VERSIONES

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Versiones
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Texto: Um presente misterioso

Autora: Isabel Branco
Data: 15 - 10 - 2007


Isabel Branco:
Um presente misterioso


Esta é uma história verídica que se passou comigo e com um dos melhores realizadores e produtores televisivos do nosso País, agora já reformado a que simplesmente chamarei Dr. AT.

Durante anos o meu relacionamento com o Dr. AT, dentro da empresa era pouco mais que a saudação ocasional, pois como Director que já era, para além da questão da hierarquia, não era pessoa que conhecesse bem.

Além disso, o meu trabalho não estava directamente relacionado com os Programas, nem com a Produção.

Porém, a determinada altura, fui convidada para secretariar o então Director de Recursos Humanos, cargo que aceitei e obviamente, a proximidade entre nós tornou-se quase obrigatória por problemas de serviço relacionados com os funcionários inerentes à sua Direcção.

Houve eleições e no entra e sai de partidos e consequente mudança de Administração o meu Director, entre outros, foi exonerado. Eu, que nada tinha a ver com estas guerras fui convidada a integrar-me no grupo de Acção Social, cuja Chefe era amiga de longa data do Dr.AT. Estabeleceu-se, então, entre nós um convívio cordial e diário. 

Entre 2000 e 2001, todos os dias, de manhã, o Dr. A.T. vinha até à minha sala, enquanto aguardava a chegada dos outros elementos da minha equipa de trabalho, nessa ocasião, e conversava imenso comigo. Em aqueles chegando, lá íamos todos até à máquina do café para a biquinha matinal.

Foram muitas e fantásticas as histórias relacionadas com a sua vida profissional intensa e a de outros grandes nomes pioneiros daquela casa que nos contava com uma graça e encanto muito próprias de quem viveu peripécias engraçadíssimas no mundo da televisão.

Sendo Director duma Direcção que não a nossa tinha por nós um carinho de pai, de avô, e arranjava sempre um miminho para nos agradar. Um dia, foi à Rússia e trouxe para cada uma de nós uma matrioska. Uma daquelas bonequinhas lindíssimas, pintadas à mão, que se abrem pela barriga e vão saindo umas de dentro das outras, num conjunto de sete, até à mais pequenina do tamanho da cabeça do dedo mindinho e que guardo com muito apreço.

Entretanto, e como sabem, a RTP entrou em convulsão: os bons profissionais que tinham mérito, de repente, foram colocados na prateleira, sabe-se lá bem por quê. Coisas da política…que não interessam para o caso. No panorama politico surgiu o ministro Morais Sarmento e com ele mais uma reestruturação da Empresa. Os barómetros e critérios das capacidades e da avaliação oscilaram para níveis um pouco estranhos e o Dr. AT já farto de tantas decepções e dissabores, muito magoado com tudo o que se estava a passar resolveu pedir a rescisão de contrato.

Acontece que o Dr. AT., depois de tomado o cafezinho, tinha por hábito sentar-se à frente da minha secretária e conversar longamente comigo sobre questões de trabalho e sobre os temas mais variados da época. Criou-se um elo de amizade.

Tinha no seu Gabinete, vários objectos, relíquias das suas viagens, dos seus trabalhos enquanto realizador e representante e Consultor da nossa Televisão, oferecidos alguns por altas individualidades doutros países ligados ou não ao mundo televisivo.

Coisas materiais dizia ele. Coisas pelas quais tinha uma estima pessoal e que simbolizavam uma qualquer etapa da sua carreira.

“Quando me for embora, não levo nada comigo. Não tenho espaço e bastam-me as recordações, as memórias. Esses objectos não são meus. Pertencem à Empresa, fazem parte da sua história, portanto ficam cá no Museu ou onde eles quiserem, mas não levo nada.”

Quando se decidiu ir embora, um belo dia abeirou-se e, quase em segredo, disse-me:

“Tenho uma coisa no meu Gabinete que trouxe da Tunísia e que é a sua cara. Tenho a certeza que mais ninguém valorizará como você. Amanhã trago-lho.”

No dia seguinte, apareceu-me com um saquinho de plástico transparente, no qual percebi de imediato 2 peças de cristal (troféus de efemérides e um elefantezinho miniatura em jade, vindo de Hong-Kong como depois me afirmou. Como apreciadora deste género de coisas e pela sua carga simbólica agradeci-lhe emocionada. Mas, não era só aquilo que tinha resolvido legar-me. No fundo do saco havia mais qualquer coisa. Um pacote embrulhado em jornal. Ele ajudou-me a desembrulhá-lo e retorquiu-me:

“É seu. Foi isto que lhe prometi dar. Merece-o mais que ninguém.”

Confusa, peguei no pacote e qual não foi o meu espanto?! Era uma caixinha em madeira rústica mas toda trabalhada manualmente e ao pormenor com uma tampa de vidro. No seu interior, um escorpião embalsamado enorme com cerca de 12 cm. De rabo no ar, pronto a ferrar, em posição de ataque, ao morrer. Perfeito. Intacto. Autêntico. Fiquei, primeiramente, surpresa. Poisei-a suavemente em cima da secretária e logo exclamei, olhando-o entusiasmada:

- Espectacular, é lindo.

Entretanto a minha Chefe e outras duas colegas tinham-se aproximado curiosas e ao verem aquele bicho que parecia vivo dentro da caixa gritaram em uníssono:

- Que horror…saltando as três para trás, com as feições características dessa sensação.

Então, o Dr. AT calmamente, como de costume, repontou:

-Que horror, não. Escorpião significa inteligência, destreza, zelo, mistério, intuição. Não sou Escorpião, mas foram estas as palavras do homem a quem o comprei na Tunísia. Achei-o tão fascinante que resolvi comprá-lo, para oferecê-lo a alguém que reunisse essas qualidades. Porém, e durante anos, tem estado fechado dentro da gaveta da secretária, pois enquanto esteve exposto toda a gente que entrava no Gabinete tinha uma reacção repulsiva idêntica à vossa. Finalmente encontrei a pessoa certa e a mais indicada a quem o deixar. Tal como previ, foi a única a não sentir esse repúdio e a ficar fascinada com uma coisa destas. Por todas as razões, e dado o que dela conheço profissionalmente tudo coincide com o significado que o velho que mo vendeu apontou. É todo seu!

Dizendo isto ao mesmo tempo colocava-me de novo, a caixinha nas mãos. Senti-me corar. Perante o riso amarelo delas e esta oferta exótica e cheia de simbolismo senti-me embaraçada. Afinal, vinha de um grande profissional, conhecedor da natureza humana e era a sua despedida. Vieram-me as lágrimas aos olhos e simultaneamente, cresceu em mim um orgulho tal, pois em anos de trabalho apesar de várias promoções, este foi o melhor e o mais belo elogio que recebi em toda a minha vida profissional.

O dito escorpião real cá está em casa, cumprindo o seu destino. Colocado numa vitrine, quase à entrada da porta, obrigando quem entra a dar logo de caras com ele. Mediante a reacção e os respectivos comentários intuitivamente tem-me sido muito fácil perceber da personalidade de cada um. E acreditem ou não, o mais engraçado é que coincide sempre.

Ao meu grande amigo, Dr. AT, um enorme obrigada.


(*) Isabel Branco, Lisboa. Publicará pela Editorial 100: Dez degraus até ao sol e Imanências em tons de azul.


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