texto breve de VERSIONES

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Versiones
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Texto: Sem nome e outros poemas

Autora: Ângela Marques
Data: 02 - 10 - 2007


Ângela Marques:
Sem nome e outros poemas


Sem nome

(para a Sara e a Inês)

 

há um amor

todo assim

feito de pedacinhos

abrigados no útero,

um amor

sem nome

que ri e que chora

que magoa e que lambe

 

há um amor

que é de

mãe terra água

sem princípio

nem fim


 

PERDIGÃO PERDEU A PENA

 

periódica

e temporariamente

esgota-se-me a pena lírica

por via do ruído

ensurdecedor

que entra despudoradamente

pelas janelas do meu quarto

dir-se-ia o estilhaço de uma bomba no Iraque

ou um grito perdido no tsunami

 

vai-se a pena lírica

vem o teclado pós-moderno

dum Toshiba qualquer

e já não há Perdigão

que sobreviva

 


                                       (à memória de Jacinto de Magalhães)                               

 

 

Aquela é a casa

Que me tem cativa

E porque nela vivo

Já não quer que viva

 

 

A casa que escrevi

Quando apenas sonhei

Que era rasa (redonda, disseste)

Envolta de água

E de barcos chãos

Baloiçando no horizonte vermelho

Mas não de sangue.

 

Branca por fora

Tão branca como a cal

Do Eugénio

Tão pura como as cantigas de amigo

Uma casa escrita com palavras

A cheirar a relva molhada

Que se apoderou de mim.

 

Ficámos em silêncio

A ouvir os ruídos da terra

De olhos fechados

Apalpando o vento

Desenhando corpos nus

Nas nossas mãos de esculpir

Afectos inefáveis.

 

Uma casa com perfume de versos

E de lenha

Com perfume de vinhos

E de tintas de óleo

Plena de risadas e de lágrimas

Que percorro

Indefinidamente.

 

 

Esta é a casa

Que me tem cativa

E porque nela vivo

É força que viva.

 


 

Aparecida

Parecida

Com a vida que a pariu

Fugiu no rasto da luz

Que luziu

Onde o sol se apaga

Nesta vaga

Que deflagra

No rosto de um poeta

Alfa e beta

De cometa

Perdido no universo

De um verso

Branco e preto

Assim rezo por vós

Com os laços e os nós

Que afundam meu barco

 


Ainda é tempo

De salvar as buganvílias?

 

Quando os crucifixos

Caíram, sem mostras

De indignação,

As cidades ergueram

As portas contra

Poetas e vagabundos

Os leitos dos rios

Se recusaram

A encaminhar as águas

 

Onde procuram

Um grito de dor

De revolta,

De desobediência

 

A não ser no recanto

Mais evidente

Das cidades bombardeadas?

 


(*) Ângela Marques, Porto. Publicou Confissões dispersas pela Editorial l00. E em breve aparecerá Cursos de água


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