VERSIONES (renovada)
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Texto: Costumes religiosos, usos pagãos - Autora: Assunção Senra (Portugal)
Data: 21 - 02 - 2006
Assunção Senra(*)
Costumes religiosos, usos pagãos
Era uma aldeia localizada num pequeno vale. Nela habitavam não mais que 200 pessoas de aparência pacata, fechadas e avessas a novidades do exterior. Sim, porque dentro dessa comunidade todos se conheciam e sabiam ou achavam que sabiam os problemas de cada um.
As casas situavam-se distantes umas das outras mas apesar do isolamento providenciado pelos enormes campos de cultivo as notícias espalhavam-se depressa.
Depois da missa dominical, celebrada por um padre de idade já avançada e um pouco surdo, as pessoas reuniam-se no adro da igreja e conversavam durante horas. Os temas eram fornecidos pela coscuvilheira local que por acaso era a criada do padre. Dada a surdez do padre as confissões eram quase públicas pois este repetia em voz alta praticamente tudo que lhe diziam. Isto era um privilégio para a D. Mazela, a criada. Conhecia a vida íntima das novas, os problemas conjugais das casadas e as artimanhas masculinas. Daí que nunca nenhum homem a tivesse “agarrado”, gabava-se ela da sua pureza! As pessoas temiam-na pela sua língua. Se não gostava de alguém podia inventar qualquer coisa, enchia os ouvidos do padre e este com o seu vozeirão e do seu púlpito abalava as paredes da igreja nas suas práticas dominicais contra “essas desavergonhadas sem pudor”.
Mas as crianças da catequese eram o pior inimigo da D. Mazela. Corriam atrás dela, pregavam-lhe partidas, infernizavam-na. O Luisinho era o mais atrevido, acreditava que esta senhora era uma bruxa. Um dia ouviu dizer aos mais velhos que se alguém levasse um grão de milho-rei para a missa, durante a Consagração do Santíssimo, todas as bruxas se levantariam e sairiam porta fora. Nunca ninguém o tentara pois acreditavam que as bruxas, dada a sua clarividência, descobriam o autor e por certo tentariam represálias.
O Luisinho não era crente nisso e resolveu desmascarar a bruxa Mazela. Ao lado da sua mãe, aguardava ansiosamente o momento com o grão de milho no bolso. Chegada a hora, olhava para todo o lado para ver quem se levantava. A mãe vendo tanta falta de educação deu-lhe uma bofetada na cara. Não queria que dissessem que o seu filho não prestava atenção na missa e de modo nenhum queria escutar o padre, na missa do próximo domingo, a pregar sobre certos rapazes mal-educados.
Verdade ou coincidência, a D. Mazela começou a ficar inquieta. Tinha comido uma feijoada e esta caiu-lhe mal. Sentia-se muito mal dos intestinos e precisava desesperadamente aliviar-se. Tentou esperar mais mas não conseguiu, na pior hora desatou a correr pela porta fora. Todos viram, inclusive o Luisinho.
Pouco tempo depois a D. Mazela voltou a entrar, já mais corada, mas decidiu ficar à entrada.
Terminada a missa, todos saíram. A D. Mazela ficou mais um pouco para compensar o Senhor. Quando saiu, estavam todos no adro e voltaram-se para ela. O Luisinho sem nenhum agastamento desata a gritar:
- Bruxa má, bruxa má!
Todos começaram às gargalhadas ao verem a criada fugir para a residência paroquial.
Mas, as verdadeiras bruxas estavam entre eles. Estas se protegiam destes males usando saquinhos de ervas doces, como hortelã e arruda, bem chegados ao peito.
Era tempo de eleições na terra, os candidatos colocavam cartazes em todas as ruas fazendo a sua campanha. O candidato da oposição fez a promessa eleitoral de expulsar a D. Mazela da terra logo que fosse eleito. Conseguiu atrair as atenções.
Mas, ao domingo, o padre proclamava:
- Andam por aí uns comunistas a tentarem destruir as estruturas da nossa igreja!
Durante a noite os rapazolas do café dedicavam-se às artes. Desenhavam bigodinhos, corninhos e óculos de largos aros nos cartazes do candidato ainda em exercício.
As noites eram bastante agitadas, para uns. Para outros tornava-se difícil realizar o seu ofício, como à D. Adélia, viúva de grande reputação que recebia secretamente alguns maridos respeitosos em sua casa.
A D. Mazela estava preocupada com o seu futuro, no entanto, uma mudança ia acontecer no dia em que o candidato da oposição apareceu na confissão.
Ajoelhou-se aos pés do padre, benzeu-se e o padre perguntou:
- Então, meu filho, que pecados tens?
- Padre, roubei um caco de goivos de cima de um muro!
O padre surdo exclama:
- Um bácoro, um boi e um burro? Estás condenado!
- Não! - dizia o homem – um caco de goivos de cima de um muro.
Mas, palavras soltas não se voltam a apanhar e a D. Mazela que estava à escuta começou a sua campanha de difamação em conluio com o actual presidente de junta.
O candidato da oposição precisava de conselhos. Conhecia alguém que lhos podia fornecer, alguém que via para além das coisas.
Esgueirou-se pelo meio dos terrenos de milho e foi ter à casa da Sra Teresa. Chegado lá contou-lhe o que pretendia fazer. Esta disse-lhe:
- Vai pedir ajuda ao último homem que sai da igreja na missa de domingo.
O candidato assim fez. Contudo, durante a noite não aguentava os remorsos. De manhã bem cedo, foi à missa e encontrou o homem. Ao ouvido murmurou-lhe:
- Olhe, sobre aquele assunto, esqueça o que lhe pedi.
- Oh carago! O serviço já está feito!
As eleições decorreram com normalidade. A oposição perdeu mas o vencedor não estava lá para comemorar. Durante a noite, alguém atrás de um muro dera-lhe uma valente paulada na cabeça. Foi parar ao hospital.
Na terra, ao final da noite, cantava-se ao desafio:
Mete pena e causa dó
Uma mulher ferrar em tanta gente
Com um dente só!
(*)Assunção Senra, escritora portuguesa. Mora em Lijó, Barcelos.
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