texto breve de VERSIONES

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Versiones
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Entrevistador: DML

Entrevistada: Ângela Marques
Data: 16 - 11 - 2007


Entrevista a Ângela Marques (a propósito da publicação de Cursos de Água pela Editorial 100, 2007)


 

A poesia dos outros

 

Poesia dos outros. É suposto ser a dos outros poetas. Mas também a daqueles que, não publicando, são poetas na forma de vida. E essas duas categorias me tocaram e continuam tocando.

Os poetas que li desde cedo têm todos o seu cantinho na minha vida. Os que não têm é porque não são poetas. Apenas escrevedores. Comovo-me até às lágrimas com as cantigas de amigo, com Camões e com Eugénio de Andrade. Dizendo estes, digo todos os que lhes estão pelo meio. Não os escolhi por acaso, claro. Há também muitos de outras línguas.

Quanto aos que não li, mas ouvi, ou apenas vi, foram muitos também: crianças ou velhos quase sempre, e ajudaram-me a crescer. E há dois grandes poetas, nesta categoria, a quem devo quase tudo. Ausentes, mas no entanto presentes: os meus pais.

A poesia do meu pai, expressa em traços, e tintas, em quadros por pintar e a da minha mãe preciosamente elaborada em cada peça de roupa que fazia, que muitas mulheres usaram como verdadeiras obras de arte.

 

A minha poesia nos outros

 

Nos que me lêem, suponho. Vou recebendo, de longe a longe alguns ecos do “impacto” que a minha poesia tem nos outros, que ao lerem se tornam também poetas. É esse eco desinteressado, ocasional que me surpreende e me deixa um sorriso no coração. Dá um sentido ao que escrevi, significa que valeu a pena. Não pretendo mais nada do que isto.

 

Poesia: Deixar de viver ou Viver ainda mais?

 

Deixar de viver, apenas quando tiver que ser. Não sei se é possível viver mais ou menos, em termos qualitativos. Tudo é tão relativo.

Para mim a poesia é uma forma de viver. E nem sempre tem de passar pela poesia escrita. Pode também ser aquela que é “apenas” vivida.

 

O diálogo da solidão

 

Eu sou só. Já o disse repetidas vezes e de maneiras diferentes. Por vezes sinto essa solidão como negativa, ou melhor, em alguns momentos da minha vida senti (e posso ainda vir a sentir, não sei) essa solidão como negativa, dolorosa de suportar. Mas ao mesmo tempo há uma outra solidão que me é intrínseca, visceral. Que eu própria alimento, construindo minuciosamente uma espécie de balão em torno de mim, que me permite vaguear por aí, apenas comigo, tão vária que me basto a mim mesma. E o meu falar comigo nunca é monólogo, mas sim diálogo. Como em teatro, o monólogo também nunca o é verdadeiramente. E a minha vida, assim como é Poesia, também é Teatro. Ainda que tal possa ser muito mal interpretado.

 

não quero dizer
a dor que sinto
nem a outra que finjo

não quero dizer
a dor que o leitor lê
nem aquela que julga que sente

não quero dizer
a dor carregada
de literatura

quero antes dizer
a dor que é só dor
e que simplesmente
rima com amor.

 

Confissões dispersas e Cursos de água

 

Da publicação de Confissões dispersas até à de Cursos de água decorreram 3 anos. Esse tempo não corresponde ao tempo decorrente entre os poemas constantes em cada um dos livros, pois que o primeiro contém textos dos anos 80 e 90 e o segundo tem poemas escritos entre 2000 e 2005. E ainda assim muitos são os poemas que ficam pelo caminho, ou casualmente publicados avulso.

Confissões dispersas resultou de uma necessidade de colocar em livro um conjunto de poemas já ultrapassados, mas que me incomodavam na gaveta porque a necessidade de partilhar com outros aquilo que escrevia se tornava urgente, ao fim de muitos anos, pela primeira vez. Mas não me fazia qualquer sentido começar em 2004 com coisas recentes.

Depois havia a intenção de tornar mais regular a publicação e sobretudo mais próxima daquilo que ia produzindo. No entanto, circunstâncias várias, de ordem pessoal e de carácter editorial impediram que em 2005 tivesse publicado Cursos de água. Mas o livro estava pronto, estruturado e não podia passar por cima dele. Isto é, o que escrevi entretanto não me parece poder sair a lume sem que primeiro me liberte destes Cursos. O que significa obviamente que tenho material e o maior interesse em continuar a publicar. Não me preocupam as reacções críticas, não penso sequer que o que escrevo tenha algum lugar reservado na cátedra da Literatura. Trata-se apenas de um acto pessoal, de prazer e exercício de liberdade em que o meu “eu” poético necessita de uma forma de encontro e diálogo com o “leitor” anónimo, mas concreto. Aquele que me encontra por acaso, aquele que pode apenas sentir-se tocado por um ou dois poemas, mas que basta para justificar o que escrevo. Mais do que justificar, dar-lhe uma dimensão de autonomia, de coisa já não minha. De quem quiser apoderar-se destes pedaços de poesia.

 

Poesia para curar a dor ou a tatuar? Poesia agonia. Poesia como ferida aberta ou como cicatriz.

 

Não consigo sentir ou pensar a poesia como curativo de coisa alguma, muito menos da dor. Aliás a dor não é para ser curada, mas vivida e assimilada. Por isso gosto da tatuagem, sim. Fica a marca indelével, ajuda a não esquecer. Tal como as rugas da cara de um velho são a sua tatuagem, as marcas do tempo que passa e não pode nem deve ser apagado com nenhuma espécie de “lifting”. Gosto das brancas, das rugas, das cicatrizes, de todos os sinais exteriores de velhice… a tatuagem veio trazer novas possibilidades que no momento me agradam. Se algum dia deixar de as apreciar, terei que conviver com o facto de ter tido um momento da minha vida em que pensava de forma diferente. Apenas mais um, entre muitos outros.

 

O espaço, projecção do Eu

 

Invólucro do Eu. O tal invólucro que me isola, mas também pode abrir-me para o exterior.

Preciso, no entanto, de o cuidar como se fosse um jardim. Com as plantas e as flores de que gosto, com adereços, com as minhas memórias tornadas objectos. Um útero que me contém, aconchega, protege. Até de mim, quem sabe.

Esse espaço tanto é a minha casa, como é o mar. Seja ele quieto ou revolto é também o meu espaço de eleição, onde me sinto tão aconchegada como no interior da casa.

 

A intensidade de escrever - a fraqueza de viver

 

Há um neologismo “escre(vi)ver”, que já não lembro onde li pela primeira vez, que há uns largos anos atrás me agradaria usar, para falar acerca desta dualidade possível: a escrita como intensidade opor-se-ia, ou não, à fraqueza de viver. De momento, no entanto, os contrários já fazem parte de mim, a ponto de não ficar muita vontade para divagar acerca de jogos de palavras e/ou conceitos. Parece-me importante apenas sublinhar o tom romântico desta dualidade, no sentido da história literária. Mas será que nos libertámos nós do Romantismo?

 

Poesia - Terapia – Arte

 

Não gosto desta associação. Embora todos saibamos que a arte, a criação artística, aparece por vezes como terapia e até como sinal de resolução de um processo analítico, por exemplo. Não digo que não seja. Não digo até que não possa também ter já sido, para mim. Mas não mais agora.

A poesia, ou outras formas de arte são essenciais à vida. Ou melhor, intrínsecas à vida.

Sejamos nós “criadores” ou fruidores.

 

Poesia: Possibilidade do amor como esperança de morte

 

A formulação da “possibilidade do amor como esperança de morte”pode remeter muito para Bataille, mas em mim, na minha poesia vai surgindo como indicador de amadurecimento, de aproximação do essencial, de procura da singeleza. E nessa busca, em vez de Bataille, eu prefiro chamar aqui uma citação de Rilke que acabei de receber no e-mail de uma amiga muito especial e querida: “Amor são duas solidões protegendo-se uma à outra.”

Quanto à morte creio que ela vem perdendo tudo o que tinha de muito teórico, muito racional ou inteligível, talvez, no que escrevi para se ir tornando cada vez mais natural, mais próxima, mais vivida. Por isso cada vez mais simples.

 

Publicar para quê?

 

Serei talvez curta e grossa: publicar é um acto tão higiénico como defecar. E também um acto de prazer solitário, apesar de tudo, porque um regresso a uma fase anal, quase sempre encerrada na infância, por força da socialização.

De qualquer modo, tenho bem claro para mim de que cada caso é um caso. Portanto o que disse aplica-se a mim. E a este momento. Amanhã talvez dissesse outra coisa.

 

Mensagem para as pessoas presentes no dia da apresentação

 

Mon Dieu!!!!!! Cada vez menos acho que tenha o que quer que seja de interessante para dizer às pessoas. Portanto, espero que tenham algum prazer na leitura e que se tal não acontecer tenham a coragem de deitar fora o livro, ou de o reciclar, para ser mais politicamente correcta, que é coisa que não gosto de ser.


(*) Ângela Marques, Porto. Publicou Confissões dispersas pela Editorial l00. E em breve aparecerá Cursos de água


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