15
Onde foi que nos perdemos? 16
Estrangeiros 18
Sei como é! 19
Um dia 20
Mundos alheios 21
Frágil 23
Não me apetecem despedidas 24
Paragem obrigatória 25
O tempo da planura 26
O sabor das palavras 27
O pedido 28
Tenho saudades de ti 29
Porque o mar lhe metia medo 30
Em segredo 31
Ainda não 32
Há coisas assim 33
Falar, declarar… 34
Como um girassol 35
Os olhos não pensam 36
Ás vezes 37
Suspensa 38
A lista 39
Escada para o céu 40
Escuto-me aqui 41
Seria em ti o princípio 42
Não 43
Sei 44
Nunca 45
Coração imperfeito 46
Nela 47
D’Amizade 48
Em mim, um céu… 49
Correm rios 51
Ar(a)mada 52
Sonho no sono 53
Distância 54
Vadio de mim 55
Viagens 56
No dia em que banirem as memórias 57
Num dia que está para vir 58
Estar... Não estar 59
O peso de se ser amado 60
Prisioneiro duma janela 61
Pudera eu voar! 63
Despedida 64
Fa(lan)do em ti 65
Sou peneira 66
L’étonnement 67
Já não me doem as palavras 68
Pés nos pés 69
A minha infância 70
O vazio 71
Encostada 72
O teu sabor 73
Sono vadio 75
Casulo 76
Coisas pequenas 78
De que são feitos os sonhos 79
Momentos 80
A carta 81
A casa 83
Ensaio 84
Paixão 85
A caminho 87
Em desnorte 88
Quando um tudo-nada chega 89
E se o amanhã não se cumprir... 90