VERSIONES

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Versiones  (desde 1991)
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora

Texto de Francisco Rodrigues -
(Portugal) Título: O Arranca
Data: 11 - 12 - 2007


Francisco Rodrigues(*)

O Arranca


                   Arranca era a alcunha que davam na aldeia ao ferreiro de então, naqueles tempos desgraçados em que, para arrancar os dentes cariados que doessem loucamente, antes de caírem de podres, se tinha que recorrer ao barbeiro, sem que houvesse alternativa. Ao tratar-se de criança aflita com os dentes de leite, o barbeiro até se munia de todas as cautelas, para evitar altercações com o acompanhante. É que um pai, só para não dar parte de fraco, aguentava melhor arrancar a sangue frio um queixal seu, mais enraizado que uma torga, do que aturava, durante meia hora, o berreiro dum garoto, se as coisas corressem mal.

               Apesar disso, por estranho que pareça, ali na aldeia, ao saber-se de um primeiro dente a abanar, era ao ferreiro que a miudagem recorria, para que ele se incumbisse dessa iniciação. Em tempo de aulas, era rara a semana em que os miúdos mais velhos não levassem um pequenito à forja do Arranca, com essa finalidade, porque «ele arrancava sem dor». Os inocentes não sabiam como era, nem perguntavam; queriam é que não doesse. E disso estavam seguros, porque até os irmãos mais velhos garantiam, por experiência própria, que não doía nada.

               O Arranca, grande e bonacheirão, mais próximo da bonomia tradicional do carpinteiro que da dureza contestatária do metalúrgico, era um verdadeiro especialista a temperar a ponta das relhas e amaciava como ninguém as lâminas dos machados e das alfaias de corte, pondo no que fazia todo o seu brio e a experiência herdada do pai. Vinha gente de todo o lado com obra para ele cuidar, já que a sua fama de mestre do ferro alastrara aos povoados vizinhos. Por isso o homem não tinha mãos a medir. Uma coisa porém era para ele sagrada: a sessão do «arranca dente». Aí ele largava tudo.

               Mal chegava um grupo de miúdos com a vítima (os mais sabidos com o segredo bem guardado, para apreciarem a cena), logo o Arranca, fingindo-se mal-humorado, dizia a esbracejar, que não tinha tempo a perder com canalha, nem paciência para os aturar, indo sem demora acelerar o fôlego possante do fole, para levantar ao máximo o fogo na fornalha, onde logo enterrava uma barra de ferro espalmada, acrescentando duas pazadas de carvão por cima, aparentemente desligado do assunto. Mas a canalha não desarmava e ele, depois de muito instado, acabava sempre por fazer uma concessão ao grupo:

               - Está bem, rapaziada! Se quereis mesmo, vamos então a isso... Mas, para eu não perder tanto tempo, ide vós amarrando o dente, com uma linha de coser, muito limpinha, que eu tenho as mãos assim, do carvão…

               E mostrava aquelas mãos calosas e requeimadas, escamudas como as patas dum crocodilo.

               Logo o cabecilha do grupo cuidava disso e, para ganhar tempo, amarrava sem pressa a outra ponta da linha a um dos braços da bigorna. De repente, o ferreiro sacava da fornalha a barra incandescente, a espirrar fogo em todas as direcções, como um dragão enfurecido a lançar-se sobre eles que, espavoridos, se atropelavam na fuga desordenada para a rua, numa algazarra enorme. Nem o dono do dente se lembrava já do que tinha ido ali fazer, feliz por estar a salvo com os demais, a ouvir as pancadas do malho que faziam espirrar saraivadas de fogo até à porta.

               Ali estava o Arranca feliz da vida, na sua hora de recreio!... Ele que era um homem bom, parecia naquele momento uma criança grande, quando largava o malho e, resguardado pelo avental de couro, vinha à porta mostrar o dente pendurado pelo fio, para o entregar ao dono, gritando sorridente para o motim:  

        - Quem se esqueceu disto ali dentro?!...

              E, entregando-o ao próprio, repetia-lhe a piada tradicional:

               - «Dente fora, caganita na cova!...».

               Depois, o bando largava dali, a correr pela calçada abaixo, em direcção ao chafariz da igreja, onde a vítima ia lavar a boca e todos bebiam água, para recuperarem do susto, num alarido que fazia lembrar um bando de zilros, em prenúncio de trovoada, numa tarde quente de Verão.


(*)Francisco Rodrigues, escritor português. Publicou  "Olhar sobre Monumenta" e um romance escrito em parceria com Olímpia Barbosa: Caminhos de Outono pela Editorial 100.


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