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Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Texto: Entrevista a Francisco José Santos.
Data: 25 - 06 - 2009
Entrevista a Francisco José Santos a propósito da publicação do seu livro O Segredo e o Mar, pela Editorial 100
1) Construir um romance. Origem, fontes e recursos.
Construir um romance era um desejo que há muito tempo residia no meu pensamento. Esse desejo revelou-se ainda na adolescência quando pela primeira vez escrevi um simples romance chamado de “Eiró” – diria que foi uma espécie de ensaio.
Escrever um romance, é como se estivesse a viver por algum tempo outra vida, ou seja, passa-se a viver um mundo ficcionado, paralelo à vida real: umas vezes como escritor; outras vezes encarnando qualquer uma das personagens.
A relação entre escritor e personagem, por vezes, é conflituosa porque o escritor cria o romance baseando-se em factos que viveu ou conheceu no seu mundo real, ao passo que, a personagem tendo adquirido vida própria no romance, tem tendência a seguir um destino por vezes desconhecido e contraditório. É então que, nesses momentos, o escritor sente que o seu romance tem alma, deixando-se conduzir pela fluidez da escrita.
Este romance, embora baseado na ficção, tem por base pequenas histórias, locais e experiências que um certo dia ouvi de alguém, e que me sensibilizou, a ponto de agrupar essas vivências numa história – como se fosse a construção de um puzzle. As nossas sensibilidades, gostos, desânimos e outros, são projetados nas personagens que vamos criando ao longo da história do romance.
2) O processo de dar por concluído a elaboração/escrita dum romance
Não é fácil dar por concluído a elaboração dum romance. Por vezes surgem conflitos entre escritor e personagens do livro, que poderá dificultar ou condicionar a finalização do romance.
Sempre me deixei conduzir pelo enredo. Eu não sou apenas o escritor que escreve o enredo, mas envolvo-me na história, fazendo parte dela ao sabor do destino que as personagens vão criando. Por isso, sempre que revejo a história do romance, o enredo e o seu final ficam alterados. Eu, muitas das vezes, fico surpreendido com o desempenho de algumas personagens que determinam o final da história. É lógico, que o escritor, como “ser superior,” ou uma espécie de “Deus menor”, tem sempre o dom de determinar o fim do enredo, quando acha que a mensagem que quis transmitir ficou consolidada.
3) Breve biografia. Ressaltar situações que estimularam a escrita.
Nasci no ano de 1960, num domingo primaveril, na freguesia de Pedroso. Até aos meus nove anos fui criado apenas pela minha mãe – meu pai foi emigrante em França até 1970.
Em pequeno, muito antes de ingressar na escola, minha mãe teve a preocupação de me ensinar a ler e a escrever e cedo comecei a ler o jornal que meu avô materno comprava aos domingos.
A experiência escolar foi sucedendo e quando já lia alguns livros, primeiro os de aventuras escritos pela Enid Blyton, depois os grandes romances de grandes escritores portugueses como Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco entre outros. Porém, foi com o escritor Júlio Dinis, e depois de ter participado num trabalho escolar sobre aquele escritor, que senti necessidade de escrever como ele. Daí que, com dezassete anos, ter escrito o meu primeiro romance que o intitulei de “Eiró” – uma história simples, engraçada de peripécias bucólicas.
Depois de uma fase que dediquei a escrever poesia, seguiu-se um longo período de vinte anos de abstenção total de escrita, condicionada por diversos factores pessoais e familiares.
Comecei a minha vida profissional na Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia com 19 anos, onde desempenhei funções de administrativo durante alguns anos até que a informática mexeu novamente com a minha carreira profissional e depois de ter tirado um curso técnico nessa área, as funções que até então desempenhava passaram a ser da área de informática, até aos dias de hoje.
Foi numa conversa do Messenger tida com uma determinada pessoa, que a vontade de recomeçar novamente a escrever surgiu. Essa mulher, indirectamente e sem que se tenha apercebido de tal, ao afirmar “A história da minha vida daria um livro”, fez com que eu iniciasse a escrita deste romance.
Foi um longo período de sonhos e vivências que aconteceram durante a escrita deste romance, que jamais esquecerei.
Escrever para mim, tornou-se numa necessidade sentimental; preciso de viver uma segunda vida virtual em paralelo com a vida real; ter a necessidade de transmitir a alguém os meus sonhos – sim, porque escrever um romance é um grito de alerta para a necessidade de tentar tornar reais os meus sonhos.
4) Experiência nas leituras
Gosto de ler bons livros. A literatura portuguesa sempre me fascinou em detrimento de escritores estrangeiros. Ultimamente, o chamado romance histórico, tem sido o preferido e o mais lido.
O gosto pela leitura diria que, quase nasceu comigo. Lembro-me, na fase da minha adolescência e juventude, ter perdido noites inteiras a “devorar” livros. Ainda hoje, não consigo adormecer, sem que nesse dia, tenha lido algumas páginas do livro que repousa na mesinha de cabeceira – é como se fosse uma necessidade vital.
5) Ser e escrever. Tomar em sério a atividade de escrever.
Sempre tive um sonho na minha vida – ser escritor. Mas para o ser, tinha que saber o que deveria escrever. Daí a pergunta: Que vontade nasceu primeiro - a vontade de ser escritor, ou a de escrever?
Primeiro nasceu a ideia, a vontade de querer contar uma história. Mas ter ideias, muitas ideias, sem saber como as transmitir pela escrita, torna-se inútil. Então, é nesse momento, que o pretenso escritor ensaia a arte de escrever e vai aperfeiçoando-a cada vez mais, como se estivesse a esculpir uma obra de arte. Foi assim que me iniciei no mundo de “contador de histórias”.
A princípio, senti que, o que verdadeiramente gostava de transmitir ao leitor, não estava a ser bem elaborado da minha parte. Comecei a ser cada vez mais exigente para comigo mesmo, a ponto de achar que necessitava de uma formação complementar na arte de bem escrever, por isso, resolvi frequentar um curso de licenciatura em Estudos Portugueses e Lusófonos na Universidade Aberta como forma de adquirir e cimentar, mais conhecimentos nas áreas da literatura para apoiar a decisão de exercer de uma forma séria, a escrita de novos romances.
6) Ficção e realidade no romance.
Neste romance, por exemplo, o que é realidade é a minha escrita, as minhas ideias, os meus sonhos, os momentos que eu vivi quando encarnava uma das personagens, vivendo e sofrendo ao mesmo tempo como escritor e como personagem, todos os momentos narrados na história, dentro de determinados locais espácio-temporais. A isto, chamo a realidade no romance.
Quanto à ficção, é toda a estrutura narrativa em que o romance nasce, cresce e finda. A existência de paralelismos ou coincidências, com a vida real de alguém, poderá ter servido apenas de base para a criação de um argumento narrativo meramente ficcional, i.e., nunca real.
7) Segredismo e infelicidade
Efectivamente, no romance “O segredo e o mar”, a presença do segredo é constante, tal como na vida real, em que todos nós temos os nossos segredos. E, para que a história parecesse o mais real possível, era inevitável a presença constante dessa figura. Não aceito neste romance, o conceito de segredismo como “mania dos segredos”, aceito sim o uso do secretismo, que efectivamente é presença constante, em quase todo o enredo.
A infelicidade também faz parte da nossa vida, e como tal, nunca poderia deixar de a incluir nesta história.
Geralmente o segredo e a infelicidade coabitam na vida das pessoas e como tal, uma vez que o romance é um conjunto de enredos ficcionados da vida real, a presença destas figuras e não só, tinham que fazer parte da história.
8) Personagens e valores éticos. Protagonismo e antagonismo.
As personagens deste romance foram seleccionadas de forma que entre elas houvesse sempre uma relação; um elo de ligação que permitisse sempre um enredo vivo.
As personagens deste romance, revelam no seu todo, valores éticos muito fortes, tendo em atenção nomeadamente as funções profissionais que desempenham, veja-se o caso da personagem Henrique ou da Margarida, bem como de outros médicos, que tudo fazem para que os problemas que enfrentam no dia-a-dia sejam resolvidos com perfeição e profissionalismo.
Quis eu, ao reforçar esses valores éticos nas personagens, fazer sentir à sociedade a necessidade desses mesmos valores serem relevantes, uma vez que, cada vez mais se assiste a um desaparecimento de valores éticos na nossa sociedade, tão consumista, egoísta e parca em valores.
O protagonismo e o antagonismo como elementos dramáticos básicos de um romance faz com que determinadas personagens protagonistas avancem com a história, ao passo que, as personagens antagonistas (como a Luísa, por exemplo) tentam a todo o custo impedirem a história.
Sem estas duas figuras, o romance tornar-se-ia desinteressante e monótono.
9) Sensualidade e sexualidade.
A palavra Sensualidade refere-se aos sentidos. É algo que desperta, excita, provoca os sentidos como a vista, a audição, o olfacto, o paladar e o tacto.
Neste romance, está bem presente a sensualidade, principalmente quando Henrique tem necessidade constante de estar junto do mar. É o mar que o alivia do stress profissional; é o mar que o inspira nos seus poemas; é o mar que lhe dá “conselhos” aos amores e desamores; é o mar que une “os corações desencontrados”; é a beleza feminina de algumas personagens que excita os corações masculinos, e vice-versa.
A Sexualidade refere-se a sexo,
aos órgãos reprodutivos, à condição de macho e fêmea.
Não é o mesmo que género, que distingue homem e mulher.
Neste romance, a sexualidade não está muito presente. Ela existe, mas está oculta como um direito de privacidade das personagens. É por causa de um problema de opção sexual que uma das personagens vive em conflito com ela própria e com as outras personagens que tem uma relação próxima, sem porém, nunca a demonstrar e revelar, porque a sociedade a iria descriminar. Embora diferentes, as duas coisas completam-se. Geralmente a sensualidade provoca a sexualidade.
10) Lugares e ambientes no romance.
O romance tem como local principal a zona de Gaia e grande Porto. A beira-mar é um dos locais privilegiados. A maior parte das cenas são passadas junto ao mar.
Também locais como o Brasil, a Austrália, fazem parte de diversas cenas do romance.
A escolha propositada dos locais, alguns deles bem distantes uns dos outros, vem ajudar a reforçar o sentimento saudade que os portugueses tanto sofrem. E, por muito que se afastem do seu país, por motivos variados, acabam sempre por regressar às suas origens. Há apenas uma cumplicidade com o Brasil - lá, os portugueses sentem-se em casa, no país irmão.
Também quis, de propósito, focar determinados países como forma de alertar a humanidade, para os problemas sociais que se vivem nesses países, como o Brasil com as suas favelas carregadas de pobreza e miséria humana, bem como Moçambique com as suas aldeias demasiadamente pobres, contrastando com a riqueza dos países ditos desenvolvidos como é o caso da Austrália ou EUA.
11) O amor e o desamor.
O amor e o desamor são presenças constantes neste romance. Efectivamente toda a história roda em volta do factor amor e desamor. Muitas vezes são criadas situações de desamor que levam a emocionantes paixões, e outras, que findam. Neste romance, o factor amor surge em várias situações: no amor paixão; no amor fraterno; no amor solidário. E é à volta deste sentimento que as personagens vão construindo a sua história.
Pessoalmente, acho que os factores amor e desamor, jamais sobreviveriam isolados porque eles se complementam. Muitas das vezes um dos sintomas do desamor é amar de mais o outro. Ter amor demasiado por alguém poderá ser transformado em falta de amor do próprio e isso, poderá transformar-se em desamor para o mesmo, levando a um abaixamento da sua própria auto-estima. Para se dar amor a alguém, é preciso romper com o desamor que existe dentro de cada pessoa - a personagem Luísa ou a personagem Mário nunca conseguiram terminar com o desamor. Em contrapartida, a personagem Ana, só resolveu esse problema quando percebeu que o sucesso do seu amor para com Henrique teria que passar pelo rompimento do desamor para com o Mário.
12) Destino e liberdade
Estes dois temas são contraditórios. Se um ser humano à partida é dotado de liberdade assim que nasce, poderá ver a mesma ser condicionada pelo factor destino. Mas em contrapartida, sem o sabermos e porque temos liberdade, poderemos mudar o nosso destino. Estou a lembrar-me da personagem Mário, que por ter liberdade de escolha no rumo da sua vida, o destino que teve, foi no fundo o resultado dessa escolha, indicada pela própria liberdade.
Não podemos dizer que o destino que Henrique teve no final do romance foi produto desse destino, mas sim produto de uma escolha da liberdade – ele foi livre em ter optado por amar quem amou.
No caso da Margarida, não foi o destino que levou a tomar as decisões que tomou, mas sim a sua própria liberdade. Pelo que, acho que o destino não existe. Ele é fruto de uma criação psicológica do ser humano para poder conseguir dar resposta a muitas das suas decisões que tomou em liberdade, muitas das vezes inconsciente.
13) Projetos futuros
Presentemente, o meu grande projeto futuro passa por terminar o meu curso superior em Estudos Portugueses e Lusófonos, afim de, alicerçar melhor a carreira de escritor.
14) Mensagem para o público no dia da apresentação
Acho que a melhor mensagem para o público e que se enquadra na apresentação deste livro é:
“Grandes realizações são possíveis quando se dá atenção aos pequenos começos” (Lao Tsé)
15) Porque não escrever segundo o novo acordo ortográfico?
Só em finais de 2008 é que a Priberam passou a disponibilizar no novo corretor ortográfico Flip 7 e Flip:Mac 2, a possibilidade de se optar pelo novo acordo ortográfico. Presentemente já o faço, aliás, estas respostas, bem como o novo livro que ando a escrever, foram elaboradas de acordo com a nova ortografia.
16) A cumplicidade e o entusiasmo dos amigos, a família e os colegas do trabalho na elaboração de O Segredo e Mar.
A princípio, mantive durante longos capítulos, o segredo da escrita deste livro. Quando fui descoberto e revelei que andava a escrever um romance, o entusiasmo, quer dos amigos, colegas de trabalho e até da família foi enorme. Todos queriam ler o livro. E assim foi. Logo que terminei, não esta versão, mas uma outra que se chamava apenas “Segredo”, dei a possibilidade de o lerem. Na elaboração e descrição de determinadas cenas deste livro, tive a ajuda da amiga Sofia Soares que me elucidou de determinadas vivências da juventude que eu não dominava.
O porquê e a razão da escolha do título “O Segredo e o mar”?
Eu começo por escrever o livro, baseado num segredo que tento descobrir de uma pessoa amiga que a mesma nunca o chegou a revelar. Sempre que falava com ela, e rodeava o assunto, iam surgindo ideias para novos enredos do livro.
Quando achei que eu próprio poderia dar vida ao enigma que envolvia o segredo dessa tal pessoa, dei a empreitada como adjudicada e jamais parei de o escrever.
A primeira versão deste livro guardo-a como homenagem às pessoas minhas amigas que me apoiaram, criticaram e incentivaram a escrever cada vez mais, daí a minha promessa de editar esta nova versão e de num futuro próximo apresentar nova obra já iniciada.
O mar com toda aquela imensidão de água e guardador de enormes segredos, representa também para mim a força, a bravura e a liberdade. O mar representa o mistério para além do seu infinito horizonte.
Eis a razão porque associei o segredo ao mar.
(*)Francisco
José Santos (1960) , Vila Nova de Gaia.
O Segredo e o Mar
é o seu primeiro romance.