O texto breve da Editorial 100
Director: Diego Martínez Lora
Fátima Senra 11/12/07
O CANTO DO CISNE
Chegara demasiado tarde ao hospital. Recebera a notícia através de numerosos intermediários e de mensagens impessoais de telemóveis anónimos.
Caíra como uma bomba. O fulminante ataque já vinha a desenhar-se no horizonte. As constantes dores no peito que desculpava como maleitas do coração já prenunciavam uma desgraça iminente. O médico de “plantão” aguardava a família com ansiedade. Tinha treinado e aplicado o velho discurso várias vezes, por isso esperava safar-se para poder dormir uma noite tranquila. O vulto de uma pessoa já cansada da vida pedia explicações a toda agente que encontrava. Aproximou-se dela e olhando para os seus olhos inertes e raiados de sangue como um pôr-do-sol de final de Verão, a sua voz de estrangeiro começou a tremer enquanto explicava que o seu filho tinha sofrido um ataque e que os paramédicos chegaram tarde ficando o cérebro privado de oxigénio mais de cinco minutos. A mãe não percebendo o que aquilo queria dizer, vítima da sua própria fé, a mesma que o tinha salvo várias vezes, afirmou que já tinha ouvido histórias sobre pessoas que tinham ficado submersas mais de 20 minutos em condições de hipotermia e que sobreviveram. O médico continuava a tactear o terreno dizendo que nunca iria falar pois as áreas de Broca e de Wernick estavam seriamente comprometidas, que o cérebro tinha paralisado e que a medicação não resultava A mãe sempre expectante de que a história continuasse como um manual de Medicina, que não podia acabar ali pois todos os dias novas descobertas eram feitas, desdenhava-se em explicações pois o seu único filho era muito novo e saudável. Já só se ouviam os gritos lancinantes de uma pessoa anónima que procurava resposta às suas próprias retóricas como quem procura responder aos mistérios da vida. Aí o médico compreendeu que tudo tinha terminado. Não tinha nem nunca teria uma resposta suficientemente satisfatória para dar a uma mãe que acabara de perder a única coisa que dava sentido à sua vida.
Deitou-se de madrugada e adormeceu desejando que a escuridão passasse depressa embora sabendo que iria durar mais tempo que o sofrimento daquela mãe.
Esperou que o Ocaso chegasse. Este chegou de madrugada.
(*)Fátima Senra Barcelos - (Outros dados sobre a autora?)
Editorial 100 -
Compacto e tacto - Versiones Virtual -
100 palavras