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(desde 1991)
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Entrevista a Francisco Rodrigues - (Portugal)
Entrevista a Francisco Rodrigues(*)
(A propósito da publicação do romance que escreveu em parceria com Olímpia Barbosa: Caminhos de Outono, pela Editorial 100. Março 2007) Diego Martínez Lora
1 - Experiência de Leitura:
F. Rodrigues: Desde cedo fui um bom “praticante” dos nossos clássicos, incluindo os irreverentes como Gil Vicente, e os mais ousados como Bocage.
Bons mestres que tive incentivaram-me, desde pequeno, a educar o ouvido para a linguagem, decorando poesia e textos apropriados.
— Como na música — diziam-me — também se educa o ouvido, para a harmonia da linguagem.
No secundário, tive um grande professor (hoje, chamar-lhe-iam louco) que desafiou a classe a decorar os Lusíadas! E conseguiu-o facilmente, através dum método simples e eficaz, que naturalmente não vou aqui explicar. Nessas idades tem-se uma memória prodigiosa; por vezes falta é o estímulo.
2 – Início na escrita
F. Rodrigues: Um dia o mesmo professor aconselhou-nos a «escrever e esquecer»: uma ideia, uma frase, um pensamento, uma referência, uma observação com interesse, escreve-se num papelinho e esquece-se numa gaveta. Uma rotina simples, de extrema utilidade. É que, por muito que a nossa memória armazene, não dispensamos um suporte que, metodicamente, nos ajude a recordar e a seleccionar, como um índice.
Segui aquele conselho. Foi assim que, mais tarde, construí uma base de dados, com milhares de anotações, catalogadas por temas. Como num palco de teatro, está ali o «ponto» a sugerir-me assuntos que poderei, em qualquer altura, desenvolver no meu diálogo com a vida.
3 – Experiência na publicação do 1º livro
F. Rodrigues: O primeiro livro publicado é sempre o primogénito. Constitui um marco, como ponto de partida para a meta da perfeição que, livro a livro, em vão se tenta atingir. A partir dele ganha-se o vício da escrita, tão benéfico como o sagrado vício da leitura.
Escrever um livro proporciona-nos, durante longo tempo, o prazer do jogo e da criatividade; já editá-lo, lembra-nos mais as dores do parto. Se o leitor gosta da «criança», o progenitor agradece esse carinho, porque ele revê-se na sua criação, apesar dos defeitos que naturalmente lhe reconhece.
4 – Metodologia para a escrita a dois
F. Rodrigues: Escrever um livro, a dois, exige uma constante harmonização de dois estilos para que resulte numa peça homogénea, como um vestido feito com dois tecidos diferentes que se complementam.
Este livro tinha que ser verdadeiro, assentar em factos reais e não em devaneios; portanto, iríamos relatar comportamentos de pessoas vivas, colocadas perante situações concretas, dos nossos dias, o que o tornaria verdadeiramente actual.
Diversos casos surgiram, merecedores de atenção e desenvolvimento. Escolhemos três; mas alguém teria que assumir a sua veracidade, entrando necessariamente, na intimidade de tais vidas, respeitosamente, sem as expor, acedendo a documentos pessoais (diários), com consentimento dos próprios. Só assim foi possível traçar o perfil psicológico dos protagonistas mais salientes.
Trata-se de retratos de pessoas que, curiosamente, a convite nosso aceitaram acompanhar-nos, neste lançamento, incógnitas naturalmente.
Acontece que só os «actores» conseguem reconhecer-se nos seus «duplos».
5 – Escrita, criatividade e mensagem do romance Caminhos de Outono.
F. Rodrigues: Segundo diz deste livro, o ilustre escritor Pereira da Graça, (que o apreciou, em 1ª leitura), «a escrita é linear, clara como a água do córrego, antes de chegar à primeira povoação».
Na escrita, a inspiração resulta do confronto da sensibilidade, com a memória de certas realidades, umas vividas, outras apenas conhecidas ou simplesmente sonhadas. As realizações, os prazeres, os conflitos, as vitórias e as desilusões deixam marcas; a sensibilidade de quem escreve tenta induzir o leitor a examinar essas impressões da alma, olhando-as pelo mesmo prisma do autor.
Quem viveu muito e aprendeu a olhar atentamente a vida, consegue descobrir nela o sentido positivo da existência, Quem for observador atento das pessoas e contemplativo da natureza, acaba por escrever com a simplicidade própria da vida, antes de ser adulterada por artificialismos complicados.
É por isso que a mensagem deste livro resulta transparente e directa: «Comunica, divorcia-te da solidão e vive!...».
6 – Vida/Morte
F. Rodrigues: Todos sabemos que se não houvesse morte, a vida na terra seria insuportável; nem de pé caberíamos já na superfície do planeta. Se a morte fosse evitável, a vida seria uma verdadeira loucura, vivida apenas em função de cada um assegurar a sua imortalidade. Nesse caso, morrer seria o fracasso total da vida.
Mas não. A vida é o caminho de sentido único para a morte, e esta deve ser encarada como a meta onde tanto se chega de mãos vazias, como pleno de realização; chega-se com o que se sabe, nunca com o que se possui; o «ser» conta, o «ter» não conta nada.
Mas, já que o tema é mesmo este, vou aqui lembrar como Vieira, na sua simplicidade de estilo, nos descreve a morte:
«… A morte tem duas portas: uma, por onde se sai da vida, a outra, por onde se entra na eternidade. Entre estas duas portas se encontra a alma, no momento da morte, sem poder voltar atrás, nem esperar, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre».
Acreditando que um dia voltaremos à vida, o mesmo Vieira é sublime ao dizer-nos com a mesma simplicidade de estilo.
«… E aparecerão no mundo os mortos, vivos!».
Seja como for, o simples facto de termos existido, antes da morte, impõe-nos a diferença absoluta que há entre o «ser» e o «não ser».
7 – Indivíduo / Sociedad
F. Rodrigues: Na sociedade, que é um imenso puzzle inacabado, todo o indivíduo é peça indispensável. Tem uma forma de encaixe própria perfeita; pode no entanto encaixar de muitas outras formas imperfeitas, o que torna a sociedade mais ou menos defeituosa, sofrível nuns casos, e noutros completamente inaceitável. Os que detêm o poder e procuram moldar este puzzle têm normalmente uma ideia acanhada, parcial e demasiado restrita de Humanidade, dispensando a maioria das peças, na sua construção. Esses excedentes são acomodados de qualquer maneira, porque o painel, incompleto, é constituído pelas elites preferidas, consentidas ou dificilmente suportadas.
Assim, continuará a haver, no mundo, guerras e convulsões constantes, enquanto as combinações, impostas por uns, continuarem a ser inaceitáveis para os outros.
8 – Juventude / Velhice
F. Rodrigues: Na vida, a juventude é a fase de projecto, que pode prolongar-se tanto mais quanto o espírito consiga sonhar futuros para viver, para criar, não somente para procriar. Ela é essencialmente mental: aquela capacidade de esbater a fronteira da velhice, não consentindo que esta seja apenas a recolha dos frutos outonais, às vezes já mirrados, mas sim a replantação dos jardins que hão-de florir em futuras primaveras, para usufruto dos vindouros.
É para isso que escrevemos, para alimentar primaveras. E, mesmo que o não consigamos, ao menos a nossa terá sido prolongada pelo sonho e pelo entusiasmo com que o tentámos.
Idealmente, a velhice deve ser, acima de tudo, o saborear gostoso duma constante primavera da alma.
9 – Amor
F. Rodrigues: Amor é a cor determinante das vidas felizes. Não tem idade específica. É por isso que, por analogia, se diz: «Quem de novo baila bem, de velho seu jeito tem».
Amor é um espelho que olhamos todos os dias, para vermos quanta felicidade provocamos em quem nos olha com amor.
10 – O Romance ideal
F. Rodrigues: Terá que ter princípio, meio e fim, coerentes: um princípio misterioso e incendiário; um meio de grande confronto de sentimentos e um sem número de contrariedades a serem ultrapassadas, onde a força do amor vença a desumanidade perversa do egoísmo; um fim não reduzido ao usufruto mesquinho e à vaidade dos louros conquistados, mas sim alargado ao gozo duma paz merecida, onde haja espaço para a grandeza do perdão.
É, no fundo, o romance que eu ambiciono escrever, com personagens de alma grande que vençam a velhacaria e a mesquinhez que envenenam e desumanizam as sociedades.
11 – Liberdade / Terceira idade
F. Rodrigues: Este livro foi pensado e escrito sob o signo da libertação, em defesa da terceira idade, asfixiada, entre nós, por uma sociedade incompetente que despreza ou esquece os seus mais velhos, os que detêm o «saber de experiência feito», lembrando-se deles apenas para lhes impor regras, para os controlar, através de costumes e tradições (eu diria medievais), recorrendo, não raro, ao esbulho legal dos bens, para os submeter completamente à condição de incapazes.
Tais pessoas são, assim, privadas da sua iniciativa, do seu direito de opção e até da liberdade de movimentos, castigados por essa sociedade que, no mínimo, lhes inferniza a vida, pela maledicência, apontando-os a dedo se abandonarem os padrões de conduta que cruamente lhes são impostos.
12 – Expectativa relativamente à publicação de Caminhos de Outono.
F. Rodrigues: Espero que, com a publicação deste livro, a gente jovem e os mais vividos tomem consciência do problema grave de que a nossa sociedade enferma: a solidão imposta aos veteranos, pelo esquecimento fingido, como quem varre para debaixo do tapete.
Para as gerações mais novas fica a mensagem: jovens, preparai o vosso futuro de forma a poderdes vivê-lo todo com liberdade de escolha; aplicai a todos, desde já, este princípio tão comezinho, de que tanto gostais, para vós, e que é fundamental para a escolha do caminho certo:
« Vive e deixa viver! »
13 - Escrever um romance para viver, ou viver no romance
F. Rodrigues: Escrever um romance é viver mais tempo na memória dos leitores, produzindo efeitos de mudança nas mentalidades; é um bom processo de intervenção que deve pesar (pouco que seja), na evolução positiva de quem o ler. E, se cá voltarmos de novo, conforme alguns sustentam, poderemos, mercê deste contributo, ter um mundo melhor à nossa espera. Pelo menos, que ele aproveite às gerações futuras.
É inquestionável que o escritor vive no seu romance, os romances que, no mínimo, foi capaz de sonhar.
(*)Francisco Rodrigues, escritor português. Publicou "Olhar sobre Monumenta" e um romance escrito em parceria com Olímpia Barbosa: Caminhos de Outono, pela Editorial 100.
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