O texto breve da Editorial 100
Director: Diego Martínez Lora
Pedro Santiago 03/04/09
INVISIBILIDADE
Lá estava eu, acabado de acordar para outro dia, condenado pela minha superioridade. Era invisível. Todos os dias me lembrava e em todos tentava evitar que os meus pensamentos continuassem a correr para a ideia de nunca ter bebido aquele líquido translúcido que me sentenciara a uma vida só e isolada, inútil. Para além da transparência, também era “imune” ao frio, calor e texturas, o que me permitia repousar em qualquer espaço físico, mas que me privava de viver como qualquer outra pessoa.
Os dias eram todos iguais, sabia que quando adormecia, o dia seguinte seria tão solitário como o anterior.
Durante os dias, pensava enquanto caminhava sem destino, pensava nos episódios que aconteceram anteriormente. Lembrava-me das injustiças que via e que não conseguia mudar – mentiras a que assistia, traições. Também era meu hábito, aproveitar a entrada das pessoas nas suas casas para entrar também, e assistir a cenas do quotidiano, como o jantar, que me refrescavam a memória dos tempos em que tinha a possibilidade de fazer o mesmo.
Um dia tentei morrer, na expectativa de acabar com aquele cruel pesadelo que me atormentava há longos anos. Saltei de uma ponte. Nada senti até à entrada rápida pela água – “ o feitiço quebrou-se” com o confronto com a morte. No instante seguinte ao embate na água não vi nada, e no momento posterior vi uma luz, umas mãos retiraram-me de onde repousava, os meus membros eram pequenos. Nasci noutro corpo, pensei eu, depois esqueci-me de tudo o que vivi antes deste nascimento.
Estava preparado para outra vida como frágil mortal.
Pedro Santiago,
15 anos. Estudante.
Reside no Porto.
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