O texto breve da Editorial 100

Director: Diego Martínez Lora


Adelaide Calheiros   06/07/09 

Uma viagem ao México

 

A história passou-se entre o Gaspar, o Ramiro, o Diógenes e o Cláudio Tostas. Todos um grupo de bons rapazes, estudiosos, sensatos e sem cabedais de dinheiros nos bolsos ou em hipotéticas contas bancárias dos pais.

Conforme a já anunciada informação dos seus nomes, eram respectivamente de Portimão, Viseu, Castelo Branco e Aveiro, vivendo fraternalmente numa modesta pensão a que antigamente se dava o nome de república e hoje se conhece pela designação de residência (nada de confundir com residencial por causa das alcavalas do fisco),

Amigos fixes, partilhavam os seus segredos em que curiosamente não apareciam reais ou virtuais romances de amor por raparigas de bom porte e bonita presença ou mulheres de ocasião. Ultimamente as suas preocupações e conversas incidiam no projecto de uma viagem aos continentes centro ou sul-americano, propriamente ao México.

Diógenes era o tesoureiro dos dinheiros que guardavam numa caixa de lata em esconderijo à prova de assaltos. Todas as noites contavam o dinheiro amealhado à custa de cedências e privações. O monte de moedas crescia e transformava-se em notas.

Ao cabo de três anos de aforro conseguiram na Páscoa de 2009 embarcar-se para o México, suprema aspiração dos quatro estudantes.

Viagem que, por motivos vários e contraproducentes, lhes ficaria gravada na memória. Foi com a maior emoção que fizeram a travessia aérea do Atlântico a bordo de um super-boeing, recostados em soberbas poltronas, saboreando comidas e bebidas exóticas servidas por graciosas e elegantes hospedeiras, suecas loiras que fizeram um impressionante contraste com as morenas nativas beldades de sorriso luminoso e olhar incandescente que, pela primeira vez, acordaram sentimentos desconhecidos nos corações dos quatro pacatos rapazes. A vida é bela! Lançaram-se então com a maior alegria e entusiasmo em pleno gozo de umas férias delirantes, vertiginosas, cheias de surpresas imprevisíveis.

Mas, por amor à verdade, é forçoso dizer que mesmo que perdendo o coração com as ardentes muchachas não perderam a cabeça, por incrível que possa parecer. Aliás as moças eram generosas, em troca de momentos de ternura e inocente e sábia aprendizagem de intimidades, elas obsequiavam os nossos heróis com refeições deliciosas com sabores tropicais que derretiam os sentidos…Por outro lado, Diógenes, o tesoureiro, estava atento. Todas as noites faziam o ponto da situação, contando e recontando o dinheiro. A vida era bela1…

O único lapso talvez fosse o de terem esquecido os telemóveis no fundo das mochilas. Mas, mesmo assim, talvez não tivessem tomado todas as necessárias providências quem sabe lá… Deixemos estas considerações que nada têm de proveitoso ou de edificante.

Foi quando as comunicações sociais do mundo inteiro, as Media como agora se diz, accionaram as suas máquinas de emissão, recepção e de informação e despejaram sobre a vastíssima crosta terrestre a terrível e horribilíssima notícia da Gripe Suína.

Os jornais esgotaram rapidamente em tudo quanto era sítio, as farmácias esvaziaram as montras e prateleiras: - em tempo de guerra e de pandemias todos os medicamentos têm um denominador comum capaz de exercer uma acção profilática ou terapêutica a seu modo, penso eu.

A Terra encheu-se de gritos, clamores, lágrimas de famílias sentindo a desgraça a escolher as suas casas para estender o seu lençol de luto.

Mas os nossos inocentes rapazes nem se apercebiam da tragédia que se avizinhava a passos largos nem sonhavam sequer com a onda de pânico que alastrava no Algarve, na Beira Alta, na ria de Aveiro e nas faldas da longínqua serra da Estrela.Sucediam-se as novenas à Senhora de Fátima, a São Benedito, a Santo António e até ao recém – canonizado São Nuno de Santa Maria cuja assunção aos altares com um vasto rol de sangrentas pelejas atrás de si, ainda não era bem digerida peio povo conservador e provinciano das suas terras de origem Imaginavam – nos já nas vascas da agonia matando as febres com águas imundas servidas em copos de limpeza duvidosa.Na praia da Nazaré, por digna solidariedade, houve uma noite de vigília à luz de velas preenchida com cânticos sonoros e dilacerantes semelhantes aos emitidos pelas gordas baianas nas praias do Rio de Janeiro.

 

Entretanto a boa – vai-ela dos nossos amigos estava a chegar ao fim e de que maneira!... Certa manhã acordaram sobressaltados com fortíssimas pancadas na porta do seu apartamento de quatro camas com lindas janelas voltadas para o Golfo do México. Uma rapariga arrumadeira, pálida e desgrenhada, gritou-lhes que se vestissem e saíssem rapidamente porque uma grande desgraça caíra na terra mexicana.

-Fogo! - Gritou o Cláudio Tostas cheio de sono -estava a dormir tão bem! O que foi que aconteceu?

-Fogo! É fogo… -repetiu o Ramiro apavorado. Num ápice, viram – se no átrio do hotel com uma reduzida bagagem., entre gente de batas brancas. Impuseram-lhes uma profiláctica máscara na boca, injectaram-lhes qualquer coisa nos dedos e mandaram – nos para uma fila onde pontificava uma hospedeira aérea.

- Afinal, o que está a acontecer? Para onde nos levam? Para onde vamos?

- Para o aeroporto, vocês vão embarcar para Portugal - disse a hospedeira que tinha uns olhos e uma pele de índia.

No meio de tanta confusão e alarido, os nossos rapazes apreenderam finalmente que um vírus mortal o Hn1 (salvo erro, de quem quer que seja, aceito a correcção destas iniciais se estiverem inexactas). O dito cujo vírus HNU daria origem a uma mortal Gripe Suína. A viagem para Lisboa foi um pesadelo cheia de um terrível desconforto psicológico em que se embrulhavam as doces lembranças das festas e lânguidos convívios com as belas mulheres que lhes abriram as portas da virilidade, o facto de, na precipitação da partida, terem deixado no quarto do hotel quase toda a bagagem sem esperanças de a reaver, o remorso de nunca terem comunicado com os pais. Entretanto outros pensamentos heterogéneos lhes povoavam a mente. Por exemplo, Diógenes não se perdoava de não ter tido a prudente ideia de, naquela noite, guardar o dinheiro debaixo da almofada como fazia quase todas as madrugadas quando vinham das farras. Achava-se indigno de perdão na sua proclamada e elogiada situação de tesoureiro.

Ramiro racionalmente comparava as raparigas mexicanas com as atrevidas e nada doces raparigas algarvias. Seria que, utilizando os métodos agora aprendidos, talvez fosse capaz de as domesticar, em próximas ocasiões?

Gaspar pensava numa moça muito gabarola dos tempos do liceu que espantava os rapazes com o relato de eróticas proezas. Precisava de ter com ela uma séria e prática conversa, a sós, para testar os seus recentes conhecimentos.

O Cláudio Tostas, não sei porque repentina carga de emoção, tinha os olhos rasos de água e só visionava na sua frente barricas de ovos moles… Sentia uma infinita tristeza e ao mesmo tempo uma secreta ansiedade como se fosse morrer sozinho, abandonado por todos. E pela primeira vez, sentiu dolorosas saudades da família, principalmente da mãe. Como num sopro suavíssimo ouvia lhe a voz doce, longínqua, atravessando o céu e os mares: - Filhinho, Deus está contigo, não percas a coragem, a fé e a esperança…

Foi uma viagem de regresso sem qualquer encanto. Tinham saído do México pela madrugada, um sol rude, agressivo inundava os passageiros acordando-os de um sono cheio de sobressaltos principalmente devido ao uso das máscaras tapando-lhes a boca. Os nossos quatro viajantes, aterrados, encolhidos nas poltronas que desta vez não lhes pareciam da mesma qualidade, quase nem se falaram em todo o trajecto.

Mergulhados nos seus tristes pensamentos acharam a viagem muito rápida, sem graça. Cláudio Tostas dormia de boca aberta quando Ramiro, o algarvio, lhe deu um piparote no nariz, à laia de despedida, no aeroporto de Lisboa. Minutos depois (cerca de meia hora) os outros três saltaram no aeroporto de Sá Carneiro, atordoados, como se estivessem pisando um mundo novo, como se não fossem os mesmos indivíduos que dali haviam partido há cerca de doze dias. Tudo tinha mudado, o clima, a atmosfera, as gentes, a aerogare, as hospedeiras de pesados sapatos e ar militar…

Mas sentiram-se forasteiros, estrangeiros importantes perante a solicitude dos enfermeiros de coletes amarelos a fazerem-lhes perguntas e mais perguntas, secundados por jornalistas e cameras-men da televisão disparando flashes com uma rapidez incrível. (E zenite da glória!...) Foi quando rapariguinhas adolescentes lhes pediram autógrafos. Não se fizeram rogados, tanto o Cláudio Tostas como o Gaspar viveram em euforia aqueles momentos. Desta vez compreendiam a pose dos jogadores de futebol, direitos garbosos, elegantes, atravessando olimpicamente os aeroportos de todo o mundo.

 

Sempre saudados pelo público, foram conduzidos a um hospital onde os sujeitaram a um apertadíssimo interrogatório sobre intimidades e práticas sexuais. Interrogatório esse que os aterrou tanto ou mais do que os exames rigorosos a que foram submetidos. Estiveram internados sete dias em regime preventivo de isolamento. Quando voltaram para casa tinham perdido a magnífica cor bronzeada oferecida pelo clima tropical que os seduzira e marcara para sempre.

Entretanto a amizade dos quatro estudantes ficou reforçada por um juramento de oito mãos sobrepostas, como nos tempos medievais de cavalaria:

Nunca contariam a ninguém, família, professores, colegas ou estranhos aquela rocambolesca aventura que de certo modo lhes rasgou os véus duma pueril e recatada adolescência. E os precipitou no mundo misterioso, perigoso mas terrivelmente fascinante dos adultos…


(*)Adelaide Calheiros,  professora e escritora portuguesa. Mora actualmente em Santo Tirso. Publicou Folhinhas de Almanaque e Caleidoscópio (Histórias Reais do Quotidiano).


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