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Director, editor e operador: Diego Martínez Lora

Texto: Volto à praia e mais três poemas  Autora: Isabel Branco
Data: 02 - 01 - 2008


Isabel Branco:
Volto à praia e mais três poemas


 

VOLTO À PRAIA



Volto à praia, agora vazia,
e descalça caminho
imprimindo meus passos
na areia escorregadia.
A onda espuma-se branca e fria
molhando, atrevida, meus pés
numa investida mansa
que me arrepia.

De novo, a lembrança
de nossos corpos suados,
abraçados e nus
sob um sol ardente
num coqueiral distante.
Revivo-a na fantasia
da adolescência perdida,
na voz sensual que o mar murmura.

Uma gaivota mia
como um gato assustado
despertando-me da imagem,
como se me trouxesse um recado.
E reparo no contorno
na areia húmida desenhado
E deito-me ali, a teu lado
sentindo o teu abraço por magia.

 

PERDIDOS



Às vezes, sem ninguém perceber,
sentimo-nos tão sós,
tão ilha abandonada
e isolada no meio do oceano,
tão náufragos perdidos
na imensidão do azul,
tão incapazes de estímulo ou reacção,
tão carentes de mimo e carinho,
tão fartos de ser fortaleza,
de ser para os outros a tábua de salvação,
esquecidos de nós próprios
e do nosso verdadeiro caminho...
Tão nada no meio da multidão,
de tanta coisa que nos sufoca,
de tanta confusão,
de tanta dor e tristeza.
Tudo à nossa volta
nos aperta e estrangula.
Asfixiamos só de respirar.
Gritamos desesperadamente
por socorro a Deus e ao Universo,
por uma gota de água doce
que nos mitigue do sal que nos rodeia.
Até as lágrimas já secas
não consolam, nem saciam.
Cansados de barreiras,
enviamos sinais de fumo,
desfraldamos os lenços brancos
da paz e do perdão,
agitamos as bandeiras
da concórdia e serenidade,
mas o Universo não nos ouve,
nem nos responde,
demasiado ocupado
com outras ilhas precisadas igualmente
do seu apoio e atenção.
Então acenamos as folhas gigantes das palmeiras
do adeus e da despedida
e afundamos lenta e dolorosamente...
Emudecemos...
Silenciamos...
E fechamos as janelas da alma.
Sofremos, solitária e cruelmente...
E a voz de Deus, a voz do Universo
surge, agora já tardia,
rompendo a escuridão
e não nos consegue salvar.
Exaustos, dando fim ao bulício,
mergulhamos no precipício das águas,
engolidos pela ferocidade do mar.
 

 

LINDO O ORVALHO

 

Lindo o orvalho que pela manhã
cobre de pranto a flor do jardim...
Lágrima de saudade, talismã,
que a natureza chora sem fim...

Lindo o orvalho que pelos olhos
dos amantes, manso e terno desliza.
Gotinhas que caem aos molhos,
fonte que não se concretiza.

Lindo o orvalho que o sol desfaz...
Na húmida contemplação da vida,
pérolas que a madrugada faz.

Lindo o orvalho, diamante de água
que a verde folha retém agradecida
após exausta noite de fria mágoa!

 

 


DESPUDOR




Trago na retina
o baú dos segredos
e espelho rosas
em águas calmas.
Habito entre as almas
no tom matiz dos medos
e bebo o fascínio
do néctar que escorre
colhido no exílio dos penedos.
Seguro uma caneta de ponta fina
entre a cútis dos dedos,
cúmplice atrevida
das horas silenciosas
e danço nua, na penumbra,
num esvoaçar de borboleta,
despenteada,
pelos olhos da noite espreitada.
Responde-me o eco
que pelo absoluto corre
como fantasma que da lápide se ergue
e, sou, de novo, menina
pela primeira vez enamorada.
Num esvoaçar de pombas,
soltam-se as palmas
dum sol de oiro em declínio
e a lua sem pudor
espreita maravilhada
e vem, mansamente, falar-me de amor.


(*) Isabel Branco, Nascida em Angola. Mora em Lisboa. Publicou pela Editorial 100: Dez degraus até ao sol e Imanências em tons de azul.


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