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Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Entrevista a José Pereira da Graça
Entrevista a José Pereira da Graça a propósito da publicação de “Os «Cruzados» da Serra pela Editorial 100
1) Comparar o Pinhel - Portugal de aquela altura com o Pinhel – Portugal (actual)
O enredo d´Os "Cruzados" da Serra desenvolve-se nos fins do primeiro quartel e princípios do segundo, do Séc. XX, ou seja, nos fins da 1.ª República e no limiar do Estado Novo. A vivência social é a específica da Beira Alta com epicentro no concelho de Pinhel. Portugal mantinha a sua ruralidade baseada na economia essencialmente agrícola com meios de produção oriundos, com poucas alterações, das profundezas da Idade Média.
Claro que essa ambiência foi profundamente afectada no início dos anos 60, com o fenómeno emigratório e, mais tarde, com a Revolução de Abril e, depois, com adesão de Portugal à Comunidade Europeia.
2) De que bando está o mal?
Na trama do romance, como na vida, é inevitável o confronto do bem e do mal. De que lado está o mal? De uma maneira geral e dentro da relatividade dos conceitos, normalmente o mal vem do lado dos que defendem privilégios alicerçados em mitos. Assim foi sempre.
3) Igreja e Poder naquela altura?
A Igreja tinha sido seriamente atingida no seu prestígio e influência com a instauração da República em 1910, embora a sua hegemonia tivesse começado a ser afectada no tempo do Marquês de Pombal e, depois, pela emergência inelutável do liberalismo. Ao longo de mais de 15 anos de incapacidade dos políticos para encontrarem um rumo praticável e seguro, foram-se criando condições para ressurgimento ditatorial a que a instituição eclesiástica deu a sua bênção a caminho da velha aliança Trono/Altar, não obstante o Trono enfiar o barrete frígio.
4) Literatura e Realidade
A Literatura tem o privilégio de trabalhar a realidade numa perspectiva de Verdade independentemente do factualismo concreto. N´Os “Cruzados” da Serra há alguns, poucos, factos históricos, sendo tudo o mais fruto da fantasia, halo ficcional da verdade da substância subjacente. No dizer da jovem Ana Dinger Moreira Duarte, nome que provavelmente voltaremos a topar no mundo da cultura, “paradoxalmente, também pode acontecer que, ao afastarmo-nos da verdade, nos aproximemos dela. Entenda-se aqui verdade como algo essencial e já extrínseco à realidade factual”.
5) Envelhecer com a escrita ou rejuvenescer com ela?
A escrita nunca é um envelhecimento. Só se o autor assim o determinar. Na sua omnipotência criativa, se ele quiser renasce quantas vezes o desejar ou revive a maturidade a seu bel prazer por via das personagens que nascem vivem e morrem ao sabor das inventivas circunstanciais. Nada, na trama romanesca, é alheio ao autor, seu único comandante. O envelhecimento saudável apenas aguça experimentalmente o engenho.
6) Livros inéditos?
Livros inéditos apenas um: a História do Urso Vermelho produto da ternura personalizada de avô.
7) Projectos de livros?
No campo dos projectos há um já em começo de execução e que constitui a meta a alcançar a médio prazo: O Falcão D’El Rei. Assim a saúde a permita.
8) Recriar a história para que? Porque ficou tão sensibilizado com o caso do assassinato acontecido no se romance?
Os poucos factos verdadeiros, no sentido do real, contidos no romance, e sendo certo que o principal sempre martelou os ouvidos do autor por tradição oral, foram um pretexto para a prática de um acto de justiça através da recriação do heroísmo vivencial de personagens fictícias, mas verdadeiras no sentido que há bocado referimos: “perspectiva de verdade independentemente do factualismo concreto”. E tal recreação floresce no seio da Natureza invocada com paixão, que o autor teve o privilégio de experimentar e viver na sua juventude: o crescimento dos freixos nos lameiros limados pela água pura dos ribeiros, o cheiro dos pinheiros bravos, a sombra fresca dos sobreiros, a leveza do ar livre de poluição, os limos de verdura imaculada na correnteza sadia dos rios prenhes de peixe, a frescura das manhãs de Verão, o colorido dos poentes no Outono, a beleza das ceifeiras, a pujança dos malhadores de mangual em punho nas eiras.
A recreação é também uma homenagem à gente do meu concelho, Pinhel, à gente da minha freguesia, Pereiro, e, sobretudo, à gente simples da minha terra, Gamelas. Os meus contemporâneos, em muitos aspectos, viveram a mesma gesta das personagens da narrativa.
9) Nas suas próprias palavras e de forma breve como resumiria o romance?
Os “Cruzados” da Serra contam a história de amores vividos por gente que luta corajosamente pela sobrevivência e, sorte de alguns, pela emancipação intelectual.
10) Porque sentiu a necessidade de o rescrever e sobretudo de mudar o final?
Esta segunda edição constituiu uma preciosa oportunidade para apuro literário e, na sequência da já referida omnipotência ficcional inerente à qualidade de autor, para alteração do destino de algumas personagens e criação de outras. Além disso, esboça-se um ensaio quanto ao emprego de vírgulas, reagindo-se contra o emprego excessivo. Tudo isto graças à disponibilidade quase total de tempo de que agora o autor beneficia.
11) Como foi a experiência de ter publicado pela primeira vez o romance?
A publicação do romance na sua primeira edição foi, como já resulta do que atrás dissemos, a satisfação de uma necessidade: desabafo com o leitor, além da prática de um acto de justiça, outro de amor pela Natureza, além de uma homenagem pessoal sentida.
12) De que modo pode ter interesse este romance rescrito nas pessoas que já o leram na primeira versão?
As pessoas que já leram a primeira edição, de algum modo deparam com um fluir diferente e um desenlace completamente novo.
13) Você faz questão de lutar pela verdade. A verdade é absoluta? A verdade é justa?
A verdade é algo que profissional e pessoalmente sempre se procurou alcançar. Há verdades absolutas? Talvez na matemática. Fora disso temos que contentar-nos com a verdade lógica. A ontológica, inalcansável, poderá servir de referência, de mera motivação.
14) Ser juiz na altura de Salazar e ser juiz hoje. Comparar
Ser juiz no tempo de Salazar era seguramente mais fácil do que agora. Mais fácil porque o sistema legislativo era estável, mais fácil porque se distinguia entre os chamados crimes políticos e os comuns. Para os políticos havia os tribunais especiais, os Plenários, pelo que os juizes comuns não tinham que se preocupar com esta tipicidade criminológica. Mais fácil ainda porque o juiz era uma personalidade profundamente respeitada. Outra coisa era a pessoa do juiz, o cidadão, esse obviamente cultural e ideologicamente castrado, como, aliás, a generalidade dos “súbditos”.
15) Cada realidade, cada tempo e espaço históricos tem as suas próprias palavras. Você continua a utilizar as palavras de aquela Beira-Alta rural na vida diária ou propositadamente as incorporou no seu romance?
Cada época, cada realidade, tem o seu vocabulário próprio. O que foi empregue no romance é o vocabulário do autor? De algum modo é, desde que o expressante refira a realidade em causa. O que, entretanto, se perdeu foi o expressado, isto é, a realidade da época por via da evolução. Por exemplo: agora não se fala em chavelha, melena, rabiça, aveca, porque tais objectos desapareceram, por substituição. A verdade social, em muitos aspectos, essa mantém-se na actualidade.
16) Porque se atreveu a escrever um romance e não a compor alguma música?
Literatura e música, como actividades criativas, não são fáceis de conciliar. Mozart que não conseguia fazer poesia por palavras nem pintura em tela, afirmava que facilmente fazia tudo isso por música.
Na juventude do autor apareceram alguns temas musicais que passaram para as pautas, mas com o nível e o conteúdo dos poemas de amor que toda a gente faz na idade própria. Ficou sempre o gosto da audição e da execução resultante do deslumbramento pelo violino e pelas grandes composições. A fruição da música tornou-se um tónico essencial de equilíbrio psicológico.
17) O que é o que sente quando volta a subir sobre esse campanário localizado em Pereiro?
A subida hoje ao velho campanário de Gamelas activa a memória recreativa de verdes paixões e de sentimentos ingénuos propiciadores de sensações marcantes para toda a vida.
18) Porque escolheu “Os «Cruzados» da Serra como título para o romance. Porque Cruzados está entre « »?
O título Os “Cruzados” da Serra inspirou-se na narrativa da gesta do português rural, sobretudo do beirão da Beira-Serra. A palavra “Cruzados” aparece entre aspas porque obviamente não se refere ao monges guerreiros medievais, mas sim a defensores dogmáticos de ideologias solipsistas. Num sentido abrangente inclui também os que lutam quotidiana e incansavelmente pela sobrevivência.
19) Qual foi o modelo de romance no qual inspirou-se para escrever Os «Cruzados»...?
Os “Cruzados” não se reportam a qualquer modelo preestabelecido. Houve somente a pretensão de recrear uma maneira de viver em certa época com capacidade de projecção no futuro, na medida em que, como diria Gil Vicente pela boca da sua Inês Pereira, “sobre quantos mestres são/experiência dá lição”.
20) Que outro caso judicial o motivaria para ser romanceado?
A profissão de magistrado judicial foi rica em experiências potencialmente romanceáveis. Usámo-la em um conto do livro Labirintos. Contudo, prefere-se agora mudar de fonte em nome da liberdade ficcional.
21) Entre a realidade e a ficção: que porcentagem é ficcão no romance e que porcentagem é realidade? Porque você entra como personagem sendo a história de outros tempos?
Como já dissemos, poucos factos no romance são reais e tudo o resto é ficção, sem prejuízo de se considerar a tal “verdade como algo essencial e já extrínseco à realidade factual”.
O autor nunca disse que é uma das personagens do romance. Mesmo que o seja, a verdade sobrepõe-se a dualidades temporais por similitude de vivências.
22) Ignorância e religiosidade
A religiosidade e ignorância estão historicamente numa relação directa na medida em que, hoje, já ninguém acredita que o trovão é produto da intervenção de um deus. Contudo, obviamente, a religiosidade não depende apenas do conhecimento, persistindo apesar dele.
23) Ciência e Fé.
Religiosidade, ignorância, ciência e fé correlacionam-se até certo ponto. Note-se que a Bíblia define a fé como “o firme fundamento das coisas que se esperam e uma demonstração das que se não vêem”. As pessoas acreditam por um acto de vontade, porque querem acreditar. Nesta medida, como diria Schopenhauer, o mundo é vontade e representação. A ciência vai, no entanto, roubando espaço de manobra. Atente-se no exemplo do trovão: agora já se sabe que ele resulta do salto de uma carga eléctrica entre um polo positivo e outro negativo.
24) Espiritualidade no Agnosticismo?
Existe espiritualidade no agnosticismo? Claro que sim e muita e pura se por espiritualidade considerarmos o que melhor define e caracteriza o ser humano, limpo de mitos. António Damásio tem, de certeza, muito a dizer sobre o tema.
25) As mulheres do romance
As mulheres no romance são, tal como na vida, o que há de melhor, podendo também ser o pior. Importa realçar o melhor porque, nessa perspectiva, só elas são capazes de proporcionar uma experiência efectiva do divino.
26) O amor (no romance)
O amor no romance procura ser um espelho do real e, portanto, a motivação para o alcance do essencial.
27) Sensualidade e sexualidade (no romance)
A sexualidade e a sensualidade no romance são realisticamente condicionados na sua expressividade e concretização. Isto porque, muito concretamente, a civilização ocidental cedo fez depender o sua realização de uma licença ou alvará, traduzido, na prática, numa forma de controlo do indivíduo, portanto numa forma de eficaz contributo para o exercício do poder.
28) A justiça (no romance)
No romance a justiça foi até onde as conveniências conjunturais e os preconceitos da época permitiram que fosse.
29) Técnica literária – qual foi o plano inicial? Como foi-se construindo o romance? Quanto tempo demorou desde a primeira ideia até o culminar como romance?
Os “Cruzados” da Serra, como já foi dito, foram concebidos para recrear a vivência económica e sócio-política de uma certa época. As personagens e circunstâncias foram sendo mentalmente trabalhadas com base em alguma investigação. Tudo isto à mistura com os absorventes afazeres profissionais. O acto de escrita foi relativamente rápido, praticado embora só quando outras coisas não havia para escrever. Digamos que a concepção, gestação e parto levaram três anos a processar-se.
30) Os livros que escreveu antes. Breve sinopse de cada um e um comentário sobre cada livro como experiência.
Antes dos “Cruzados” escreveu-se Témis a Deusa da Justiça com uma estrutura monográfica em redor do recheio artístico do Palácio da Justiça do Porto, mas em que o conteúdo excedeu aquela estrutura por paixão resultante das sugestões dos temas tratados. Recentemente, uma conhecida instituição cultural do Porto tomou a iniciativa de publicar um livro fotográfico com base no texto da Témis. Depois, vieram alguns contos, os Labirintos, inspirados nos labirintos da vida real. Tudo resultou num sentimento de contribuição para realização pessoal. Antes de tudo publicou-se um trabalho relativo ao Estatuto dos Objectores de Consciência, portanto de carácter técnico, mas que, para o efeito, não conta, nem deu ao autor qualquer prazer.
31) Ler, saber mais, para saber menos, esse “saber menos” nos faz mais ligeira e leve a alma?
Sócrates só sabia que não sabia nada. Salvo o carácter simbólico da afirmação é certo que o avanço no conhecimento vai mostrando também a extensão do que se não sabe. Quanto mais se sobe na montanha maior é a percepção da área inexplorada.
32) Qual é a rotina de um juiz jubilado, escritor realizado, violinista esforçado e avó profissional?
A rotina de um juiz jubilado, escritor nunca realizado, esforçado no violino, mas incapaz de ser violinista, e avô, isso sim, qualitativamente realizado, é a busca incessante de ultrapassagem dos limites alcançados qual Fernão Capelo Gaivota.
33) Qual é a mensagem para os seus leitores com motivo de esta nova edição de Os «Cruzados» da Serra? Também aproveitar para se dirigir ao público presente no auditório.
Os leitores desta segunda edição, tendo já lido a primeira, se buscarem nela novidades hão-de encontrá-las como o autor as encontrou. Os que não leram a primeira edição passarão, com a leitura da segunda, a entrar numa boa parte do mundo do autor.
A insatisfação de apetite cultural é algo de endémico em quem procura assistir a actos como o que, aqui e agora, neste momento, estamos a viver, com a apresentação de mais um livro. É com gente como vós que dá gosto estar, esperando-se também aprender algo convosco.
(*) José Pereira da Graça, escritor português. Publicou pela Ediorial 100: Maria do Mar (Viagens & Mitos), Os «Cruzados» da Serra e O Urso Vermelho.
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