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Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Autor: Rui
Amaral - (Portugal) - Título: Entrevista
a Rui Amaral
Entrevistador: DML
Entrevista a Rui Amaral pela publicação do seu livro:
Penso, logo critico (Vila Nova de
Gaia, Editorial 100, Dezembro -2007)
A experiência de escrever (infância até hoje) (estímulos)
Só comecei a escrever há cerca de 5 anos para cá. Inicialmente, o que me levou a escrever, foi tentar fazer um desabafo escrito sobre as injustiças e falta de coerência que marcam diariamente os nossos dias; nessa fase inicial “dei por mim” a criticar muitos aspectos do País parodiando o mesmo, contudo sem nunca perder a coerência e objectividade. A crítica feita de uma forma mordaz e irónica foi a forma que eu instantaneamente adoptei, para denunciar as “anedotas diárias”, que se vêm neste País.
Paralelamente, comecei a ironizar situações do dia-a-dia, chegando muitas vezes a casa e começando automaticamente a escrever sobre situações banais passadas por exemplo, nos autocarros públicos, ampliando a carga humorística inerente à situação.
Outras temáticas em que por vezes me inspiro e que servem de estímulo à minha escrita são os próprios acontecimentos nacionais do dia-a-dia, em que por vezes nem é preciso uma pessoa se esforçar muito para escrever algo engraçado e devidamente fundamentado; por vezes basta ligar a televisão e ouvir histórias que nos põem a pensar: que mundo maluco é este em que vivemos?
Os filmes constituem igualmente uma boa base de suporte para “sacar” algo; muitas vezes gosto de ver o filme ”à minha maneira” e fazer uma análise muito própria, não sendo verdadeira nem falsa, é simplesmente uma análise muito própria.
Contudo, penso que os meus maiores estímulos para escrever, decorrem mesmo de coisas que se calhar ninguém dá importância e eu me lembro de dar uma dimensão ampliada e distorcida, utilizando analogias “que não lembram a ninguém”.
No fundo “pego” em coisas à partida sem piada nenhuma, conseguindo descobrir aspectos engraçados e sem sentido. Penso que o humor, simplesmente acontece; na maior parte das vezes não procuro fazer humor, são coisas espontâneas que me vêm à cabeça acerca de determinada situação em que eu aproveito para escrever.
Quem merece ser criticado?
Não é propriamente uma questão de quem merece ser criticado. Prefiro dizer que é mais uma questão de “quem está a pedi-las”.
Penso que não me chegava uma vida inteira, talvez precisasse desta vida e da próxima reencarnação para “dar na cabeça”, a “quem está a pedi-las”.
Mas se tivesse que começar por alguém não hesitava, começava pelo”jet-set”.
Correndo o risco de estar a generalizar, detesto gente fútil e que faz das aparências a sua razão de vida.
Simplesmente não consigo “encaixar”, como é que muitas vezes certas pessoas têm o peso e visibilidade que têm na nossa sociedade, simplesmente porque nasceram num berço de ouro ou aparecem constantemente em revistas cor-de-rosa; muitas vezes tratam-se de pessoas sem “conteúdo nenhum” e que tem a notoriedade que não merecem única e exclusivamente, graças aos média.
Dos políticos não vou falar, não porque não fosse um bom tema “para dar na cabeça” a alguém, mas simplesmente porque não iria acrescentar nada de novo à ideia que a maior parte dos Portugueses já tem.”Muda o figurante que está no pedestal para dar lugar a outro”. O conteúdo das promessas comuns na campanha eleitoral é sempre o mesmo, com ligeiras “nuances”, só mudando no final após as votações, o “todo-poderoso” de Portugal
O que me intriga por vezes saber, é se as pessoas que estão á frente do nosso país, simplesmente não querem saber do progresso do mesmo, ou se trata mesmo de incompetência, falta de horizontes e competitividade mental a nível europeu para sairmos do “buraco” em que estamos.
O sentido da minha escrita?
O sentido da minha escrita é multifacetado: por vezes vai de encontro a acontecimentos rotineiros que vejo no dia-a-dia, dando-lhe muitas vezes um cunho pessoal e ampliando a dimensão das mesmas, saindo por vezes crónicas engraçadas a partir de coisas banais.
Noutras alturas tem a ver com o meu próprio estado de espírito; não quer dizer que quando estou chateado e indignado com certas situações critique por criticar, uma vez que tento sempre fundamentar as minhas opiniões; simplesmente por vezes esses reparos que eu faço à sociedade ou a certas figuras públicas, “bailam” mais facilmente no meu subconsciente, quando não estou muito bem disposto ou indignado por uma situação qualquer.
Muitas vezes procuro igualmente desabafar através da escrita para dizer o que me vai na alma; põe vezes ajuda-me a reflectir e encontrar paz interior
Mas no geral, penso que o sentido da minha escrita tem um conteúdo positivo e que muitas vezes vai de encontro, ao que muitas pessoas vêm em certas situações engraçadas no dia-a-dia, revendo-se muitas vezes nas minhas observações.
Penso que mesmo quando crítico determinado figura pública, não tento fazer disso um ataque pessoal à pessoa em causa, mas simplesmente dizer o que muita gente pensa, tentando dar uma marca pessoal aos aspectos que ironizo acerca dessa pessoa.
Concluindo, se tivesse que dar uma conotação qualquer àquilo que escrevo, diria que na maior parte das vezes sou simplesmente um observador do dia-a-dia, que muitas vezes inconscientemente vai registando na cabeça determinadas situações banais que se passam diariamente e as amplia nas suas crónicas, de forma a criar nas pessoas uma imagem mental mais precisa e imediata da situação.
Grande parte da minha escrita não é uma “escrita revoltada”, mas sim uma escrita “positiva” e espontânea.
O humor que defendo e professo.
Defendo um humor inteligente e apelativo que ponha as pessoas a pensar e a questionar certas situações, um humor sarcástico e incisivo desde que seja devidamente fundamentado, um humor alucinado com comparações surrealistas, um humor do “dia-a-dia”, um humor sem qualquer mensagem ou qualquer alvo a atingir e que faça as pessoas simplesmente esboçar nem que seja um simples sorriso.
Em suma defendo qualquer tipo de humor, uma vez que não raras vezes, é um óptimo escape para fugirmos a este mundo-cão em que vivemos.
Os limites da crítica irónica- satírica
É difícil responder a essa pergunta. Podia dar uma resposta do género: o limite vai até quando se começa a ferir a susceptibilidade de alguém; porém, quando tento fazer humor acerca de uma determinada figura pública, se calhar não conseguiria fazer uma única linha se tivesse constantemente com o medo de ser politicamente incorrecto.
Penso que se tivesse que estabelecer um limite, sobre o risco de me estar a contradizer, diria que esse limite vai até se começar a atingir pessoalmente familiares da pessoa parodiada, uma vez que não têm a ver com o caso, ou pessoas com verdadeiros “handicaps”. Todavia, é uma questão bastante sensível e de difícil resposta.
Publicar para que?
Publicar acima de tudo, pela gratificação pessoal, inerente ao facto de as pessoas eventualmente virem a gostar daquilo que escrevo; publicar para dar a conhecer a minha visão muito própria das coisas que se vão passando por esse mundo fora, ou apenas através de situações banalíssimas em que eu vejo sempre “algo onde agarrar”, para dar uma visão positivamente deturpada e engraçada, um pouco ao género do género “Big Fish” do “Tim Burton”, em que existe um contador de histórias, mas que vai contando as histórias um bocado à sua maneira e ampliando um bocado sempre que as conta, mas tornando-as ao mesmo tempo muito mais interessantes; por vezes vemos aquilo que queremos ver.
Publicar, por sentir curiosidade em ver até que ponto o meu sentido de humor consegue “mexer” com as pessoas e arrancar-lhes nem que seja uma simples amostra de um sorriso. Publicar, tentando ser reconhecido nem que seja por umas simples horas, naquilo em que me dá bastante prazer em fazer: escrever!
Publicar para saber o que as pessoas acham acerca das minhas crónicas; no fundo saber se realmente sou bom naquilo que faço.
Realidade e ficção nos meus textos
A meu ver, a realidade está bem patente nas situações em que eu condeno o que se vai passando em Portugal; mesmo nas crónicas em que amplio as personalidades e características de uma determinada figura pública, não estou simplesmente a parodiar com a situação, mas a “apontar o dedo” a coisas que eu não consigo encaixar; a futilidade, o consumismo, o “show-off”; no fundo, condeno pessoas agarradas a modos de vida vegetativamente comodistas, e que não valorizam muitas coisas simples, mas ao mesmo tempo belas que temos mesmo à frente dos nossos olhos.
Condeno pessoas que banalizam o dinheiro, figuras públicas que por vezes não conseguem fazer uma frase sem falar em carros topo de gama, mulheres ou eventos sociais. Essa é a realidade nos meus textos.
Porém, a realidade e a ficção muitas vezes cruzam-se; certas pessoas que parodio poderão não ser assim tão más “como eu as pinto”; contudo as minhas ideias base acerca das mesmas, são cimentadas com base na minha análise pessoal, não querendo afirmar que esta é universal; é apenas a minha maneira de ver as coisas.
A ficção, penso estar maioritariamente vincada nas minhas crónicas do “dia-a-dia”, nas quais eu tento muitas vezes retirar algo surrealistamente engraçado; no fundo a realidade e a ficção muitas vezes fundem-se nas minhas crónicas, sendo talvez essa uma das minhas marcas na escrita.
A sociedade dos meus sonhos
Essa é possivelmente a pergunta mais utópica que já me fizeram.
A sociedade dos meus sonhos não passa de uma simples quimera.
Contudo se a tivesse que caracterizar, embora de uma forma um bocado cor-de-rosa seria algo do género: A censura, as injustiças sociais, a inveja, o comodismo político e todos os seus “mais que muitos parente”, não só seriam automaticamente banidos, como ficariam de quarentena, até ao próximo “Big Bang”.
Assim a solidariedade seria a palavra de ordem entre as pessoas, as hierarquias sociais não passariam de nome fictício, as pessoas respeitar-se-iam independentemente das crenças, ideologias ou credos e a pobreza seria uma “espécie em vias de extinção”.
Seria igualmente uma sociedade muito mais aberta e onde predominaria a frontalidade.
“O espírito de manada” que por vezes impera em muitas pessoas, daria lugar a pessoas com identidades próprias e com ideias personalizadas. Seriam pessoas que pensassem por elas próprias, não sendo simplesmente “mentes facilmente domesticáveis”, sem capacidade para questionar o mundo em que vivem e facilmente “manietáveis”.
Projectos futuros.
Quanto a projectos futuros de momento estou um bocado em stand-by, uma vez que quero desfrutar um pouco desta nova experiência, que eu considero ser única e mágica.
No futuro, arranjar um emprego obviamente uma vez que estou desempregado, paralelamente penso que continuarei a escrever e a praticar os meus “hobbies” do costume, que me dão bastante “gozo”: a aquarofilia, guitarra, fotografia e por aí fora.
Mensagem para o publico presente no dia da apresentação
Antes de mais muito obrigado por terem vindo. A vossa presença significa bastante para mim; sinto-me bastante lisonjeado por estarem presentes, neste momento tão importante da minha vida. É simplesmente gratificante ser reconhecido por vocês todos, numa coisa que me dá bastante prazer fazer: escrever. Mais uma vez obrigado por terem despendido um bocado do vosso tempo para estar aqui comigo, neste momento mágico para mim.
(*)Rui
Amaral -
Porto. Publicou Penso, logo critico. A insustentável paródia do ser
Editorial 100 - Compacto e tacto - Versiones Virtual – Música de Diego Martínez Lora - 100 palavras