O texto breve da Editorial 100
Director: Diego Martínez Lora
Fátima Senra 10/07/09
BRANCO
Hoje encontrei-me na rua e vi-me entrar numa loja com vestimentas apenas de cor branca. Sem ter reparado ou ter visto estava em saldo sem o saber.
Vejo-me diante do espelho a experimentar todos os tamanhos e a tentar vilmente encaixar-me num maior que eu, mais adulto, ou reduzindo-me ao ponto de querer voltar a ser criança que veste as suas bonecas mas não ela própria. O branco in(seguro), puro, imaculado, virginal com que nascemos, mas sempre vazio como um livro por escrever ou talvez já escrito com tinta invisível que vamos queimando com o fogo da breve existência , ou apenas o instante em que se acende o fósforo, ou ainda sofrer combustão espontânea.
Será que o nosso Fado já estará escrito?
Porque motivo iríamos então aceitar algo que foi escrito pelos outros para nós?
Se Jesus Cristo escolheu morrer porque hei-de eu fazer o mesmo?
Porque motivo nos desafia lá do alto da cruz crucificado pedindo a nós humanos para crucificar-mos a alma?
Porque será o sofrimento dele maior que o meu?
Eu que morri sem ter vivido,
Eu que já sequei as lágrimas dos outros com as minhas,
Eu que já perdi o meu exército no meu imaginário campo de batalha,
Eu que já sofri xeque-mate no meu jogo de xadrez mental sem sequer ter jogado nenhum peão,
Eu que lutei comigo própria e mesmo assim perdi,
Eu que lutei contra o mundo sem este o saber,
Eu que sorri para Morte mas não ela para mim,
Eu que dormi de plena consciência com o meu inimigo,
Eu que (ou)vi o Mal bater à minha porta e abri sabendo quem era,
Eu que já não sonho porque a realidade se tornou minha agiota,
Eu que penhorei a minha alma como bálsamo para a consciência,
Eu que já não tenho moeda de troca,
Eu que vivi o meu Inferno e o dos outros,
Eu que não consigo criar um universo paralelo,
Eu que vivo numa torre maldita, num castelo cheio de fantasmas sem príncipe nem rei,
Eu que não conheci Pessoa pessoalmente mas ele (re)conhece-me a mim,
Eu que paguei as promessas dos outros sem ter cumprido as minhas,
Eu que lambi as feridas e dores alheias e esfreguei sal nas minhas,
Eu que morri sem ressuscitar!
Porque serão os gestos DELE mais significativos que as minhas Palavras?
Porque hei-de eu escutar as Suas palavras se ele não escuta as minhas?
Porque há-de ser Ele maiúsculo e eu minúsculo?
E tudo começa com uma questão:
Porquê EU e não TU?
(*)Fátima Senra Barcelos - (Outros dados sobre a autora?)
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