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Director, editor e operador: Diego Martínez Lora
Texto: Entrevista a Rosa
Maria Ribeiro (a propósito da publicação do livro
Quando um tudo-nada chega)
Entrevista a Rosa Maria Ribeiro
A propósito da publicação do seu livro: Quando um tudo-nada chega, Editorial 100, 2008.
Dados biográficos
Era Páscoa, na altura em que nasci. A 27 de Março de 1959 pouco passava da meia-noite. Foi numa aldeia que ainda hoje conserva os traços de antigamente e a memória de eu aí ter nascido, apesar de ter passado lá pouco tempo: Vila Meã no distrito de Viseu.
Aos 3 anos deixei a minha mãe, pai e irmãos para viver com uma tia, no propósito duma vida melhor.
Deixei as serranias e vim para os vinhedos da Bairrada, passando a ser filha única tendo mais 5 irmãos que mal conhecia e via de vez em quando.
Aí estudei até ser preciso ir para a grande cidade, Coimbra.
Um pouco por curiosidade fiz o curso de Educadora de Infância. Tive a sorte de começar a trabalhar na integração de crianças com deficiências. Desde aí, adoro cada dia em que posso trabalhar e ver sorrisos nas caras das pessoas com quem colaboro.
Acabei por isso por me especializar em Educação Especial.
Desde quando escrevo
Desde que descobri como se lia. Desce que percebi como juntar letras era nada mais que um código que eu conseguira desbravar. Devorava tudo o que encontrava. E queria ser capaz de escrever assim. Lembro-me de passar pelas quadras que fazia a metro. Pelos diários em que ás vezes inventava para tornar as coisas mais empolgantes.
De me acusarem na Escola de ter demasiada imaginação e andar a ler coisas impróprias para a minha idade. De começar a ter medo de escrever e apagar ou riscar vezes sem conta o que me vinha á cabeça. Até que comecei a escrever para mim. Ou para alguém que mesmo estando próximo me pudesse ler, porque escrevendo desenhava melhor o que pensava.
A Net e Eu
Temos uma relação recente e envergonhada, mas que curiosamente me empurrou para mostrar publicamente o que escrevo. Alguém que me conhecia através das fotografias, da forma de escrever lançou o desafio que eu achava não conseguir cumprir. Viciei-me.
Foram muitos os que me incentivaram durante todo o percurso. Neste momento quase nos tratamos por Tu, com o devido respeito.
Experiências na leitura
Li sempre de tudo. Lia o que encontrava á mão. Ficava horas na biblioteca a rondar as prateleiras dos livros que não podia trazer para casa. Ia-os lendo ás escondidas. O boletim da Biblioteca, trouxe-o sempre comigo. Trazia de tudo. Em casa não havia livro que escapasse. Não havia muitos. Lia-os 2 e 3 vezes. Quando ia a casa de minha mãe enfiava-me no sótão a ler todas as bandas desenhadas de meus irmãos. O importante era ler. Saber, descobrir coisas. Partilhar o jornal, o que houvesse. Quando não lia, inventava.
E quando arranjava dinheiro, comprava um livro. Sabia-me bem.
Não me perguntem quem gosto de ler. Digo só que gosto de o fazer.
Os meus espaços geográficos
Não me sinto a pertencer a lado nenhum. Mudaria com facilidade para um sítio qualquer. Mas a serra e o mar têm a chave do meu coração. São sítios onde encontro paz e me fazem sentir em casa.
Quando por vezes me ausento, sabe-me bem regressar, como se desse ânimo á alma que transporto em mim, me sentisse mais viva e tudo ganhasse mais sentido. E só precisa de ser uma qualquer serra ou um mar qualquer.
Sobre o livro . Título do livro. Porquê?
Quando um tudo-nada chega tem a ver com a ideia das coisas simples que bastam para dizer e fazer tudo o que é importante em cada momento da vida de cada um. Tem a ver com sintonia e partilha. Com um gesto. Um sorriso. Uma lágrima. E não ser preciso mais nada. Pela cumplicidade que se gera em seres que se encontram raras vezes na vida, mas quando o fazem conseguem esta magia.
Existência e transcendência nos textos do livro
Todos podemos ser personagens nestas histórias, viajantes nestas formas de sentir, pelo menos alguma vez na vida. Ou podemos ter-nos cruzado com gente e sentimentos assim. Pode ser um retrato dum tempo num espaço qualquer no nosso trajecto ou não ser coisa nenhuma. Talvez só uma forma de pensar o outro e os outros na sua forma de estar na vida, com as suas questões e interrogações sempre latentes. Alguém terá vivido assim.
Amor e liberdade
Não se debatem nem defendem posições acerca de qualquer conceito. As ideias ficam no ar. As conclusões para quem as quiser tomar. E só me questiono: Haverá verdadeiro amor sem que haja verdadeira liberdade?
Limites e fronteiras nos conceitos e nos sentimentos
Não gosto de estabelecer limites ou fronteiras em nenhuma situação, desde que tal não implique falta de respeito pela minha pessoa e integridade física. Todas as pessoas têm direito a opinião, a sentirem coisas diferentes perante as mesmas situações. Tudo depende das suas vivências. Da forma como se construíram. Através do diálogo construtivo poderemos dar pequenos passos para metas consensuais.
Ou talvez não. Nem todos podemos pensar da mesma forma.
Não há dilemas, a certeza da incerteza, o motor poético
A certeza está na dúvida constante, na pergunta nunca satisfeita, na constante interrogação perante os factos que momento a momento se alteram e transfiguram em novas e renovadas questões ou dilemas. Daí o desequilíbrio permanente na busca do que parece sempre inatingível mas sempre tão desejado. A verdade que nunca é absoluta a não ser por breves instantes, destronada por outras verdades, por outras evidências.
A poesia permite o sonho, a miragem. Outras realidades e formas de estar. Viajar de formas impossíveis e alcançar mundos metafóricos. A vida num mundo paralelo.
Prazer-dor
Coisas inevitáveis. Sem uma não se tem a noção da outra. Coisas que nos fazem crescer emocionalmente. Fosse a vida feita só de prazeres e seríamos caracóis sem casa. Animais indefesos. Lesmas. Seriamos coisa por fazer. Incompletos.
Vida – morte
O principio e o fim. Ou o recomeço para quem acredita noutras vidas. Ou então, como se fossemos estações de ano. E em cada etapa da vida morrêssemos e renascêssemos de outra forma. Nem melhor, nem pior. Diferentes. Renovados, prontos para novas viagens, até que acabem… E se façam, ou não, outras.
Solidariedade e indiferença
A escolha não deixa dúvidas. Sempre a solidariedade. Nunca a indiferença. Mas não confondamos solidariedade com um abandono total de si mesmo em prol dos outros. Porque sem “nós”, não podemos ser para os outros.
Ser e estar no texto poético
É não saber estar doutra forma. É uma forma natural de estar e ser. Escrevo como falo e sinto. Não elaboro nem construo ou adultero o pensamento ao escrever.
Comunicar para existir ou existir para comunicar?
Curiosamente podia dizer que são ambas as coisas. Comunicar é quase terapêutico, na medida em que expresso através da escrita os sentimentos que capto e re-elaboro ao escrever sobre eles. Quase como se a escrita fosse só mais interlocutor. Mais um elemento no diálogo que me permite aprofundar e resolver questões. Também posso dizer o oposto porque gosto de partilhar as minhas ideias, debate-las, confrontá-las, crescendo através desse encontro.
A importância da água na poesia
A Água para mim é magia. Sempre a fluir. Serena mas também feroz. Sempre diferente Espelho. Empatia. Ouvido atento. Voz que acalma. Seja num riacho, numa nascente, num rio poderoso ou no mar. Não pode nunca deixar de ser poesia
Solidão, mar, rio, céu. Noite
A solidão ajuda a ver-nos por dentro. O mar ouve-nos e guarda os nossos segredos. O rio relaxa. O céu tem cores lindas, uma lua fantástica e estrelas em que acredito ver quem amo e já partiu. A noite é reconfortante
Publicar para quê?
Publicar para deixar. É uma prenda, um legado aos meus filhos. A memória escrita do que era a alma da mãe. Só isso.
Mensagem para o dia da apresentação
Quando um tudo-nada chega…
Como quem sacia a sede
No livro, o conjunto de textos que escolhi não pretende ter principio nem fim. Não tem continuidade, nem um fio de ligação, propositado.
Dá ao leitor a possibilidade de saltar de texto em texto de acordo com a vontade, como quem tem vontade de beber um copo de água… E sacia a sede.
No fundo são pequenos fragmentos de vida. Momentos sentidos, vividos por gente vulgar que cada um pode projectar dentro de si. Na reflexão que pode fazer, depois da leitura ou do copo vazio.
Foram escritos ao longo do tempo e ao correr das emoções sentidas nos outros ou em mim, no confronto das coisas. Foram Guerra e foram Paz. Poesia e Prosa. Aconteceram. Estão aí.
São palavras que o coração dita, sem voz e a razão regista, sem alma. É o abraço cúmplice dos dois que lhes dá vida e os faz ser o que são. A memória de quem sente.
São só água. E é quanto chega a quem tem sede. E um gole mesmo pequeno, sacia.
A nascente, está lá.
(*) Rosa Maria Ribeiro, Figueira da Foz. Publicou pela Editorial 100: Quando um tudo-nada chega
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