VERSIONES

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Versiones
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Texto: As mãos verdes  Autora: Adelaide Calheiros (Portugal)
Data: 08 - 07 - 2009


Adelaide Calheiros(*)

 As mãos verdes


AS MÃOS VERDES

 

Nosso Senhor criou cada um de nós com certos talentos e dons. A uns, deu a boniteza, a outros a esperteza saloia, a outros, a generosidade simpática, a outros, a voz para cantar ou para falar bem, a outros, a sedução dos encantadores de serpentes capazes de enganar com seriedade meio mundo. A outros, a leveza de pernas e pés para dançar, a outros as mãos habilidosas para a pintura, costura, culinária, doçaria. A outros, a faculdade de dormir sem pesadelos ou de aturar horas a fio crianças, queixumes, histórias sem interesse sem morrer de tédio. A outros, as mãos verdes … Tudo comandado pelo centro maravilhoso que é o cérebro. E também pelo coração.

…Em casa da minha mãe-madrinha *, ela ia ao jardim e fazia um enorme ramo das flores que lá existissem, incluía-lhe invariavelmente galhos de alecrim, tão perfumado! E, enquanto vinha pelo passeio abaixo, arrancava algumas folhas para tornar o ramo menos basto, chegava à cozinha, enchia de água a primeira jarra que lhe aparecesse, pegava no ramo e zás! Enfiava-o lá dentro e geralmente dizia com muita, leve e sábia graça: - Pronto, já estão onde devem ficar, agora que se ajeitem e se entendam umas com as outras … Era sempre assim.

Não sei porque artes ainda hoje, tantos anos passados, me sinto intrigada: as flores, como se por tácita cumplicidade, «ajeitavam-se» mesmo num bouquet artístico e durante dias e dias eram o enlevo da sala onde pontificavam como rainhas. (A minha mãe-madrinha, disfarçadamente, juntava-lhes todos os dias uma colherzinha de açúcar)

Tentei várias vezes fazer a mesma coisa com a mesma destreza e os ramos saíam-me vassouras mal amanhadas, quanto mais eu as compunha, mais e mais elas se desengonçavam. Queixava-me secretamente mas a minha madrinha adivinhava a minha decepção: - Não tens mãozinhas simpáticas para as flores, as flores gostam de mãos que falem com elas…

… Por aquelas voltas e reviravoltas de que a minha vida é feita desde que nasci - será que vai ser assim até morrer? … - Vi-me uma vez a passear por fabulosos países da Europa Central numa animada excursão de gente com palmarés de viagens. Empurraram-me porque ninguém se faz e os traumas pesam muito na balança da psique quer queiramos quer não. Assim, empurraram-me porque eu estava outra vez na estaca zero do desânimo, do stress depressivo. Arrastaram-me e eu fui Maria vai com as outras e tudo decorreu bem.

Assim, em Budapeste, acompanhei um casal, Sr. Adão e a D. Eva, de algures que não interessa.

Contaram-me a forma original como se conheceram para estarem num casamento há 35 anos com filhos casados e netos. A D. Eva era uma boneca bonita, de gosto por vezes audacioso, que pela simpatia irradiante se tornava vistosa, toda combinada tom sobre tom: roxo, lilás, rosa, azul, cinza desde as roupas, unhas, rosto e sombra dos olhos… O Sr. Adão era o protótipo do novo--rico bondoso, bonacheirão, bem lançado na vida, de volumosa carteira recheada, riso aberto, contando como trabalhava durante a semana como «cavalo da tropa».

Durante esse mês de Agosto já tinham estado na China, em Palma de Maiorca e agora connosco em Munique, Innsbruck, Salzburg, Viena de Áustria, Bratislava, e Hungria …

O Sr. Adão com o curioso e brejeiro talento de, no meio do silêncio atento dos visitantes, cortado pela voz dos cicerones num português brasileiro espanholado, ser capaz de soltar piadas bem encaixadas que os mais sisudos censuravam com olhares irritados e outros apoiavam com sorrisos mal contidos.

Naquele passeio pelas longas e larguíssimas avenidas de Budapeste a renascer das cinzas do Comunismo, o casal Adão e Eva não parava a ver montras como habitualmente todos nós. Procuravam floristas, lugares de venda de sementes, de hastes de roseiras com botões de cores esquisitas. O Sr. Adão comprava de tudo. Era vê-lo feliz como um alegre jardim ambulante.

Eu, a certa altura, perguntei-lhe:

- Diga-me, é para levar tudo isso para Portugal? São tantas as coisas com bagagens e tudo…

- Qual o quê! Vai tudo, nem que eu tenha de comprar mais outro malão! …

- E depois lá? …

- Tudo pega! Eu trouxe plantas de Cuba, do Canadá, do Brasil, do Norte de África, tudo pegou! Tenho um jardim enorme a rodear a nossa vivenda! Cheio de plantas que fazem a admiração de toda a gente. Ó Evinha estou ansioso por ver se aqueles bolbos da Tailândia deram alguma coisa… Tenho a certeza que sim…

Piscou-me os olhos com um sorriso afectuoso e matreiro:

- Sabe? … Nasci com as mãos verdes…

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* Ambrosina dos Prazeres (1884-1981)

 


(*)Adelaide Calheiros,  professora e escritora portuguesa. Mora actualmente em Santo Tirso. Publicou Folhinhas de Almanaque e Caleidoscópio (Histórias Reais do Quotidiano).


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