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Versiones
Director, editor e operador: Diego Martínez Lora

Texto: Entrevista a Maria Teresa Fernandes (a propósito da publicação do livro Cardos e Quimeras)
Data: 17 - 11 - 2007


Entrevista a Maria Teresa Fernandes (a propósito da publicação do livro Cardos e Quimeras)


Escrever para desabafar, como catarse?

Para brincar? Para preencher o tempo?

Para estar em sintonia contigo própria?

Escrevi desde muito cedo, já que, mal entrei para a escola, o processo de leitura e escrita cativou-me de imediato, enchendo, pouco depois, a ardósia com palavras e frases, primeiro copiadas, meses depois já em tentativa de criação própria, com o reduzido vocabulário que na altura possuía. Em sebentas e na lousa, escrevia mais do que desenhava. Tanto trabalho dei aos meus irmãos para me tratarem dos “ponteiros” que escreviam na dita ardósia, também eles de ardósia, uns conseguidos na natureza e depois transformados, outros comprados já na cidade, quando a minha mãe ou alguém de casa ia à feira.

Ocupava o tempo e brincava com os desafios dos mais velhos, escrevendo e apagando para escrever de novo... Depois dos catorze /quinze anos, fazia-o já sobretudo para desabafar, enchendo folhas e folhas de cadernos, agora, sim, com um lápis (ou caneta e logo após, a esferográfica). No entanto, ao longo da vida, muito papel escrito, foi sendo rasgado. Aí, era já um pouco mais para estar em sintonia comigo e com os momentos menos alegres.

Depois os filhos, o curso, o trabalho, a casa… aproveitando os poucos momentos livres mais para ler do que para escrever. Tive fases, mesmo de leitura, que considero de autêntica euforia.

Por volta dos trinta anos, de novo a necessidade de fazer um diário e escrever como desabafo, fazendo-o já de preferência de forma considerada poética, mesmo como catarse e em pleno período de sofrimento. Durante anos e, depois disso, tive que trabalhar tanto que aquilo que conseguia escrever era apenas no plano profissional ou de formação.

Na última dúzia de anos, por motivos diversos, incluindo os de saúde, o uso da escrita como preenchimento do vazio afectivo e da solidão foi, de novo, o meio de procurar equilíbrio e um pouco mais de sintonia comigo mesma, sobretudo nos últimos quatro anos, após a morte da minha mãe em que, a nível emocional, tive de ultrapassar limites inimagináveis… e em que, na Internet, “ousei partilhar” algo do que já tinha escrito anos antes e fui incentivada para continuar a escrever de forma mais sistemática, o que só foi acontecendo como necessidade emotiva do presente e de algumas memórias passadas.

 

Entre a razão e a emoção,

mais vale escrever ou ler um poema?

Emotiva, acho que, por natureza ou por factores ambientais que me tenham influenciado, raramente consigo que a razão funcione antes da emoção. Devia pensar mais antes de reagir emotivamente, já que isso traz, por vezes, incompreensões ou leva alguns a ilações precipitadas e, muitas vezes, injustas. Mas são os sentimentos que me dominam em primeiro plano, o racional chega mais tarde.

Na escrita, privilegio também a emoção, como é óbvio, fantasiando, de facto, por vezes, com dados realistas no ponto de partida.

O racional da estrutura poética não faz, para já, parte do que escrevo, nem sequer a métrica. Ao escrever um poema é a parte afectiva que funciona, lendo, no entanto, mais do que escrevo.

 

Porquê o título do livro: Cardos e Quimeras?

Quimeras mil ao longo da minha vida… Sonhos e utopias apesar do pragmatismo a que a vida me obrigou. Projectos não realizados… Sempre que possível, era na fantasia que me refugiava. “Quimera” como nickname da Internet, em oposição às diversas investidas da vida, aos cardos que, pelo caminho, tive de contornar para que o efeito dos picos fosse menos doloroso. Sempre gostei dos cardos não metafóricos, da paisagem montanhosa da minha terra de origem. E o nome surge diversas vezes no que escrevo. De entre três ou quatro possíveis títulos, foi em pequeno grupo que se fixou o de “CARDOS e QUIMERAS”, por sugestão pessoal…

Porém, também o título se decidiu comunitariamente.

Entre a aldeia e a cidade…

Nascida na aldeia, é mágico, para mim, o mundo rural, sobretudo quando se refere ao das minhas origens.

A cidade grande, apenas de passagem, para conhecer. Para trabalhar e viver, de preferência, a pequena cidade de preferência.

Para descontrair e tirar a máscara social (que julgo não usar muito no dia-a-dia, mas inconscientemente (im)posta nalguns contextos…), falar com toda a gente, é na aldeia que consigo fazê-lo. Infelizmente, permaneço lá por pouco tempo, principalmente depois da morte da minha mãe…

A singeleza das pessoas já não é o que era.

 

Motivação para a publicação do livro «Cardos e Quimeras»?

 

Publicar um livro com estes ou outros temas foi incentivo de muitos amigos virtuais, a maioria dos quais já conheço. A eles tenho de agradecer a motivação numa fase em que, na vida, me sentia bloqueada a nível pessoal, sem esperança de recuperar da tristeza em que estive durante anos, agora já mais em tons acinzentados.

A amiga que mais me falava no assunto era a Flor, uma das que conhecia o que eu escrevia na Internet. Tinha escritos em certas Comunidades, a primeira das quais na Ecos da Poesia.

Agradeço ao Victor Jerónimo que fez o meu primeiro site musicado com poesia da minha autoria. Também ao Joaquim Sustelo que me falou em editar em Lisboa, após a edição dos primeiros livros dele. 

 

Entre o rio e o mar (ou vice-versa)!

O rio, já eu conhecia!

Rio, água fresca, boas sombras nos amieiros e salgueiros, memória de fartas merendas comidas em grupo familiar ou de amigos… Na minha aldeia, apenas pequenos ribeiros na infância, agora quase desaparecidos, que iam dar a rios maiores e cujas águas corriam para o mar...

 

O mar imenso, os barcos, a pesca, as gaivotas… a imensidão, paixão, desde o primeiro momento em que tive contacto com ele, ia eu nos meus quinze anos, na costa algarvia, onde o meu irmão mais velho trabalhava e me proporcionou a primeira saída de Bragança. Mais tarde, brincadeiras na areia e água com os meus filhos.

Desde que vivo em Gaia, também fonte de inspiração e local para ficar em sintonia comigo mesma.

“Eu e o mar, o mar e eu.” A juntar à minha solidão.

 

Amizade

 

Amizade, sim, na medida em que, sendo o individualismo cada vez mais notório, há muita gente a precisar de cumplicidade, apoio, presença e afecto.

Comigo, a amizade tem sido, por vezes, um conceito complexo já que me aconteceu confundir amigos com conhecidos.

Actualmente, prefiro qualidade à quantidade. Poucos, mas bons! Contam-se pelos dedos de uma mão, suponho. Que me perdoem, se assim não for, mas, atendendo a um certo isolamento nos momentos maus, nem sempre por minha vontade, não posso pensar de outra forma.

Têm estado presentes também os amigos de meus filhos, os do Pedro principalmente já que os do Cláudio, na maioria, sumiram no momento em que ele mais precisava, bem assim como no meu caso, quando mais precisei deles…

Mantenho doces amizades do meu tempo de criança e adolescente que podem estar longe, mas que marcam presença nos momentos oportunos… E, tal como Richard Bach e Saint-Exupéry escreveram, eu digo “não haver longe nem distância”… Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

 

Sofrer e Ser feliz

Melhor ser feliz do que sofrer, evidentemente. Na minha vida, as investidas têm sido de tal modo frequentes, os cardos têm ultrapassado de longe a realização de projectos, alienando, portanto, as minhas utopias, sonhos e quimeras…

Mesmo com ingente esforço, contornando os obstáculos que permitissem um caminhar sereno da vida, não foi possível superar certas situações, não tendo chegado a ultrapassar limites comigo mesma, mas sofrido…

Muitas vezes, tive de remar no sentido contrário ao meu querer. Foram alguns os momentos de felicidade, foram poucos os anos em que consegui viver sem cardos, apenas com factores negativos, provocadores de mais dor e mais sofrimento.

Prefiro ser feliz, sem dúvida.

 

 

Que gostavas de ser com mais idade?

Com mais idade, além de gostar de ainda conseguir a serenidade necessária para ser feliz, adoraria, a nível de fantasia, de ser um Anjo na Terra para ajudar os que sofrem, os mais necessitados, as vítimas de injustiças, já que acabar – matar a Guerra, nem com legiões de Anjos, tal é a hipocrisia humana de que também não gosto.

Mas, assentando os pés e falando na realidade, e já que a minha saúde me impede do que sempre sonhei que era trabalhar a nível de voluntariado, gostaria de ser “pequena escritora”, se a saúde mo permitir.

 

 

O lúdico na vida, o lúdico na poesia.

O lúdico sempre, na vida e na poesia, se bem que, a nível de escrita, dê comigo a fazê-lo nos momentos mais deprimentes para a catarse necessária.

Na vida, usei muito o lúdico, acho que, de forma séria, e aqueles que não me conheciam bem, não o identificavam como tal, ficando a julgar-me séria e de nariz empinado…

Eu brincava com as ilações quando tinha disposição. Os sofrimentos da minha vida nem sempre me têm deixado ser igual a mim mesma e, nos últimos quatro anos, acho que deixei de saber brincar.

 

A Internet e a tua poesia.

 

Foi na Internet que comecei a publicar alguns escritos que tinha guardados em cadernos, reescrevendo-os ou simplesmente copiando para páginas da Internet.

Lia mais nas comunidades que tinham poesia do que nas outras…

Os incentivos chegavam dia-a-dia…

Actualmente publico pouco mais do que no blogue que iniciei, por desafio de uma amiga. Obrigada a ela.

 

A vida própria como inspiração?

Nem sempre a vida própria como inspiração, mas muitas vezes!

Não há realidade em pleno no que escrevo, mas há mistura realidade e fantasia do momento.

Já alguém disse que é maior a realidade do que a fantasia na minha poesia.

Quem o fez, parece conhecer-me bem, embora eu continue a considerar que existe uma mistura da vida com grande dose de quimeras e muita magia!

 

Mensagem para o público presente no dia da apresentação.

Difícil deixar mensagem aos presentes na medida em que cada um sente a vida a seu modo e quem sou eu para transmitir aqui algo de diferente ou novo? Mas que sejam felizes não posso deixar de o desejar, e que leiam muita poesia, sintam as emoções do dia-a-dia com fantasia e magia… Que não receiem continuar com espírito de crianças ao longo da vida. Nunca desistam da solidariedade e da amizade. OBRIGADA.


(*) Maria Teresa, Vila Nova de Gaia. Publicará pela Editorial 100: Cardos e Quimeras


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