VERSIONES

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Versiones  (desde 1991)
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora

Texto de Francisco Rodrigues -
(Portugal) Título: O Caçador
Data: 12 - 12 - 2007


Francisco Rodrigues(*)

O Caçador


            Dar ruínas da antiga fortaleza de Cigadonha pouco se conseguia adivinhar, oculta como estava pela poeira do tempo e afogada pela densa vegetação.

             Fora por ali que o João Manco andara aflito, à procura dum coelho em dia de grande nevão, segundo o próprio contava. Numa daquelas manhãs geladas, de trespassar a alma, o filho ardia-lhe em febre, com sarampo, e havia três dias que não desfechava os dentes. Depois de muito insistir com ele para que comesse, pouco que fosse, o garoto, morto por acabar com aquele enjoo de conversa, atirou-lhe com um apetite daqueles que nem ao diabo lembram:

     ¾ Eu queria coelho!... — Gemeu o garoto.

     O pai deu voltas à cabeça a ver quem, naquele rigor de Inverno, ainda teria coelhos na vizinhança, que pudesse arranjar-lhe um. Mas nada. Resolveu então fazer o mais comum, na aldeia: ir caçá-lo na neve, à paulada. Saiu o pobre homem por ali abaixo, arrostando com a tripla dificuldade de caminhar na neve, com a sua perna de pau e, pior ainda, por aquele caminho pedregoso, tão traiçoeiro. Por ali andou toda a manhã acelerado, a rebuscar as tocas como um furão e a bater os esconderijos do matagal, empunhando uma vara do fumeiro, que lhe servira de amparo no caminho, brandindo-a acima dos arbustos, como batuta de maestro nervoso, em sinfonia infindável, num andamento vivace. Finalmente a vara acabou por ser arma infalível, mal saltou à sua frente o primeiro láparo assustado, a atolar-se na neve, que logo ficou a espernear, derreado por uma paulada certeira.

             Satisfeito com a sua eficácia, mas receoso de poder cruzar com algum guarda-florestal que o diabo atravessasse no seu caminho, largou a arma do crime e tratou de anular todos os vestígios: apressou-se a esfolar o coelho, ainda quente; abriu-o depois e limpou-o de todas as vísceras que embrulhou na pele e ocultou na neve; meteu-o no bornal e regressou apressado a casa, sem dar azo a qualquer suspeita. Pediu à mulher que o cozinhasse para doentes e, ao meio-dia em ponto, já estava triunfante, à cabeceira do seu menino, feliz por finalmente poder satisfazer-lhe aquele apetite esquisito que ele afinal nunca tivera. Ao ver o prato fumegante à sua frente, o miúdo sentiu náuseas e, virando a cara, disse que não queria. O pai ainda insistiu, em vão, até ser vencido pelo desalento, quando o pequeno, para se escusar de comer, ou na tentativa de conseguir ao menos adiar aquele martírio, choramingou, com voz dolorida:

             ¾ Eu só lhe queria o fígado...

             E ele que o tinha deitado fora!...


(*)Francisco Rodrigues, escritor português. Publicou  "Olhar sobre Monumenta" e um romance escrito em parceria com Olímpia Barbosa: Caminhos de Outono pela Editorial 100.


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