O texto breve da Editorial 100
Director: Diego Martínez Lora
André Benjamim 05/12/07
Prometeu
Prometeu levanta-se todos os dias às sete horas, mais ponto menos ponto. O
despertador toca e ele estica o braço resignadamente, como uma máquina
esforçada, com as engrenagens empenadas e a precisar de óleo. A mulher fala-lhe,
mas os seus ouvidos sonolentos apenas conseguem aperceber-se de um longo zumbido
que se prolonga de um dia para o outro. Lava-se, veste-se, dá um beijo aos
garotos ou passa-lhes a mão sobre a cabeça. Diz qualquer coisa que ninguém
entende, mas ninguém questiona: não consta que seja algo novo que não tenha já
sido dito antes.
Sete horas e trinta minutos, um pouco mais ou um pouco menos, e está a sair de
casa. Desce as escadas que o prédio tem elevador, porém está fora de serviço:
olha-o com inveja. Roda a chave na ignição, mas o automóvel, que de automático
nada tem, como o dono deseja não arrancar. À terceira ou quarta tentativa lá
vai. Pela estrada fora, devagar, a cada quilómetro mais devagar, que as filas da
cidade estão-se a aproximar, a cada quilómetro mais lentas. Cogita apenas no seu
lugar no estacionamento. Estará desocupado. Nas traseiras daqueles apartamentos,
pensa, é uma sorte mais ninguém ter ainda reparado.
Entra no escritório. Papéis, rabiscos, afazeres sobre a secretária. Liga o
computador. Pensa nos tristes operários da linha de montagem. Pensa sempre
neles, para pensar depois para si mesmo que tem alguma sorte. O ordenado dá para
grandes coisas, afinal, reflecte, dá para pagar as contas que não são nada
pequenas. Nos minutos em que se dá ao prazer de não ter nada que fazer sonha com
umas férias, um momento de sossego, um jantar especial com os amigos ou a
família; em alguns momentos de maior extravagância chega mesmo a pensar em mudar
de casa.
E assim passam as horas, todos os dias que passaram e aqueles que ainda
pretendam vir. Se não vierem, às vezes pensa que se não viessem... Mas inibe-se
de pensar o resto. E a mulher? E os filhos? São só dois!, mas que despesas!
São seis horas quando sai do trabalho. A filha está na explicação; o filho na
natação. De manhã é a mulher que os leva à escola; à noite, ou à tarde quando os
dias são mais solarengos, compete-lhe a ele a tarefa de os ir buscar. Lá para as
oito, se se despachar, chega a casa. Ainda a tempo de ver o noticiário: mortes,
guerra, desemprego, futebol, e política. Está farto de os ouvir, a todos! Há
quanto tempo andam sempre a dizer as mesmas coisas, de outra maneira, para
parecer que mudámos, questiona-se. Já não tem pachorra e está cansado. Janta, e
o jantar traz-lhe uma nova esperança. De barriga confortável, senta-se no sofá e
estende as pernas para a mesinha que está no centro. Suspira de alívio. Por um
instante sente-se livre. Vai dormir, que amanhã será outro dia. O mesmo dia.
Prometeu sente uma ligeira angústia que logo, logo se despacha a afastar. Até
amanhã, diz para a mulher. Na voz nota-se uma inquietante tristeza. Que tens,
pergunta a mulher. Que havia de ter, questiona Prometeu, mas apenas para si; à
mulher responde: nada, amanhã é outro dia!
(*)André Benjamim, escritor português. Publicou pela Editorial 100: Os Cadernos secretos de Sébastian.
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