O texto breve da Editorial 100
Director: Diego Martínez Lora
Adelaide Calheiros 25/06/09
OS ABUTRES E PASSARINHOS
Lá no trono celestial onde olimpicamente repousavam sempre que não eram chamados a intervir com a sua douta sabedoria, os abutres sentiam-se terrivelmente cansados, saturados de tanta inércia até porque naquele privilegiado local havia a interdição de fumar.
O ar estava quase irrespirável, nuvens escuras prenhes de chuvas muito quentes, a escaldar, ameaçavam submergir tudo e todos, a Natureza inteira. Os abutres sentiam-se nervosos, ao mesmo tempo ameaçados e inquietos como se farejassem um perigo latente a avizinhar-se e isso, paradoxalmente, dilatava-lhes os olhos aquilinos e obrigava-os a, mesmo sem querer, afiar as unhas na doçura dos veludos ou na macieza da pele das poltronas e dos sofás.
Observação: por mera curiosidade e não por instintiva vontade de imitar. Naveguei na Internet e fui ao encontro de um site com o título deste meu texto. Senti-me envergonhada. Frustrada, perante a minha falta de imaginação ou presença de esquecimento latente que me olvidou os históricos momentos revolucionários do 25 de Abril traduzidos em músicas de intervenção cantadas por jovens barbudos com certo ar sinistro.
Assim, resolvi arrepiar caminho antes de ser acusada de plágio ou coisa semelhante. Acho por bem desistir deste assunto que com o seu pico aguçado. E escondido de maledicência gratuita poderia afectar muita gente.
Mas, mesmo assim, não resisto à tentação de provocar, lançando uma pedrada no lago parado da medíocre monotonia nacional. Em vez de abutres vou apelidá-los de pescadores à linha nas margens confortáveis de rios viscosos, bocejando com indisfarçável aborrecimento, à espera que peixes gordos ou médios possam alimentar a sua fome de mediatismo radiofónico, televisivo ou de imprensa escrita.
Outra observação: em vez de «apelidá-los» aquele «los», refere-se com o devido respeito, aos analistas, politólogos, fiscalistas, comentadores, constitucionalistas, etc. Da nossa praça que, com intuição ou sem ela, nós aceitamos como baluartes da verdade acima das nossas dúvidas para nosso aparente sossego.
Propositadamente não citamos os jornalistas, classe simpática de uma maneira geral, mas temida duma forma particular quando se trata dos perigosos paparazzi que não são pescadores à linha mas aves omnívoras cuja missão é sustentar os grandes lobbies que protegem a sua subsistência de pão-nosso de cada dia. Os jornalistas são uns heróis que se sacrificam de uma forma impressionante no cumprimento dos seus deveres profissionais num espírito de missão, relegando a família para segundo plano, sofrendo privações, torturas, vexames, raptos, mortes, calúnias…Tudo isto a troco de uma glória efémera de citações esporádicas nos seus jornais ou discretos enterros com palmas e flores de amigos do mesmo ofício que acompanham a viúva e filhos numa patética e solidária compostura como se todos fossem uma família.
Os jornalistas são assim: mesmo que atraiçoados, a dedicação ao mister que escolheram está acima de tudo. São uns passarinhos que se embriagam de uma forma quase pueril na aura, no perfume daquilo que escrevem mesmo que se trate de relatos secos, trágicos, ou desinteressantes Não são. Abutres nem pescadores à linha: são heróis.
(*)Adelaide
Calheiros,
professora e escritora portuguesa. Mora actualmente em
Santo Tirso. Publicou Folhinhas de Almanaque e Caleidoscópio
(Histórias Reais do Quotidiano).
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