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Versiones

Director, editor e operador: Diego Martínez Lora

Texto: Gelásio Rocha - (Portugal) - Título: As «Ofensas à moral pública» e outro texto
Data: 21 - 02 - 2006


Gelásio Rocha(*)

As «Ofensas à moral pública» e outro texto


 

As «Ofensas à moral pública»


«Era o vinho, meu Deus, era o vinho,
era a coisa que eu mais adorava».

Assim, cantando e, gesticulando, em equilíbrio difícil, a senhora, já de idade, saía de sua casa em Aradas-Aveiro e, já na via pública, ensaiava um número de «strip-tease» que era um espectáculo para os residentes e para os passantes.
Pelos vistos a coisa repetia-se.
A Guarda Republicana – a despeito de a «senhora» ser de boas famílias – não viu outra solução, senão, a de participar ao Tribunal.
O M.P. acusou.
Foi dos nossos primeiros julgamentos, em Aveiro.
Como defensor da Ré, um advogado da cidade, pelos vistos, ainda seu familiar.
O Julgamento estava marcado para as primeiras horas da tarde.
Passou a hora e a Ré não aparecia.
Esperou-se.
Insistiu-se junto do oficial de diligências, pela procura.
A demora não foi muita.
O Tribunal constituiu-se.
Entrando, na sala de audiências, em equilíbrio mais que precário, ondulante, a Ré avançou e, quando menos se esperava, em voz «rançosa», mas alta, cantou:

«Era o vinho meu Deus era o vinho
era a coisa que eu mais adorava…»

O advogado de defesa levantou-se, automaticamente, não fosse a Ré continuar com o seu número de «strip-tease».
Compreendemos.
E, mais do que nós, o Juiz, bondosamente, entendeu que a Ré não estava em condições psíquicas para ser submetida a julgamento, adiando-o para uma data próxima.
O advogado prometeu que faria o possível para que a cena se não repetisse.
Como, em verdade, aconteceu.
A sala de audiências estava cheia de gente em busca de espectáculo.
A Ré entrou, alta, vestida de negro, calada.
A pergunta disse quem era.
Mas, disse mais, sóbria, inteiramente sóbria:
«Que, depois, da morte do marido ocorrida há cerca de um ano, os eventuais herdeiros – já que não tinha filhos – lhe não largavam a casa, procurando insinuar-se, de modo a conseguir uma doação ou testamento, a seu favor.
… E, que um dos mais insistentes, era, precisamente, o advogado de defesa, seu sobrinho.
O Advogado pretendeu, de imediato, renunciar à procuração pedindo, mais, certidão das declarações feitas pela Ré, para, eventual procedimento criminal.
O Juiz acalmou-o, indeferindo ao requerido e, procurando que tudo se cifrasse à análise do crime de que a Ré vinha acusada.
Ouvidas, as testemunhas vizinhas de perto da Ré, confirmaram que a mesma era pessoa digna e que só começara a beber depois da morte do marido.
Aliás, a Ré já havia confessado que bebia umas «pingas», para esquecer e que, depois, não sabia bem o que fazia.
Não usamos da palavra. O Advogado pediu justiça.
A Ré foi condenada numa pena, declarada suspensa.
Todos saíram da sala de audiências, mas, seguramente, quem o fez mais rápido foi o advogado de defesa.
Na memória desse primeiro julgamento, nos ficou para sempre:

«Era o vinho meu Deus era o vinho
era a coisa que eu mais adorava».



 

Tentativa de Conciliação (A ordem, o método e a vida, no Tribunal de Família)


O Autor na acção de divórcio entrara com livros – dentre eles, um Código Civil – que pousara, cuidadosamente alinhados no peitoril da janela do gabinete.
Era homem de trinta anos, anafado.
Via-se, nele, instabilidade, todavia controlada.
A Ré, mulher, viera, depois.
Mais nova, os olhos procuravam apoio na pessoa do Juiz.

O fundamento do divórcio litigioso era o da violação do dever conjugal de fidelidade.
A proposta para a conversão da litigiosidade em mútuo consentimento, foi, como sempre, a mesma.

O Autor na acção falou em primeiro, alinhando as suas considerações, por números.

Primeiro, a mulher tinha-o deixado, sozinho, na cama.
Segundo, a mulher, saíra, depois, da casa.
Terceiro, a mulher, na manhã seguinte, dissera-lhe que tinha ido procurar «amor», onde o havia.
Quarto, assim, mantinha o pedido de divórcio.

Perguntado, afirmou ser a sua profissão, a de guarda-livros.
A Ré ouviu.
Calma, disse, depois, ser verdade o que o marido contara.
Pediu para explicar.
E, então, num arroubo de personalidade, olhando, agora, de frente, para o marido, disse que estava farta dele, do método que punha em todas as coisas da vida – mesmo as mais triviais.
Contou que, de princípio, quando mantinham relações de sexo, as mesmas, por imposição do marido, tinham de ser, sempre, às sextas-feiras, às cinco horas da tarde, seguindo um ritual próprio, ordenado, que começava pelo alinhamento das travesseiras, continuava com a dobragem dos lençóis, o acasalamento dos sapatos de casa e o pendurar esquemático das roupas de uso.
Depois, as relações propriamente ditas, iniciavam-se com um beijo – e, só, um – prosseguindo, depois, com a «introdução» calculada em número de movimentos, findos que acabassem, tudo terminava sem que se tivesse em conta o orgasmo – ou não - dela mulher.
Mas, que isso não era, mais do que um pouco, do todo que o marido praticava.
Todo ele era «método», «método», ordem, método!
Obcecante.
Na cama deitava-se, invariavelmente, para o mesmo lado, acordava ao segundo toque do despertador, calçava, depois, os sapatos começando sempre pelo esquerdo, posto o que enfiava as calças, também pelo mesmo lado.
Mas, não só!
Quando saía, cerca da casa, em passeio – só, ou acompanhado – dava, estrada fora, cento e oitenta passos para lá, posto o que reiniciava a marcha, com mais cento e oitenta – rigorosamente – para cá.
Em casa, a ordem e o método eram, também, uma constante.
Na colecção dos livros, da fruta, dos «bibelots».
… E, que não fosse alterada, porque a tal acontecer, tudo parava até que fossem restauradas as «posições».
Explicou, mais, que a «frieza» com que tudo era feito se comunicara ao seu relacionamento sexual, com ela, Ré!
Que, ao longo de meses, tudo fizera para que tal não continuasse a acontecer.
Até que, não muito antes – convencida de que, eventualmente, o mal, também, estaria nela – resolveu, a quando do regresso do marido do trabalho, excitá-lo amorosamente.
E, assim, depois de ter aguardado que o autor arrumasse, pela sua ordem, os papeis que trazia, a pasta que os continha, o jornal do dia e anotasse os câmbios da banca, atirou-se-lhe para o colo, arrastando-o para a quarto de dormir, onde, ambos caíram na cama de casal.
Excitada sexualmente, julgou-o, também.
Termos em que, ainda que deitados, conseguiu tirar-lhe o casaco e a camisa.
Mais excitada, aguardou.
E, então, viu o marido levantar-se, pegar na camisa e no casaco e ir pendurá-los na sua «ordem» no armário.
Arrastou-o de novo para a cama e, no renovo da excitação sexual sentida, procurou tirar-lhe as calças, o que conseguiu.
Simplesmente, o marido, desvencilhando-se, tornou a levantar-se e, pegando nas calças, orientou-as nas pregas e foi pendurá-las, ordenadamente, no armário.
Só, na sua excitação, não pode mais.
Levantou-se, de súbito, vestiu-se um pouco e saiu para a rua, procurando alguém que aparecesse, a quem se pudesse entregar, sem «método».
O que fez.
Disse que não identificara a pessoa em causa, nem com isso, aliás, se preocupara.
Enfim, a «ordem» e o método obsessivo do Autor, em tudo, em todas as coisas, a isso a tinham levado.
O Autor em nada contrariou a Ré.
Nem disse o «porquê» de assim ser.
Apenas, contando pelos dedos das mãos, alinhou, de novo, os números primeiro, segundo, terceiro e quarto que havia invocado.

E, friamente, levantou-se para ordenar bem, os livros que trouxera e pousara no peitoril da janela.

Psiquismo estranho. (Mas, com certeza!)
Patológico, talvez.
Ninguém, todavia, levantou o problema.
A acção prosseguiu termos.
O divórcio foi decretado.

Tudo, singular!


(*) Gelásio Rocha, antigo presidente do Tribunal da Relação do Porto. Os dois textos publicados fazem parte do livro: Sete sóis, sete luas (Memórias), 2006, Editorial 100.


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