VERSIONES

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Versiones
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Autor: José Pereira da Graça - Texto: Disgnosia (?)
Data: 16 - 10 - 2007


José Pereira da Graça:

DISGNOSIA (?)


Corre na TV uma série recreadora da vida de Henrique VIII, de Inglaterra, excelentemente interpretada e tecnicamente admirável. Por norma, procura-se o rigor histórico, o que naturalmente a torna credível.

É sabido que aquele rei foi casado com Catarina de Aragão[i], filha dos Reis Católicos, os espanhóis Fernando e Isabel. Até por isso, Henrique fez coalisões com o imperador do Sacro Império Romano, Carlos V, filho de Joana “A Louca”, irmã de Catarina, e do discreto Filipe I, de Espanha. Esta, Catarina, era, pois, tia de Carlos e Henrique, tio por afinidade. O inimigo comum era, então, a França.

As tranquibérnias políticas e familiares levaram o monarca inglês e o imperador ao desgaste das boas relações e à denúncia dos acordos assumidos. A conjuntura política levou o inglês a procurar aberturas diplomáticas com a França.

Henrique tinha uma irmã, Maria, que obteve do rei francês,  Luís XII, assentimento para consigo se consorciar. Este era um homem revelhusco, meio corcunda, trôpego, babão, um pelém. A noiva, conhecedora da “prenda” que lhe era destinada, condicionou o seu consentimento à liberdade de casar com quem quisesse, logo que enviuvasse. O seu propósito era vir a casar com o conde de Sufolk, companheiro de folganças do régio irmão.

O casamento realizou-se em Inglaterra, por procuração, e segundo o ritual da época: o procurador, duque de Longueville, após as cerimónias religiosas, foi nu para a cama com a noiva e tocou-lhe com uma perna. Assim, o casamento logo se considerou consumado! A noiva lá teve que embarcar para França e manteve-se casada durante 82 dias, pois o decrépito marido não aguentou mais a fogosidade da jovem mulher ou finou-se por natural senilidade ou, ainda, por outra qualquer razão mais artificiosa.

Segundo a referida série televisiva, o conde Sufolk, comandou a guarda de segurança da noiva e desempenhou tão bem as suas funções que passou a dormir com ela, apagando-lhe o fogo do viço. Chegados ao destino, a recém casada ficou horrorizada com a figura e o estado do seu marido. Uma noite, ou um dia, que para o caso tanto faz, enquanto o esquálido consorte roncava beatificamente, ela colocou-lhe na boca uma suave almofada e apertou, apertou, com todo o seu peso. Bem esperneou o pretenso felizardo, mas a vida subitamente escapou-se-lhe como luz de vela soprada a preceito.

Ela pôde então voltar à sua Inglaterra e casou com Sufolk.

Ora, tudo isto está dentro da conhecida normalidade histórica que ninguém, medianamente culto, tem o direito de ignorar, muito menos o realizador da série e de todos os seus conselheiros culturais. Não obstante o que ela espantosamente nos diz é que o navio rumou... a Lisboa para casar com um rei português que nunca se chega a nomear! E para que a portugalidade das cenas não fique em dúvida, até há frases ditas na língua de Camões!

Porquê este “desvio” para Lisboa?

Porquê humilhar este inominado rei português?

Por ignorância? Inconcebível!

Para não ofender o brio dos monárquicos franceses à custa dos “pobres” portugueses? Seria simplesmente púrrio.

Então porquê?


[i] Catarina, mulher bonita, foi casada com um irmão de Henrique, homem de saúde débil e que durou pouco tempo. Casou, depois, com Henrique, alegando ela que o seu anterior casamento fora rato mas nunca consumado. Se o tivesse sido, casar com um cunhado seria uma espécie de incesto, motivo de anulação. O novo marido, porém, mais tarde, pôs em dúvida a não consumação do anterior casamento e, com sinceridade ou sem ela, procurou obter a anulação do casamento quando já tinha uma filha também chamada Maria. Acontece que, entretanto, já tinha surgido na ribalta da vida, Ana Bolena  por quem o rei se apaixonou loucamente. Ela, esperta, condicionou o favor sexual ao matrimónio. Como é sabido, o papa recusou a anulação e Henrique rompeu a obediência católica romana e criou a Igreja Anglicana. Esta anulou o casamento e casou-o com Ana. Dela teve uma filha, Isabel, futura Isabel I, anglicana, que veio a condenar à morte a irmã Maria, católica como a mãe, afastando-a do trono.


(*) José Pereira da Graça, escritor português. Publicou pela Ediorial 100: Maria do Mar (Viagens & Mitos), Os «Cruzados» da Serra  e O Urso Vermelho.


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