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Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Autora: Isabel Branco
Texto: O melhor presente de Natal
Isabel Branco:
O MELHOR PRESENTE DE
NATAL
Fugidas da guerra e das suas atrocidades, centenas de pessoas vindas de Moçambique e de Angola atravessaram a fronteira com a África do Sul e foram colocadas nos antigos campos de refugiados de Cullinam, perto de Pretória.
Marisa, uma das muitas jovens nessa situação tal como os seus pais, foi depositada, depois de vários meses de privações e dificuldades, num desses campos onde paralelamente funcionava uma cadeia separada apenas por um rede de arame farpado. Eram os presos que faziam o trabalho de limpeza e manutenção da vasta área e, entre eles, um fora destacado pelo seu bom comportamento, para gerir a cozinha e fornecer a alimentação aos refugiados ali presentes com quem coexistia, o que também o ajudava a suportar mais facilmente os dias que lhe faltavam cumprir.
Chamava-se Miguel e fora ali parar, sete anos antes, apanhado que fora no momento fatal, no local e na hora errada. Negligenciara algumas informações a um amigo que resultaram num assalto à mão armada à instituição bancária que geria. O bando escapara com uma elevada quantia em dinheiro, barras de ouro e alguns diamantes. Acusado de cumplicidade, declara-se sempre inocente mas a Justiça determinara a sentença e Miguel pagava assim, uma pena de oito anos de prisão.
A mulher abandonara-o, logo de seguida, e os dois filhos nunca o haviam visitado durante todo aquele tempo. Era um homem de 40 anos, alto, loiro, de olhos azuis e profundos, corpulento de músculos bem definidos, sossegado e afável que na sua desgraça se sentava junto dos portugueses, derrotados e humilhados com a perca dos seus haveres e desmotivados com o cenário de guerra e carnificina que haviam vivido. Dava-lhes força e, apesar da dificuldade linguística, no seu inglês conseguia transmitir-lhes calma e levantar-lhes a moral. Ao saberem da sua história muitos choravam pensando que apesar de tudo ainda eram homens livres, cativos ali, apenas por alguns dias, até que a ponte aérea os levasse a um Portugal distante mas destino garantido para a continuidade das suas vidas.
Entretanto, Marisa que falava fluentemente inglês fora encarregue, apesar dos seus 17 anos, pelas autoridades sul africanas, para tomar conta do dispensário e distribuir pelos seus compatriotas produtos de higiene pessoal, alimentos e fraldas para os bebés e alguns medicamentos necessários aos primeiros socorros do acampamento e, simultaneamente, designada para combinar com o Miguel as ementas e verificar a confecção das refeições de forma a satisfazer o gosto português. Criou-se entre ambos uma relação de amizade e cumplicidade dividindo entre si as mágoas e peripécias por que tinham passado.
No dia do aniversário de Marisa, Miguel esmerou-se e preparou um prato especial: bife, batatas fritas e ovos estrelados para toda a gente sem excepção. Fez um delicioso e enorme bolo, com 18 velas todas acesas e cerca de 200 pessoas cantaram os Parabéns a você perante muita emoção incontida.
Aos poucos, a missão daquele campo completava-se. Depois de vários voos, quase todos tinham partido. Aos que restavam, aos quais tinha sido dada a esperança de permanência, residência e trabalho naquele País, foi ordenada a transferência para outro local a poucos quilómetros dali, paredes-meias, desta vez, com um Hospital Psiquiátrico.
Marisa fazia parte desse grupo e para lá se mudou por mais alguns meses com os seus familiares, continuando as tarefas de apoio social que lhe tinham sido confiadas.
A cadeia, por decreto do governo, reocupou todo o espaço que lhe havia sido vedado para abrigar os refugiados e Miguel voltou à sua cela e à solidão dos dias vazios e iguais.
O tempo ia passando e depressa a época natalícia se aproximou.
Uma bela tarde, o Cônsul português apareceu no seu enorme e negro Mercedes, acompanhado por dois rapazes a quem pediu que retirassem da bagageira vários caixotes. Chamou o responsável pelo acampamento e mandou reunir todos os que ainda lá se encontravam.
Retirava pequenos brinquedos que ia distribuindo pelas crianças que o beijavam e recebiam chupa chupas em troca, e depois chamando as mulheres ofertou-lhes uma caixa enorme a abarrotar de batatas, pão, farinha, açúcar, ovos e uns quantos bacalhaus prontos a demolhar e aonde também não faltava a tão pátria e saborosa couve “troncha”. Distribuiu, seguidamente, uns pacotes de frutos secos pelos homens, que o abraçavam com sonoras palmadas nas costas. O contentamento era geral.
Desaparecera momentaneamente a angústia daquela gente que tudo perdera excepto a esperança. E houve risos, e anedotas e contaram-se histórias de Natais fartos e divertidos.
E aquele homem pequeno de estatura, mas enorme de coração no desempenho das suas funções junto da sua comunidade partiu risonho para os seus afazeres.
À noite, houve ceia de mesa farta com rabanadas e tudo e, para espanto geral, por volta das 11 da noite, o dito cônsul voltou, desta vez, acompanhado pela sua esposa e dois filhos pequenos e prazenteiramente disse: “Venho passar a noite com a minha família, a grande família portuguesa. Assim, juntos estaremos na nossa terra num Natal de irmãos”.
E aquela foi uma verdadeira noite de Natal. Sem distâncias, sem fronteiras que, pelo simples gesto solidário dum só homem, aproximou e uniu numa confraternização de alegria temporária, dezenas de seres humanos desesperados e infelizes, exaustos dos conflitos em que dramaticamente se viram envolvidos.
No dia seguinte os sinos tocavam e o ar que se respirava era calmo e quente. Marisa vestiu-se, soltou os cabelos, colocou algo numa caixa de sapatos, embrulhou-a com um dos papéis da noite anterior e pondo o seu melhor sorriso saiu da sua camarata e encaminhou-se para o portão principal. Ali, procurou uma das assistentes sociais e pediu-lhe que lhe facultasse uma autorização de saída e a ajudasse a ir entregar uma prenda de Natal.
Esta, primeiramente relutante quis contrariá-la mas, perante a sua determinação, anuiu. Preencheu um documento e pediu pelo intercomunicador que alguém a substituísse.
Saíram juntas e dirigiram-se à penitenciária. Ali chegadas, assobiadas e assediadas por vários reclusos que fumavam junto às cercas de segurança, encaminharam-se resolutas para a entrada principal.
Facilmente a sua companheira resolveu os problemas burocráticos e um guarda permitiu que esperassem numa sala pequena e acolhedora, enquanto internamente era dada a ordem de comparência dum preso às instalações onde visitas o aguardavam.
E, em menos de cinco minutos, Miguel apareceu, tímida e sorridentemente, compondo ainda a roupa que vestira às pressas.
Reconhecendo de imediato a rapariga estendeu-lhe primeiro a mão mas, tomado duma súbita exultação, envolveu-a nos seus braços enormes e beijou-a nos lábios. Depois, soltando-a repentinamente balbuciou: I’m sorry…I’m sorry, but I’m so happy!
Ela sorriu-lhe então, e entregou-lhe a caixa que ele, sem desviar os olhos dos dela, abriu rapidamente. Lá dentro estavam os chocolates que o cônsul lhe dera no dia anterior e alguns bolos e iguarias dessa noite, que ele agradeceu comovido.
Deu-lhe a mão e sentaram-se conversando durante aproximadamente meia hora.
“Daqui a 6 dias serei libertado! Dia 1 de Janeiro, finalmente, vou para casa mas tu devolveste-me a liberdade mais cedo. Teres vindo hoje aqui, sujeitares-te a isto, ouvires todos aqueles comentários porcos que os homens junto à vedação te disseram e trazeres-me este presente faz de mim um novo homem, feliz e livre. A tua presença é o melhor presente que tive na vida. És o milagre que me faz, de novo acreditar no mundo lá fora. És o primeiro Natal da minha liberdade e por todos os outros que se seguirem jamais o poderei olvidar…”, dizia-lhe ele acariciando-lhe o rosto.
Monocórdico, o guarda anunciou o fim da visita.
Abraçaram-se apenas. Olharam-se demoradamente e sorrindo um para o outro, assim, se separaram, murmurando ambos um inaudível mas perceptível: “I love you!”
Os anos passaram… Nunca mais se encontraram. Marisa viveu naquele país durante algum tempo. Soube, entretanto, que Miguel se encontrava em Durban, onde trabalhava e, à sua maneira, era livre, feliz e estimado no núcleo de amigos que o acolhera.
Nunca esqueceu aquele Natal que no meio da adversidade foi pleno de amizade, solidariedade e calor humano (afinal, o melhor presente) e, sabe…sente que Miguel também não.
Todas as manhãs do dia 25 de Dezembro dois pensamentos cruzam ainda um oceano no mútuo desejo dum Feliz Natal.
(*) Isabel Branco, Nascida em Angola. Mora em Lisboa. Publicou pela Editorial 100: Dez degraus até ao sol e Imanências em tons de azul.
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