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Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Autor: José Pereira da Graça - (Portugal) - Título: O MOMENTO ZERO DO ANO, DO SÉCULO OU DO MILÉNIO
José Pereira da Graça(*)
O MOMENTO ZERO DO ANO, DO SÉCULO OU DO MILÉNIO
Introdução ao tema
Estamos a chegar ao fim de mais um ano: 2006. Quando entra o ano de 2007?
E um século ou um milénio quando começa ou, que é o mesmo, quando acaba o decorrente? Vale a pena dedicar ao tema um pouco de atenção? Parece que si, em nome do rigor histórico e cronológico. Parece que ninguém duvida que o novo ano se inicia às zero horas de 1 de Janeiro próximo. Porquê? Obviamente porque 2006 se esgotou às 24 horas do dia 31 de Dezembro.
Como todos nos recordamos, relacionou-se o fim do século XX com o ano 2000.
O tempo, na sua decorrência imparável, sem princípio nem fim cognoscíveis, é o roteiro, o caminho por onde rolam, em vertiginoso deslumbramento, todos os acontecimentos reais ou imaginados, permanentes ou efémeros. Aliás, ele traduz-se num acumular de incidentes efémeros, argamassa do permanente, açoteia do infinito. Tal como é fugaz, em exemplo clássico, o perfume e a beleza de cada rosa, é algo de definitiva a essência aromática e esteticamente sempre positiva das rosas, como realidade permanente. Do mesmo modo, a vida dos seres é uma adição de eventos efémeros, a própria vida pessoal é efémera relativamente à eternidade de espécie. Será nestes sentido que o notável ensaísta Eduardo Lourenço assevera que "na verdade, o que verdadeiramente importa quando nos referimos ao efémero, como na passagem famosa do Tartufo de Molière a propósito do soneto - ou da nossa vida - não é o
O tempo é, pois, uma sucessão de instantes voláteis, de momentos presentes geradores incansáveis de passado, à custa do consumo de matéria-prima inesgotável, o futuro. Ele não se pode ver, ouvir, cheirar, saborear, apalpar. Como já alguém notou, a única coisa que se podia fazer com o tempo era medi-lo. Dizemos "era" porque, se numa concepção tradicional segundo a qual ele se mede sempre da mesma maneira, tal com a matéria, a massa, era um dado constante (um hora era sempre uma hora, como uma cadeira tinha sempre a mesma massa, suposto que o caruncho a poupa), as coisas complexificam-se, como Einstein demonstrou, com a intervenção de um terceiro elemento: a velocidade. Então, tudo se relativisa e a medida do tempo já não é a mesma para o observador colocado sobre a superfície da Terra e para outro a viajar em nave espacial, a velocidades semelhantes à da velocidade limite, ou seja, a da luz (300.000 kms/segundo). Não só a medida é diferente, como, surpreendentemente, diferentes são os efeitos da coexistência daqueles duas situações. De tal modo que, um astronauta que viajou no espaço àquelas velocidades durante certo tempo, segundo os padrões terráqueos, pode voltar à terra mais novo do que um neto que cá deixara, acabado de nascer.
Este aparente absurdo só pode, efectivamente, ultrapassar-se, concebendo referenciais que extravasem os esquemas concebidos nos limites dos conhecimentos até agora disponíveis. Certo, porém, que a expressão relativista entre a massa e a energia, influenciada pelo velocidade, ainda há-de surpreender muito, muito mais.
As várias formas de medir o tempo
Dentro da realidade imediata, observável e útil, de medição do tempo, desde cedo o ser humano, vivendo em sociedade, sentiu necessidade de a ela proceder, por razões óbvias. Uma primeira medida natural foi o dia, período de vigília e acção a seguir à noite, buraco negro vencido e ultrapassado pelo sono. Depois, as fases da lua, as estações do ano, os invernos, os verões. Curiosamente, algumas plantas serviram de ponto de referência na contagem do tempo, atentando na sua floração ou frutificação em determinada época do ano. Assim, por exemplo, a giesta, a amendoeira, a videira, a pereira, o vimeiro, etc., conhecidas, por isso, como plantas calendário.
Então, relacionando-se a sucessão de dias e noites, mesmo sem a percepção do movimento de rotação da Terra, chega-se à subdivisão de vinte e quatro curtos períodos, os quais, por seu turno, se subdividem em unidades cada vez mais pequenas: são as horas, os minutos e os segundos. No sentido inverso, formam-se as semanas, os meses, agrupados em estações, em anos, formando décadas, séculos e milénios. Surge cedo a necessidade de inventar sistemas e aparelhos de mensuração e de contagem.
Começamos pelo ano, ou seja, o tempo que se pensava que o Sol levava a dar volta em torno da Terra - movimento aparente geocêntrico -, até que se descobriu a verdade do contrário, ou seja, do movimento heliocêntrico. O ano é a unidade base da contagem do tempo.
Com a forma de contar o tempo, preocuparam-se logo os egípcio, os judeus, os gregos, os romanos. Estes organizaram, no tempo de Júlio César, o calendário juliano, já de grande exactidão, pois continha, ao longo do ano, apenas um erro de 11 minutos e 14 segundos. Por isso, o tempo foi contado julianamente até 1582, ano em que se deu conta de que a acumulação daquele erro já somava 10 dias. Os cristãos, sob a égide do papa Gregório XIII, porque isso bulia com a data considerada correcta para a celebração da Páscoa e de outras festas móveis, introduziram alterações com base em estudos de Clavius. Acertou-se o calendário, passando-se do dia 4 de Outubro daquele ano de 1482, para o dia 15, em vez de 5. Por outro lado, conseguiu-se uma quase coincidência entre o ano civil e o natural, de tal modo que só ao fim de 5.000 anos haveria um erro de um dia. Em Portugal aderiu-se imediatamente a esse sistema.
O tempo há-de contar-se tendo por referência um determinado momento, normalmente um evento relevante. Assim aparecem as eras, várias e mais ou menos longas.
Relacionada com o calendário juliano, houve naturalmente a era juliana. A Portugal interessam especialmente duas eras: a de César ou gótica, que começou no dia 1 de Janeiro do ano 716 da fundação de Roma, 38 anos antes do nascimento de Cristo. É também conhecida como era de Espanha, por ser aquele o ano da conquista da Península Ibérica pelos romanos. Esta era foi praticada pelos portugueses até 15 de Agosto de 1422 (1384 da era de César), data em que D. João l aderiu à actual era, a cristã, tal como já o haviam feito os castelhanos pouco tempo antes.
Todas as outras divisões do tempo são feitas a partir daquela medida fundamental, o ano.
As estações existem em função dos solstícios e equinócios, fruto da variação da posição do eixo do globo terrestre. Primavera (primo vere) é a passagem do tempo frio para o quente, e como que uma primeira fase da estação seguinte, o Verão (veranu = primaveril). Outono (autumnu), faz uma nova transição para a estação fria, o Inverno (hibernus), durante a qual ocorre o repouso vegetativo.
Os meses, subdivisões do ano, têm também nomes de inspiração romana. Assim: Janeiro (Januaríus) dedicado ao deus Jano, que tinha por função abrir e fechar tudo o que, de tal, era susceptível. Por isso, também abria as portas do novo ano.
Fevereiro (Februarius) submisso a Febo, deus da morte, mês propício à purificação dos espíritos. Também sob a protecção de Neptuno celebravam-se as festas Lupercais, em honra de Pã; as Terminais, baseadas num sentimento de piedade que levasse as pessoas, utilitariamente, a respeitar os limites das propriedades; finalmente as Februais dedicadas aos deuses manes dos mortos. Todas tinham carácter expiatório.
Março (Martius), dedicado a Marte, o deus da guerra.
Abril (Aprilis). Numa das versões explicativas, o nome resultaria de palavra grega equivalente, significativa de espuma. Como Vénus nasceu numa concha de espuma marítima, seria este mês dedicado aquela deusa do amor.
Maio (Maius) dedicado a Maia ou Bona Dea, mãe de Mercúrio.
Junho (Junius}, consagrado a Juno, deusa dos casamentos.
Julho (Julius), em louvor do imperador Júlio César.
Agosto (Augustus), por deferência e honra ao também imperador Octávio Augusto.
Setembro (Septembre). O sétimo mês do antigo calendário romano conhecido por calendário de Rómulo, depois reformado por Numa Pompílio. Começando o ano em Março, era efectivamente o sétimo, pois só tinha dez meses.
Outubro (Octubre), oitavo mês, segundo o referido antigo calendário.
Novembro (Novembru), o nono, pela mesma razão.
Dezembro (December), o décimo, nos termos da mesma contagem.
As semanas, subdivisão do mês, já vão buscar a denominação à influência cristã.
Deste modo:
Domingo (dominicus), ou Dominga quando se quer fazer referência especialmente aos ofícios religiosos deste dia. É o primeiro da semana, o dia consagrado ao Senhor e ao descanso.
Segunda-feira (secunda feria) é o segundo de festa na perspectiva de consagração ao Senhor, já que o primeiro, como vimos, é o domingo.
Terça, quarta, quinta e sexta-feira, são, respectivamente, a terceira, a quarta, a quinta e a sexta festas, sempre com a mesma intenção laudatória.
Sábado (shabbath, para os judeus; sabbatu, para os latinos). Ainda é dia do descanso semanal para os judeus, como o foi para os cristãos durante muito tempo, assinalando, no contexto bíblico, o dia de descanso do Senhor, após se ter ocupado da criação do Mundo. Talvez pela necessidade de criar diferenças relativamente aos judeus, os cristãos passaram a consagração para o domingo.
As máquinas do tempo
Durante o tempo - insignificante em termos macrocósmicos - da vida humana, o suficiente para a máquina orgânica de cada ser vivo transformar quimicamente montanhas de produtos alimentares e lagos de água, e para a consciência existencial se arrojar na espantosa compreensão do Universo, a organização social é um imperativo categórico de sobrevivência. Isto, não obstante a dimensão individual microscópica, polvilho na projecção eterna do passado/ futuro.
À medida que a sociabilidade se intensificou e se complexificou, foi aumentando a necessidade de medir o tempo, cada vez com mais rigor. Os compromissos sociais, comerciais, científicos, exigem simultaneidade de múltiplas acções, o que só com medições precisas se pode conseguir. Uma fracção de segundo pode significar o êxito ou o fracasso de um encontro de satélites em pleno espaço ou de bombardeamentos cirúrgicos.
Cedo começou a necessidade de coordenação de actos e acções com base na prefixação ou determinação temporal. O primeiro ponto referencial terá sido a observação e medição da sombra das árvores e, depois, dos obeliscos. A hora era determinada pelo comprimento dessa sombra. Os primeiros artefactos construídos com esta finalidade específica foram miniaturas dos obeliscos, os gnómons ou relógios se sol em que a sombra de uma pequena haste metálica se projectava no plano em que era inserida.
Tais aparelhos, porém, só mediam o tempo, obviamente, durante o dia e quando não havia nuvens. Inventou-se, por isso, a clepsidra ou relógio de água. Um cilindro de vidro, em posição vertical, cheio de água, e com um pequeno orifício na base, ia deixando cair pingos para um reservatório colocado por baixo. A água demorava 24 horas a esvaziar o cilindro, onde 24 riscos marcavam as horas. De forma semelhante funcionava o relógio de azeite, só que o cilindro, cheio daquele produto, tinha na base uma lamparina que levava 24 horas a gastar o combustível.
O relógio de areia ou ampulheta, que ainda hoje se usa, é constituído por dois cones colocados em posição vertical, com os vértices apontados um para o outro. A areia é colocada num deles, demorando certo tempo a passar para o outro. Depois inverte-se a posição.
Também se usaram velas graduadas, com uma certa espessura, que demoravam 6, 12 ou 24 horas a consumir.
No final do século XIII, aparece o primeiro relógio mecânico com um regulador de balanceiro (foliot), até que no Séc. XVII Galileu descobre o pêndulo que havia de introduzir grande precisão nos maquinismos. As dificuldades inquisitoriais que sofreu não lhe permitiram tirar dele grandes efeitos práticos. Foi o holandês Christian Huygens que concebeu o primeiro relógio de pêndulo, construído por Salomon Coster em 1657. O mesmo Huygens inventou o sistema de espiral (cabelo) que permitiu o uso de relógios portáteis, de bolso, embora já antes existissem os "ovos de Nuremberga" que podiam usar-se pendurados do cinto.
No Séc. XVIII, Mudge avança com a introdução de rubis, mais um grande passo no sentido da precisão. A evolução continua com Lepine, Breguet, Perrelet (relógio automático), Roskopf, Pierre e Jacques Curie (quartzo), Lyons (atómico com célsio), Hetzel (diapasão), Beyer (delirium e swatch).
Em Portugal, actualmente, o tempo é rigorosamente medido por três relógios atómicos de césio que se encontram no Instituto Português de Qualidade, no Monte da Caparica, perto de Lisboa. Os sinais destes relógios e de outros espalhados pelo mundo são transmitidos para o Gabinete Internacional de Pesos e Medidas, sediado em Paris. Assim se alcança uma precisão até ao atossegundo (um milionésimo de milionésimo de milionésimo de segundo)!
As estórias de fim de século e de milénio
Tradicionalmente, cada fim de século e, por maioria de razão, cada fim de milénio, que também é fim de século, as crendices populares inventam os maiores despautérios, normalmente de cariz bem trágico. São épocas áureas para os astrólogos, videntes, bruxas e quejandos, prosperando sempre nos momentos mais desgraçados das pessoas e, sobretudo, das sociedades. Também para a plangente clerezia, que facilmente fornece achas para a fogueira, alumiando a fé com a invocação da prometida parusia, na versão escatológica habitual baseada na visão apocalíptica joanina: o sempre iminente fim do mundo, com a descida de Cristo à Terra para julgar os vivos e os mortos. Iminência que fez, logo nos primeiros tempos, parar muita gente, abstendo-se de trabalhar porque já não valia a pena. Com a aproximação do ano 1000 apoderou-se de vários povos europeus um imenso terror perante o fim do mundo julgado iminente, o que levou os fiéis a fazerem generosas e apressadas doações às igrejas e mosteiros, que naturalmente as aceitavam, indiferentes à contradição. Esta (contradição) resultava apenas do ilogismo da atitude: para quê aceitar doações se o mundo, acabando, terminava para todos, incluindo igrejas e mosteiros?
No ano 909, o concilio de Trosly tinha asseverado: "Está já iminente a vinda daquela terrível majestade a que todos os pastores concorrerão com a sua grei ao encontro do Pastor Eterno". É fácil imaginar a influência de tais assertos no espíritos dos eternos disponíveis.
Quando o ano 2000 começou a delinear-se no horizonte, os ensaios proféticos logo estralejaram como girândola de feira. Aliás, certos programas televisivos de grande e submissa audiência, despudoradamente apressaram-se a tomar por tema "o Além" com largo desenvolvimento de assuntos potenciadores do acréscimo da população de estabelecimentos psiquiátricos e com o franqueamento corredio das bolsas dos ingénuos consumidores de loas.
O momento zero e certa tradição
Depois da pequena viagem que fizemos através dum tempo histórico, poderemos tirar esta facílima conclusão: a era que vivemos começou em determinado momento zero, sobre o qual começou a crescer o ano 1 que se completou às 24 horas do mês de Dezembro. Às 24 horas de Dezembro do ano 100, completou-se o primeiro século; às 24 horas de Dezembro de ano 1000, completou-se o primeiro milénio; às 24 horas do mês de Dezembro do ano 2000, completa-se o segundo milénio, tal como os anos de uma pessoa se completam à hora do momento do dia e mês em que nasceu .
Logo, por exemplo, o século XXI começa às zero horas de 1 de Janeiro de 2001. Isto afigura-se exacto segundo um critério lógico matemático.
Na verdade, o ano do nascimento de Cristo foi naturalmente o ano primeiro da era, ao qual se foram somando os seguintes. Logo os 2000 anos completaram-se à 24 horas do dia 31 de Dezembro de 2000.
Aplicando ao caso o critério, por alguns defendido, segundo o qual se não conta o primeiro ano, ou seja, o do referido nascimento, então o século XXI entraria às zero horas do dia l de Janeiro de 2002!
Contudo, uma coisa é a lógica e o rigor matemático, outra coisa é a tradição. Verificaremos assim, nessa perspectiva, que a determinação do momento da mudança de milénio, como a dos séculos, não tem nada de científico, sendo até impregnado de certa arbitrariedade e de irracionalidade, além de não ser um facto universal. Com efeito, ele reporta-se essencialmente ao mundo cristão. Para os muçulmanos, por exemplo, faltam ainda mais de 400 anos para se chegar ao terceiro milénio, pois o tempo, para eles, conta-se a partir da Hégira, ou seja, da celebrada fuga de Maomé, de Meca para Medina.
Houve quem abrisse a sua taça de champanhe às 24 hora do dia 31 de Dezembro de 1999, porque às zero horas do dia l de Janeiro já se considerava ano novo, século novo e milénio novo. Tudo novo, excepto, talvez, a leviandade do ser humano, demonstrada também nesta contagem do tempo, influenciada, talvez, quem sabe, por interesses turísticos imediatos.
Senão vejamos:
Por razões várias, muito se discutiu ao longo dos tempos acerca da forma correcta de determinar o momento da entrada do terceiro milénio: para os activos epicuristas era o dia l de Janeiro de 2000; para os pacíficos e expectantes estóicos era o dia l de Janeiro de 2000. Nunca se pôs a questão relativamente a l de Janeiro de 1999. Aliás, há quem entenda que Cristo nasceu quatro anos antes da data geralmente atribuída ao seu natal, considerando que é conhecida a data de um acontecimento histórico, perfeitamente determinado no tempo: o recenseamento em que Cristo foi incluído, no reinado do imperador romano César Augusto.
Assim, quem eventualmente tivesse a intenção (homens ou deuses) de acabar com o Mundo no fim do milénio, ficou tão confuso quanto a tal determinação, que só lhe restou uma solução: deixar, apesar dos maus augúrios, que o Mundo continuasse tranquilamente a girar...
Então por que razão alguns fizeram estourar o champanhe no fim de Dezembro de 1999?
A referia controvérsia quanto ao ano 2000 e 2001, emergia, à partida, de um erro cometido no Séc. VI. O papa João I incumbiu um frade de nome Dionísio (conhecido pela alcunha de "o Exíguo", por ser exíguo no tamanho - muito baixo e magro), de contar o tempo do mundo e da cristandade. Tarefa bem árdua, sem dúvida. O frade fez o melhor que pôde. Assim calculou que Cristo nasceu em 25 de Dezembro do ano 753 da fundação de Roma. O ano romano começava, porém, em l de Janeiro. Fez, então, coincidir o começo da contagem da era cristã com l de Janeiro do ano de 754 daquela era romana, argumentando que esse dia tinha sido o da circuncisão do Senhor. Em virtude de um puro engano, considerou esta data (754) o dia l de Janeiro do ano um, quando já era o ano dois. O ano um deveria ser, como é óbvio, o de 753 o que faria corresponder a entrada do milénio com l de Janeiro de 2001. Mas considerando o ano um o correspondente a 754, então o fim do milénio seria empurrado para 31 de Dezembro de 2002.
Como é que se recuou para Dezembro de 1999?
Aparentemente, com base noutro erro: considerando 753 e 754 pelo critério da contagem do tempo antes de Cristo (AC) (mais antigas conforme as unidades sobem).
Seja como for, certo é que, depois desta baralhada toda, a Igreja Católica começou as celebrações do milénio na véspera do Natal de 1999, quando se inicia o Ano do Jubileu com a uma missa solene na Basílica de S. Pedro.
Por seu turno, os Bancos fizeram as suas contas, os seus acertos, os seus balanços, tendo em consideração o dia 31 de Dezembro de 1999 e l de Janeiro de 2000. Isto certamente porque os computares estavam normalmente programados em função daquela data, somente com dois dígitos, o que, como se sabe, causaria sérios transtornos contabilísticos a quem se não preveniu a tempo, porque eles regressaram a 1900 em vez de avançarem para o ano de 2000.
Assim, a entrada do milénio assentou num puro equívoco. À equivocidade escapa, porém, o incessante fluir dos tempos, inarredável e objectivo, apesar dos medos e disparates apocalípticos.
Como já atrás afirmámos, com a entrada de um novo ano, de um novo século, por maioria de razão, de um novo milénio, aparecem sempre vozes ressoantes de mitos e do medos inerentes.
O medo foi sempre um sentimento a acompanhar a humanidade, como uma sombra. Medo da miséria, das guerras, das epidemias, da violência, dos astros, e, sobretudo, medo do além.
Medo da miséria
A alimentação é a preocupação básica, pois sem ela não pode haver sobrevivência. A preocupação primacial dos povos primitivos era a comida, para além do sexo e da busca de um local de repouso, germe da habitação. Quebrando a dependência directa da Natureza e dos frutos espontâneos, inventam a agricultura e a pecuária. Procurando escapar ao esforço dessas práticas, aproveitam o resultado das guerras para saquear e escravizar os vencidos, tornando-os agentes de produção. São essencialmente estes agentes, quer na situação de escravatura, quer na de servos da gleba, que têm razões para recear a falta de alimentos, pois nas situações de crise, são os primeiros a sofrer privações.
O homem do povo medieval vivia em situação semelhante à penúria dos povos mais pobres da África actual (onde todos os dias morrem de fome milhares de pessoas), com um agravamento notório no Séc. XII, pelo afluxo aos arredores das cidades, dos camponeses desenraizados, formando aglomerados que foram os antepassados dos actuais bairros de lata. Minorando o descalabro da situação, atenuando o medo endémico da miséria, emerge um notável espírito de solidariedade personificado em homens que rompem com a comodidade dos "instalados". É a época de S. Francisco de Assis e dos fransciscanos dos primeiros tempos.
Medo das guerras
É o medo dos outros, o medo das incursões dos vikings, das invasões dos bárbaros, dos turcos, dos hunos, dos húngaros, dos sarracenos, dos castelhanos, dos alemães, dos soviéticos. É o medo dos outros seres humanos com costumes, língua, religião diferentes, ou, simplesmente, com ambições diferentes, mas, na verdade, capazes das maiores e mais cruéis devastações e atrocidades. Ontem como hoje.
Medo das epidemias
Com frequência brutal se declaravam surtos de doenças infecto-contagiosas que dizimavam a maior parte da população de uma cidade ou de uma região. A falta de higiene, a ignorância da natureza das males, a carência de medicação, provocavam alastramento incontrolável. Era o mal dos ardentes ou fogo de Santo António, provocada pela cravagem do centeio misturada com a farinha; era a peste negra disseminada, sobretudo, pelas pulgas e ratos, era a lepra, englobando, aliás, todas as doenças graves da pele, como a escarlatina. A maior parte das vítimas da peste negra era gente do povo, com hábitos higiénicos mais descuidados e residências menos limpas. A lepra já avançava tanto nos meios plebeus como aristocráticos. D. Afonso II teria sido "gordo" por efeito da lepra. Dessas doenças, a mais terrível era a peste. Para além das epidemias assinaladas na Bíblia (Samuel), entre os filistinos, e por Sófocles, entre os gregos (in Édipo Rei), muito antes de Cristo, a História assinala três grandes epidemias, já na era cristã: a Peste de Justiniano, no século VI, na bacia do Mediterrâneo; a Peste Negra, vinda da Índia, com início no século XIV e que assolou, em vagas sucessivas, a Europa, matando mais de 25 milhões de pessoas; a Peste de 1891 que, a partir de Yunam, deu volta ao mundo, coincidindo com a introdução da navegação a vapor. A Peste Negra, em Portugal, em 1348, sob o reinado de D. Afonso IV, durante três meses, matou dois terços da população. No século XVII houve um surto terrível no Algarve. No século XIX, a cólera morbus e a febre amarela provocaram mortandade tal - dela morreram D. Pedro V e os irmãos, com excepção de D. Luís -, que as pessoas mais idosas ainda ouviram falar dela de forma muito viva. A peste propriamente dita era provocado por um bacilo que A. Yersin, em 1894, conseguiu isolar e que era transmitido mormente, como se disse, por ratos e pulgas, provocando bubões nas axilas, virilhas e pescoço, além de perturbações pulmonares.
Tais calamidades tinham profundas consequências de carácter económico, político e religioso, como é fácil deduzir da redução drástica das populações. Facilmente a ingenuidade popular atribuía as causas a venefícios, a sortilégios diabólicos, com o respectivo estendal de perseguições a bruxas, a ungidores.
Alezandro Manzoni, no seu grandioso romance «Os Noivos», descreve o que foi, em Itália, uma dessas epidemias. Narra a dado passo:
"Renzo viu surgir um homem que agitava uma campainha e atrás dele, dois cavalos que (...) vinham andando a custo, atrelados a um carro cheio de cadáveres e, a seguir a este, mais três. Ao lado dos cavalos, iam vários maqueiros (...). A maior parte destes cadáveres iam nus, alguns mal embrulhados em farrapos, amontoados, misturados uns com os outros (...). A cada balanço essas pilhas funestas estremeciam, desfaziam-se de maneira horrível. As cabeças descaíam e ficavam a balouçar; os cabelos das virgens desenrolavam-se e flutuavam a cada sopro do vento; desprendiam-se braços que vinham depois bater nas rodas (...)”.
Já na década de 40 (1940), uma febre tifóide, matou mais de um terço da população de Gamelas e do Pereiro, no concelho de Pinhel. Durante séculos, a sífilis matou a esmo. Agora é a vez sida. Tudo isto era tido como castigos ou admoestações divinas, no pressuposto da comunicação permanente do mundo real e do sobrenatural, crença típica do homem ocidental.
Medo da violência
Outra medo latente na rotina diária é o resultante da violência que podia emergir subitamente à porta de casa ou no decorrer dos trabalhos campestres. Nos tempos medievais, de economia essencialmente agrícola e em que a riqueza assentava na propriedade da terra, uma das fontes dessa violência emergia do regime matrimonial, dos morgadios: para se evitar a divisão da terra, só o filho mais velho era herdeiro e muitas vezes até só ele podia casar. Os restantes filhos - e eram muitos, que controlo da natalidade não havia e a mortalidade infantil entre os nobres era menor -, sobreviviam de forma aventureira, dedicando-se à caça e conquista, procurando o saque e a violação, os trofeus mais apetecidos de quase todas as guerras e guerrilhas. Organizavam-se em grupos extremamente agressivos - os justiceiros cavaleiros andantes são, normalmente, fruto da imaginação literária - autênticos vândalos que se guerreavam entre si e oprimiam impunemente os mais frágeis, os camponeses e a arraia miúda de que fala Fernão Lopes. Em Portugal, um desses grupos, vicejava no Minho sob o comando de um jovem que, mais tarde, havia de ser condestável: Nuno Álvares Pereira.
Este jovem, após o seu casamento com Leonor de Alvim, instalou-se no Minho, nos domínios da mulher. Ali se reuniu uma aguerrida companhia de acontiados, escolhidos entre os indivíduos mais truculentos e agressivos. Rixosos e volteiros, «pela mais pequena frioleira, pelo mais somenos capricho, era cutilada de bota abaixo, sem atenderem à qualidade das pessoas, nem ao número dos que tinham pela frente. Eram verdadeiros minhotos do alto, sem outro freio e sem outro respeito senão o acatamento que tinham ao seu esforçado caudilho, que nessa época era tão bom como eles e que se revia naquelas proezas, porque só daquela gente se contentava e contentou em seus dias»" (Arnaldo Gana, A Última Dona de S. Nicolau). Foi com estes homens, autênticos assassinos tolerados pela anarquia da época, capazes de serem valentes e inquebrantáveis soldados, que o Condestável venceu a batalha de Atoleiros e começou o desbaratamento dos Castelhanos em Aljubarrota. Era comum os ricos-homens arregimentarem grupos deste jaez. D. Nuno juntava-lhes uma coragem, determinação e iniciativa pessoais, verdadeiramente singulares. No seu ânimo também não deixava de pesar um bom naco de ambição de riquezas que D. João I lhe não regateou.
Estes bandos desenfreados, terror das populações, eram, portanto, aproveitados pêlos príncipes quando deles precisam. Só que, em tempo de paz, constituíam motivo de desassossego para todos, mostrando-se a organização de torneios insuficiente para resolver os problemas que eles criavam.
Procurando domá-los, os príncipes e os bispos admoestavam-nos a respeitarem certo número de restrições, sob pena de maldição. Assim, argumentavam:
"Podeis matar-vos uns aos outros, mas deveis doravante, bater-vos nas imediações das igrejas, lugares de asilo onde, seja quem for, poderá refugiar-se. Não podereis lutar em certos dias da semana, em memória da Paixão de Cristo. Portanto, às Sextas e aos Domingos não há guerra. E além disso, não deveis atacar as mulheres, pelo menos as mulheres nobres, nem os mercadores, os padres e os monges” (Georges Duby, Ano 1000 Ano 2000).
Fora disso, podiam matar-se uns aos outros, considerando-se até um bem a mútua exterminação. O rei francês S. Luís admoestava-os a enterraram a espada na barriga dos judeus e dos muçulmanos em vezes dos correligionários cristãos. Um dos factores que levaram D. João I a guerrear os sarracenos, no norte de África, foi a necessidade do controlar o exército que passara a vida a lutar contra os castelhanos. Ao mesmo tempo, fazendo verter o sangue de infiéis, aproveitava para se redimir da matança de castelhanos, afinal cristãos como ele. Outra forma de enquadramento dos fogosos guerreiros foi a integração em ordens religiosas militares, depois de jurarem utilizarem a espada só para determinados fins.
Foram sucessores de tais grupos os que se formaram aquando das invasões francesas e se consolidaram na guerra civil liberal: bandos como o do Remexido, do João Barandão, do Zé do Telhado, embora este com características específicas. Modernamente, a violência revela-se em atentados políticos, em assaltos, em bandos de bairro, em milícias populares, em "skinheads", em violações, nas mafias e "cosas nostras", o terrorismo internacional. Tudo fomenta o medo que acompanha o ser humano deste o começo, fugindo às feras, aos inimigos e aos grandes cataclismos naturais.
Medo dos astros
Como já tivemos ocasião de referir, um dos medos mais universais, resulta do comportamento da Natureza. Os tremores de terra, as explosões vulcânicas com a lava incandescente, o aparecimento e desaparecimento de ilhas, a destruição de cidades, sempre foram motivo de grande inquietação. Se as zonas terrestres sujeitas especialmente a tais cataclismos são perfeitamente conhecidas, já as grandes tempestades, tufões e ciclones, ocorrem em qualquer parte do mundo.
Para além disto, são particularmente alarmantes ou causadores de perplexidade, para a generalidade das pessoas, os fenómenos astrais: estrelas cadentes, auroras boreais, eclipses, cometas.
A possibilidade de colisões de corpos celestes com a Terra, de vez em quando é causa de alarme, por via de previsões de iluminados, devidamente veiculadas pelos órgãos de comunicação social.
Logo se avança com a tese do extermínio dos dinossauros, por via de impactos astrais, que poderá ter sido uma realidade. E o medo insta-se.
Medo do Além
Este fenómeno é talvez o medo dos medos, não obstante ser o que não oferece perigo real algum, por ser apenas imaginado. É o medo de Deus, da morte, do inferno, das bruxarias.
Uma das palavras mais repetidas na Bíblia é o substantivo temor, temor de Deus, eterno e permanente vigilante (ao contrário das divindades orientais) que não pode ser minimamente agravado, sob pena de terríveis consequências. De algum modo, temor/terror de Deus está conexionado com o medo da morte, já que esta é o momento de prestar contas perante um juiz implacável, além de ser o termo de uma vivência apaixonante. Assim, recusa-se a aceitação de um fim, como fenómeno natural e busca-se consolo no conceito de vida eterna. Os gregos alimentavam, através dos pitagóricos e de Platão, a ideia da metempsicose (reencarnação). Na África negra, os gingas acreditavam no regresso à terra em carne e osso. Por isso, os chefes eram sepultados sentados e acompanhados por servos vivos (um infeliz casal de crianças especialmente preparadas para o sacrifício), práticas ainda efectivas em 1950! De forma semelhante agiam os maholos, quiocos, bengalas, bambeiros. O falecido, porque regressaria à vida, era enterrado vestido com os trajos de uso habitual: tanga e mulele.
Em termos de cristianismo, a vida eterna apresenta um grave problema quanto à determinação do lugar definitivo de permanência: céu ou inferno. O problema resulta da imagem que tradicionalmente se criou do inferno, local sem retorno, câmara de tortura perpétua, de cruéis penas sem fim. É o eterno ranger de dentes, a cozedura constante nos imensos caldeirões de azeite fervente, é o esmagamento infindável sob os cascos duros e afiados de perversos demónios, é o grito desesperado que trespassa os tempos, obstinadamente imutáveis. As almas putrescentes jazem ali, sem apelo nem agravo.
É este o quadro instilado no espírito, até das crianças, e de cuja influência só com muita lucidez e enorme coragem o adulto conseguira libertar-se, se um dia for capaz de vencer o inerente medo, denso e pastoso como visco.
Um dos aspectos de que a humanidade mais tem de se envergonhar é a crença nas bruxarias e sequente medo dos maus olhados, das artes mágicas, da provocação de transtornos, do fazer e desfazer amores, da estragação de colheitas, da pitonísica previsão do futuro. Era, e continua a ser, fruto maduro da ignorância, do delírio psicopático, do burlismo. Hoje, as bruxas deixaram o pau da vassoura para voar e andam de avião e de automóvel, perderam as verrugas do nariz para se tomarem figuras bonitas, atraentes e mediáticas. Todos os dias as vemos na televisão e em anúncios de jornais. O medo, no entanto, cavalgando a superstição, continua a acompanhar o fenómeno.
S. Bonifácio e Santo Agobardo, respectivamente nos séculos VIII e IX, reagiram contra a crença na bruxaria, acentuando a sua origem pagã, e a lei canónica chegou a considerar infiel e pagão o crente em tais práticas (canon ou capitulum episcopí). No mesmo sentido se pronunciaram sensatamente Carlos Magno e Coloman da Hungria. Tal tendência foi anulada, em breve, pelos legistas e doutores eclesiásticos, incluindo Santo Agostinho com a sua «mente barroca e credulidade africana» (Trevor-Roper), e S. Tomás de Aquino. Foi então uma farteza de bruxas! Por toda a parte foram topadas, diligentemente perseguidas, piedosamente cremadas. Milhares e milhares de seres humanos, na sua grande maioria mulheres (os bruxos ofereciam muito menos interesse aos argutos inquisidores machos, pois no domínio sexual, as confissões eram espectaculares e requintadamente pormenorizadas, adivinhando-se, por detrás das respostas, as perguntas sugestivas dos lúbricos interrogadores, comprazendo-se em excitar a sua luxúria, facto que, só por si, já explica, em parte, a existência de tanta bruxa e de tão poucos bruxos), foram massacrados, em holocausto a uma crendice burra.
Como se fazia e o que era uma bruxa? A bruxa é uma espécie de feiticeira diplomada, de que esta era mera estagiária. As simples candidatas ao estágio são as alcoviteiras que bom rendimento tiravam nos meandros das alcovas. Encontra-se, porém, uma expressiva resposta a esta pergunta numa devassa inquisitorial realizada em 1559, como se poderá encontrar em muitas outras sentenças da Inquisição proferidas já no século XVIII. Os elementos foram obtidos através de confissões das inquiridas, conseguidas depois de «com muita caridade admoestadas».
Cerimónia de investidura
Passados os graus de alcoviteira e de feiticeira, alcança-se a «formatura» em bruxaria através de juramento. Para tal, o negro Demónio abre um livro negro, de folhas mui negras, em ambiência obviamente negra, e a candidata, acolitada por dois negros diabos, coloca sobre as negras páginas as impudicas mãos negras. Segue-se uma série de perguntas e respostas.
- Prometes e juras nunca creres nem adorares outro deus senão a nós?
- Prometo.
- Arrenegas de Deus e do baptismo que recebeste?
- Arrenego.
- Prometes não nomear o nome de Jesus por modo nenhum, nem maneira e nunca confessares a verdade, ainda que te confesses?
- Prometo.
- Prometes apartar-te de Deus e nunca teres amizade com ele e fazer-lhe quanto mal puderes?
- Prometo.
Então, o Demónio fecha o livro, vira o traseiro à candidata que lhe levanta o longo rabo e ali deposita um beijo, prólogo do trato sexual que logo mantém a seguir. Fica acabada e pronta mais uma bruxa, depois de lhe ser posto um imperceptível sinal no corpo, feito com uma unha, e de marcado, na menina-dos-olhos, um sapinho, pelo qual as bruxas se reconhecem umas às outras.
É fácil imaginar a diligência com que as astutas beatas procurariam o sinal no corpo ou o sapinho nos olhos das vizinhas malquistas...
A bruxa (ou bruxo) inicia, pois, a sua específica actuação de fazer mal, a troco de comércio carnal com o Demónio, de quem «recebia mais gosto, amor, deleitação do que nenhum homem faz, nem pode dar a uma mulher». As orgias máximas aconteciam nos bacanais sabáticos, reuniões gerais convocadas para o efeito às segundas, quartas e sextas-feiras, depois das dez horas. Para tal, as bruxas untavam o sexo com unguentos especiais ficando, com isso, prontas a voar para o "sabat". Aqui se come, se bebe, se dança e, sobretudo, se guincha de arrebatado gozo carnal.
Os bruxos atingem também o delírio através de diabos que assumem a forma de mulheres belas e fogosas. Os doutos teólogos da Contra-Reforma davam como assente que as bruxas podiam conceber destas relações diabólicas, dado que Lutero necessariamente tinha nascido de uma delas. Mas o Diabo era neutro, nem macho nem fêmea, embora pudesse assumir tanto uma forma como outra.
Resolveu-se a difícil questão aceitando os ensinamentos de S. Tomás de Aquino: o súcubo (diabo sob a forma de mulher) recebia do bruxo o sémen que depois o incubo (diabo sob a forma de homem) ejaculava na bruxa. E assim o grave problema foi sabiamente resolvido.
«E estando nestes desenfadamentos e folgares, cantava, no campo, um galo que estrugia as orelhas, que devia ser algum demónio, que sempre cantava à meia-noite a modo de galo. E logo, num momento, se desfaz a festa e o folgar e todos os demónios desaparecem e os que lá têm as suas amigas e mancebas as tornam num momento a trazer do modo que as levaram a suas casas».
Para obterem o unguento voador, as bruxas, acompanhadas pelo mafarrico, haviam de matar crianças e sugar-lhes o sangue, matéria-prima daquele produto. Se por acaso a criança não morria logo, ficava tão apençonhada que se finava em pouco tempo. Também servia para o fabrico da mezinha, uma poção extraída de sapos espremidos. Portanto, os poderes maléficos das bruxas eram doação diabólica e daí o perigo e gravidade da sua existência. Guerra santa, pois, às bruxas. Nessa cruzada purificadora sobressaiu a bula do papa Inocêncio VIII, Summis Desiderantes Affectibus, emitida em 1484, em que autoriza os seus filhos bem-amados, os dominicanos Heinrich kramer e Jakob Sprenger, a expurgar a bruxaria da face da terra. Os dois zelosos irmãos da caridade fizeram publicar, em 1486, o notável fruto da sua preclara inteligência, o Malleus Maleficarum (o Martelo das Bruxas), permitindo dar cumprimento ao preceito bíblico «não deixarás viver a feiticeira» (Êxodo, 22-18).
O maquiavélico Malleus parecia realmente eficaz. Com efeito, o inquisidor devia fazer à suspeita trinta e cinco perguntas. Se trinta e quatro fossem inconclusivas, a primeira resolvia a questão. Perguntava-se:
- Crês nas feiticeiras?
- Sim.
Tal resposta era tomada como indício infalível de envolvimento, pois ficava denunciado o trato com elas. A resposta era:
- Não!
Logo ficava patente a sua heresia, por não acreditar no que a fé afirmava. Complementarmente, continuava-se o interrogatório admoestando-se à confissão com a tal «muita caridade». Por fim, fazia-se a prova de água: a suspeita, com todos os membros atados juntos, dobrando-se-lhe o corpo, era lançada a um poço. Se o afundamento ocorria (o que naturalmente se verificava), era bruxa; no caso contrário, a água que lhe servira no baptismo rejeitava-a e, por isso ... também era bruxa!
Em 1836, perto de Dantzig, na península de Hela, ainda se afogavam mulheres por este processo! Claro que nunca se assassinaram todas as bruxas e bruxos, pois que, cada uma e cada um o era tanto como qualquer outro ser humano. Não obstante, havia quem se ufanasse de ter condenado à morte 20.000 feiticeiras, tendo lido a Bíblia 53 vezes enquanto isso decorria. A extensão do holocausto fetichista é tanto maior quanto é certo que a vergonha da sua responsabilidade cabe, não só ao fanatismo católico, como também ao protestante, mormente o de raiz calvinista. O próprio Lutero acreditava em bruxas, com íncubos, súcubos e tudo. Quem sabe se o Renascimento não teria desembocado directamente no Iluminismo se, em vez do triunfo de um Loyola e de um Calvino, ocorresse a vitória do humanismo prudente de Erasmo, homem que D. João III pretendeu trazer para Portugal como professor da Universidade de Coimbra ...
No século XXI seria de presumir que as superstições e crendices desta género fariam já parte dos espólio dos trastes bolorentos integradores de um passado que nada tem a ver com os tempos cósmicos. Qual quê! Não raro se ouve repetir com ar sagaz a estafada expressão:
" – Não acredito em bruxa (mas que as há, há". Isto da boca de mui ilustres personalidades.
§ § §
A propósito de estórias de fim de século e de milénio, referimos que os ensaios proféticos de desgraças e hecatombes globais cedo começaram. Muito mais ainda virá que o filão é inesgotável.
Esses oráculos poderiam merecer-nos um fugaz e significativo encolher de ombros se não fora a influência altamente perniciosa que eles podem ter em espíritos débeis. Com efeito, afigura-se trágico que se encarem as reais ameaças à paz mundial como algo de inelutável, como um destino inarredável e fatal, determinado por implacáveis forças sobrenaturais. É essa convicção que se torna perigosa, devendo ser já substituída por outra assente na consciência e na vontade do ser humano no sentido de perceber claramente que existe uma alternativa ao seu alcance: prosseguimento na senda do desenvolvimento, em vez do afundamento abismal. Cada um, em qualquer parte do mundo, deve denunciar, corajosamente, a loucura, a alienação, os jogos políticos cínicos que utilizam os fundamentalismos suicidas como argumentos de apoio ao exercício do poder.
Tal atitude é tanto mais urgente, quanto é certo que não falta quem seja capaz, em nome dos deuses, de provocar apocalipses. Basta atentar nos frequentes atentados assassinos de inocentes e nas consequentes retaliações.
O russo Mikhail Kulik que investigou o furto de 13,5 quilos de urânio enriquecido, revelou o facto alarmante de arsenais atómicos, no seu país, durante um determinado período, estarem menos bem guardados do que os depósitos de batatas! A evidência de tal situação resulta clara do caos político e económico em que a Rússia, potência atómica, esteve mergulhada. Não é nenhuma surpresa que quem agora faz terrorismo com armas convencionas, surja amanhã a lançar uma bomba atómica ou ogivas recheadas de substâncias letais de natureza química ou biológica, em Nova Iorque, em Londres, em Paris, Berlim. Como vai ser, então, a retaliação e onde?
É conhecida a tendência para o uso do gás sarin, já ensaiado em Tóquio. Está provada a capacidade de loucos megalómanos para, sem hesitações, provocarem ondas assassinas massivas. É esse perigo real determinável sem necessidade de se fazer futurologia, que deve ser rechaçado, denunciando-se a desumanidade dos responsáveis. Segundo palavras de Georges Duby, vivemos ainda embalados por tudo o que os nossos antepassados fizeram e pensaram. "Se vasculhássemos as consciências dos nossos contemporâneos encontraríamos muita gente que continua a alimentar a ideia de que a história humana pode interromper-se bruscamente". Sabendo que "os dinossauros desapareceram tão subitamente que ainda se encontram ovos por eclodir somos levados a pensar que, devido a um qualquer mecanismo, a uma falência total das defesas imunitárias, por exemplo, a espécie humana pode também desaparecer". Tudo isto, porém, só poderia acontecer por razões bem físicas e determináveis, embora eventualmente incontroláveis, como seria uma colisão de planetas, ou por razões directamente assentes na responsabilidade humana. Estas são, aliás, as razões mais temíveis, mas também as mais facilmente arredáveis. Assim o queiramos.
No dizer de Edgar Morin, "é preciso considerar, na feição do homem, o mito, a festa, a dança, o conto, o êxtase, o amor, a morte, o despropósito, a guerra ... é preciso não rejeitar como ‘ruído’, resíduo, desperdício, a afectividade1, a neurose, a desordem, o acaso. O homem verdadeiro encontra-se na dialéctica de sapiens-demens”. "Só a elaboração de uma teoria de hipercomplexidade organizacional permitiria integrar de forma coerente os aspectos incoerentes dos fenómenos humanos, só ela poderia conceber racionalmente a irracionalidade." A percepção disto é obviamente imperiosa.
Releguemos, pois, as profecias - todas - para o lugar que merecem: o campo delirante da utopia.
Entretanto, os milenaristas que manifestem os feitos dos seus fanatismos, se não das suas graves perturbações psíquicas... Muitos acorreram desvairados, aquando da aproximação do novo milénio, a Israel. O pior é que muçulmanos como Hayan Idrisi, foram afirmando, perante multidões de outros fanáticos, que os cultos do Juízo Final se integram numa monumental conspiração dos Estados Unidos da América para destruírem o Islão!
Tais atitudes, mães de todos os disparates, podem, infelizmente, carrear consequências graves.
Entretanto, pulularam por aí as espantosas "cruzes do amor", pingue descoberta de oportunistas, mais uma vez em detrimento dos simplórios.
Em 1997 foi publicado, em Portugal, um livro da autoria de um jornalista americano - Michael Drosnin - em que se refere a pretensa descoberta de um código, contido na Bíblia, em que estaria previsto todo o futuro da humanidade a partir da época em que tal código teria sido criado, há 3000 anos (1000 AC.). O código estaria inserto apenas no Pentateuco (Antigo Testamento), já que as referências ao Novo Testamento são perfunctórias e cingidas ao apocalipse.
Assim, estariam ali previstos factos como a morte de Yitzhak Rabin, a Guerra do Golfo, o caso Watergate, a morte de Kennedy em Dalas, a presidência de Roosevelt e de Clinton (não se menciona o escândalo Mónica Lewinsky porque, aquando da feitura da referido livro, ainda não era conhecido, mas há-de estar lá: é só buscar ...), a chegada do homem à lua, o nazismo, com referência expressa a Hitler, a existência de vários autores literários e do avanço cientifico, a eleição do primeiro-ministro israelita Netanyahu, a invenção dos computadores e a sua capacidade para abrirem o apocalíptico "livro selado", etc., etc.
Para além de tudo isso - o que é mais notável -, ali constaria expresso o fim dos tempos, o holocausto atómico, o armagedão, resultante ou de guerra mundial, tudo girando à volta do povo judeu, ou de arrasadora actividade sísmica.
Só que a época mais indicada para tal ocorrência seria os anos 1995/1996. É, porém, evidente o falhanço da previsão, pois já estamos em 2006! Explicação adiantada e contida no "código": o facto foi adiado, pois ainda podia ser alterado. Assim, indicam-se logo outras datas ... também alteráveis!
Curiosamente, porém, acreditando na seriedade do trabalho do referido jornalista, os mencionados acontecimentos constam, efectivamente, do texto bíblico. Mas como?
Introduziu-se o Pentateuco num computador, com software adequado. Pediu-se-lhe, então, que procurasse o assunto que interessava. Perante a vastidão do texto, exposto todo a seguir, como era normal no hebraico, e colocadas as letras de forma a alinharem horizontal e verticalmente, ordenou-se à máquina a respectiva busca, o que ela fez em todos os sentidos. Isto é, tanto no horizontal, como no vertical e diagonal ou oblíquo. Assim, é fácil encontrar a "previsão" que se pretende, seja no texto bíblico ou em qualquer outro texto longo, como, por exemplo "Os Miseráveis" de Victor Hugo, ou “Os Mais”, de Eça de Queirós. A questão é que se busque com a mesma intenção. Trata-se de uma espécie de jogo de palavras criativo de coincidências, apesar de o referido autor do "Código" pretender que, matematicamente, tais coincidências são de arredar. A apreciação deste aspecto não se compadece com a brevidade da presente abordagem.
O certo é que o referido livro vendeu como tremoços, como vende tudo o que habilidosamente explora a fraqueza cerebral que cientistas localizam em determinada zona cerebral.
O evolucionismo acabará por eliminar tal zona . Entretanto, assentemos, convictamente, no seguinte: se acontecer um holocausto atómico ou de outra qualquer natureza, não será por via de fatalistas previsões, mas sim por causa da “inteligente estupidez” do ser humano que não tem evoluído mentalmente na proporção do desenvolvimento tecnológico. Esperemos, que, entretanto, seja capaz de se furtar à influência perigosa dos míticos fundamentalismos, colocando-se fora e acima deles. Basta crer na sua HUMANIDADE e num rápido e novo “nascimento” desta. Isso é urgente para podermos chegar sossegados ao momento zero do novo de 2007 (zero horas de 1 de Janeiro)
(*) José Pereira da Graça, escritor português. Publicou pela Ediorial 100: Maria do Mar (Viagens & Mitos), Os «Cruzados» da Serra e O Urso Vermelho.
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